Visto que a retidão da vontade é o lugar da justiça, poder-se-ia pensar que com isso a própria justiça já teria sido encontrada e definida. Afinal de contas, há bons motivos para se pensar que a retidão da vontade é suficiente para definir a justiça.
Um desses motivos é o caráter moral que a retidão da vontade implica. Pois quando o diabo pecou ele o fez porque não quis o que devia, é por isso que “a própria verdade diz que
a verdade está também na vontade, quando diz que o diabo não permaneceu “na verdade””10. Se ele não tivesse abandonado a retidão da verdade, isto é, tivesse querido o que devia não teria pecado. Além disso, há o fato da vontade ser o lugar da justiça.
A fim de evitar a confusão entre a retidão da vontade e a justiça, Anselmo se ocupará de mostrar, por meio de alguns exemplos (193, 15-32), a insuficiência da retidão da vontade como definição da justiça.
5.1. Velle quod debet (querer o que deve)
D. Se alguém quer o que deve sem o saber, por exemplo, quando quer fechar a porta contra aquele que quer, sem que ele próprio o saiba, matar um outro na casa: quer ele tenha, quer ele não tenha alguma retidão da vontade, não tem aquela que buscamos11.
Em seu primeiro exemplo, a questão proposta pelo Mestre a seu Discípulo é: “Qualquer um que quer o que deve, pensas que ele quer retamente e tem a retidão da vontade?”12. Anselmo retoma um elemento já visto da definição da justiça, qual seja, a necessidade de conhecimento do devido (sciens velle quod debet). No entanto, seu objetivo agora é mostrar que não se pode confundir a retidão da vontade com a justiça.
10 “[...] et in voluntate dicit veritas ipsa veritatem esse, cum dicit diabolum non stetisse “in veritate””. DV, IV,
180, 21-22.
11 “DISCIPULUS. Si quis nesciens uult quod debet, ut cum uult claudere ostium contra illum qui ipso nesciente
uult in domo alium occidere: siue habeat iste siue non habeat aliquam uoluntatis rectitudinem, non habet illam quam quaerimus”. DV, XII, 193, 19-22.
12 “MAGISTER. Quicumque uult quod debet, putas eum recte uelle et habere rectitudinem uoluntatis?”. DV,
Quem fecha a porta de sua casa sem saber que com isso impede a entrada de um assassino, quer o que deve, mas não o sabe e por isso não é justo. Não é suficiente querer o devido.
5.2. Scire se debere velle quod vult (saber que deve querer o que quer)
D. Pode acontecer que, entendendo, queira o que deve, e não queira devê-lo. Pois quando um ladrão é coagido a devolver o dinheiro roubado, é claro que não quer devê-lo, porquanto é coagido a querer devolver porque deve. Mas esse, de modo algum, deve ser louvado por essa retidão13.
Se não é suficiente querer o devido, “O que dizes daquele que sabe que deve querer o que quer?”14. Eis o objetivo do segundo exemplo do Mestre, mostrar que a vontade consciente do devido não é sempre justa, e por isso não pode ser a definição da justiça. Pode acontecer de alguém querer, com conhecimento, o que deve querer, mas, de certo modo, também não o querer.
Veja-se um ladrão que é coagido a devolver o que roubou. Se ele devolve o que roubou é porque quer o que deve querer, caso contrário, não o faria. Entretanto, ele não quer que deva querer isso, isto é, não quer devolver o que roubou. Faz o que deve querer apenas de modo forçado. Em outras palavras, sob pressão o ladrão quer o que deve querer (devolver o roubado), mas ele não quer dever assumir essa ação, isto é, não quer que essa ação seja
13 “DISCIPULUS. Potest contingere ut intelligens uelit quod debet, et nolit se debere. Nam cum latro cogitur
ablatam reddere pecuniam, palam est quia non uult se debere, quoniam ideo cogitur uelle reddere quia debet. Sed hic nullatenus laudandus est hac rectitudine”. DV, XII, 193, 24-27.
correta. Ele não quer a retidão dessa ação. Desse modo, “existe certamente uma retidão da vontade nesse exemplo da vontade do ladrão – na medida em que quer conscientemente a ação devida por ele – mas não tem louvável retidão da vontade, ou seja, a justiça, porque ele não se norteia pela retidão da ação como tal devida por ele”15.
Tem-se uma nova característica da definição da justiça: querer o devido não por coação (velle debitum non coacte). Contudo, faz-se necessário precisar esse novo elemento. O que Anselmo deseja com o exemplo do ladrão, in stricto sensu, não é enfatizar que a vontade consciente do devido deve ser um querer livre. Afinal de contas, esse ponto foi desde o início do capítulo tratado como segundo elemento da justiça. O que se pretende agora é mostrar que quando a vontade racional é justa ela se relaciona não só com o devido, mas também com sua retidão. Para ser justo é preciso querer também a retidão do devido.
5.3. Velle se debere velle quod vult (querer dever querer o que quer)
Se não é suficiente querer o que deve nem saber que deve querer o que quer, o que dizer daquele “Quem alimenta um pobre faminto por causa da vanglória, quer dever querer o que quer. De fato, por isso é louvado, porque quer fazer o que deve.”16. O benfeitor desse exemplo, diferentemente do ladrão, quer o que deve querer (a alimentação de um necessitado), e ele quer dever querer o que ele quer, ele quer fazer o que deve. Contudo, isso ainda não é suficiente: “Sua retidão não deve ser louvada, e, por esse motivo, não é suficiente
15 ENDERS, M., Wahrheit und Notwendigkeit, p. 514.
16 “MAGISTER. Qui cibat pauperem esurientem propter inanem gloriam, uult se debere uelle quod uult. Idcirco
à justiça que buscamos”17. O porquê dessa insuficiência só será compreendido após uma explicação sobre a estrutura do ato da vontade justa.