BÖLÜM 5 : BULGU VE YORUM
5.4. Okul Dışı Alan ve Gelecek Perspektifi
5.4.1. Öğrencilerin Serbest Zaman Faaliyetleri
Para além do método dos jesuítas, o Plano de estatutos, redigido por Cenáculo, elegeu um outro inimigo. Também condizentemente com a ideologia pombalina, os franciscanos repudiaram as doutrinas mais radicais da Ilustração. Nele se afirma que o professor de Religião Revelada deveria proceder pela “impugnação do Materialismo, do Spinozismo e semelhantes absurdos”.289 Essa orientação já deixava claro que o ensino de ciências não poderia ser fundado
286 João Carlos Pires Brigola. Colecções, Gabinetes e Museus..., p.426-431; Rui Morais. A Coleção de Lucernas
Romanas do Museu de Évora. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011.
287 Francisco António Lourenço Vaz. Instrução e economia..., p.305-307.
288 Manuel do Cenáculo. Estatutos da Biblioteca Pública de Évora. In: D. Manuel do Cenáculo: Instruções
Pastorais, Projetos de Bibliotecas e Diário. Introdução e Coordenação Editorial de Francisco António Lourenço Vaz. Porto: Porto Editora, 2009, p.74-75.
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em bases não religiosas. Quando trata do ensino de Física (“ontologia e pneumatologia”), estipula-se que a finalidade principal é o entendimento dos “Assuntos Eclesiásticos”. Para instruir os alunos “com as Noções precisas, para que eles no Curso Teológico saibam entender-se na Física Sacra”, deveria o professor fazer uso dos “diversos Monumentos do Mundo Físico, que houver no Museu do Convento”.290
Já nos referimos a esse museu no item anterior. Trata-se do gabinete constituído pelo Frei José Mayne no Convento de Nossa Senhora de Jesus, com colaboração de Cenáculo. Pelo que fica inferido dos escritos de Mayne de quando concebeu o curso de História Natural Teológica (1792) – como veremos adiante – os artefatos naturais eram divididos conforme a taxonomia dos três reinos (vegetal, mineral e animal). Isso se confirma pela descrição do gabinete feito por Geoffroy Saint-Hillaire (1772-1844) feita no contexto da invasão francesa de Portugal. A partir de seus relatos, pode-se depreender que a coleção seguia genericamente os padrões científicos da época, sendo dividida entre fósseis, minerais e vegetais.291
A mesma classificação foi possivelmente a adotada por Cenáculo para a Naturalia, coleção de história natural do Museu Sisenando Pacense (Beja) e do Museu de Évora, que projetou a partir do momento em que foi eleito Arcebispo de Évora (1802). Da coleção que provavelmente lhe pertenceu, existem objetos naturais dos três reinos da natureza.292 Porém, não se tem certeza acerca de quais foram adquiridos por Cenáculo, tendo sido algumas peças doadas posteriormente ao seu arcebispado. Em 1808, houve também os estragos à coleção em função da invasão francesa à Évora, o que dificulta também o conhecimento do que havia lá antes.293
Muito se discute a respeito do caráter dos museus organizados por Cenáculo, podendo o mesmo debate ser estendido ao museu do Convento de Jesus. Desde o Renascimento, os gabinetes de curiosidades reuniam, lado a lado, os objetos da naturalia e da artificialia. Privilegiava-se a exposição daquilo que era compreendido como raro ou exótico, de maneira a demonstrar a excelência da obra de Deus. É diferente do moderno museu de história natural que
290 Disposições do Superior Provincial..., p.6-7. 291
João Carlos Pires Brigola. Colecções, Gabinetes e Museus..., p.418-419.
292 Ana Luísa Janeira e Alexandra Nascimento. A Naturalia do Museu de Évora e a História das Ciências em
Portugal. In: Ana Luísa Janeira. Curiosidades de Frei Manuel do Cenáculo. Évora: Diana Litográfica do Alentejo/Cat Books, 2007.
293 Luís Miguel Pires Ceríaco e João Carlos Pires Brigola. Colecionismo naturalista na Évora do século XIX: as
coleções como fundamento da teologia natural no discurso de frei Manuel do Cenáculo. In: Heloisa Meireles Gesteira, Luís Miguel Carolino e Pedro Marinho (orgs.). Formas do Império: Ciência, tecnologia e política em Portugal e no Brasil e no Brasil. Séculos XVI ao XIX. Paz e Terra: Rio de Janeiro-São Paulo, 2014, p.276-278.
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começa a se instituir no decorrer do século XVIII. Este se caracterizou pela organização racional e científica de coleções entendidas como a materialização de uma ordem intrínseca da natureza.294 Segundo João Carlos Brigola, uma das diferenças é que o gabinete estava associado
ao colecionismo privado, enquanto que a ideia de museu, difundida na Ilustração, as coleções passaram a ser pensadas como públicas.295 Do que se conhece das coleções franciscanas, aparentemente os museus/gabinetes partilhavam de características desses dois modelos. É nesse sentido que Ana Luísa Janeira e Alexandra Nascimento defenderão que o colecionismo de Cenáculo se encontra na “transição entre o colecionismo ingênuo e o colecionismo científico, pois, ainda que assente na memória dos Gabinetes de Curiosidades, já denuncia a tendência para uma organização racional dos objetos científicos, com uma expressão próxima do Iluminismo”.296 A atividade colecionista era vista como forma de exibir a produção natural de Deus, e pensada de acordo com uma dimensão pública, tal qual idealizou Cenáculo.
Tendo os franciscanos a intenção de mostrar ao público os próprios objetos naturais criados por Deus, os museus eram concebidos justamente o palco sagrado por onde a divindade se manifestava. O Frei José de São Lourenço do Vale afirmou que “o estudo do Museu é o estudo de todas as ciências, para conhecermos a Deus e sua religião (...). Em um Museu há uma ciência que encerra todas as outras. (...) É um labirinto de encanto em que a razão se acha e a alma se ilustra, e a religião triunfa”.297 Da mesma forma, os discursos de Cenáculo também se filiavam à teologia natural, dado que procurava-se a demonstrar a existência de Deus por meio da observação e do uso da razão.298
Evidentemente, havia a precedente tradição de pensamento franciscano sobre a natureza, da qual Cenáculo é tributário. A identificação da natureza a Deus remete ao do pensamento de João Escoto Erígena.299 Desde os primórdios, os franciscanos adotaram uma atitude valorativa em relação ao mundo natural, a começar pelo próprio Francisco de Assis. Seu biógrafo, Tomás de Celano, relatou sua compaixão em relação aos “animais privados de razão”, especialmente
294 Lorelai Brilhante Kury e Carlos Ziller Camenietzki. Ordem e natureza: Coleções e cultura científica na Europa
Moderna. Anais do Museu Histórico Nacional. Rio de janeiro, v.29, 1997.
295
João Carlos Pires Brigola. Colecções, Gabinetes e Museus..., p.367-368.
296 Ana Luísa Janeira & Alexandra Nascimento. A Naturalia do Museu de Évora..., p.61.
297 Frei José de São Lourenço do Vale. Oração do Museu dita a 15 de Março de 1791. Apud João Carlos Pires
Brigola. Colecções, Gabinetes e Museus..., p.425.
298 Luís Miguel Pires Ceríaco e João Carlos Pires Brigola. Colecionismo naturalista na Évora do século XIX...,
p.282.
299 Pedro Calafate. A ideia de natureza no século XVIII em Portugal (1740-1800). Lisboa: Imprensa Nacional-
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quando neste animal pudesse encontrar alguma semelhança alegórica com Jesus (exemplo: o cordeiro). No mesmo sentido ia a narrativa feita por Boaventura sobre Francisco.300 Essa atitude valorativa da natureza por parte de Francisco e dos franciscanos, segundo Jaime Cortesão, ensejou uma verdadeira revolução dentro do cristianismo. De “espírito liberal e tolerante”, teriam sido eles os responsáveis por aproximar o homem da divindade e da natureza, diferenciando-se, assim, de dominicanos e jesuítas, ardentes defensores da autoridade.301
Aceitando os princípios da teologia natural, Cenáculo e Mayne ressaltaram em seus discursos a existência de um inimigo a ser combatido: os autores identificados a teses “radicais” da Ilustração. Aqui, novamente ecoamos a interpretação de Jonathan Israel das Luzes, pensando Cenáculo e Mayne dentro do quadro de referências do “Iluminismo moderado”. Os museus que idealizaram são voltados ao convencimento do público do erro que as ideias libertinas constituíam, por meio da exposição da “obra de Deus”. Nos próximos itens, abordaremos as iniciativas (não somente relacionadas a museus) que idearam para atender a esse objetivo.
3.3 Frei José Mayne: o curso de História Natural Teológica contra as “Novas Filosofias