2.1. Kavramsal Açıdan Öz Yeterlilik
2.1.8. Öğretmen Öz Yeterlilikle İlgili Araştırmalar
Uma música composta na primeira metade do século XIX permanece viva, constantemente lembrada para os enterros de famosos e também para todo tipo de protesto que se quer fazer, tendo na marcha um sinal da melancolia que assola as comunidades frente a todo tipo de ato impróprio protagonizado por políticos, principalmente. Até em desfiles carnavalescos, ela
surge nos “enterros” que gostam de realizar os foliões. Mesmo enquanto notamos um
crescente silenciamento das bandas de música em enterros, que se realizam de modo diverso de épocas passadas, a música de Chopin permanece viva. É a ela que recorrem os maestros para homenagens fúnebres em momentos e situações em que o compositor jamais tivesse imaginado que poderiam acontecer.
Afora o relatado até aqui, a marcha fúnebre tem sido mencionada; porém, pouco estudada. O toque fúnebre feito pela banda durante enterro é sempre motivo de notícia sem que haja qualquer menção ao título da música tocada, muito menos o seu autor. Portanto, notícias veiculadas pouco ajudam a quem tem interesse em conhecer repertórios e a circulação dos mesmos. Não raro, diz-se que o “caixão desceu à sepultura ao som da Marcha Fúnebre de Chopin, tocada por uma banda de música militar”.363
Recentemente, em virtude do terremoto que abalou o Haiti em 12 de janeiro de 2010 e dos seus efeitos, morreram militares brasileiros que lá trabalhavam em Missão de Paz organizada pela Organização das Nações Unidas (ONU). Os soldados foram enterrados como heróis,
363
Quando foram enterrados os militares brasileiros mortos durante o terremoto do dia 12 de janeiro de 2010 no Haiti, a imprensa brasileira noticiou o sepultamento do cabo Ari Dirceu Júnior no dia 22 do mesmo mês. Na época, o corpo foi transportado da catedral de Santos/SP para o cemitério Memorial Metropolitano de São Vicente no blindado Urutu. Estava recoberto com a bandeira nacional e o toque fúnebre se deu depois que a guarda deu tiros de fuzis antes de entrarem com o caixão no cemitério. Os jornais da época frisaram o toque da marcha fúnebre de Chopin neste e nos outros enterros.
tendo, inclusive, além das honras militares, a presença do presidente Luis Inácio Lula da Silva. O jornal O Estado de Minas noticiou:
Dezessete dos 18 militares brasileiros mortos no terremoto ocorrido dia 12 no Haiti foram enterrados em suas respectivas cidades nesta sexta-feira. As cerimônias de sepultamento tiveram, em comum, bandeiras a meio mastro, toque fúnebre e salva de tiros, entre as honrarias do Exército.364
A execução da marcha fúnebre em enterros de militares – ou de personalidades dos três Poderes da República – continua regulamentada. Sempre que “necessário”, os músicos serão chamados para manifestar, com o som dos seus instrumentos, os mesmos sentimentos de consternação coletiva ante os fatos ocorridos com os brasileiros em missão no Haiti, ou do vice-presidente da República José Alencar Gomes da Silva, enterrado com todas as honras fúnebres no dia 31 de março de 2011, cujo cortejo contou com a presençade soldados do Exército, da Aeronáutica, da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros ao som da marcha fúnebre.365
O grupo de compositores que se dedicaram ao gênero pode ser divido em duas categorias: um, de músicos da chamada música erudita e os da música popular; outro, dos profissionais ou amadores. Os eruditos se preocuparam em compor suas marchas para orquestra sinfônica ou piano; o segundo escreveu as suas músicas para as bandas de música. Tal situação nos remete aos séculos XVI, XVII e XVIII na Europa, quando havia música fúnebre para os funerais dos membros da aristocracia, as pessoas de corte, mas ainda para os próprios músicos, considerados serviçais da realeza. Nesse caso, no entanto, os autores que compuseram para os funerais de seus patronos também o fizeram para lamentar a morte dos seus companheiros de ofício.
No Brasil, enquanto músicos eruditos acorriam para os centros como Rio de Janeiro, Salvador, Recife ou Belém, e atendiam aos anseios das camadas mais altas da sociedade, músicos amadores habitavam núcleos urbanos de pequeno porte (vilas) como São João del- Rei, Sabará, Ouro Preto, Mariana, Diamantina, e suas vizinhas, onde predominou, desde meados do século XIX, o gosto pela composição de músicas para banda; muitas vezes, o único conjunto musical pronto para todo tipo de evento ou festa de rua.
364
Cf. em: <http://www.uai.com.br/htmls/app/noticia173/2010/01/22/noticia_nacional>. Acesso em: 25 jan. 2010.
365
Cf. <www.em.com.br>. Acesso em: 3 jan. 2013. O militar, ao ser admitido nas Forças Armadas do Brasil, faz opção por ter honras militares ou não, caso venha a falecer na ativa.
A esse respeito, notamos que a historiografia, quando se refere à música popular, na qual enquadramos boa parte da música para banda, é negligente. Trata-a sob perspectiva romântica, aludindo a nomes de artistas, datas consideradas relevantes, catálogo de obras ou outras informações de interesse reduzido, tudo assinalado por um
paradigma historiográfico tradicional, normalmente associado àquela concepção de tempo linear e ordenado, em que os artistas, gêneros, estilos e escolas sucedem-se mecanicamente, refletindo e reproduzindo, assim, uma postura bastante conservadora no quadro da historiografia contemporânea.366
Notadamente, os trabalhos dão destaque especial ao individual em detrimento do coletivo, à biografia do autor: destacam algum fato de caráter folclórico, obras vistas isoladamente, separadas do “mundo comum”.367 Torna-se necessário observá-la como objeto de trabalho realizado por homens integrados à dinâmica da vida em grupo, de movimentos sociais e históricos.
Quanto ao período quaresmal, a festa maior da Igreja Católica, é preciso tomá-lo como de vital importância para os paroquianos das vilas e lugarejos do interior. Nessa época, a atenção se voltava para a preparação do vestuário, os cuidados com o corpo, a limpeza das casas e das ruas, a comida, a bebida, o reencontro de pessoas queridas. Entrementes, a reorganização dos conjuntos musicais, a inclusão de música nova, os ensaios assistidos pelo povo, a limpeza das casas, ruas, o aumento da circulação de veículos e pessoas tornaram “o preparar-se para a Quaresma e Semana Santa nos séculos XVIII e XIX fato cultural privilegiado”.368 Esse período se estendeu até o século XX nas localidades citadas, que puderam presenciar costumes que se sustentaram sob a tradição de realização desses eventos, seguindo modelo de épocas anteriores. Para esse momento, as paróquias, mandando imprimir programas, mantinham informada a população sobre os grupos musicais participantes, destacando algumas músicas, lugares e cerimônias em que seriam apresentadas, bem como os compositores e maestros envolvidos, num chamamento à participação dos munícipes.
366
MORAES, José Geraldo Vinci de. História e música: canção popular e conhecimento histórico. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 20, n. 39, 2000. On-line version ISSN 1806-9347. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882000000100009>. Acesso em: 3 mar. 2012.
367
MORAES, José Geraldo Vinci de. História e música: canção popular e conhecimento histórico, v. 20, n. 39. 368
CAMPOS, Adalgisa Arantes. Pompa Barroca e Semana Santa na Cultura Colonial (séculos XVIII-XIX), p. 1197-1212. (a citação encontra-se na p. 1197).
Assim, a marcha fúnebre, como gênero musical, foi se acomodando até atingir o ápice entre o último terço do século XIX e meados do XX, sem que tenhamos uma data precisa, para situá- la em época de sua maior expressão. Com o passar do tempo, mudanças ocorreram na preparação e realização da Semana Santa e funerais. Certos costumes passaram por mudanças, modificaram-se por força de alterações impostas por novas orientações da Igreja (como as do Concílio Vaticano II)369 ou de hábitos introduzidos pelos poderes municipais e eclesiásticos (construção de velórios públicos onde têm sido realizadas cerimônias como missas e realização de cortejos fúnebres motorizados). Em ambos os casos, houve redução de eventos com consequências negativas para a música.
A não-realização de cortejos fúnebres e a completa supressão de procissões em muitas paróquias são fatos. Porém, a estrutura e o embelezamento da Semana Santa em lugares como São João del-Rei e cidades envolvidas nesta pesquisa se mantêm. Nelas, é possível participar desses eventos que passaram por poucas alterações e conservam por força da tradição muitos costumes antigos. Os cenários, materiais, calendário e programas das festas continuam sendo preparados de jeito que podemos supor como ocorriam em épocas passadas. Quanto aos funerais, o mesmo não acontece, pois salas para velórios têm sido construídas próximas ou dentro dos cemitérios. O percurso entre o hospital, casa ou igreja vem sendo feito em automóveis, eliminando os cortejos feitos a pé. Ainda assim, compositores continuam criando mais músicas fúnebres; contudo, sem a densidade e intensidade de outrora. E na memória das pessoas do lugar, as músicas antigas e cerimônias em que são ouvidas permanecem vivas devido à sua permanente repetição. Esta tese, portanto, sem perder de vista a evolução do gênero, aborda a marcha fúnebre num mundo no qual os compositores – muitos deles anônimos – desempenham a função de músico amador, apegado às suas crenças, paixões e redes de convivência.
No entanto, de modo diverso dos funerais pomposos das pessoas ilustres dos grandes centros, como ocorreram na capital do Império e depois da República, os compositores mineiros declinaram sua atenção para homenagear Nossa Senhora das Dores, o Senhor dos Passos e, particularmente, seus amigos e familiares, esposas e filhos mortos. Compositores de
369
Realizado em 1963. No Brasil, criou-se, em 1964, a Campanha da Fraternidade por iniciativa da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que se realiza ainda hoje, com a intenção de “despertar a solidariedade dos seus fiéis e da sociedade em relação a um problema concreto que envolve a sociedade
brasileira, buscando caminhos e apontando soluções”. Fonte: <http://www.cnbb.org.br>. Acesso em: 26 maio
2012. Diferente do “A Motu Proprio” Tra Le Sollecitudini, do Papa Pio X, de 22/11/1903, que pretendeu a volta ao canto gregoriano e a polifonia tradicional. O Concílio Vaticano II impôs o vernáculo nas celebrações litúrgicas.
reconhecida expressão no seu meio são completamente desconhecidos fora do seu meio. Não mereceram sequer um verbete em dicionário, livro, artigo ou catálogo de obras. Porém, suas músicas vêm sendo mantidas vivas, sendo continuamente apresentadas ao público que, sabedor até dos locais e momentos em que serão tocadas pelas bandas de música, as aguardam ansiosos. Dessa maneira, contribuem para a manutenção dos costumes e tradição da realização de cerimônias pelas ruas das cidades.
A música sacra composta pelos mestres mineiros e de outros Estados do Brasil até fins do século XVIII ficou praticamente esquecida durante um século e meio. Com raras exceções, o repertório desses mestres mineiros setecentistas foi sendo mantido nos seus lugares de origem, cumprindo, por vezes, a sua função primária em celebrações da igreja católica. A entrada em cena de Francisco Curt Lange, que veio a Minas Gerais entre agosto e setembro de 1944, encarregado de realizar pesquisas encomendadas pelo Estado Novo de Getúlio Vargas e de organizar o tomo VI do Boletín Latino Americano de Música, fez mudar o curso do seu trabalho que, à época, visava a um artigo sobre a arte musical de Gottschalk em terra brasileira. Surpreso com o que viu, Curt Lange ampliou a sua estada em Minas Gerais e estendeu sobremaneira as pesquisas para o resto de sua vida. Foram anos de trabalho que resultaram em publicações e uma série de concertos realizados em 1958 em Ouro Preto, Belo Horizonte e Rio de Janeiro para apresentar ao restante do Brasil e outros países o que estava guardado nos arquivos de particulares e dos grupos musicais.370 Os silenciosos arquivos mineiros começaram a soar.
Esse período em que essas músicas permaneceram adormecidas não coincide com aquele que conheceu a música popular, a ópera e o nascimento das bandas de música, seus repertórios, compositores e intérpretes. A música para o teatro e para as ruas ofuscaram de certa maneira aquela que era constantemente contratada pelas irmandades e ordens terceiras para seus ofícios. A marcha fúnebre nos chega nesse momento rico da música pianística e das bandas que, de maneira bastante intensa, a apresentaram tanto em forma de concerto quanto em enterros e procissões. A microrregião de São João del-Rei se valeu dessa situação, pois muitos compositores foram revelados e suas músicas difundidas; alguns, para além das suas áreas de atuação.
370
Na opinião de André Guerra Cotta, Curt Lange deslumbrou o mundo com as descobertas feitas em Minas Gerais. Cf. em A meraviglia em Minas; Jornal O Estado de Minas, 24/10/2009, Caderno Pensar, p. 5; e História da Coleção Curt Lange, tese defendida na Universidade Federal da Cidade do Rio de Janeiro (UNIRIO) em 2007.
2.13 Música fúnebre durante a belle époque brasileira: sepultamentos solenes de