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A delimitação da amostragem do presente trabalho se baseou em minha experiência em diversas pesquisas nos assentamentos rurais da região de Araraquara, desde 2001, como integrante do Núcleo de Pesquisa e Documentação Rural. Primeiramente, é de se destacar minha participação no grupo de educação e meio ambiente, quando do meu ingresso no Nupedor como bolsista. Sob a orientação da Profa. Dra. Dulce Consuelo Andretta Whitaker, comecei a aprender a usar o registro etnográfico como forma de captar informações nos assentamentos. Ela, em colaboração com seu grupo de bolsistas, estava na iminência de lançar um livro que rapidamente se tornou uma referência em minha formação como pesquisador (WHITAKER, 2002). Conforme demonstrado nesse livro pelos diferentes bolsistas que faziam parte do grupo à época, a principal técnica de pesquisa para coleta de informações do Nupedor é o diário de campo. Cada membro do grupo fazia seus registros de forma muito particular, mas sempre a partir de um recorte teórico específico. E comigo não foi diferente, de forma que desde então comecei a fazer meus registros sobre produção de autoconsumo.

Ao voltar do assentamento, recomenda-se fazer o quanto antes a tarefa de descrever as informações registradas no diário de campo. Como afirmei antes, esse trabalho no Nupedor é considerado montagem de cadernos de campo. Se antes de ir ao assentamento estamos imbuídos de teoria, oriunda

de nossos projetos individuais bem como dos projetos do grupo, ao voltar temos um verdadeiro guia para o rememorar o dia de campo. Então passa-se a descrevê-lo de forma mais inteligível possível para depois discutir as informações junto ao grupo. A memória do pesquisador e uma cuidadosa vigilância epistemológica (no sentido de quebrar os preconceitos que podem haver contra o modo de vida no meio rural) são essenciais para a compreensão da realidade, assim como também o é a confrontação das opiniões individuais junto ao grupo de pesquisadores que vão junto a campo34. A memória porque lembrar-se de cada detalhe pode representar um grande enriquecimento na compreensão de cada situação. Já a vigilância refere-se a entender o sujeito pesquisado levando-se em conta a alteridade, analisando as situações do ponto de vista do sujeito e despindo-se o quanto possível dos próprios pré- conceitos.

Nessa fase inicial de minha participação no grupo foi essencial o contato com a pesquisadora Dulcelaine Lucia Lopes Nishikawa, que já fazia parte do grupo. Enquanto Dulcelaine estava em busca da agricultura sustentável, fazendo uma coleta de dados que inspirou fortemente a minha, no sentido de registrar os inventários dos lotes e de fazer uma leitura do espaço procurando práticas desse tipo de agricultura, associando-as à cultura rural das famílias assentadas35. Depois do contato com essa pesquisadora é que, sempre que eu ia a campo, fazia um cuidadoso inventário dos lotes visitados. Por mais exaustivo que esse registro possa parecer a alguns, o meu intento era relatar a especificidade de cada um deles, dentro de uma diversidade agrícola que parece ser comum à maioria dos lotes do assentamento. Por outro lado, a diversidade agrícola específica de cada lote denota, nos alimentos para o

34 Lembro-me que uma das primeiras discussões em grupo que participei neste sentido foi

sobre o descarte de lixo. Ao vermos que em algumas casas no assentamento havia lixo jogado ao seu redor, alguns de nós ficávamos com péssima impressão, e nos perguntávamos por que eles jogavam lixo assim, no chão, deixando o lugar “sujo”. Nossa professora, ao ouvir nossos relatos explicou que até bem pouco tempo atrás, para aquelas famílias, tudo que era lixo era material orgânico, portanto poderia servir até como adubo da terra. Com o advento do lixo industrial (embalagens plásticas, latas etc.), o costume e o gesto de jogar ao chão, depois juntar num canto e queimar, não se alterou de forma tão depressa, portanto continuaram a fazer assim com o descarte de lixo. Isto não significa que os assentados não têm noções de limpeza como esperamos que se tenha na cidade. Ao contrário, o interior das casas é sempre de uma limpeza impecável.

autoconsumo familiar, a construção cultural que cada família traz para o assentamento. Exemplos disso foram encontrados nas diversas variedades de feijão que são plantadas nos lotes para autoconsumo, algumas delas trazidas pelos assentados desde suas origens. Então, essa prática de observar o que (e como) está plantado para autoconsumo se tornou uma constante na minha rotina de pesquisador.

Durante o projeto Inserção dos Assentamentos às Economias Regionais... (FERRANTE, WHITAKER, 1999), o diário de campo foi a principal técnica de pesquisa que o grupo de bolsistas fez uso (nos assentamentos). Assim, as informações levantadas com meus próprios diários foram as principais fontes de minha monografia de bacharelado. Além das idas a campo e dos registros, fizemos também entrevistas gravadas com técnicos agrícolas dos órgãos gestores, membros das prefeituras municipais (principalmente de Araraquara e Motuca) e com técnicos e coordenadores da Regar (Associação para o Desenvolvimento da Agricultura Regenerativa da Região de Araraquara), que protagonizou a alternativa produtiva analisada em minha monografia.

Já no projeto Poder Local e Assentamentos Rurais..., (FERRANTE, 2004b), havia uma amostragem importante do ponto de vista estatístico, quando foram visitadas mais de 10% das propriedades do assentamento Monte Alegre, entre 2005 e 2006 (45 questionários aplicados). O ponto mais importante para o presente trabalho ao final desse projeto é que já havia se comprovado, através de dados coletados com questionário semi-estruturado, que quase a totalidade dos lotes, mesmo com a entrada da cana agroindustrial, continuou com a produção de pelo menos uma pequena parte do autoconsumo36.

Por outro lado, no projeto em vigência pelo Nupedor (FERRANTE, 2007b), foi feita uma nova coleta de dados com questionários semi- estruturados em significativa amostragem, com o intuito de se montar um banco de dados que permita comparar os assentamentos da região de

36 No projeto Poder Local e Assentamentos Rurais..., foram analisadas algumas das

conseqüências da recente parceria entre assentados e usinas canavieiras, mediada pela Portaria Itesp 077/2004, dentre as quais, as conseqüências para a produção do autoconsumo.

Araraquara e outros da região do Pontal do Paranapanema. Novamente, questões sobre a produção e a distribuição dos alimentos de autoconsumo foram investigadas e os dados gerados foram usados no presente trabalho para análise (81 questionários aplicados no Monte Alegre).

Portanto, nessa minha trajetória no Nupedor foram feitas inúmeras idas aos assentamentos, em diferentes lotes e em diferentes momentos, devidamente registradas através de diários de campo, sempre com especial preocupação ao autoconsumo. Esse material e também alguns dados das recentes pesquisas no âmbito do Nupedor – especialmente aqueles obtidos pela aplicação de questionários – são utilizados no presente trabalho, embora nosso objetivo seja o de avançar no estudo de questões específicas do autoconsumo, sobretudo através da associação dos dados oriundos da minha participação no núcleo de pesquisa com os dados qualitativos especialmente coletados para o presente trabalho.

3.2 Metodologia da Bola de Neve: questionário semi-estruturado e