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4. SONUÇLAR ve ÖNERİLER

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A retórica bilaquiana, perfeita engrenagem de condução de idéias, fazia de seus textos elegantes instrumentos de convencimento. De acordo com Adilson Citeli, cabe à

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Na realidade, foi só a partir da crônica de 21 de junho de 1903 que Bilac passou a assinar seus textos na

Gazeta de Notícias, todavia, apresentava-se, ainda assim, apenas com suas iniciais O. B. Contudo, o conhecimento da autoria de seus textos sempre foi de fácil elucidação em razão das constantes notas publicadas na Gazeta de Notícias sobre sua participação no periódico. Em 19 de abril de 1901, em nota editorial, o jornal explicava, por exemplo, a volta do cronista após longa ausência: “Está outra vez conosco o Bilac, depois de uma ausência prolongada, necessária ao revigoramento de sua saúde. De Poços de Caldas onde esteve, nunca deixou de nos enviar as suas crônicas, tão apreciadas de nossos leitores, mas naturalmente a sua presença tornará mais ativa a sua preciosa colaboração”.

retórica “mostrar o modo de construir as palavras visando a convencer o receptor de dada verdade”. 163

Sendo assim, Bilac lançava mão de inúmeros mecanismos retóricos, como diversas figuras de linguagem ou estruturas textuais específicas, para levar seu leitor à aceitação de uma determinada idéia. Ao modelar suas crônicas, o cronista visava persuadir o leitor; ora expondo elementos emocionais ora lapidando com afinco a palavra. Se a linguagem é instrumento eficaz para se transmitir idéias e preceitos, a escolha coerente do signo mais apropriado para modelar essa comunicação torna-se fundamental.

A importância da palavra no jogo persuasivo se faz no modo de articular e organizar o signo, pois é este que poderá determinar as direções que o discurso irá tomar, inclusive de seu maior ou menor grau de persuasão.

Um dos mecanismos mais comumente empregado pelo cronista era certamente o que poderíamos denominar de “raciocínio tautológico”. De acordo com o Dicionário Aurélio164 seria tautologia um “vício de linguagem que consiste em dizer, por formas diversas, sempre a mesma coisa”. Bilac não apenas defendia constantemente e repetidas vezes a iniciativa do governo Rodrigues Alves de vencer a insalubridade carioca como o fazia lançando mão de variáveis ferramentas, ora de linguagem conservadora identificada com o sistema vigente ora contestadora, mas sempre firme na sua convicção de que pela salubridade do Rio de Janeiro tudo era aceitável.

Empregando, muitas vezes, tom de informalidade e familiaridade com o leitor, Olavo Bilac almejava, senão persuadir totalmente o intérprete de seu texto, ao menos fazê-lo perceber que suas idéias higienistas eram palatáveis.

Ao saber que uma nova companhia iria remover o lixo da cidade, Bilac comentou:

É a nova companhia que se propõe a remover o teu lixo secular, cidade querida. Terá enfim raiado a madrugada do teu asseio?

[...]

Permita o Deus da Limpeza que, em plena campanha, em plena execução dos seus louváveis projetos, aquelas carroças mostrem a mesma galhardia que mostravam na revista de anteontem! e que estas cigarras, que começam a cantar a formosura do teu verão, possam saudar-te regenerada e lavada, ó boa Sebastianópolis, sem lama na barra das saias, sem cisco velho na tua bela coroa mural!

[...]

163 CITELI, Adilson. Linguagem e persuasão. São Paulo: Ática, 1985. p. 8. 164Novo Dicionário Aurélio (Versão 3.0). Editora Nova Fronteira, s/d.

Quem sabe? Corpos lavados, mais facilmente do que corpos sujos, podem abrigar almas limpas. 165

Determinados vocábulos eram constantes nas crônicas de Bilac. Lixo, asseio, limpeza, sujeira, regeneração são algumas das imagens que este e muitos outros diversos textos do período traziam. A escolha do signo, ou palavra, correto tem uma função especial no trabalho do cronista. Ao confrontar idéias de limpeza e asseio, e lixo e sujeira o jornalista tentava convencer seus leitores da importância da campanha higienista. Note-se o relevo que o cronista deu aos signos referentes à salubridade: não apenas criticou o lixo amontoado pelas ruas da cidade como o denominou “lixo secular”; em outra passagem, quando clamava por um Rio de Janeiro sem sujeira, recorreu à metáfora, altamente emocional, “lama na barra das saias”. Ao lançar mão de um discurso muito metafórico, onde a escolha e, principalmente, a contextualização da palavra tem um peso particular, Bilac carregou seu texto de valores persuasivos. Pois, signos, quando contextualizados, são fortes veículos difusores de persuasão. Mais do que isso, são instrumentos hábeis para expressar idéias e valores, muitas vezes transmitindo ideologias. De acordo com Adilson Citeli: “Se as palavras, por exemplo, nascem neutras mais ou menos como estão em estado de dicionário, ao se contextualizarem, passam a expandir valores, conceitos, preconceitos” 166.

Claramente, nesta crônica, esta foi a intenção bilaquiana. Criar, ao seu modo, valores, ou ao menos tentar alterar a atitude e o comportamento do público leitor, através da produção de um texto altamente persuasivo.

Neste mesmo texto, observa-se um mecanismo persuasivo muito utilizado pelo jornalista, essencialmente, neste período particular da história política e social da antiga República. O clichê foi ferramenta invariável na produção bilaquiana. Séries vocabulares já muito conhecidas, ou “frases feitas”, ou seja, argumentos e idéias diversas vezes retomados fizeram desta e de outras inúmeras produções de Bilac um emaranhado de chavões. A seguinte passagem deixa explícita a força do clichê como instrumento persuasivo: “Terá enfim raiado a madrugada do teu asseio?”. Ao recorrer à metáfora, recurso corriqueiro do clichê, Bilac transpareceu seu desejo higienista e, ao mesmo tempo, tentou comover seus leitores.

165 BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 2 de outubro de 1898. p. 1, 2.col. 166 CITELI, op. cit., p. 28.

O clichê, normalmente, forma-se pela união, na maioria dos casos, de um substantivo mais um adjetivo. O cronista seguiu à risca essa norma, como se pode ver em outros excertos da crônica: “lixo secular”, “Deus da Limpeza”, “louváveis projetos”. A intenção de Bilac foi, através do uso do clichê, que neste caso específico nada mais foi do que a utilização de metáforas estereotipadas, envelhecidas ou até mesmo já vulgarizadas, alcançar valores, através de uma recontextualização dos signos, e transformar assim as idéias de seus leitores.

Em Estilística da Língua Portuguesa167, Rodrigues Lapa oferece-nos a sua

opinião, um tanto intransigente e até sarcástica, sobre o uso recorrente do clichê:

O emprego abusivo de clichê caracteriza quase todos os principiantes em trabalhos de estilo. Essas séries vocabulares ficaram-lhe no ouvido, através de más leituras, de caráter romântico, muitas vezes. Por preguiça mental enxertam esses grupos na redação, que adquire um jeito pretensioso e falso, e o diminui, é claro, de força expressiva. O estilo é uma permanente criação pessoal. Não aconselhamos o estudioso a evitar por completo as séries usuais, o que seria aliás difícil; é também verdade que, em certos contextos, um escritor de marca pode dar-lhes vida nova; mas previnimo-lo contra o emprego assíduo do clichê, muleta ridícula dos preguiçosos, duma trivialidade insuportável.

Os mecanismos persuasivos foram recorrentes na escrita bilaquiana, buscando sempre estabelecer como verdade única sua euforia reformista. Ao usar a expressão cidade querida, como um vocativo, notamos a tentativa do autor se aproximar e de se tornar familiar ao leitor. Esse recurso utilizado é eficaz, pois permite que o cronista, de forma cordial, conquiste para si o intérprete de seu texto. Através deste tratamento afável para com o leitor, Bilac rogava, solenemente, pelo sucesso da limpeza da sua boa Sebastianópolis. Lançando mão praticamente de uma prece, Bilac envolveu a “platéia” por um sentimento de adoração pelo Rio de Janeiro. Todos esses recursos estilísticos manuseados por Bilac são válidos, pois mediante linguagem afetuosa entre autor e leitor, foi possível ao cronista manipular mais eficazmente o tom doutrinário de seu texto, a fim de educar seus leitores na premissa de que somente corpos lavados podem abrigar almas limpas.

Sendo assim, este último fragmento da crônica: “Quem sabe? Corpos lavados, mais facilmente do que corpos sujos, podem abrigar almas limpas”, muito mais do que carregado de idéias e imagens persuasivas, trouxe consigo não apenas o tom doutrinário prosaico de Olavo Bilac, mas mostrou-nos uma atitude preconceituosa e, principalmente,

perversa do autor, que seguindo sua própria verdade, feita de uma lógica totalmente distorcida, fez de seu discurso metafórico um esboço da perversidade que muitas de suas crônicas traziam embutida em comparações, metáforas singelas e clichês.

Essa inter-relação entre apuro físico e moral na profilaxia carioca, proposta na crônica anterior, foi temática invariável na escrita de Bilac. Em publicação de abril de 1903, o cronista bradava:

[...] parece que já há quem compreenda que não pode haver civilização sem limpeza, nem adiantamento moral sem adiantamento material. 168

De acordo com Renato Cordeiro Gomes:

Bilac encara o progresso na concepção que depende estritamente da noção de avanço material e da capacidade humana de autosuperação tecnológica, isto é, o mito do salto tecnicista com suas eventuais decorrências morais e sociais 169.

Sempre fácil de se perceber, nas crônicas bilaquianas o clichê era presença indispensável para a criação do discurso persuasivo. Em quase a totalidade da produção domingueira “Crônica”, observam-se discursos estereotipados como o seguinte:

Pobre velha, caindo aos pedaços, sem muletas caridosas que a amparem, aí vai a mendiga, tão sordidamente vestida, tão ignobilmente suja, que os mesmos cachorros vadios, de focinho instintivamente dado ao escavoucar dos monturos, se afastam dela com asco e desprezo... Pobre velha, velha antes do tempo, podre antes da maturidade, decadente antes da perfeição! 170

Ou no seguinte excerto:

Daqui a poucos dias, o primeiro golpe de picareta, na Prainha ou no Boqueirão do Passeio, entoará a primeira nota do hino triunfal. E não teremos de viver muito, para ver terminada essa obra de salvação nacional; a limpeza, o arejamento, a regeneração da grande cidade operosa e honrada, que já seria, há mais de cinqüenta anos, a mais linda do continente sul- americano, se há mais de cinqüenta anos tivesse encontrado quem a servisse e amasse com coragem, em vez de só encontrar servidores parlapatões e moles, gastando em palavras a energia que deveriam gastar em atos.

É verdade, sim! A Avenida já não é um sonho: e o povo já compreendeu que só o amam verdadeiramente aqueles que, em lugar de engambelá-lo

168

BILAC, Olavo. Crônica. Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro, 19 de abril de 1903. p. 1, 1. col.

169 GOMES, Renato Cordeiro. Todas as cidades, as cidades: literatura e experiência urbana. Rio de Janeiro:

Rocco, 1994. p. 108.

com discursos, querem dar-lhe saúde e vida decente, dando-lhe uma capital moderna e esplêndida...171

Ambas as crônicas citadas carregam em seu bojo marcantes passagens estereotipadas, clichês clássicos como “Pobre velha”, “mendiga sordidamente vestida”, “salvação nacional”, “cidade operosa e honrada”, dentre tantas outras imagens ora exaltadas ou pejorativas para remeter ao Rio de Janeiro. Entretanto, o que é interessante nestas duas produções é que elas comprovam o fascínio e a certeza bilaquiana quanto à eficácia do jargão.

O primeiro fragmento citado pertencia a crônica de 1897, ou seja, do primeiro ano da assídua colaboração de Bilac na Gazeta de Notícias, e muito anterior ao início de fato das obras de reurbanização, e o excerto seguinte seria apenas de 1903, - fase já “áurea” das reformas urbanas, - estando, portanto, seis anos separado do outro texto. É curioso compará-los, pois, a intenção do cronista sempre foi a mesma. A inflexibilidade do seu discurso higienista, feito através de tantos mecanismos retóricos, principalmente nestes exemplos pelo uso abundante do clichê, permeou toda a sua produção. Desde antes do início da chamada “Regeneração” até o seu apogeu e finalização, a pena bilaquiana corria pelos caminhos da defesa da higiene sob todos os aspectos e, lançando mão de todos os recursos estilísticos disponíveis, buscava alcançar seus pressupostos de modernidade.

Benzer Belgeler