Como foi dito anteriormente, a Fundação Perseu Abramo e, conseqüentemente, Teoria e Debate, sentiram “no caixa” os reflexos da crise política de 2005. Por questões financeiras, a direção foi impedida de elaborar um novo número dentro do plano de bimestralidade, mesmo sabendo que, pela dinâmica dos acontecimentos e da enxurrada diária de novas denúncias feitas às CPIs em andamento não seria possível oferecer uma cobertura factual.
A alternativa encontrada foi a criação de um espaço virtual dentro do site da Fundação Perseu Abramo, intitulado Teoria e Debate Urgente. A página eletrônica abriga 142 artigos, dos quais 47 discutem o caso “mensalão”, suas causas, efeitos e impactos. Os textos foram elaborados por petistas e intelectuais de esquerda.
Outros assuntos também entraram na pauta, entre eles, a campanha pelo desarmamento, a tentativa de golpe empreendida pela oposição contra o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, a reforma política e o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal.32
O primeiro artigo de Teoria e Debate Urgente foi colocado na página eletrônica no dia 23 de julho de 2005, portanto, cerca de um mês e meio depois que a crise estourou e 14 dias após a renúncia de Genoino da presidência do partido. O último foi incluído no site em 29 de novembro, 11 dias após o fim da CPI do Mensalão no Congresso Nacional.
Não é foco desta pesquisa analisar a cobertura da crise em Teoria e Debate Urgente ou compará-la à que foi feita por Teoria e Debate, mas dar uma idéia do que se discutiu neste espaço. Em função do número de artigos e da riqueza do material, o assunto merece uma dissertação exclusiva e que poderá ser feita futuramente, como forma de colaborar para que se possa ter uma visão mais ampla sobre a cobertura do caso “mensalão” pela mídia petista.
Nos arquivos de Teoria e Debate Urgente, há textos com diferentes análises sobre a crise política de 2005. Em alguns, elaborados em tom de desabafo, os autores falam da frustração que sentem ao ver o PT submerso na crise, lamentam o modelo despolitizado que o partido adotou nas suas campanhas eleitorais e clamam pela retomada do caráter ético que o partido sempre prezou ter.
Como afirmou Raquel Meneguello (2008), “ao chegar na fase madura de vida, em que detém o poder nacional, o Partido dos Trabalhadores mostrou que não estava imune às imposições do jogo entre partidos, da competição política e do exercício do poder”. Para discutir a crise de 2005, ela recupera a gênese do partido. Lembra que no seu ciclo de formação e crescimento, o PT inovou ao ter criado núcleos de base, regulamentado a existências de tendências e implantado um processo de eleições diretas internas (PED).
Mas esta inovação tinha um limite. Segundo a cientista política, a prova desta afirmação estaria na experiência do PT na gestão do governo federal. Meneguello reconhece os problemas enfrentados pelo Partido dos Trabalhadores já foram experimentados pelos partidos de esquerda na Europa, que se tornaram partidos eleitorais convencionais, desvinculados de movimentos sociais e que e adaptaram às regras do ambiente.
32 Os textos de Teoria e Debate Urgente podem ser lidos nos endereços eletrônicos:
http://www2.fpa.org.br/portal/modules/news/index.php?storytopic=835 e
Assim como na revista Teoria e Debate, há também intelectuais que optaram por defender o partido atacando os adversários políticos e embasando o “crime” na cooptação do PT pela corrupção sistêmica, histórica e praticada por partidos de diferentes matizes ideológicos.
Foi o que fez Paul Singer. O economista iniciou o seu artigo do mesmo modo que fizeram Juarez Guimarães e Hamilton Pereira, no texto elaborado, para a edição 63, a que trata da crise. Singer destaca que a descoberta do caso de corrupção nos Correios revela a existência de uma máquina de corrupção política que funcionava em Minas Gerais, desde 1998, quando o PSDB comandava o Estado, conforme declaração abaixo:
A crise que engolfou o nosso partido, desde maio, foi lentamente gestada, tendo sido desencadeada por acaso. Quando flagraram o diretor Marinho dos Correios, ninguém poderia saber que em seqüência viriam as denúncias de Jefferson e sua parcial confirmação. Ela revelou a existência duma bem azeitada máquina de corrupção política, que funcionava em Minas Gerais, desde 1998, para os tucanos e que dirigentes petistas herdaram e estenderam, ao que parece, ao Brasil inteiro (SINGER, 2008).
Teoria e Debate Urgente também traz uma reflexão em torno da necessidade dos intelectuais se mobilizarem em oposição à campanha que teria sido empreendida pela direita e pela mídia, contra o PT, o governo Lula e os movimentos sociais, entre outros.
Emir Sader argumenta que somente por meio de uma grande articulação é que a esquerda brasileira conseguirá acabar com a campanha empreendida pela direita contra o PT, o governo Lula, os movimentos sociais etc. Alerta que esta desarticulação faz parte da estratégia da direita para tomar o poder em 2006 e convoca os intelectuais, partidos, movimentos sociais e sindicatos a lutar contra esta ofensiva.
Onde estão os intelectuais de esquerda? Onde está o movimento estudantil? Onde está o movimento sindical? Onde estão os movimentos sociais? Onde estão os militantes de esquerda? [...] a crise atual não será superada sem a intervenção direta e maciça da esquerda. [...] a ofensiva contra a esquerda começou contra o governo e contra o PT. Se estendeu aos movimentos sociais. A Cuba e à Venezuela. Só será poupado quem se retirar da cena ou só atacar outras forças de esquerda (SADER, 2008).
No artigo, Emir Sader demonstra estar à esperar de uma maior intervenção dos intelectuais. Mas conforme foi discutido no segundo capítulo desta dissertação, o grupo esta
desmobilizado, recluso nas universidades e centros de estudos e passam por um período de transição. No final desta fase, quem sabe, surgirá uma nova redefinição para o seu papel na sociedade contemporânea.