Mas na virada do século a infância chega a ser considerada como direito inato de cada pessoa, um ideal que transcende a classe social e econômica. Inevitavelmente, a infância veio a ser definida como uma categoria biológica, não um produto da cultura. Assim, é uma fascinante ironia verificar que, durante esse mesmo período, a ambiência simbólica que deu vida à infância começou a ser desmontada vagarosa e imperceptivelmente (POSTMAN, 2011, p. 81).
Se a infância foi concebida pela sociedade, por ela mesma também começou a desaparecer. Para discutir o começo do fim da infância, devemos destacar a evolução tecnológica dos processos comunicacionais e evocamos o telégrafo de Samuel Finley Breese Morse, responsável pela primeira mensagem elétrica pública e que nos
68
legou uma tecnologia com ideias escondidas, ou seja, a mensagem vinha cifrada. Embora parecesse um veículo neutro, sem interesse por uma visão própria de mundo, o telégrafo mudou o caráter da informação de pessoal e regional para impessoal e global. (Neste ponto, cumpre acentuar que, como vimos, a internet e as redes sociais também fazem algo da ordem do impessoal e do global). Antes do telégrafo, as mensagens dependiam de uma pessoa para ser entregues. Além disso, essa tecnologia superou a palavra escrita e a impressa, eliminando o estilo pessoal e a individualidade com sua simultaneidade, instantaneidade e linguagem ritual. Como distribuidor de notícias, o telégrafo foi ainda o responsável por transformar a informação em mercadoria de valor mundial; ela deixava de ser um bem pessoal, contribuindo com a indústria jornalística. Criou também um mundo de fatos jornalísticos descontextualizados, em que as diferenças regionais eram irrelevantes. Ampliando o presente instantâneo e simultâneo, disparou um processo que tornava a informação incontrolável, gerou um público e um mercado para a notícia fragmentada, descontínua e essencialmente prescindível, fortíssima característica da imprensa atual. Fato é que a notícia deixou de ser seletiva e se tornou inutilizável, o que engendrou uma nova definição de inteligência: o que se sabe é mais importante do que a utilidade daquilo que se sabe.
A invenção de Morse deflagrou um processo de usurpação do controle da informação da família e da escola, seguido por outras invenções mecânicas, eletrônicas e gráficas como a máquina fotográfica, a prensa rotativa, o telefone, o fonógrafo, o cinema, o rádio, a televisão e a internet, que representam um enérgico golpe à leitura e à linguagem, uma reelaboração do mundo das ideias em ícones e imagens com a velocidade da luz.
69
Assim, além da comunicação elétrica, a emergência de um mundo simbólico de desenhos, cartazes, anúncios e estampas, também concorreu, e muito, para abalar a leitura, a linguagem e o controle da informação. E, se a infância dependia do controle da informação, da aprendizagem sequencial e do jogo de esconder informações, então esse golpe a atingiu igualmente.
Todavia, parece-nos que a televisão uniu uma revolução gráfica e elétrica, e, embora a linguagem seja ouvida e às vezes tenha importância, é a imagem que domina a consciência do telespectador e comporta os significados. Isso acontece com todas as pessoas, independentemente de idade, interesses ou grau de instrução. Não se lê a televisão, nem mesmo se a escuta muito: a televisão se vê, e o que se vê são imagens dinâmicas em constante e acelerada mudança: 1.200 imagens por hora, caracterizando um meio pictográfico mais que linguístico. Num programa televisivo, uma tomada dura de 3 a 4 segundos; num comercial, entre 2 e 3. Não requer de quem vê nem demorada decodificação analítica, nem concepção, apenas reconhecimento de padrões e percepção.
A televisão oferece uma alternativa bastante primitiva, mas irresistível, à lógica linear e sequencial da palavra impressa e tende a tornar irrelevantes os rigores de uma educação letrada [...]. Ver televisão não só não requer habilidade alguma como também não aprimora habilidade alguma (POSTMAN, 2011, p. 93).
A televisão destrói a linha divisória entre infância e idade adulta de três maneiras, todas ligadas a sua acessibilidade indiferenciada: porque não requer treinamento para apreender sua forma, porque não faz exigências complexas nem à mente, nem ao comportamento, e porque não segrega seu público. Com a ajuda de outros meios eletrônicos não impressos, a televisão recria as condições que existiam nos séculos XIV e XV (POSTMAN, 2011, p. 94).
70
O ambiente mediático atual não retém segredos e, sem eles, não há infância. Os programas de televisão, principalmente os diários, tratam de assuntos políticos, econômicos, ecológicos e sociais, mas também de sexualidade, promiscuidade, incesto, doenças terminais, criminalidade e outros tantos segredos da vida adulta, sem nenhuma seletividade.
Assim, no ar 24 horas por dia, a televisão precisa constantemente de material para manter ou aumentar sua audiência, numa competição intensíssima, e suscita nos espectadores uma ânsia incontrolável de novidades, lançando mão de todos os tabus culturais com uma dinâmica imagética que não demanda nenhum esforço analítico. E as crianças veem tudo o que ela mostra porque é um meio de comunicação que não impõe restrições físicas, econômicas, cognitivas ou imaginativas de nenhum tipo. E, se não há segredo, a linha divisória entre adulto e criança é tênue.
Embora o vasto cardápio de canais de televisão a cabo ou via satélite, por adesão e assinatura, procura oferecer alternativas à grade de programação aberta, adequando programas e canais a determinados públicos, mas também essa adequação, ou esse escalonamento, serve igualmente à indústria do consumo e ao capitalismo desenfreado. Em paralelo, percebe-se que a internet e as redes sociais também cumprem, de alguma forma, o papel de comparecer com informações diversas, instantâneas, de alhures, conquistando a aprovação dócil e o uso indiscriminado por parte do usuário.
Em contrapartida, podemos pensar que, não diferenciando a sensibilidade infantil da do adulto, esse ambientes informacionais fundem as duas etapas, fazendo desaparecer também a idade adulta. Há diversas evidências da diminuição da diferença entre infância e idade adulta: na própria televisão, como no cinema, a adultificação das crianças; o desaparecimento da roupa infantil, de um lado, e os adultos usando peças do
71
mundo infantil, de outro; a linguagem dos jovens influenciando o mundo dos adultos; os jogos infantis não supervisionados desaparecendo, bem como a concepção infantil de brincar por brincar; os filmes de animação, as histórias em quadrinhos, antes considerados diversão infantil, hoje atraem todas as idades, enquanto a sexualidade, a violência e a marginalidade envolvem pessoas cada vez mais jovens.
Bettelheim (1980) afirma que as crianças precisam acreditar que os adultos controlam seus impulsos para, assim, terem a concepção clara do que é certo ou errado. Nessa perspectiva, mesmo num ambiente glocal bunkerizado, a criança passa a ter, via
internet e seus demais aparatos tecnoinformacionais, escancaradas as questões “escusas”
da vida adulta – degenerações, inépcia moral, violência, vulnerabilidade, fraquezas e imperfeições –, uma vez que não se esconde nada e nada é misterioso ou atemorizante.