Realizar uma pesquisa que tem como objeto de estudo o ser humano e seus saberes, numa perspectiva de educação centrada no presente, que oportunize viver num mundo mais harmonioso, isto nos faz caminhar por uma abordagem qualitativa de pesquisa, que não nasceu por acaso, mas do desejo voluntário de refletir e narrar o próprio trabalho em Educação. Um trabalho que não distancia sujeito e objeto de pesquisa. Uma pesquisa desenvolvida como fruto de uma intervenção, que tem a intenção de
[...] explorar o comportamento e as representações de um sujeito ou de um grupo de sujeitos diante de uma situação concreta, para compreender-lhes o sentido colocando-se alternadamente na perspectiva de observador e na de sujeitos- atores e de sua vivência (BARBIER, 1985, p. 46)
Este estudo caminha por uma abordagem qualitativa de pesquisa, pois apresenta as cinco características básicas para ser considerado como tal, segundo Bogdan & Biklen (1994): 1) A fonte direta de dados é o ambiente natural -Desse
modo, caminhamos pelos locais de estudo, pela preocupação com o contexto e por entender que as ações podem ser melhor compreendidas se forem observadas no seu ambiente natural de ocorrência; 2) A investigação qualitativa é descritiva -Os
dados coletados e analisados são em forma de palavras ou imagens e não de números; 3) O pesquisador dessa abordagem se preocupa mais com o processo do que apenas com o produto final –É relevante nesse tipo de estudo o modo como as
definições se formam; 4) O pesquisador tende a analisar os dados de forma indutiva. Os dados não são recolhidos com o objetivo de confirmar hipóteses construídas previamente; e 5) O significado é de importância vital nesse tipo de abordagem -O
pesquisador está interessado no modo como diferentes pessoas dão sentido às suas vidas.
Cento e vinte e cinco professores em formação foram divididos entre cinco professores formadores, dois de Educação Física e três de Arte, cabendo a cada um orientar orientar um grupo de vinte e cinco, por ocasião da realização do Projeto de Investigação Didática (Anexo C).
A esta pesquisadora coube, como aos demais, vinte e cinco professores, para orientar o processo de investigação, discutindo e analisando com o grupo o que era vivenciado por eles no percurso. Aprofundava-se o estudo sobre sensações e percepções, além de ser oportunizado a esses professores refletirem sobre sua formação em serviço, através do que sentiam no momento presente, enquanto Ser em evolução.
Posteriormente, de posse dos relatórios finais, esta pesquisadora realizou uma análise documental, na qual foi observado, principalmente, as reflexões dessas professoras com relação ao entrelaçamento dos saberes enfocados nas disciplinas “Educação Física” e “Arte”, mais especificamente àquelas provocadas pelas vivências corporais. Esta pesquisa reflete, portanto, o que afirma Tardif (2002, p. 236): “Longe de se posicionar simplesmente do lado da teoria, a pesquisa na área da educação é regida e produzida por um sistema de práticas e de atores”.
Desse modo, iniciamos uma busca para encontrar, entre eles, os que evidenciavam em suas “falas” a presença dos Saberes da Vida, aqui caracterizados pelos saberes apresentados pelo Relatório da UNESCO (2003). Os professores em formação deveriam fazer referência às transformações sentidas a partir do “banho que tomavam na fonte dos saberes da vida, dançando e brincando”, assim como dos “saberes por eles bebidos”, e como tais mudanças teriam afetado sua prática profissional e sua vida.
De maneira geral, em seus depoimentos, os professores em formação destacaram a relevância do autoconhecimento proporcionado pelas vivências corporais de harmonização realizadas ao longo do curso. Chamaram a atenção para o fato de que esse autoconhecimento leva a uma evolução enquanto ser, o que possibilita melhorias no seu fazer docente, e uma maior preocupação com a qualidade do que oferecem aos seus alunos, além de proporcionar um melhor convívio entre seus pares, colegas de turma, familiares e alunos.
Ao analisar os relatos da prática docente, na qual os professores em formação têm a oportunidade de reconstruir saberes e fazeres através da reflexão coletiva de suas próprias práticas profissionais e da interlocução com teóricos dessas áreas de conhecimento e com seus pares, pode-se observar que esses relatos se constituem como narrativas das aprendizagens de vida. Acredita-se, assim como Lowen (1995), que, ao poderem se envolver em atividades dessa natureza e libertarem seus sentimentos, libertam também o próprio espírito, transformando-se.
Depois de selecionar os dezesseis relatórios que abordavam alguma reflexão acerca dos Quatro Pilares da Educação apresentados no Relatório “Delors” (2003), duas questões (Anexo E) foram elaboradas e aplicadas com o grupo com a intenção de analisar de que forma os professores percebiam o entrelaçamento dos saberes no ser do professor em formação, tendo como elemento sensibilizador dessa reflexão a vivência corporal na fonte dos Saberes da Vida.
Para respaldar a análise das narrativas, foi de grande utilidade o trabalho do romeno Basarab Nicolescu (1999) intitulado “O Manifesto da Transdisciplinaridade”. Essa opção deu-se em função de reconhecer, assim como o
autor, que “a abordagem transdisciplinar nos faz descobrir a ressurreição do indivíduo e o começo de uma nova etapa de nossa história” (NICOLESCU, 1999, p. 9), pois “o papel da transdisciplinaridade é trabalhar no sentido de sua escolha e mostrar em ato que a ultrapassagem das posições binárias e dos antagonismos é efetivamente realizável” (NICOLESCU, 1999, p. 132), considerando, para tanto, que o rigor, a abertura e a tolerância devem estar presentes na pesquisa e na prática de natureza transdisciplinar. E o que pode ser mais transdisciplinar que o ser humano compreendido numa perspectiva da corporeidade? Esta pode não ser o único caminho, mas com certeza é um caminho, que pode ser testemunho “de nossa presença no mundo e de nossa experiência vivida através dos fabulosos saberes de nossa época. Uma voz onde ressoam as potencialidades do ser” (NICOLESCU, 1999, p. 152).