Suçun Konusu Yapılması
İKTİDAR PARTİSİNE KARŞI MUHALİF SİYASAL HAREKETİN SUÇ KONUSU YAPILMASININ UR UYGULAMA OLMASI
A) Öncelikle iktidar partisine yönelik suç konusu bir eylemin terörle ilgili suçun konusu olamaması
Lacan propõe uma lista dita não exaustiva com três espécies de objetos imaginários que podem ocupar o lugar de objeto fantasmático: objeto pré-genital, falo e voz (na forma do delírio), todos apresentados na estrutura de corte. Pois o corte é a forma privilegiada com que o significante vem marcar o corpo da criança. Em seu estágio infans, de pré-inserção na linguagem, a criança é totalmente dependente de um Outro para dar conta de suas necessidades, fontes de tensão que produzem desprazer. É a interpretação da mãe que transforma aquilo que o bebê manifesta corporalmente (como o choro) em signos carregados de sentido. Pois não há nada parecido com uma intenção primitiva da criança em significar suas ações. É preciso que um outro intervenha e produza esse movimento de significação. Ao fazê-lo – e é por isso que a mãe (ou quem quer que realize essa função) aparece como o primeiro Outro encarnado do sujeito –, introduz a criança no universo da linguagem: sua intervenção surge como uma resposta produtora de demanda. Essa demanda (que é, portanto, demanda do Outro), ao introduzir o significante no corpo da criança, o pulsionaliza, cortando-o em pontos-chave: a delimitação da zona erógena pulsional “é obra de um corte que se beneficia do traço anatômico de uma margem ou uma borda: lábios, ‘cerca dos dentes’, borda do ânus, sulco peniano, vagina, fenda palpebral e até o pavilhão da orelha” (Idem, 1960/1998, p. 832). Esse corte da demanda produz um objeto, sempre parcial – não por ser parte de um todo, mas porque representa apenas parcialmente a função orgânica que reproduz. É nesse sentido que Lacan aponta a insuficiência da teoria kleiniana: que a criança encontre no corpo da mãe todos os objetos e, ao fazê-lo, tome esse corpo como “continente universal” (Idem, 2002, p. 234), isso não deve ser pensado apenas através do imaginário, mas sempre a partir desse lugar da mãe como primeiro Outro do sujeito.
Passemos às três espécies de objetos imaginários, de modo a compreender melhor o sentido dessa forma de corte que o objeto do fantasma possui. Quanto à primeira, a forma pré-genital, Lacan destaca o ser humano como um animal com dois orifícios privilegiados: boca e ânus. Privilegiados, porque dizem da relação do sujeito com o que ele integra (objeto oral) ou rejeita (objeto anal): “isso do qual o sujeito se nutre se corta em algum momento dele, (...) ele próprio o corta”, assim como “isto que ele rejeita, ele o corta dele mesmo” (Ibidem, p. 406-407). Com o mamilo, por exemplo,
98 tratar-se-iam de ambas as funções, já que “esta parte do seio que o sujeito pode ter em seu orifício bucal, é também isto de que ele é separado” (Ibidem, p. 407). Tais objetos orais e anais, enquanto objetos parciais, não são uma escolha natural de acordo com a função vital do organismo. A respiração assim o prova, pelo negativo: não há um objeto respiratório, pois a respiração “não é nada que permite sobre o plano imaginário simbolizar precisamente isto de que se trata, ou seja, o intervalo, o corte” (Ibidem). Trata-se, aqui, de objetos escolhidos por sua estrutura que se ocupa de um corte que os permite “desempenhar este papel de suporte ao nível em que o sujeito se acha ele próprio situado como tal no significante” (Ibidem), ou seja, um corte que permite ao sujeito se situar exatamente nessa zona pulsional que o marca como sujeito de linguagem. Desdobraremos essa questão no último capítulo.
Quanto à segunda espécie de objeto, lidamos com o objeto fálico em sua relação com o significante fálico. Mesmo quando falamos no simbólico complexo de castração, a partir da significação do falo, há sempre a ideia de uma mutilação fundamental que o acompanha (Ibidem, p. 408). É o corte o que instaura a passagem à função significante do falo, mas não sem deixar um resto, uma marca do significante no corpo. Porém, a marca produzida pelo falo não é a extirpação real, mas a mutilação do falo imaginário, desse objeto que o sujeito transforma em objeto do desejo do Outro, e que serve de orientação para o desejo do sujeito. É nesse sentido que o falo se oferece de modo privilegiado à função de poder se oferecer ao corte (Ibidem, p. 410).
Por fim, quanto ao delírio, trata-se do desdobramento de uma ideia localizada no
Seminário III, e que aponta para o que será posteriormente o lugar da voz como objeto
parcial. Pois a voz no delírio, e aqui Schreber é exemplar, não é a voz comum, mas um “ponto puro onde o sujeito não pode tomá-la senão como impondo-se a ele” (Ibidem, p. 412). O que Schreber escutava em seu delírio eram frases interrompidas, cortadas exatamente no momento em que se produziria a possibilidade retroativa de significação (Idem, 2008a, p. 257). É também o caráter de corte que faz com que o sujeito se interesse pela voz, no nível do intervalo em que ele se fascina, se fixa para se sustentar nesse instante em que se visa e se interroga como desejante (Idem, 2002, p. 413).
Karl Abraham, um dos principais psicanalistas da chamada escola pós-freudiana, foi o primeiro a pensar no caráter parcial desses objetos: “o objeto dos sentimentos amorosos e ambivalentes é representado por uma de suas partes introjetadas pelo sujeito” (ABRAHAM, 2000, p. 220). Sendo a relação fundamental do bebê com os objetos parciais anterior à unificação especular do corpo, ela diz das primeiras vivências
99 do infans, que se dão a partir de um corpo fragmentado e polimórfico. A polimorfia da pulsão aponta para o fato de que as próprias pulsões são fragmentadas, parciais, e não se unificam em torno de um objeto. Um dos momentos da radicalidade de Lacan em relação à tradição psicanalítica aparece quando o autor indica a manutenção desse caráter parcial, tanto dos objetos quanto das pulsões: não se forma uma mãe a partir do seio. Se antes se pensava o processo de genitalização da pulsão e da unificação do objeto, a subversão de Lacan será focar esse processo no parcial. Não se trata de dizer que há um congelamento da estrutura pulsional e objetal no parcial, mas sim uma superação sempre incompleta do parcial para o unificado: mesmo quando ultrapassado, o parcial se mantém. Pois não há nada parecido com um amor de objeto, estando o desejo sempre relacionado aos objetos parciais: “Lacan notou que, se o movimento do desejo consistia em tentar reencontrar um objeto perdido, então deveria tratar-se, na verdade, da relação entre o sujeito e tais objetos parciais” (SAFATLE, 2006a, p. 202).
Contudo, se Safatle nos fala de uma relação entre o sujeito e os objetos parciais, ele o faz de modo a afirmar que, com isso que está em jogo no movimento do desejo, não se trata apenas da relação do sujeito com um objeto, mas sim de “reencontrar a forma relacional encarnada pelo tipo de ligação afetiva do sujeito ao seio, à voz, aos excrementos, etc.” (Ibidem). A fantasia seria a repetição dessa forma relacional dada pela relação entre o infans e os objetos parciais: “se pensarmos, por exemplo, na definição clássica do fantasma como uma cena imaginária na qual o sujeito representa a realização de seu desejo, veremos que tal representação é produção de um objeto próprio ao desejo” (Ibidem, p. 199). A ideia de um objeto próprio ao desejo deve passar pela ideia de fantasma, sem confundir-se com ele. Se o fantasma sustenta o sujeito enquanto desejante, ele o faz de modo a estruturar esse desejo a partir de um objeto: no fantasma, o objeto a “não é objeto do desejo, mas o objeto no desejo” (LACAN, 2002, p. 345). Ideia que faz do objeto fantasmático uma “matriz quase-transcendental de constituição do mundo dos objetos do desejo” (SAFATLE, 2006a, p. 204): “quase”, afinal há algo de uma origem empírica do objeto parcial; mas “transcendental”, pois oferece o modo pelo qual os objetos do desejo serão colocados em movimento, enquanto repetições das relações fantasmáticas.
O que caracteriza o desejo neurótico é a maneira pela qual o sujeito se utiliza dos objetos parciais da demanda para construir o objeto fantasmático, como na possível passagem do olhar como objeto pulsional do corpo do sujeito para o sujeito na posição fantasmática de objeto imaginariamente olhado pelo Outro. Lacan chega a esboçar nesse
100 momento uma ideia que só ganhará fundamentação no décimo ano do seminário, que é pensar os objetos pulsionais como não especularizáveis (LACAN, 1960/1998, p. 832), ou seja, como impossibilitados de serem narcisicamente imaginarizados51. O que o fantasma faz é dar uma vestimenta imaginária aos objetos da pulsão, produzindo esse curto-circuito entre a demanda do Outro e o desejo do Outro.
Porém, apesar de ser somente do objeto imaginário que se trata no fantasma, ao menos no âmbito teórico do Seminário VI, o que já podemos encontrar aqui é uma maneira desse objeto imaginário abrir para o sujeito algo de uma experiência para além do simbólico e do imaginário, denominada aqui experiência do ser:
O objeto do fantasma é esta alteridade, imagem e pathos, por onde um outro toma o lugar daquilo do qual o sujeito é privado simbolicamente; vocês o veem bem, é nesta direção que este objeto imaginário se encontra de alguma maneira na posição de condensar sobre ele o que se pode chamar as virtudes ou a dimensão do ser (Idem, 2002, p. 330).
Pois Lacan antecipa de um modo impressionante, já em 1959, a maneira pela qual o fantasma pode abrir a experiência do sujeito para uma vivência do real (BERTA, 2013), e será a partir do conceito de ser que se dará essa abertura:
Será que o lugar ocupado pelo fantasma não nos requisita ver que há uma outra dimensão em que nós havemos de ter em conta isto que se pode chamar as exigências verdadeiras do sujeito? Precisamente esta dimensão nunca da realidade, de uma redução ao mundo comum, mas de uma dimensão de ser (LACAN, 2002, p. 404).
Maneira de falar do real no Seminário VI, o ser será o modo pelo qual o psicanalista poderá tratar dessa “outra dimensão”. Questão essencial para o movimento teórico lacaniano, pois abre o real como fissura na até então fechada trama da estrutura simbólica. Muito mais do que regular as bordas do simbólico, a fantasia, a partir de seu objeto, se transforma na porta de entrada para aquilo que será a ideia mais radical e transformadora de Lacan para a psicanálise e para a história do pensamento contemporâneo. Vejamos como.