Em face do intenso aumento de migrantes venezuelanos, especialmente em 2016, que gerou uma crise migratória em Roraima, e da falta de preparo do Estado brasileiro para lidar com esse cenário, muitas violações que atentam contra a dignidade humana e os direitos humanos estão sendo cometidas contra estes indivíduos.
Diante disso, a DPU, por meio do GT Migrações e Refúgio, procurando proteger os direitos destes grupos vulneráveis, e com a ajuda de parceiros, iniciou seu trabalho em favor desses estrangeiros, coletando informações junto a pessoas da sociedade civil que estão em contato direto com esses migrantes, a fim de identificar as dificuldades enfrentadas por eles e planejar uma resolução.
Dentre alguns dos problemas relatados, destacou-se a deportação e a demora no agendamento para a solicitação de refúgio junto a Polícia Federal, uma vez que as marcações estavam ocorrendo em datas superiores a um ano do agendamento. Constatou-se, ainda, a
63 ausência de uma política social que tratasse da questão migratória em apreço e a deficiência técnica de agentes públicos para lidar com tal situação120.
Com o propósito de mitigar as dificuldades enfrentadas por esses grupos, o GT levou tais questões para reuniões com a Polícia Federal local e o Gabinete de Gestão Migratória instalada pelo Governo de Roraima, buscando obter soluções. Ademais, a DPU, a fim de instruir os agentes públicos, notadamente os que estão em contato direito com esses migrantes, enviou cópias do Manual de Regularização Migratória, elaborado pelo GT Migrações e Refúgio, a ONGs, secretarias de assistência social, Universidade Federal de Roraima e Defesa Civil, com o intuito de esses agentes promoverem o melhor acesso à informação a esses indivíduos e encaminhá-los aos órgãos competentes. A DPU, contou também, com o apoio da ACNUR, que forneceu cartilhas sobre os direitos dos refugiados no Brasil e o procedimento de refúgio, as quais foram distribuídos com os manuais121.
Destarte, percebe-se que a DPU, constatando os entraves burocráticos à regularização dos migrantes e a dificuldade destes para ter acesso à informação, adotou, dentro de suas possibilidades, medidas extrajudiciais, almejando promover a garantia dos direitos dessas pessoas de forma mais rápida e, talvez, mais eficiente, do que se tivesse imediatamente recorrido à via judiciária.
Além disso, ainda em defesa dos direitos dos migrantes venezuelanos, a Defensoria Pública da União impetrou o Habeas Corpus Coletivo nº 64478720164014200, que tramitou na 4ª Vara Federal de Roraima, para evitar a deportação de centenas de venezuelanos. Sucede que, na madrugada do dia 09 de dezembro de 2016, foi realizada uma operação de controle migratório na cidade de Boa Vista, com a finalidade de identificar, deter e expulsar, de forma sumaríssima, migrantes venezuelanos em situação idocumentada. Em decorrência dessa operação, 450 migrantes venezuelanos, em sua maioria indígenas Warao, foram colocados em detenção migratória enquanto esperavam para serem deportados. Essas pessoas, entre elas jovens e crianças, foram alojadas na sede da Polícia Federal, sem que fosse permitido que expusessem suas condições individuais e coletivas nem que estabelecessem qualquer contato com organizações da sociedade civil que pudessem ofertar-lhes assistência jurídica122.
120 (DPU), Defensoria Pública da União. Concurso de casos de litigância estratégica em Direitos Humanos.
Grupo de Trabalho Migrações e Refúgio, p. 5-6.
121 Ibidem. p. 6.
122 (OEA), Organização dos Estados Americanos. CIDH expressa preocupação com a situação de pessoas
migrantes venezuelanas e conclama os Estados da região a implementar medidas para sua proteção. 25
64 Observa-se que as medidas mencionadas violaram, claramente, os direitos humanos dos migrantes venezuelanos, ante a insensibilidade do Estado com a situação humanitária desses grupos, não tendo sido respeitado o direito fundamental ao contraditório e à ampla defesa, agora previsto expressamente pela nova legislação migratória no art. 51, quando do procedimento da deportação.
Percebe-se que, mesmo sob a vigência do Estatuto do Estrangeiro, a Defensoria Pública da União cumpriu seu papel estabelecido pela Lei de Migração, a qual prevê a atuação deste Órgão no sentido de promover o contraditório e a ampla defesa dessas pessoas (art. 51, § 1º). Nota-se, portanto, a importância das novidades trazidas pela nova lei quanto à atuação da DPU e do trabalho desta para a efetivação dos valores estabelecidos pela Lei nº 13.445/2017.
Diante de tais circunstâncias, a DPU, então, impetrou o referido HC, sustentando que tal medida afrontava não só a Convenção Interamericana de Direitos Humanos, mas também os valores consagrados pela Constituição Federal, aplicados aos estrangeiros, como o devido processo legal, cuja tese foi acolhida pelo Tribunal Regional da 1ª Região, determinando-se o direito de permanência dos migrantes venezuelanos no Brasil até decisão final proferida no processo administrativo em que seja assegurado o devido processo legal123.
O trabalho da DPU, a propósito, foi considerado positivo pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos124, a qual reconheceu a "importância das medidas empreendidas pela Defensoria Pública da União e a decisão do Tribunal Federal como medidas exemplares para salvaguardar os direitos humanos das pessoas migrantes venezuelanas".
A partir disso, o Grupo de Trabalho Migrações e Refúgio da Defensoria Pública da União procurou iniciar um diálogo com o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Trabalho e diversas ONGs, com o fito de provocar o Estado brasileiro a se posicionar quanto à situação migratória dessas pessoas e para evitar a ocorrência de novas deportações em massas no país. Foi elaborada, então, uma recomendação ao CNIg, na qual se sugeriu a
123 (DPU), Defensoria Pública da União. CIDH elogia atuação da DPU em caso de deportação de
venezuelanos. 30 jan. 2017. Assessoria de Comunicação Social da DPU. Disponível em:
<http://www.dpu.def.br/noticias-defensoria-publica-da-uniao/233-slideshow/35299-cidh-elogia-atuacao-da-dpu- em-caso-de-deportacao-de-venezuelanos>. Acesso em: 06 nov. 2017.
124 (OEA), Organização dos Estados Americanos. CIDH expressa preocupação com a situação de pessoas
migrantes venezuelanas e conclama os Estados da região a implementar medidas para sua proteção. 25
65 criação de um Grupo de Trabalho que se articulasse no sentido de propor alternativas125 capazes de efetivar a regularização migratória dos indivíduos venezuelanos.
Em resposta à recomendação, o Conselho Nacional de Imigração editou a Resolução Normativa nº 126, de 02 de março de 2017, segundo a qual é permitida a concessão de residência temporária, pelo prazo de até dois anos, ao estrangeiro que ingresse no território brasileiro por meio terrestre e seja nacional de país fronteiriço, para o qual ainda não esteja em vigor o Acordo de Residência para Nacionais dos Estados Partes do MERCOSUL e países associados126.
Isto posto, é evidente que essas iniciativas da DPU, conjuntamente com o MPF e outros órgãos, revelam uma importante conquista para a promoção da regularização migratória, harmonizando-se com os valores estabelecidos pela Constituição de 1988 e pelos tratados internacionais por esta aceitos, bem como com os princípios e as garantias prescritas pela nova Lei de Migração, destacando-se o princípio da promoção da regularização do migrante, imposto por esta. Aliás, essa conquista revela-se um enorme passo para a concretização dos direitos humanos desses indivíduos, uma vez que a condição regular do migrante é imprescindível para o acesso deles ao mercado de trabalho formal, à educação, aos serviços públicos, dentre outros direitos.
Nesse ínterim, ressalta-se que o trabalho da Defensoria Pública da União não se finda na promoção da regularização migratória, mas vai muito além disso, pois é papel da Instituição garantir a efetiva fruição dos direitos fundamentais preconizados pela Lei Maior a esses indivíduos vulneráveis.
Portanto, ainda em defesa dos migrantes venezuelanos, a DPU e o MPF propuseram Ação Civil Pública127 postulando a dispensa do pagamento das taxas cobradas
125 Mais especificamente, essas alternativas deveriam englobar as seguintes situações: i) Regularização da
situação migratória de venezuelanos que não sejam solicitantes de refúgio ou que não desejam pedir proteção através deste instituto; ii) Acesso célere ao procedimento de regularização migratória, com acesso à CTPS, durante a tramitação do procedimento; iii) Acesso a uma residência provisória, por 2 (dois) anos, nos moldes do que ocorre no Acordo de Residência do Mercosul e Estados Associados (Decreto n° 6975/2009); iv) Possibilidade deconvalidação da permanência após o período de 2 (dois) anos, durante o qual a situação política da Venezuela pode se alterar, diminuindo a importância deste modelo de regularização migratória. (DPU), Defensoria Pública da União. Concurso de casos de litigância estratégica em Direitos Humanos. Grupo de Trabalho Migrações e Refúgio, p. 7.
126 Art. 1º Poderá ser concedida residência temporária, pelo prazo de até 2 anos, ao estrangeiro que tenha
ingressado no território brasileiro por via terrestre e seja nacional de país fronteiriço, para o qual ainda não esteja em vigor o Acordo de Residência para Nacionais dos Estados Partes do MERCOSUL e países associados. (CNIg), Conselho Nacional de Imigração. Resolução Normativa nº 126, de 2 de março de 2017. Dispõe sobre a concessão de residência temporária a nacional de país fronteiriço. Disponível em: < http://www.acnur.org/fileadmin/scripts/doc.php?file=fileadmin/Documentos/BDL/2017/11016>. Acesso em 06 nov. 2017.
127 A Ação Civil Pública pode ser consultada junto a Justiça Federal através do número 1000432-
66 pela União para a regularização da situação jurídica dos estrangeiros no País, o que está em consonância com a nova lei, já que esta firma como garantia do migrante a isenção de taxas mediante declaração de hipossuficiência128.
Para se ter uma ideia do óbice que é a cobrança dessas taxas à regularização de muitos migrantes, consoante o Conselho Nacional de Imigração, para obter acesso à residência temporária de dois anos é necessário o pagamento de taxas que totalizam R$ 311,22 (trezentos e onze reais e vinte e dois centavos)129, o que pode ser considerada uma quantia significante, tendo em vista a situação de vulnerabilidade em que se encontra a maioria desses indivíduos. Assim, essa cobrança tem inviabilizado a regularização de vários migrantes, e, consequentemente, muitos deles têm solicitado refúgio, sobrecarregando o Comitê Nacional para os Refugiados.
Diante de tais circunstancias, a Justiça Federal, então, determinou a isenção do pagamento das taxas cobradas para a concessão de residência temporária a migrantes venezuelanos que comprovadamente sejam carentes e tenham migrado por via terrestre ao Brasil, revelando-se outra importante conquista para concretização da garantia dos direitos desses indivíduos.
Também visando à efetivação desses direitos, mais especificamente do direito à educação, a DPU expediu ofício ao Ministério da Educação, expondo as dificuldades enfrentadas pelos migrantes venezuelanos para matricular seus filhos nas escolas de ensino público de Roraima. Ocorre que as Secretarias Estadual e Municipal de Ensino estão exigindo a tradução dos documentos escolares necessários das crianças venezuelanas, por tradutor juramentado e, também, sua legalização por autoridade brasileira na Venezuela, exigências estas exageradas, especialmente considerando-se a vulnerabilidade dessas pessoas e a impossibilidade de retorno delas ao seu país de origem por razões humanitárias. Dessa maneira, a DPU tem buscado o apoio de outros órgãos com o fito de solucionar tal conjuntura130.
128 Art. 4o Ao migrante é garantida no território nacional, em condição de igualdade com os nacionais, a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, bem como são assegurados (...)XII - isenção das taxas de que trata esta Lei, mediante declaração de hipossuficiência econômica, na forma de regulamento.
129 (MPF), Ministério Público Federal. MPF/RR e DPU querem isenção de taxa e garantias de direitos aos
migrantes venezuelanos. 30 jun. 2017. Assessoria de Comunicação Social da Procuradoria da República em
Roraima. Disponível em: <http://www.dpu.def.br/noticias-roraima/38517-dpu-garante-isencao-de-taxa-de- residencia-a-imigrantes-venezuelanos-no-brasil>. Acesso em: 07 nov. 2017.
130 (DPU), Defensoria Pública da União. Concurso de casos de litigância estratégica em Direitos Humanos.
67 Por fim, é válido destacar que a DPU e o MPF, inclusive, ajuizaram no dia 31 de outubro de 2017, uma ação contra o Governo do Estado de Roraima, pleiteando indenização por dano moral coletivo no valor de R$ 800.000,00 (oitocentos mil reais), em razão de uma “remoção forçada” de cerca de 400 migrantes venezuelanos de um acampamento na rua para um acampamento improvisado em um ginásio, os quais teriam sofrido diversas violações de direitos, consoante entendimento dos Órgãos federais autores131.
Destarte, à vista da exemplificação do trabalho da Defensoria Pública da União, frisando-se, claro, sua parceria com outros órgãos, assinala-se que muitas providências adotadas pela DPU, ainda sob a égide do Estatuto do Estrangeiro, harmonizam-se com os princípios, as garantias e os direitos trazidos pela Lei de Migração, cumprindo, assim, seu papel constitucional, e verifica-se o quão é importante a atuação desta Instituição para a proteção dos migrantes e a efetivação dos valores apregoados pela nova legislação migratória. Tal atuação, é corroborada pela tratativa dada pela DPU aos migrantes haitianos, buscando a regularização e a proteção dos direitos deles, sobre o que se passa a examinar.