• Sonuç bulunamadı

De acordo com os pressupostos da MCC, marcados pela reflexão e intersubjetividade, as pessoas participantes da investigação devem ser definidas não pela capacidade de representar o grupo, mas conforme estejam dispostas a dialogar e envolvidas com o fenômeno em estudo. Conforme já mencionamos, este foi o critério para realizarmos esta investigação com Terezinha (Mbea), Vitor Luiz (HbEa), Júlia (MneA) e Domingos (HbEA). Para melhor entendermos as análises que estas mulheres e homens nos ajudaram a realizar, tendo em vista a incubação vivenciada por eles e as contribuições teóricas que levamos para nosso diálogo, é importante nos dedicarmos aqui a uma caracterização de tais pessoas e a breves retomadas e reflexões a respeito de suas caminhadas no chão da vida.

Comecemos por Terezinha (Mbea). Ela é tímida, não costuma distribuir muitas palavras e o sorriso lhe vem iluminado ao rosto em ocasiões especiais. Também é amorosa com as pessoas em quem confia e exímia cuidadora dos animais. Seus 43 anos de vida guardam uma história de sofrimento, luta e muitas aprendizagens. Ela nasceu na zona rural de Londrina (PR), aonde viveu com mais 9 irmãos até os 10 anos. O pai era caseiro em uma fazenda e responsável pela máquina de café e pela serraria, a mãe cuidava da casa e do entorno e as/os filhas/os ajudavam nessas tarefas. Terezinha (Mbea) parou de estudar logo nos primeiros anos de escolaridade, impedida por preconceitos do pai.

179 periférico de Sumaré (SP). Diante da necessidade e da educação ancorada no trabalho, Terezinha (Mbea) logo arrumou emprego como doméstica. Isso lhe deu certa autonomia para sair de casa ainda adolescente, fugindo dos conflitos com o pai. Aos 17 anos casou-se, separando-se não muito tempo depois, devido aos maus tratos do marido. Sem nenhum tipo de apoio deste, teve que trabalhar muito como doméstica para criar e educar seus dois filhos.

Quando eles chegaram à fase da adolescência, a violência e a drogadição da periferia de Sumaré preocupavam Terezinha (Mbea). Em consonância com isso, na época ficou sabendo, por meio de uma vizinha, que um grupo de pessoas do bairro estava se organizando para ocupação de uma área de terra destinada à reforma agrária. Decidiu ir ver do que se tratava. Ao participar das assembléias e ouvir argumentos da transformação e da melhoria da vida, que ocorreria ao terem a própria terra, um direito delas/es, decidiu se engajar nessa luta. Mas o motivo central de sua decisão foi “principalmente para tirar meus filhos das más companhia e também pra aprender a plantar, cuidar das criação”.

Foi assim que chegou, com os filhos e a mãe, na ocupação das terras do Horto de Aimorés. Sobre sua inserção nesta luta destacou: “nem imaginava que fosse desse jeito. Imaginava que fosse mais fácil, que não tivesse tanta burocracia”; contudo, resistiu: “devido o que eu já tinha passado pra trás. As humilhações que eu já agüentei e até pelo sossego daqui”. Seguindo a reflexão sobre sua história, Terezinha (Mbea) narra que foi muito importante que alguns de suas/eus vizinhas/os estivessem juntas/os na ocupação, mas ainda precisava de uma pessoa companheira mais próxima, o que a levou a um casamento: “Eu vim pra cá com a cara e a coragem, mas aí eu fiquei com aquele medo assim e pra pedir para os outros [ajuda]? Eu tinha um pavor. Aí eu vi que eu não ia conseguir ficar aqui só. Aí eu casei” (primeiro casamento do assentamento). A morte de sua mãe e os desentendimentos da nova família fez com que seus filhos retornassem para Sumaré. Esta é uma das dores que a acompanham ainda hoje. Emociona-se ao falar.

No acampamento, freqüentou por um tempo a sala de EJA, contudo, relatou, sentia-se infantilizada e não era contemplada no que realmente queria aprender, “uma matemática mais avançada”. Assim, desistiu de estudar. Atualmente, participa de um curso sobre manejo a artesanato em Bambu, organizado pela Incop e pelo Departamento de Engenharia de Materiais da Unesp, e de um curso sobre empresariado rural, oferecido pelo Sebrae no assentamento.

O lote em que vive (número 130 no mapa da figura número 2) tem ganhado mais diversidade na medida em que se envolve com o Grupo Viverde e assume a identidade como

180 agricultora. Nessa proporção, incrementa a sua horta com verduras e legumes e cuida ainda de gansos. Também planta mandioca, abóbora, jiló e diferentes alimentos rústicos, pois o acesso a água não é tão fácil (trabalham com “burrinho”), embora estejam próximos ao rio. O trabalho começa muito cedo, por volta das 05h30min da manhã.

A renda da família, composta por Terezinha (Mbea) e o esposo, advém do trabalho com a terra e da comercialização da produção pelo Grupo Viverde, de que ele também faz parte. Além disso, ela cuida da casa, uma atividade sem renda.

Com a divisão oficial das terras do assentamento, Terezinha (Mbea) irá se mudar para outro lote (número 153 no referido mapa da figura 2), mais acima do atual. Lá é que têm aplicado mais trabalho, construindo a casa, plantando as primeiras árvores (florestais e frutíferas) e flores. As maritacas de Terezinha (Mbea) sempre estão em seu ombro e a relação que cultiva dia-a-dia com a natureza se reflete muito no nome escolhido para o sítio: “Recanto dos Pássaros”. Aliás, o canto que propagam, somado ao grasnar dos gansos e aos toques esporádicos do celular (apenas recebe chamadas) são os barulhos que se ouve nos arredores do barraco, já que Terezinha (Mbea) ouve pouco o rádio.

Outra pessoa que conosco trabalhou na pesquisa foi Vitor Luiz (HbEa). Ele está com 35 anos de idade, é falante e, na maior parte dos casos, também paciente. Nasceu na zona rural de Cabo Verde (MG) e, na fazenda em que o pai era empregado, viveu o início de sua infância. Quando ainda era criança, a família foi despedida, mudando-se para a periferia da cidade de Botelhos (MG). A mãe foi trabalhar como doméstica e ganhava, como as demais mulheres, a metade do salário de um homem. Pensando sobre isso, Vitor Luiz (HbEa) reflete: “hoje a mudança de lei ela é grande... Então o espaço dela ela foi ganhando... aí, na luta”. O

Terezinha (Mbea) e sua relação com as maritacas Fonte: Kelci

Figura 8: Ilustrações do canteiro de repolhos coberto com palhada e da relação de Mbea com suas maritacas Canteiro de repolho e couve com palhada - Fonte: João

181 pai seguiu trabalhando “de empreita”, nas lavouras de café, e ainda engajou-se na luta sindical. Este fato, seu modo inconformado de falar e sua situação de baixa escolaridade foram motivos para a perda de empregos e para a perseguição política na época da ditadura. Sobre esse período, Vitor Luiz (HbEa) recordou que viveu a movimentação política com o pai e, nesse percurso da memória, emocionou-se cantando a música que era lema de campanha do PT, em 1982: “A classe roceira e a classe operária ansiosa espera a reforma agrária”.

Tendo em vista esta realidade, Vitor Luiz (HbEa) assumiu, ainda criança, a responsabilidade de cuidar da própria vida e do irmão e, diante das dificuldades financeiras, logo aos 11 anos foi trabalhar em uma chácara próxima da cidade. Ajudava a manter a casa com o salário, o que conseguiam ainda com a ajuda comunitária da igreja e dos vizinhos. A necessidade de trabalhar não pôde mais ser conciliada com os estudos, aos 16 anos. Sobre isso, reflete: “ficava muito cansado... pensava: se eu não trabalhar eu não vou ganhar o dinheiro e eu quero melhorar de vida. Só que, quando você barrava na cidade você via 'Até que série você estudou?' 'Até tal série'. Então você não pode fazer uma ficha aqui. Fazia falta pra mim, só que não dava”.

Mudaram-se para Mogi Guaçu em busca de melhores condições de vida. Lá, entre outras ocupações, trabalhou em uma empresa de transportes, como atendente. Para manter-se no emprego precisou aprender a operar um sistema de informática e, ao ser despedido, teve muita dificuldade em se empregar novamente. Assim, já casado e com filho, passou ao trabalho informal, desenvolvendo os chamados “bicos” como pedreiro.

A partir de outubro de 2003, Vitor Luiz (HbEa) acompanhou de longe a saga do pai e da mãe na luta pela terra prometida, em decorrência do engajamento no sindicato da agricultura familiar: como parte do Grupo Campininha, passaram por acampamentos em Sumaré, Matão e Americana e, depois, com o Grupo Terra Nossa, chegaram ao Horto de Aimorés, logo no início da ocupação. Vitor Luiz (HbEa) era contrário a continuarem no acampamento, uma vez que ele apenas percebia o sofrimento naquela luta.

Contudo, mediante sua separação conjugal e a necessidade de apoio familiar, em 2005 mudou-se para o acampamento com seu filho, sua irmã, sua sobrinha e seu irmão. Venderam o que tinham, compraram algumas cabras e outros objetos úteis no campo e investiram na nova vida, indo morar no barraco com os pais. Diante as dificuldades de sobrevivência, buscou trabalho na cidade de Bauru, como pedreiro, enfrentando alguns preconceitos. Depois disso, retornou para o acampamento, integrando-se às ações da associação que lá havia e ajudando a família na produção agrícola possível, sempre optando pelo modo de produção

182 “orgânico”.

Como acampado, diante da possibilidade de deixar seu filho de 7 anos com a avó, Vitor Luiz (HbEa) voltou a estudar. Finalizou o ensino médio e hoje, com uma bolsa parcial de estudos, faz cursinho pré-vestibular, batalhando para cursar “Agronomia - com ênfase em agroecologia e sistemas rurais sustentáveis”, pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), na UFSCar. Considera muito relevante para o filho o fato de ter voltado a estudar depois de adulto e compartilha diálogos importantes com a criança, que está na primeira série do ensino fundamental. Os pais também passaram a freqüentar a sala de EJA, contudo, diante da inadequação do modelo escolar a seus modos de vida, deixaram de ir a escola.

Vitor Luiz (HbEa) também atua como liderança no assentamento. Organiza cursos e alguns deles em sua própria casa. Sobre isso, justifica argumentando que as benfeitorias dos cursos precisam de cuidado e de manutenção, portanto não podem ser feitas nas áreas comunitárias ainda não estruturadas suficientemente. Comenta ainda que outras pessoas também podem fazer cursos em seus lotes e, nesse sentido, já propôs esquema de rodízio.

Sua concepção de liderança, depois de sofrer muito com a atuação de líderes autoritários do assentamento, foi sendo reformulada. A atuação militante não se sobrepõe ao seu trabalho como apicultor, do qual fala com muito orgulho. Pôde se aprimorar nesta profissão mediante a realização de cursos no assentamento e a ela se decida diariamente, depois de integrar-se à rede de apicultores de Bauru, com os quais troca ferramentas, enxames e outras coisas necessárias ao trabalho com abelhas.

Concilia esta atividade com outras tarefas no lote da família, que por sinal é muito diversificado. Têm horta grande e extremamente variada, com quebra-ventos plantados entre os canteiros (feijão guandu), têm viveiro, têm diferentes animais (galinha, cabra e bode, vaca e boi, peru) e ainda plantam feijão e coisas rústicas, além de cultivarem pastagem e árvores frutíferas. Tudo isso decorre do trabalho e da criatividade da família (3 homens e uma mulher adulta. A mulher cuida da casa e ajuda na horta. A adolescente e as crianças prestam pequenas contribuições) e dos saberes acumulados na agricultura. São inventoras/es e, por isso, o lote é muito visitado por estudantes e jornalistas, o que nem sempre é positivo89. A diversidade que cultivam é ajudada pelo fato de estarem próximos ao rio e terem conseguido, com dificuldade,

89 Abertos a contar sobre a vida no assentamento, receberam um repórter em sua casa por dois dias o qual, de

modo coerente com o sensacionalismo e preconceito da mídia, produziu uma matéria com o mesmo teor. O modo como descrevia as condições do banheiro da família, muito depreciativo, levou Vitor Luiz (HbEa) a se indignar, reforçando sua crítica à mídia capitalista.

183 instalar uma roda d'água.

A renda da família advém exclusivamente da produção e da comercialização de verduras, mel, leite e outros alimentos, feita de modo informal e esporadicamente no bairro mais próximo (15 km) da cidade de Bauru, a que chegam de bicicleta ou de perua. O canal fixo de comercialização que têm é pelo Grupo Viverde. Desse modo não há recursos para pagar chamadas telefônicas, dispondo apenas de celular que recebe ligações.

Vitor Luiz (HbEa) tem o seu lote próprio, que era distante do lote de seus pais, mas pôde, mediante negociação com o Incra e outras/os assentadas/os, ser remarcado oficialmente ao lado do de sua família, o que foi essencial para que pudesse seguir em seus estudos. Integrou sua área à da família e sonha em cultivar de modo ecológico e chegar a ver o “sítio formado”.

Vitor Luiz (HbEa) é catequista no acampamento e toda a família também atua na igreja. O nome do lote da família (número 49 no mapa) e do de Vitor Luiz (HbEa) (número 62) refletem bem os seus valores e sua religiosidade: respectivamente “Santo Antônio” e “Santo Expedito”. Tais valores também configuram um dos programas noturnos da família, que é assistir a missas na televisão portátil, alimentada à bateria.

Julia (MneA) é mais uma das pessoas que participaram desta pesquisa. Ela tem 51

anos de idade e é muito direta, não faz rodeios para dizer o que pensa. Combina um jeito extrovertido de ser, sempre sorrindo e brincando com as outras pessoas, com momentos de falas sérias. Nasceu em Capão Bonito (interior de SP), em uma família empobrecida e

Trabalho na horta agroecológicada da família de

Vitor Luiz (HbEa) - Fonte: João Luiz Pilando Urucum Fonte: João Luiz

Vitos Luiz (HbEa) trabalhando com abelhas - Fonte: Kelci Figura 9: Ilustração do trabalho cotidiano no lote da família de HbEa

184 numerosa, cuja mãe, de origem rural, tinha sido expulsa da terra, o que a obrigou a mudar-se para a cidade. Diante dos poucos ganhos derivados do trabalho como agricultora arrendatária e do baixo salário do marido, funcionário público, não compunham renda suficiente para o sustento da família. Por isso, Júlia (MneA), ainda criança, trabalhava como pedinte de rua: “a necessidade é tanta, que você pensa assim: ou morre ou pede.” A dificuldade de Júlia (MneA) foi agravada por um problema na perna, que a deixou por algum tempo na cadeira de rodas. Por isso, e por ter uma vida difícil em casa, foi viver uma temporada com sua madrinha, que tinha melhores condições financeiras. Ao relembrar este tempo, ela comentou:

a única coisa que eu pensava era que era muito bom estar na casa da minha madrinha, tem tudo ali, mas, quando eu estava lá era triste, porque eu lembrava que lá os meus irmãos estavam passando fome... não tinha coberta... A gente se cobria era com um encerado assim de caminhão. Minha mãe colocava assim, no chão, todo mundo deitava e ela puxava o encerado encima pra cobrir. Na época de geada a gente sofria, porque esse é que era o colchão como a coberta da gente. (Júlia - MneA)

Quanto aos estudos formais, cursou até a 6ª. série, num percurso que também não foi fácil. A mãe não permitia que fosse à escola, pois tinha que trabalhar. Por isso, Júlia (MneA), matriculada por uma enfermeira amiga, freqüentou, até a 3ª. série, escondida da mãe, valendo- se de diferentes estratégias para isso:

aí, quando a minha mãe estava trabalhando, eu pegava um tanto de folha de pão e ponhava na máquina, costurava no meio, dobrava, fazia as linhas tudo

certinho. Ia lá, fazia uma capa e ia pra escola. E daí, lá na escola eu

aprontava pra ir de castigo. Eles ponhava a gente de castigo dentro do caixote de lixo e eu ia descalço. Aí, dentro do caixão eu ficava com o pé procurando alguma coisa. Aí eu catava meus lápis, as ponta de lápis que os coleguinha jogava fora.... Depois, no outro dia, ficava uma semana sem aprontar. Aí, eu ficava estudando com aqueles alí, n/é? (Júlia - MneA)

Na família sofria discriminação, o que analisa que era pelo fato de ser mulher. Considera que, diante de tudo isso, foi tornando-se uma rebelde. No mundo do trabalho também desenvolvia estratégias de sobrevivência:

eu trabalhava na Itapeva Florestal, de segunda a sexta, sábado e domingo eu vinha trabalhar com a minha mãe na lavoura. E quando era dia de colheita [...] até uma vez eu coloquei dentro do sapato da firma, eu coloquei alho nos dedos, sabe, e aí deu febre. Aí no outro dia não fui trabalhar. Aí eu cheguei em casa, tirei o alho e acabou a febre, aí eu fui trabalhar com a minha mãe ... Então, a gente usava muito de artimanha pra poder fazer outras coisas. E aí,

185

eu percebi que a situação melhorou um pouco em casa, por causa da alimentação e de vender as coisas. (Júlia - MneA)

Ao passar a infância e a adolescência em um contexto político de ditadura, Júlia (MneA) tinha o sonho de ser uma jornalista, para se contrapor às censuras e proibições. No entanto, havia várias barreiras que a impediam de publicar algumas matérias escritas (exemplo: sobre o incêndio do edifício Joelma, em São Paulo), “não podia ter jornalista de cor e tinha que ser bonita, ter o corpo bonito e eu não tinha nada disso... não poderia ser negra”. Isso lhe provocou um sentimento de auto-exclusão: “Então, eu fiquei assim... uma pessoa que eu achava que eu não tinha direito nem de sonhar... eu tinha que viver. E foi aí que eu comecei a ser mais rebelde ainda”.

A dificuldade nas relações familiares a levou a sair de casa aos 17 anos, quando conheceu e casou-se com Domingos (HbEA), o outro sujeito de nossa investigação.

Domingos (HbEA) tem 61 anos de idade. É observador, gesticula compassadamente

ao falar, acompanhando com as mãos a poesia da sua fala. Nasceu na zona rural de Capão Bonito (SP), onde viveu boa parte de sua vida, aprendendo a agricultar desde criança, com seus avós e pais, “caboclos e analfabetos”. Viviam em uma área do Ibama de plantio florestal, aonde o pai trabalhava. Tinham uma pequena área para cultivar o que desejassem, dessa maneira com a agricultura ecológica proviam o auto-consumo da família. Nesta época Domingos (HbEA) pôde freqüentar a escola urbana até a 4ª. série.

Aos 20 anos, mudou-se para a cidade, em busca de emprego. Primeiro atuou em uma companhia energética e, depois, em um posto de gasolina. Voltou a estudar durante a noite, concluindo o ensino médio e, devido a isso, arrumou um emprego no Instituto Agronômico de campinas (IAC). Lá aprendeu a controlar experimentos, organizá-los e contabilizar em planilhas.

Nesta época casou-se com Júlia (MneA) e tiveram 2 filhas e 2 filhos. Ao perder o emprego e em busca de melhores condições de trabalho e vida, migraram da cidade para o campo e do campo para a cidade: no campo trabalharam como caseiros e, tendo ganhado laranjas de um vizinho, cuja produção do pomar estava sendo desperdiçadas, passaram a complementar a renda como feirantes em Capão Bonito. Comentam que as laranjas estavam com aparência ruim, mas “a gente descobriu que, se lavasse aquela laranja e passasse ela no detergente e tal, ela ficava igualzinho aquela que vinha do Ceasa. A gente ficou com a mercadoria idêntica à do japonês, mas por um preço bem menor”. (Domingos - HbEA) Com o fim deste esquemas e o desemprego, retornaram à cidade, onde atuaram no manejo de pinus e

186 eucaliptos (monoculturas predominantes na região). Domingos (HbEA) voltou ainda ao emprego em um posto de combustíveis. O trabalho é considerado central na sua vida: “se eu ficar parado e não trabalhar, aí eu endóido, aí eu fico ruim de conversar, fico sem rumo mesmo.”

Moravam na periferia de Capão Bonito e, neste contexto, Júlia (MneA) se engajou nas lutas populares de seu bairro: “fiquei brigona politicamente, porque não deixava passar o direito do povo”. Com essa concepção foi que mobilizou os vizinhos para lutarem contra a prefeitura, que queria fechar o único mercadinho em que as/os bóias-fria compravam aos domingos. Com as pessoas vizinhas, fomentou ainda a interdição da uma rodovia próxima ao bairro, exigindo a construção de uma passarela para evitar a continuidade de atropelamento de pedestres e ciclistas.

Em seus relatos, o destaque maior quanto às ações de organização popular é dado à formação de um grupo de jovens antidrogas e pela dança. Formado inicialmente por um coletivo de amigas/os de seus filhos, durante sessões para assistirem a Copa do Mundo, esse grupo se ampliou por meio de ações lúdicas e de rodas de conversa ao redor de fogueiras: “Nós chamava aqueles velhinho pra contar piada pra nós, contar história. Fervia mesmo, [...] a gente gostava.” Durante esse processo de vida comunitária, o problema da drogadição veio à