razão de Estado
A definição da biopolítica, portanto, como informa o próprio Foucault (2008b), tem seu ponto de partida necessariamente na formação da ideia de população. O elemento população como objeto do governo surge a partir do foco do poder na vida e, por conseguinte, da consolidação da tese do contrato social. Imerso nesses acontecimentos está o capitalismo que se solidificava através do mercantilismo.
Foucault (2008a) apresenta a biopolítica como um elemento que não se pode desligar da ascensão e posterior desenvolvimento dos Estados Nacionais e, por conseguinte, do surgimento capitalismo. O capitalismo, por sua vez, não poderia se desenvolver sem a inserção controlada dos indivíduos no aparato de produção e principalmente sem os ajustes do fenômeno população dentro dos processos econômicos. Esse autor afirma ainda, na mesma obra, que o progressivo desenvolvimento dos grandes aparatos do Estado, assim como as instituições de poder, assegura a manutenção das relações de produção através de biopolíticas de controle da população.
Desta maneira as estratégias de administração sobre a vida, próprias da biopolítica, pretendem oferecer claridade e conhecimento ao governo sobre os grupos populacionais. O conhecimento sobre a população oferece as medidas a serem aplicadas pela tecnologia da biopolítica e tem como escopo racionalizar os problemas que a população apresenta para o governo. Neste sentido, Foucault (2008a) propôs que a análise mais adequada desses fenômenos só poderia ser feitas através de sua relação com o que o autor chama de razão de Estado.
A razão de Estado, assim como a biopolítica, tem o seu surgimento ligado aos acontecimentos históricos. Para compreendê-la é necessário uma pequena incursão pela antiguidade passando pela idade média, culminando no estudo de fenômenos da contemporaneidade de forma a acompanhar o desenvolvimento desse conceito. Foucault (2008b) percebeu, através de sua análise da antiguidade greco-romana e da idade média, que eram comuns nessas épocas tratados que ofereciam conselhos aos reis. Esses tratados tinham como escopo orientar a forma
como o rei deveria tratar o seu povo e ainda como deveria se portar diante de assuntos externos. Entre os séculos XVI até o final do século XVIII, desaparecem os escritos com escopo de aconselhar o rei ou o príncipe e em seu lugar surgem tratados que têm como tema a arte de governar.
Afirma Foucault (2008b) que em tratados como o de Maquiavel e de outros teóricos dos séculos XVI e XVII pode-se perceber a emergência de um novo tipo de racionalidade que tem como escopo reforçar o próprio Estado por meio de certas práticas de governo. Essas práticas, dentro do que foi explicitado anteriormente, começam a ter a vida da população como foco e tendem ao seu controle como forma de fortalecer o Estado. Foucault (2005) caracteriza esta emergência de um novo modelo de racionalidade de governo como resultante da evolução da arte de governo. Para os teóricos do século XVII, três são tipos governo: (i) o governo de si mesmo, que se refere à moral; (ii) à arte de governar uma família convenientemente, que se refere à economia (como entendida até o começo do século XVIII) e (iii) a ciência do bom governo do Estado. Até esse momento a arte de governo postulava sempre uma continuidade essencial da moral e da economia familiar dentro do governo do Estado. A arte de governo consiste, assim, na direção correta do governo dos indivíduos, dos bens, das riquezas e das famílias que devem ser conduzidas pelo príncipe. Não havia ainda a ideia de bem comum, mas, de um fim conveniente para cada uma das coisas que se havia de governar.
Somente no início do século XVIII que a arte de governo se converte em razão de Estado. Foucault (2008b) afirma que a arte de governar que se caracteriza como razão de Estado se encontra intimamente ligada ao desenvolvimento do que se chamou de estatística ou aritmética política, ou seja, o conhecimento indispensável das forças do Estado, logo de sua população. A razão de Estado, nesse contexto, está relacionada com a capacidade de governar o Estado segundo suas próprias regras. Seu fundamento está radicado nas realidades e necessidades específicas do Estado que se quer governar, ou seja, no conhecimento de sua população e de suas necessidades. Assim, para fazer um bom governo era necessário interferir no recurso mais importante do Estado: sua população. Um bom governo será aquele que vela pelo bem estar da população, ou seja, aquele governo que gera como consequência o aumento da potência do Estado. A razão de Estado
se debruçava nas formas de gerir a vida. (FOUCAULT, 2008b).
Foucault apresenta o nascimento do conceito de população como o nascimento de um personagem político absolutamente novo que nunca havia sido percebido, reconhecido e de certo modo destacado até então (GONTIJO e ARCELO, 2009). Gontigo e Arcelo (2009) asseveram que Foucault não entende a população como um elemento vivo, não se trata de quem é a população, mas, do que é essa população, uma vez que a população é um construto. O que ocorreu, nas palavras de Foucault foi “[...] uma tomada de poder sobre o homem enquanto ser vivo, uma espécie de estatização do biológico [...]” (FOUCAULT, 2005, p. 286).
Engendrou-se, segundo Gontijo e Arcelo (2009), uma nova política que tinha como foco principal o corpo-espécie que é um corpo biológico capitado demograficamente, regulado por normas que interferem e controlam a sua saúde, a sua longevidade, entre outros aspectos. Nesse sentido, Foucault (p.140, 2008b) afirma que:
Quer dizer que a população vai ser o objeto do qual o governo deverá ter em conta em suas observações, em seu saber, para chegar efetivamente a governar de modo racional e refletido. A constituição de um saber de governo é absolutamente indissociável da constituição de um saber de todos os processos que giram em torno da população em sentido amplo, o que chamamos precisamente de “economia”.
A população e o conhecimento de seus fenômenos próprios permitiu descartar definitivamente a arte de governar centrada no modelo familiar, garantindo o pensar da economia desligado da família. A população aparece então como um instrumento para o governo e ao mesmo tempo um fim a ele mesmo, como o objeto a ser governado. Nas palavras de Castro (2007, p. 13):
Esto conlleva una serie de consecuencias: desaparición del modelo familiar como modelo del gobierno (la familia se convertirá a hora en instrumento del gobierno de las poblaciones), surgimiento de la población como el objetivo último del gobierno (mejora de la situación de la población, aumento de las riquezas, de la duración de la vida, mejora de la salud), aparición de un saber próprio del gobierno que, en sentido lato, se llamará “economía política”.11
11 Isto implica uma série de consequências: desaparição do modelo familiar como modelo de governo
(a família se converterá agora em instrumento do governo das populações) surgimento da população como objetivo último do governo (melhora da situação da população, aumento das riquezas, da duração da vida, melhora da saúde) aparição de um saber próprio de governo que, em um sentido
A constituição de um saber de governo é absolutamente indissociável de um saber acerca de todos os processos que giram em torno da população.
É possível, assim, constatar, através de parte da obra de Foucault (2005, 2008a, 2008b), a passagem de uma arte de governar baseada nas virtudes tradicionais e na habilidade humana para uma forma totalmente racional, cujos princípios e domínios são princípios e domínios de Estado. Foi, assim, tomando forma uma nova racionalidade governamental e uma nova prática política. Essas racionalidades conjuntamente com as práticas têm como objetivo principal o governo dos homens enquanto conjunto populacional.
O foco, como se pode perceber, não é mais tal qual no absolutismo, a defesa do território e o aumento do poder do soberano. O Estado deve agora conjugar esforços no sentido de cuidar de sua população, de controlá-la para que essa seja o mais eficiente possível. A ideia de controle associada à ideia de eficiência, e nesse caso eficiência econômica, faz surgir à economia política, voltada claro, à população.
Essa mudança de cenário, segundo Foucault (2008a), foi possibilitada também pela expansão demográfica, pela abundância monetária resultada da incursão dos metais preciosos das colônias europeias de além-mar e pelo aumento da produção agrária, além da criação do construto população. A partir do momento que se começou a pensar em uma forma de governar esse conjunto de elementos instáveis, porém passíveis de intervenção, se tornou possível, com efeito, a experimentação de uma forma de governo descolada do modelo jurídico da soberania. A forma de governo que, deste modo, tomou como alvo a população foi a economia política entendida tanto como disciplina de saber quanto técnica de governo própria designada de economia. (AMBRÓZIO, 2012).
A economia política instalou-se como forma de saber coroando a organização do espaço europeu em torno de um regime de concorrência entre eles e com a consequente necessidade do conhecimento das forças constitutivas de cada um. Assim, a um passo do liberalismo que além de marcar um novo momento da arte de governar no ocidente, também colocou a economia política como a forma principal de saber que funcionou no Estado Moderno como o sustentáculo dos
lato, se chamará de “economia política”. Tradução nossa
cálculos e maneiras de geri-lo no sentido do investimento político sobre a majoração de suas forças (AMBRÓZIO, 2012).
Segundo Veiga-Neto (2002), ao constatar a transformação que sofrera o Estado, Foucault percebe que a bagagem teórica e conceitual que possuía ajudaria a explicar essa nova situação. Todavia, ainda lhe faltava uma palavra que à medida do possível fosse capaz de explicar a complexa e imbricada rede de relações sociais atravessadas por questões políticas, econômicas, éticas, etc. que se formara com a gestão da população. Justamente com intuito de denominar essa nova fase do Estado Foucault introduz o termo governametalité, com o qual designava as práticas de governo ou de gestão governamental que têm na população seu objeto e na economia seu saber mais importante. A palavra governametalité inexiste nos principais dicionários de língua francesa. Traduz o autor, governamentalidade como qualidade segundo a qual o Estado foi se tornando governamental. Essa palavra faz referência às questões governamentais ligadas ao surgimento do Estado Moderno. Informa Veiga-Neto (2002), que até entre os autores de língua inglesa não se usou a palavra já existente no vocabulário governableness, mas governmentality, por ser um termo que facilita a compreensão das sutis diferenças existentes entre o governo no sentido político, tal qual é utilizado comumente na atualidade, como o governo no sentido de condução e direção das coisas e pessoas, sentido cunhado por Foucault em sua obra.
Foucault (2008b) afirma que para ele a governamentalidade é o conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análises e reflexões, cálculos e táticas que permitem exercer esse poder que tem como alvo principal a população. Caracteriza como forma principal do saber de governamentalidade a economia política e por instrumentos técnicos essenciais os dispositivos de governamentalidade. Informa que a governamentalidade é, também, a tendência, a linha de força invisível que conduziu o Ocidente, durante muito tempo, em direção à preeminência deste tipo de poder; movimento que gerou por um lado o desenvolvimento de uma série de aparelhos específicos de governo e por outro o surgimento de um conjunto de saberes.
Nas palavras de Foucault (1979, p. 291-292), governamentalidade quer dizer três coisas:
1. O conjunto constituído por instituições, os procedimentos, análises e reflexões, os cálculos e as táticas que permitem exercer esta forma tão específica, tão complexa de poder, que tem como meta principal a população; como forma primordial de saber, a economia política; como instrumento técnico essencial, os dispositivos de segurança.
2. A tendência, a linha de força que, em todo o ocidente, não deixou de conduzir, desde muitíssimo tempo, à preeminência deste tipo de poder que se pode chamar “governo” sobre todos os demais: soberania, disciplina; levando, por sua parte, ao desenvolvimento de uma série de aparatos específicos de governo e, por outra, ao desenvolvimento de toda uma série de saberes.
3. O processo ou, melhor dizendo, o resultado do processo pelo qual o Estado de justiça da Idade Média, convertido nos séculos XV e XVI em Estado administrativo, se viu pouco a pouco governamentalizado.
Essa definição feita por Foucault não indica que está o tema por definido, dado que o autor dedicou um curso inteiro ao estudo da governamentalidade. Foucault apresenta a definição de governamentalidade em pontos específicos de suas obras, entretanto, essa definição tal como aconteceu com a definição de biopolítica vai se construindo no decorrer de sua obra (VEIGA-NETO, 2002, 2005). Em Segurança, território e população, Foucault (2008b, p. 143) declara:
[...] se eu quisesse ter dado ao curso que realizei este ano um título mais exato, certamente, não teria escolhido “Segurança, território e população”. O que eu queria fazer agora, se quisesse mesmo, seria uma coisa que eu chamaria de história da “governamentalidade”.
Apresentados os apontamentos sobre o que se compreende por governamentalidade, útil seria seguir demonstrando a sua relação com o capitalismo, dado que esse conceito só estará de fato elucidado quando findar a exposição de seus pilares, quais sejam, a biopolítica e a população, já estudadas, o capitalismo, os dispositivos de governamentalidade e por consequência do último a criação de normas e a construção de saberes e verdades.
Como já dito, a governamentalidade e a biopolítica são conceitos extensos que dependem de uma compreensão de todas as suas partes para que se tornem de fato compreensíveis, tal qual os concebe Foucault (VEIGA-NETO, 2007). Assim, a partir de então, serão expostos outros pontos que complementam o conceito de governamentalidade. Ressalta-se que a definição de governamentalidade torna-se mais clara à medida que o conceito de biopolítica é melhor compreendido.
3.3. GOVERNAMENTALIDADE, LIBERALISMO E NEOLIBERALISMO: a relação