Nessa direção, o governo brasileiro tem procurado desenvolver estratégias que visem o enfrentamento dos agravos à saúde do trabalhador. De acordo com a política nacional de segurança e saúde do trabalhador (PNSST) (instituída em novembro de 2011, através do decreto nº. 7.602), a proposta é conseguir superar a desarticulação das ações anteriormente implementadas pelos setores do trabalho, previdência social, saúde e meio ambiente (Ministério da Saúde, 2012). De acordo com o Ministério da Saúde (2004), o perfil de morbimortalidade dos trabalhadores brasileiros caracteriza-se pela coexistência de agravos que têm relação com:
condições de trabalho específicas (como os acidentes de trabalho típicos e as “doenças profissionais”); doenças que têm sua frequência, surgimento ou gravidade modificados pelo trabalho, denominadas “doenças relacionados ao trabalho” e;
doenças comuns ao conjunto da população, que não guardam relação de causa com o trabalho, mas condicionam a saúde dos trabalhadores (p. 6).
Dados mostram que, de 1999 a 2003, o instituto nacional de seguro social (INSS) concedeu 854.147 benefícios por incapacidade temporária ou permanente devido a acidentes do trabalho. De acordo com Pastore (1998) (citado pelo Ministério da Saúde, 2004), para cada real gasto com benefícios previdenciários, a sociedade paga quatro reais, o que eleva para R$ 33 bilhões por ano o custo total para o país. Assim, a PNSST tem como propósito a promoção da melhoria da qualidade de vida e da saúde do trabalhador, atuando a partir das seguintes diretrizes: I. ampliação das ações de saúde e segurança do trabalho (SST), visando a inclusão de todos os trabalhadores brasileiros no sistema de promoção e proteção da saúde; II. Harmonização das normas e articulação das ações de promoção, proteção e reparação da saúde do trabalhador, instituindo um Plano Nacional de Saúde e Segurança do Trabalhador, pactuado entre os diversos órgãos do Governo e da sociedade civil; III. Adoção de medidas especiais para medidas laborais de alto risco; IV. Precedência das ações de prevenção sobre as de reparação, produzindo assim uma redução dos custos com a saúde do trabalhador; V. Estruturação de Rede Integrada de Informações em Saúde do Trabalhador; VI. Reestruturação da Formação em Saúde do Trabalhador e em Segurança no Trabalho e incentivo a capacitação e educação continuada dos trabalhadores responsáveis pela operacionalização da PNSST; e VII. Promoção de Agenda Integrada de Estudos e Pesquisas em Segurança e saúde do Trabalhador (Ministério da Saúde, 2012).
O PNSST deve ser operacionalizado a partir de ações articuladas, desenvolvidas pelos Ministérios do Trabalho e Emprego, da Saúde e da Previdência Social (idem). Após um ano de implementação do PNSST, o governo federal propõe um programa nacional, no intuito de efetivar as propostas apresentadas. Assim, o governo federal montou uma comissão tripartite (com representantes do governo das áreas da Previdência Social; Trabalho e Emprego; Saúde;
e representantes dos trabalhadores e dos empregadores), com intuito de revisar e ampliar as propostas do PNSST (Brasil, 2013).
Além do PNSST, o governo federal também aprovou a Política Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário (PNSSP) (instituída pela Portaria Interministerial n.°1.777/03), que discorre sobre a assistência à saúde da população prisional do Brasil, tendo como diretrizes: Prestar assistência às necessidades de saúde da população penitenciária; contribuir para o controle dos agravos à saúde da população penitenciária; implementar ações em consonância com os princípios e diretrizes do SUS; estabelecer parcerias a partir de ações intersetoriais; contribuir para a democratização do conhecimento do processo saúde/doença, da organização dos serviços e da produção social da saúde; provocar o reconhecimento da saúde como um direito da cidadania; e estimular o exercício do controle social (Brasil, 2005).
De acordo com a PNSSP, o público carcerário brasileiro deve ter acesso a serviços de prevenção, promoção, e tratamento dos agravos à saúde, variando de acordo com o tamanho da unidade prisional. Em unidades prisionais com até 100 presos, a atenção deverá ser oferecida pelos serviços de saúde pertencentes às secretarias estaduais e municipais de saúde, já em unidades com número de presos superior a 100, deverá existir equipe mínima composta por médico, cirurgião dentista, enfermeiro, psicólogo, assistente social e auxiliar de enfermagem (idem).
Apesar de todas essas diretrizes, aprovadas e publicadas nacionalmente, em todo Brasil apenas 219 equipes foram cadastradas (Brasil, 2006a). O PNSSP prevê ainda, o acesso a medicamentos em todas as unidades prisionais do país, tendo um profissional farmacêutico responsável por essa função (Brasil, 2005; 2006a). Além disso, em 2007 o Brasil aprovou o Plano Nacional de Política Penitenciária (PNPP) (Brasil, 2012), e dentre as medidas previstas está a realização de ações e construção de políticas específicas para os diferentes públicos, o que também não vem acontecendo em nosso país, muito menos no estado do Rio Grande do Norte. Apesar de focar nos detentos, as questões de saúde que atravessam os trabalhadores do
sistema prisional se adequam perfeitamente às políticas e ações propostas pela PNSSP. Além disso, dentre as diretrizes do PNSST temos a ampliação das ações de saúde e segurança do trabalho e a articulação das ações de promoção, proteção e reparação da saúde do trabalhador, o que justifica a ideia de articular as duas políticas (PNSST e PNSSP).
A atenção em saúde mental para os trabalhadores do sistema prisional tem sido, inclusive, sugerida por pesquisadores como Santos et al. (2010) e Rumin et al (2011). Este pesquisador aponta que, devido ao reduzido número de profissionais que atuam nas equipes de saúde de unidades prisionais, há uma sobrecarga de trabalho para profissionais como psicólogo e assistente social, o que faz com que a atenção psicossocial e o acolhimento ao processo saúde-doença sejam negligenciados nesses contextos (idem).
Embora válidos, os esforços empreendidos pelo governo em nada questionam nosso atual modelo jurídico-penal e penitenciário. Ao fazerem isso, reafirmam a tese de que o encarceramento é uma estratégia válida, que, sem bem planejado, pode surtir os efeitos desejados no combate ao crime. Assim, criam-se políticas e programas que pretendem amenizar o caos, dando mais um sopro de vida ao modelo jurídico/penitenciário que demonstra sua falência há centenas de anos. São os “enxugadores de gelo”.
Ao tratarmos de saúde/saúde mental dos profissionais de segurança pública, não é possível dissociar o assunto de nossa atual política de encarceramento. O cárcere é parte do problema, muito mais do que solução. O adoecimento de agentes penitenciários está diretamente ligado ao nosso modelo penitenciário, como pretende demonstrar essa tese18. Acredito, particularmente, que só será possível falar em saúde mental (quer seja de presos, quer de agentes penitenciários) em uma sociedade sem prisões.
Segundo dados do Ministério da Saúde (Brasil, 2013), entre policiais e bombeiros, o índice de estresse subiu para aproximadamente 51% entre 2006 e 2011, o que alerta para a
relação saúde mental-trabalho, sobretudo entre os profissionais de segurança pública (além dos já citados dados referentes aos agentes penitenciários).
Nesse sentido, a presente pesquisa acontece em momento fecundo de nossas políticas e ações governamentais, possibilitando a produção de informações relevantes, capazes não apenas de subsidiar programas “enxugadores de gelo”, mas, principalmente, questionar nosso sistema jurídico-penal, materializado nas atuais práticas de encarceramento.
4.2 Os agentes penitenciários do Presídio Estadual de Parnamirim/PEP: descrição geral