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Neste tópico procurei problematizar as relações entre consumo musical, idade e gênero, mas antes de descrever depoimentos de estudantes e analisá-los, é importante destacar que, de acordo com Seren, (2011), “todo consumo é uma produção de significados e um discurso de demarcações sociais” (p. 58), como já foi dito anteriormente.

Ao estudar a obra de Pierre Bourdieu, Seren define o gosto como um conjunto unitário de “preferências diferenciadoras que expressam a lógica do microespaço simbólico dos indivíduos” (SEREN, 2011, p. 58). Assim, faz-se necessário lembrar o conceito de diferença para poder-se falar de consumo musical e gosto musical. Para Silva (2004), identidade e diferença são vistas como mutuamente determinadas, mas ele considera, numa perspectiva mais radical, que a diferença é que vem primeiro. Ele afirma que a diferença é um processo que produz a ambas – a identidade e a diferença. Se, para Seren (2011), o gosto contém preferências que diferenciam o espaço simbólico de um indivíduo, pode-se entender que ele diferencia as pessoas, antes de tudo, e que depois disso é que se constituem as identidades.

Nas observações, encontrei depoimentos e vi comportamentos sobre consumo musical, idade e gênero:

Questiono sobre que autores e cantores inspiram suas composições, e J. V. responde que se inspira mais nos Titãs, porque a banda Profilaxia toca pGnk e metal, e o jeito que os Titãs escrevem músicas eles acham muito interessantes. Segundo J. V., esta banda e o Ultraje a rigor já vão ‘direto ao ponto’ quanto às letras, que ele considera muito inteligentes, e que acha legal para sua banda cantar umas letras mais ‘diretas’. Disse que o Led Zepelin, por exemplo, é uma banda que adora, mas cujas letras não caberiam na sua banda, por serem muito grandes e complexas. Ele até faz letras assim, mas prefere tocar e cantar coisas mais ‘diretas’. Pergunto como ficaram conhecendo essas bandas nacionais dos anos 1980, que não é da época deles. C. diz que seu pai escuta muito essas bandas, e tem muitas revistas sobre elas, e sua avó também as escuta muito os rocks mais antigos, por ser da década de 50 (O PII1).

Aqui, o jovem revela que gosta do rock que as gerações de sua avó e seu pai ouviam, revelando que o consumo de música pode não depender da idade de quem a ouve. O que aparece nessa fala é a clara influência do gosto musical de seus familiares sobre o seu gosto. Para Seren, “não podemos adotar a educação formal como o único meio de acesso à relação legítima com a cultura. A herança familiar apresenta-se de maneira decisória dentro do

processo de escolarização e da relação do indivíduo com a cultura” (SEREN, 2011, p. 21). O autor considera que os conhecimentos transmitidos formalmente pela escola não são a fonte exclusiva de cultura. Já Lahire (2006) acredita que a família não influencia tanto com o seu habitGs, pois o mundo atual cada vez mais diferenciado faz com que cada indivíduo incorpore novas e heterogêneas disposições para a cultura e seu consumo.

“Ali no meio do pátio tem três meninas. Duas delas estão compartilhando os fones: cada uma com um fone em um ouvido, escutando ao mesmo tempo alguma coisa [...] Acabo de ver duas meninas que parecem ser do Médio, passando no pátio com fones de ouvido, também ligados ao celular, que elas dividem entre si (O PII2).

“Fico observando a presença ostensiva dos fones individuais e que são, também, compartilhados, por duplas de alunas, sobretudo, e imagino: em outras épocas, qual teria sido ou quais teriam sido os objetos que teriam representado esse papel nos recreios escolares [...] Talvez haja uma prevalência das meninas quanto a este hábito, mas preciso observar melhor para ver se existe mesmo essa diferença relacionada aos gêneros [...] É realmente incrível como a quantidade de meninas que ouvem o som, com seus fones, é maior que a do que a de meninos. A gente vê muitas delas com fones de ouvido ligados ao celular. Às vezes elas estão com eles pendurados no pescoço ou no ombro, conversando, mas muitas vezes ouvindo mesmo alguma coisa [...] Ali vejo, mais uma vez, uma cena que já vi em outros recreios: duas moças que parecem ser do Ensino Médio, já grandes, compartilhando o mesmo fone. Vejo outra dupla, esta de meninas mais novas, fazendo o mesmo, e elas conversam também, enquanto ouvem música. Mais uma dupla de meninas, que parecem ser do Fundamental (O PII4).

Estou achando interessante que no recreio do 9º Fundamental e do Médio não estou vendo os meninos com fones de ouvido, como vi ontem lá na escola pública. Não sei se é proibido, vou procurar saber, porque não vejo absolutamente ninguém usando esses aparelhos eletrônicos de som aqui. Havia uma infinidade de meninos do 7º ao 9º Fundamental com esses aparelhos, escutando música, na outra escola. Pergunto a um grupinho de meninas a respeito do uso de fones. Elas dizem que não é proibido nos intervalos, recreios, entradas e saídas de aula, só mesmo durante as aulas, em sala. [...] Hoje estou vendo alguns jovens com celulares ligados a fones de ouvido. Aqui na escola particular não é muito comum, tanto quanto na escola pública, onde há um número enorme de alunos que têm essa prática. Estou vendo, principalmente, meninas. Estou vendo meninos, também. Vejo um trio, de pé, são dois meninos e uma menina. Ela divide um fone com um deles ( OSM6).

“Hoje cheguei bem atrasada para o recreio do Ensino Médio. Aqui tem uns meninos com fones de ouvido acoplados ao celular, mas não são muitos, poucos, bem poucos se comparados com os grupos do Ensino Fundamental II, que observei no recreio da tarde” (O PII3).

Este é o recreio do 7º ao 9º Fundamental e do Ensino Médio. Eu reparo que os meninos mais jovens, que devem ser do 7º ao 9º ano, menores, usam muito mais os fones de ouvido nos celulares e mp3, mas principalmente nos celulares, do que os

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Observei, também, que os mais jovens praticam mais esse costume do que os alunos do Ensino Médio. O hábito de consumo musical acima descrito foi muitas vezes observado por mim no pátio da escola pública, na hora do intervalo, e era, primordialmente, protagonizado por meninas, muitas delas de braços dados ou dançando. Era quase invariável conversarem enquanto faziam isso. Como comentado anteriormente, elas transformavam, assim, um ato individualizado de apreciar suas canções preferidas em um compartilhamento com seus pares. Não sei se podemos afirmar que o recente acesso de classes mais baixas da sociedade a bens de consumo, como as mídias eletrônicas, poderia ser usado para justificar a efervescência de aparelhos sonoros e fones de ouvido nas mãos dos meninos da escola pública, geralmente frequentada por alunos pertencentes a tais classes. O fato é que, entre os jovens da escola particular, embora eu tenha averiguado que seu uso não era proibido, os fones de ouvido eram muito raros no pátio e nos corredores. É como se houvesse, da maneira explicada por Bourdieu (NOGUEIRA; NOGUEIRA, 2009), um abandono desse costume por alunos que já o praticam em casa, junto à família, costume que os distinguia de classes mais baixas da sociedade, e que agora passam a pertencer a estas, sendo deixadas por jovens de classes mais privilegiadas. Ainda, segundo Bourdieu,

[...] na medida em que cresce a distância objetiva com relação à necessidade, o estilo de vida se torna, sempre, cada vez mais o produto de uma "estilização da vida", decisão sistemática que orienta e organiza as práticas mais diversas, escolha de um vinho e de um queijo ou decoração de uma casa de campo. Afirmação de um poder sobre a necessidade dominada, ele encerra sempre a reivindicação de uma superioridade legítima (BOURDIEU, 1983, p. 87).

Isso sugere que a aquisição do hábito de consumir música por meio da prática do uso de fones acoplados aos aparelhos sonoros reivindicasse um tipo de ascensão social, representasse uma estilização de vida, já livre das preocupações com as necessidades básicas da vida às quais se refere o sociólogo.

Nas entrevistas, recolhi os seguintes dados: “Pesquisadora – Que estilos de música você ouve mais? Por quê? E PII6 (14 anos, menina) – Sertanejo, porque eu acho que nessa idade é o que mais se compara com a gente, em certas situações.” A menina comenta sobre a afinidade entre letras de canções sertanejas e o mundo jovem, uma vez que a maioria delas trata de temas como o amor e relacionamentos amorosos, muito comuns a pessoas dessa faixa etária.

Pesquisadora – Quais são seus grupos musicais e cantores preferidos? O que você mais admira neles?

E PII10 (12 anos, menina) – O One Direction, o Fifthy Harmony e o Embliem 3. São bonitos. O Fifthy Harmony é só de meninas.

E SM6 (15 anos, menina) – Jorge e Mateus. Porque eu acho o Mateus lindo, e porque eu gosto muito das letras das músicas, eu acho muito interessante.

Durante essa entrevista (E PII), notei o entusiasmo da menina ao citar o grupo, parecendo valorizar essas artistas pelo seu gênero feminino, antes de qualquer outra razão. Em seguida, outra jovem comenta sobre a beleza de seu ídolo como sendo um motivo para admirá-lo, ao lado das letras de suas canções. É bastante comum que jovens admirem cantores, músicos e artistas, em geral, pelo que consideram atraente em seus rostos e corpos, evidenciando isso acima de outros atributos que seriam mais relacionados ao desempenho artístico desses. Essa reação é mais presente em meninas do que em meninos. Não houve relato de meninos que elogiaram cantoras ou cantores por os considerarem belos fisicamente.

Pesquisadora – Alguma vez vocês já se inspiraram nesses cantores ou grupos de alguma forma?

L., GF SM1, 15-16 anos, menina – O que eu acho é que quando você é mais novo, você é muito influenciado por aquilo que você gosta, pelas pessoas que você gosta. Quando a gente está mais velha, não tem tanta vontade assim porque até a gente vê muita coisa errada que ídolos que a gente tem fazem.

G., GF SM1 (15-16 anos, menino) – Quando a gente é pequeno, não tem tanto senso crítico pra saber se eles estão fazendo algo errado ou simplesmente feio, né?

A menina acima demonstra reconhecer um amadurecimento próprio quanto à forma de apreciação de seus ídolos da música, o que parece estar relacionado com a idade: não curte mais um grupo musical, artefatos relativos a ele e atitudes de seus membros que antes curtia.

Pesquisadora – O que vocês mais fazem quando estão num ambiente com outros jovens quando tem música?

S., GF SM2 (13-14 anos, menina) – Quando eu tô com as minhas amigas eu sou mais aberta. Eu faço... eu canto, eu pulo, eu grito, a gente interage mesmo. Mas num grupo mais assim, por exemplo, quando tem pessoas que você não tem aquela afinidade, cê já fica mais tímido e fica conversando e curtindo a música.

J., GF SM2 (13-14 anos, menina) – Eu concordo que depende bem do ambiente que cê tá, porque dependendo das pessoas que estão com você, cê se abre mais. Dependendo de onde você tá, cê vai ficar mais tímido.

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O depoimento visto e a simples observação de grupos jovens em ambientes diversos revelam que meninas da mesma idade se reúnem para ouvir música, cantar e dançar, enfim, curtir o que ouvem em manifestações desses tipos descritos acima.

Pesquisadora – Onde vocês mais partilham música, em que mídias e lugares? S., GF SM2 (13-14 anos, menina) – Na aula de Educação Física (risos).

A.C. – É, na Educação Física também. Porque é assim, tem a aula dividida entre os meninos e as meninas. Enquanto os meninos jogam, a gente canta.

Aqui, poderíamos pensar, talvez, em comportamentos diferentes entre meninos e meninas, na mesma situação. No entanto, na hora desse depoimento, não me ocorreu perguntar se, enquanto as meninas jogam, os meninos cantam, assim como as meninas cantam enquanto eles jogam. Acredito, porém, que esse seja um comportamento típico de meninas, de acordo com o que vi nos pátios e corredores: meninas muito frequentemente dançando e brincando ao mesmo tempo em que ouvem o som nos seus fones não raramente compartilhados com amigas.

Encontrei, ainda, os seguintes dados:

Pesquisadora – Que grupos e cantores são os seus preferidos e o que vocês mais admiram neles?

G., GF PII1 (12-13 anos, menina) – One Direction. Conhece? Porque eles colocam na letra o que a gente gosta e o que a gente sente, o que a gente quer ouvir [...] Tem umas músicas que expressam realmente o que a gente tá sentindo e tal e eles também são bonitos e tal, né? E jovens ‘igual’ à gente. Então, a gente meio que tá vivendo junto com eles.

A menina identifica-se bastante com seus ídolos pela idade, além de admirar as letras das canções, com as quais se afiniza também, e a beleza dos músicos.

G., GF PII1 (12-13 anos, menina) – Eu sou fã do One Direction, mas eu também escuto outros ritmos. Tipo assim, minha irmã também. Ela tá na faculdade, aí todo mundo, cada um tem um estilo musical. Eles saem muito pra estudar, essas coisas, pra festejar mesmo, e cada um acaba colocando uma música diferente. Vão misturando os ritmos e ela me mostra as músicas. Eu não escuto só o One Direction, mas eu foco mais neles, mas eu escuto outros ritmos, eu gosto de sertanejo, forró, esses negócios.

Ela atribui a ampliação de repertório musical a uma faixa etária mais alta, a pessoas que já atingiram a experiência da faculdade que ela ainda não possui, e também demonstra procurar imitar o gosto pela variedade de estilos e canções curtidas por esses jovens mais velhos.

R., GF PII1 (12-13 anos, menino) – E uma coisa muito interessante é que, conforme o tempo vai passando, a pessoa vai definindo mais os ritmos musicais que ela gosta. Tipo assim, por enquanto eu gosto de quase todos os ritmos. Mas quando eu estiver na época da faculdade... Na faculdade eles sabem bem o estilo de música que eles gostam. Eles passam a ter um estilo de vida deles mesmos. Aí eu acho que à medida que a gente vai crescendo, a gente vai aprimorando os nossos gostos musicais.

O menino acima também relaciona a idade e o fato de frequentar uma faculdade ao hábito de conhecer e consumir maior variedade de ritmos e estilos musicais, e também associa isso ao surgimento de um novo estilo de vida. Além disso, considera o aprimoramento do gosto musical como um fato relativo à idade, e demonstra o desejo de chegar a essa fase da vida.

Pode-se concluir que acessar as mídias atuais é indiferente à idade ou ao gênero dos jovens. Ser afetado pelo contato direto ou indireto com seus ídolos também não depende da idade dos meninos e meninas que colaboraram nesta pesquisa, apesar das declarações que revelaram diferenças nesse contato e na apreciação de suas personalidades, tais como o crescimento de uma capacidade crítica, com o passar dos anos, às formas de viver e comportamento de seus artistas preferidos. Entretanto, há quem tenha afirmado que não se influencia por eles, mas foram casos mais raros.

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Benzer Belgeler