A partir dos anos 2000, Medeiros tem a RCIM como atividade própria, o que lhe possibilita elaborar seu pensamento sobre essa prática e explicitar suas particularidades. Então, pôde definir a Rítmica Corporal como a vivência dos parâmetros musicais no corpo e no espaço, por meio de deslocamentos, uso de materiais e timbres corporais. O corpo aprende esses conceitos musicais de maneira prática, pelo fazer corporal. Considera que a vivência de aprendizagem corporal dos parâmetros musicais auxilia na compreensão de outras formas de estruturação no espaço-tempo, as quais trabalham necessariamente com proporção, assimetria, simetria, duração e dinâmica. Para Medeiros, a aprendizagem mediada pela ação corporal facilita a compreensão de conceitos musicais abstratos como pulso, apoio, duração, intensidade e ritmo. Ainda que utilizando um discurso dualista, ela afirmou:
Porque existe uma defasagem do que o cérebro, a mente concebe, compreende ou acha que compreendeu e o que o corpo responde quando recebe aquela ordem. Então, acho que, de certa forma, você junta a sua compreensão intelectual com a sua compreensão corporal (MEDEIROS, 2010b).
Com o objetivo de aproximar a compreensão intelectual da corporal, sua proposta de
Rítmica Corporal visava, principalmente, “ficar no presente”, sempre consciente do que
aconteceu antes e do que acontecerá depois (MEDEIROS, 2010b). É um trabalho de percepção do tempo que focaliza a simultaneidade entre passado recente, presente e futuro
imediato. Qualquer distração pode retirar o participante do momento presente. “Se você
distrai, você se perde. Eu acho que é até mais próxima de uma meditação. Você tem que ficar
naquilo. Você não pode abrir mão daquilo que você está experimentando” (MEDEIROS,
2010b).
Como afirma Medeiros, a RCIM que ela propõe é um conjunto de exercícios cuja finalidade, mais que trabalhar musicalização, é propiciar a consciência do tempo presente. Nada é decorado. Nem para o professor, nem para o aluno. O professor não se prende ao próprio planejamento da aula e, de modo análogo, a diretora do GOM cria com os atores na
experiência da RCIM. “Preparo um procedimento básico e vou crescendo e ampliando”
(MEDEIROS, 2010b). O aluno deve ficar atento a toda sorte de variações que um mesmo exercício possibilita e que são sugeridas pela professora-propositora.
A RCIM visa “[...] desenvolver essa atitude de estar ali presente no momento, porque
eu faço exercícios que vão ficando tão complexos que eu mesma, se eu não ficar presente, eu
erro. Não são fáceis de decorar” (MEDEIROS, 2010b). Para Medeiros a meta não é
aperfeiçoar um exercício e fazê-lo de maneira perfeita. Procura aperfeiçoar a compreensão, o ato de compreender, associando a compreensão analítica das partes com a percepção do todo. Ao promover variações nos exercícios, ela visa estimular ao máximo o potencial de compreensão dos praticantes. Há uma demanda continuada de raciocínio e tomada de decisão, além de atenção e memória de trabalho. Para tanto, considera indispensável o praticante despojar-se de qualquer outro pensamento durante a prática de RCIM e experimentar o aqui e agora.
Medeiros ressalta que não visa a um padrão específico de compreensão, deixando que os praticantes façam da maneira como compreenderam e consigam aos poucos, no seu próprio tempo, experimentar a tarefa. A sua aposta está em propiciar contínuos desafios para o grupo. Considera fundamental que os praticantes percebam o quanto ainda não sabem ou dominam daquele exercício. Essa consciência do que falta é o que possibilita o aprendizado (MEDEIROS, 2010b).
Trabalha com esse tipo de exercício por julgar que ativam a inteligência, a percepção e aceleram a tomada de decisões (MEDEIROS, 2010b). Dessa maneira, o praticante fica mais ativo, com mais capacidade para lidar com os imprevistos de uma cena polifônica como a do GOM, na qual não adianta apenas decorar as ações corporais, aprender os caminhos. É fundamental saber tanto do caminho quanto do que há em torno dele, para onde está indo e de onde partiu. Esse conhecimento das relações espaço-temporais passadas, atuais e futuras refere-se à simultaneidade temporal mencionada neste texto como presente amplificado.
Pode-se pensar a RCIM como processo de formação e de prática, mais do que como treinamento, pelo fato do treinamento geralmente ser associado ao objetivo de acertar. Mas nesta tese o treino é compreendido como propõe Yuasa (1987), significando cultivo de si próprio, ou seja, disciplina e coordenação do corpo-mente e incremento da personalidade. A RCIM é vista como prática do cultivo da continuidade corpo-mente e ambiente por meio da experiência. Além disso, a prática significando um fazer corporal levará, seguramente, à formação no sentido de aprendizado.
Afirma que o pulso e sua percepção são a base de sustentação do aprendizado de Rítmica Corporal. A percepção do pulso leva à percepção da métrica musical e à noção de precisão. Quando a métrica é vivida em conjunto, todos experimentando um mesmo pulso, pode também aflorar a percepção do coletivo. A partir do pulso comum, Medeiros desenvolve
as organizações como agrupamentos e formas usando apoios, deslocamentos, percussões corporais e uso de material. A ação é que organiza o tempo.
A participação criativa do aluno é requerida com improvisações nas quais se buscam possibilidades de organização espaço-temporal, sempre levando em consideração a importância dos elementos-surpresa, que são imprevistas modificações na estrutura inicial. Na RCIM, o aspecto lúdico resulta das variações propostas pelo professor, que geram desafios constantes, mas também do desejo dos alunos de experimentar e resolver desafios de coordenação rítmico-motora e espacial.
Se, no início da década de setenta, trabalhava priorizando canções com acompanhamento do piano em aulas de musicalização para crianças, bem à maneira de Gainza, a partir do final dos anos 1990 sua proposta define-se por organizações numéricas associadas a deslocamentos ordenados no espaço. Enquanto o piano e as canções suscitam uma afetividade mais imediata, devido ao apelo melódico e harmônico, os números propiciam um trabalho de percepção da métrica, do ritmo musical, ou seja, de possibilidades de organização no tempo. Assim, a RCIM é um exercício de percepção dos diversos modos de organização temporal e espacial a partir de combinações numéricas (MEDEIROS, 2010b).
Destaca que as habilidades trabalhadas são a coordenação motora, a harmonia de movimento ─ devido à relação espaço-temporal implícita na RCIM ─ e a rapidez de resposta corporal. Essa resposta corporal compreende a continuidade mente-corpo no sentido de que o corpo reage porque compreendeu por meio da atenção, do raciocínio, da memória de trabalho, e da competência em promover ações musculares coerentes com a tarefa.
Além de considerar fundamental o exercício de manutenção da atenção no presente, Medeiros salienta que é necessário buscar precisão motora e temporal, reproduzir exatamente a proposta de exercício rítmico e manter o foco no exercício. Os alunos de RCIM são alertados para não se acomodarem na própria realização da tarefa, para não copiar o colega, mas não deixar de aprender com ele, e também para não perder o fluxo do pulso.
Outra característica de sua proposta, como foi dito, é a importância de aprender a lidar com o erro. A propositora da RCIM afirma que as pessoas estão condicionadas a acertar sempre, principalmente na escola e na educação familiar. Para Medeiros, o erro é fundamental no processo de aprendizagem em arte (2010b).
A Rítmica é um exercício de paciência. Você tem que se dar um tempo para o seu corpo ensinar aquilo para você. É você com você mesmo. E às vezes demora um pouco mais. Tem que ter uma certa humildade para lidar com próprio erro. Entendendo e fazendo ele seu (MEDEIROS, 2010b).
Desse modo, o erro pode levar ao exercício de autoconhecimento, desde que se tome consciência das próprias dificuldades. E ainda pode promover a habilidade de criação, ao provocar novas resoluções no momento da prática.