Se us mundo s dista nte s ne m se mp re e ra m e stra nho s, e a sa uda de q ue de sp e rta va m e m mim ne m se mp re e ra um c ha ma riz a o de sc o nhe c ido , ma s a nte s, p o r ve ze s, a q ue le de se jo ma is sua ve de vo lta r a c a sa . Isso , p o ré m, ta lve z fo sse re sulta do da luz de g á s, q ue c a ía tã o sua ve me nte so b re to da s a s c o isa s.
Wa lte r Be nja mim
Entre a s c urta s via g e ns q ue fiz, ho uve uma q ue se fixo u ma is nitid a me nte e m minha me mó ria : a ima g e m d a q ue la c a sa simp le s d e o nze c ô mo d o s q ue e ntra va m uns no s o utro s. O p iso e m tijo lo , ja ne la s c o mp rid a s, à fre nte uma ve nd a , a o fund o um b e lo q uinta l c o m á rvo re s frutífe ra s.
As c o isa s q ue ne la ha via , e ra m muito íntima s a me us o lho s. Na b ib lio te c a , livro s, muito s livro s, so b re a e sc riva ninha d e ja c a ra nd á o b je to s p e sso a is: má q uina d e e sc re ve r, sup o rte p a ra c a ne ta s, ó c ulo s, e xtra to r d e g ra mp o s, uma e sta tue ta , fo lha s, muita s fo lha s a ma re la d a s, ja ma is e sc rita s.
Na me sinha d e a p o io uma p e q ue na e sc ultura e m b ro nze , d e uma va c a a ma me nta nd o sua c ria . O rá d io e o g lo b o te rre stre o c up a va m o c a nto e sq ue rd o d a e sta nte d e livro s. Fo to s d e fa mília na p a re d e . A c a d e ira re nte à me sa .
No q ua rto , tud o muito simp le s, uma c a ma d e c a sa l e um p e q ue no g ua rd a -ro up a s e stilo ing lê s, uma c a d e ira a o c a nto d ire ito p e rto d a ja ne la e , a se us p é s, um p a r d e c hine lo s. Uma p e q ue na me sa c o m fo rro d e linho , so b re a q ua l e sta va m o b je to s d e lo uç a p a ra hig ie ne , uma la mp a rina no c ria d o mud o , e p e nd ura d a a o la d o d e um e sp e lho d e c o rp o inte iro , uma b e c a p re ta .
Na c o zinha , uma e xte nsa me sa p a ra a s re fe iç õ e s, la d e a d a p o r c o mp rid o s b a nc o s. O s va silha me s: lo uç a s e ute nsílio s, q ue d e via m se r muito s, já nã o e sta va m ma is a li. Q ue b ra ra m-se o u se p e rd e ra m c o m o te mp o . Re sta va m p o uc o s c o p o s e sma lta d o s, ta lhe re s e m p ra ta , p ra to s, b ule s, p a ne la s d e fe rro e xíc a ra s d e c a fé e c há , e xp o sto s e m simp le s p ra te le ira s fo rra d a s c o m te c id o s d e fino c ro c hê . Aq ue le e sp a ç o d e no ta va q ue o ha b ita nte ilustre , um g ra nd e e sc rito r, e ra ho me m d e há b ito s simp le s e m se u d ia -a -d ia .
A sua c a sa e ra o lug a r d a s le mb ra nç a s, c o m um itine rá rio a p e rc o rre r a tra vé s d o s c ô mo d o s e d a s p o rta s, tud o a li ha via d e se r visto e g ra va d o , d e sd e a ma is simp le s fre sta d e luz q ue p a ssa va p o r uma te lha , à s c o isa s p re se rva d a s, d a s q ua is c o nse g ui e xtra ir p a la vra s. Pa la vra s q ue
a s c o isa s, só e la s, me fa la m56, c o mo d isse Rilke e m c a rta a Lo u And ré a s
Sa lo mé . Este lug a r é o lug a r d e me mó ria s íntima s, d e a fe to s, d e re a lid a d e e so nho s vivid o s, q ue se fe z e se fa z p re se nte na s minha s le mb ra nç a s. C o mo um fa nta sma , a me mó ria p e rme ia no sso s c o rp o s p a ssa d o s, q ue p o d e m e sta r e m vá rio s lug a re s a o me smo te mp o , o u q uiç á e m lug a r ne nhum. Ela e xiste e nã o e xiste a p a rtir d e tud o , a p a rtir d o na d a fre nte a o e sq ue c ime nto .
É p re c iso sa b e r fa la r c o m o s fa nta sma s q ue mo ra m e m a rq uivo s ve lho s o u no vo s, p o uc o visíve is o u ina c e ssíve is, se c re to s o u p riva d o s.
Fa la nd o d e me mó ria s, nã o d ire i ‘ e la s’ , ma s nó s.
O fra sc o d e p e rfume so b re a p e nte a d e ira d e um d o s q ua rto s, g ua rd a va o q ue se q ue r re te r. O p e rfume q ue d á a lma à s no ssa s le mb ra nç a s.
Tud o na q ue la c a sa p a re c ia c he io d e histó ria s q ue e sta va m a li p a ra p ro va r uma me mó ria d o s d ia s vivid o s. Nã o se d ã o ho je d a me sma ma ne ira q ue o nte m, ma s susc ita m a le ve za d o c o mp a rtilha me nto d e vid a s.
To d a c a sa é uma e sp é c ie d e muse u. Em se us c ô mo d o s p o d e mo s no s d e p a ra r c o m mó ve is c he io s d e g a ve ta s, a rmá rio s e sua s p ra te le ira s, e sc riva ninha s, c o fre s, só tã o s c o m se us b a ús, c a ixa s e ma is c a ixa s. Um lug a r imp re ssio na nte , um mund o sile nc io so q ue a b rig a o s se c re to s, e m q ue e stá o e sc o nd id o , e m me io à s c o isa s e nc e rra d a s e m se u inte rio r, e q ue c o nse g ue m tra nsmitir a o c o rp o a se nsa ç ã o d o lug a r o nd e e stã o , re q uisita nd o , p a ra isto , to d o s o s se ntid o s. Em to d a c a sa , há um itine rá rio a p e rc o rre r, um e sp a ç o vivid o , q ue fa z a le mb ra nç a , e m se us fra g me nto s, c o mp o r um fio me smo e sg a rç a d o d e d ia s vivid o s.
Vê -se q ue e sse s o b je to s e o utro s p ro vid o s d e me smo va lo r se ntime nta l d e mo nstra m uma intimid a d e , re ve la m mo me nto s vivid o s e m é p o c a s p a ssa d a s se m mo stra r sina is d e e sg o ta me nto p a ra q ue m o s p o ssui: Junto c o isa s e tra ste s, jo rna is e re vista s dura nte a no s. Tra nsfo rmo
o s mó ve is e a s g a ve ta s e m muse u, (...)57.
Uma g a ve ta c he ia d e p a sta s, fo to s e nfurna d a s num e nve lo p e p a rd o , um ve lho isq ue iro , g ra mp e a d o r e uma c a ixa d e g ra mp o s, c a lc ula d o ra , d o is mo lho s d e c ha ve s. Um ta lã o d e c he q ue e m uso , o utro no vo , g o ma s d e b o rra c ha , c lip e s, fita p a ra má q uina d e e sc re ve r, p e q ue no rá d io p o rtá til, d o is c a nive te s, uma la nte rna . Ente rra d o no fund o d a g a ve ta d a e sc riva ninha , um c a rtã o d e a nive rsá rio d e 2001, um p a p e l d a tilo g ra fa d o c o m no me s e a nive rsá rio s d e fa milia re s, uma me d a lha d o sa nto d e d e vo ç ã o , um c a ne c o d e lo uç a b ra nc a e sta mp a d o e m flo re s, um e sp e lho c o m mo ld ura ve rme lha . A lista é c o p io sa .
Um g ua rd a -ro up a c he io d e c o isa s: g ra va ta s, uma c a ixa c o m a ntig a s c a rta s d e a mo r, me ia s, c a rta s d e b a ra lho , le nç o s c o m mo no g ra ma , p ija ma s, b o né s, ve stid o s, b o lsa s, p e rfume s, c into s, fita s c o lo rid a s, fra sc o s d e p e rfume s, p e q ue na c a ixa e m ma d e ira c he ia d e c o la re s. Em uma d a s p o rta s na p a rte d e d e ntro o e sp e lho d e c o rp o inte iro . C o la d a ne le uma me nsa g e m d e b o m d ia . Uma b o ne c a .
Um g ua rd a -lo uç a s, e m sua s p ra te le ira s xíc a ra s, p ra to s, p ire s, c o p o s d e a lumínio , c ha le ira , c o a d o r d e p a no e o utro s va silha me s q ue se mistura m a o s ma ntime nto s. Uma c a ixa -d e -fó sfo ro , um ma ç o d e ve la s.
Dua s e sta nte s c he ia s d e livro s, livro s q ue e sta va m ta mb é m e m c a ixa s d e p a p e lã o e sp a lha d a s p e lo só tã o . Um rá d io ve lho , um ta b ule iro d e d a ma s e lud o so b re uma p e q ue na me sa , um b a nc o d e ma d e ira , uma má q uina d e c o stura , um la mp iã o , um b a ú. Uma ve rd a d e ira C a ixa d e Pa nd o ra .
Um mund o a se e sc a va r c a d a ve z ma is fund o , d e ntro d e mim, d e ti, d e q ue m q uise r. É p re c iso d e slo c a r: ir p a ra o nd e nã o se é e sp e ra d o . Pe rmitir tra nsp o rta r-se a e sp a ç o s a nte s nã o e xp lo ra d o s. Esp a ç o s e ste s
q ue a c umula m so b re vivê nc ia , q ue , me smo mud o s, fa ze m-se intrig a nte q ua nd o re ssusc ita d o s, p o is d e uma ma ne ira o u d e o utra , há p a rte s d e ntro d a g e nte q ue e stã o ma rc a d a s p a ra re na sc e re m.
O te mp o e a me mó ria d e ntro d o s o b je to s p a re c e m re c ria r-se , uma ve z q ue se c o nsig a e xtra ir a lg um se ntid o d o q ue se o b se rva e a ssim p e rmitir-se fa ze r uma histó ria o utra , num mund o e m q ue tudo é dup lo ,
e m q ue a me sma c o isa se mp re a c o nte c e dua s ve ze s58. Assim, o s o b je to s
c o nta m a histó ria d o s ho me ns, p o is, ind e p e nd e nte d o uso na vid a p rá tic a q ue p o ssa m te r, sã o p a ssíve is de um inve stime nto a fe tivo q ue o s
de slo c a de se u e sp a ç o utilitá rio e o s inse re no c a mp o da p a ixã o e da p ro p rie da de p riva da59.
O s o b je to s nã o tê m c o mo se e ximir d o c o ntá g io d ire to d o mund o q ue o s e nvo lve . Uma ve z já inc o rp o ra d o s e m no ssa vid a , e ntra m no unive rso d e no ssa s re fe rê nc ia s p e sso a is, a linha va d o s p e la a finid a d e q ue c a d a um ma nté m c o m o o utro . C o m isto , g a nha m um e sta tuto d ive rso d o utilitá rio . Dã o um te ste munho d e no ssa p re se nç a a tiva , d e sp e rta nd o a le mb ra nç a , se fa ze nd o se ntir.
58 AUSTER, 1999, p. 95.