A inserção dos alunos em atividades práticas na APS desde o início da graduação os coloca em contato com a complexidade de se atuar na ESF. Alguns egressos afirmam que muitos estudantes quando começam a graduação possuem uma visão distorcida com relação ao campo de prática dessas disciplinas, e tal concepção passa por transformações e ressignificações a partir da vivência desses discentes na rotina da UBS como é relatado pelo profissional a seguir:
“... eles chegam aqui com uma visão distorcida que vai ser um mês sacal,
de que vai ser um mês só vendo escabiose e remédios de verme e na verdade não é isso, - não têm ideia de como é a prática na ABS. Não têm ideia e aí, depois do terceiro mês de internato, quando eles saem, muitos deles já saem pensando em talvez fortalecer a atenção primária, porque
eles viram a importância disso...” (Profissional 5).
As disciplinas do módulo de ABS devem procurar evidenciar para o estudante que a APS se constitui num cenário de integração de práticas das diferentes áreas, campos e núcleos de conhecimento (ciências básicas, especialidades médicas e saúde coletiva), e por isso possui uma complexidade clínica e cultural que permitirá ao estudante lidar com diferentes aspectos da vida e seus ciclos, atuando em nível individual e coletivo, num agir sempre contextualizado em relação à realidade do território. Essa visão que muitos discentes apresentam, de que o trabalho na APS é sacal, restrito a condutas terapêuticas simples, ou até uma visão de que ao chegarem a UBS irão se deparar com uma “terra devastada” parece comum, como é apontado no relato abaixo:
“... a formação que não ajuda também, não prepara a gente pra conhecer
essa realidade, a gente chega meio que sem conhecer essa realidade. Vou dar um exemplo de uma aluna do internato que passou por mim, ela tem interesse em psiquiatria e é meio integrada com a ABS. Ela, no pr imeiro dia aqui, trouxe luva, abaixador de língua, álcool gel, até sabão ela trouxe e disse que é porque passaram pra ela que aqui no SF era como uma terra devastada, uma situação de guerra, que não tinha nada, ela até se espantou quando viu que tinha sistema com computador, impressora. Ela já era do internato e estava saindo ainda com essa visão da sala de
É importante fortalecer desde o início da graduação e sustentar ao longo do curso a ideia da APS como um território de práticas complexas, a fim de desconstruir visões distorcidas e restritas que alguns discentes ainda detêm. Trata-se de deixar claro que o território da ESF é riquíssimo, e mesmo que não apresente a estrutura física ideal, ele continuará a ser rico em sua diversidade e complexidade de ações em equipe.
Deve-se mostrar aos discentes durante as disciplinas de ABS, em sala de aula e no território, que essa prática evoca no estudante uma compreensão da rede intersetorial de atenção e cuidados em saúde, estimula uma prática clínica integrada, possibilitando a interdisciplinaridade. Apontar que, ao lidar com condições e problemas complexos e singulares de saúde, de forma contínua e longitudinal, há um aumento da resolubilidade clínica.
Como afirma Demarzo et al, a vivência na APS deverá contribuir para conceituar a saúde e o adoecimento, respeitando o saber do outro e o da comunidade local, tendo, nesse diálogo de saberes, a concepção de que o conhecimento é dinâmico e está sempre em construção. A articulação de conhecimentos e realidades favorece o desenvolvimento da competência cultural e dialógica na comunicação em saúde (DEMARZO et al, 2011).
Pinto, Formigli e Rêgo também enfatizam a necessidade de inserção e vivência dos alunos na rede de serviços do SUS como uma das principais estratégias para a formação de um profissional médico mais adequado às necessidades de saúde do país; isso, independentemente das diferentes estruturas curriculares das escolas médicas do Brasil (PINTO, FORMIGLI & RÊGO, 2007).
Alguns egressos entrevistados pontuaram que traziam da graduação muito mais do que as incompreensões e visões distorcidas da APS como já citado; carregavam também o medo de estar em contato com a realidade das comunidades durante a visita domiciliar como é evidenciado no relato abaixo:
“... na disciplina de Fundamentos, que foi a primeira, a gente conheceu a
Unidade de Saúde, foi até lá no Pirambu. Lá, tive contato com a visita domiciliar. Era um pânico grande, visita domiciliar já assustava a gente. Tinha um impacto maior porque eu era recém-chegado à faculdade,
fomos então pro território, as aulas eram na UBS, e a gente foi conhecer a rotina da unidade, vivenciamos a visita domiciliar, atendimento,
vacina...” (Profissional 6).
Esse medo em fazer visita domiciliar, tal como apontado pelos estudantes, pode começar a ser desconstruído, em parte, na própria sala de aula, quando o docente ambienta os alunos acerca do local que irão conhecer, do modo como funciona o serviço de saúde do lugar, e da forma como trabalha a equipe. Nessa circunstância, deve-se salientar que o momento da visita domiciliar evoca a relação do aluno com as famílias e, desse contato, poderá surgir um dos aspectos mais importantes no trabalho da ESF: o estabelecimento do vínculo entre profissional de saúde e família, a construção da relação de confiança, fundamental para o cuidado integral e longitudinal na APS.
O temor que os alunos relatam em relação à visita domiciliar pode, de um lado, ser amenizado na medida em que aconteça, em sala de aula, uma introdução sobre o território da APS. Por outro lado, esse sentimento de pânico diante do que é desconhecido vai se esvaindo ao passo que os alunos vão se inserindo na rotina das equipes de saúde e conhecendo a estrutura dos serviços; isso, aliado ao fato de terem um preceptor no território que facilite esse processo de ambientação. Dessa forma, os alunos já se sentem mais preparados a realizar a visita domiciliar, estão mais ambientados para exercerem suas atividades nos serviços de saúde e vencem o sentimento de temor como mostra o relato a seguir:
“... vejo o aluno do primeiro semestre vindo pra cá e saindo com os ACS.
Lembro dos ACS comentando que levam os alunos na área e tem que ser assim, tem que conhecer mesmo. É uma forma de sensibilizar e deles
perderem esse medo, medo do que não conhecem.” (Profissional 5).
A prática de muitos médicos ainda é centrada na doença e a educação em saúde ocorre com a utilização de abordagens educativas tradicionais, nas quais a cultura não é tomada como referência. Um egresso aponta como importante para sua formação a vivência no território durante a disciplina de Saúde Comunitária e em seu relato explicita a importância de o médico conhecer a cultura da comunidade na qual irá atuar:
“A disciplina Saúde Comunitária permitiu que a gente tivesse uma
fizemos uma vivência com a questão da formação clínica com as plantas medicinais, essa aqui ajuda, hoje eu encaminho os pacientes pra lá, bem
legal isso aí.” (Profissional 2).
Nesse sentido, é imprescindível desenvolver um processo educativo que reconheça a realidade cultural e os diversos saberes inseridos no contexto comunitário onde atuam as equipes da ESF, possibilitando a construção de novos conhecimentos. Isso requer uma concepção pedagógica onde o diálogo e o respeito pelo outro seja o referencial de atuação dos profissionais da saúde (SALCI et al., 2013).
Perguntou-se aos profissionais durante a entrevista se, para eles, o médico que a UFC forma está apto para atuar na APS e a maioria afirmou que sim, mas com algumas ressalvas, principalmente no que se refere a certa ênfase numa formação técnica, ainda marcada pelo modelo flexneriano, centrado no hospital, nas especialidades médicas, na visão fragmentada do indivíduo, como é descrito abaixo por um profissional:
“Geralmente a Federal é voltada pra especialistas em outras áreas, ela
se volta muito pra Atenção Terciária, em menor grau pra Atenção Secundária, em menor grau ainda pra Atenção Primária. A gente forma médicos que gostam de transplantar fígado, transplantar rim, vários ali que querem ser hemodinamicistas, mas poucos que querem trabalhar na
APS” (Profissional 7).
Essa percepção nos leva a refletir sobre o que é o cuidar em saúde. As profissões da área da saúde possuem o cuidado como uma de suas atribuições. O cuidado encerra muito do educar. Esse educar deve ser compreendido para além da esfera dos conhecimentos entendidos apenas como disciplinas científicas. É importante considerar que educar diz respeito a estimular o raciocínio, o senso crítico e a curiosidade, assim como a desenvolver valores e contribuir para o exercício da cidadania (MOHR, 2011). Essa reflexão sobre o cuidado para produzir e resgatar cidadãos se aprofunda no discurso abaixo:
“... nossa formação ainda é muito tecnicista, no sentido de não formar
pra um resgate de cidadão, a gente não pensa no sistema de saúde como um resgate de cidadania, resgate de sujeitos, a gente ainda pensa muito na análise de sintomas, ou seja, não chega na ponta do iceberg, e eu penso que isso não só pra medicina mas diversas categorias. a gente no
máximo trabalha de uma forma multidisciplinar...” (Profissional 4).
Com essa reflexão o médico aponta que a graduação em medicina deve estar comprometida em formar profissionais que exerçam a cidadania, rompendo com a formação médica flexneriana, que se restringe, na maioria das vezes, à análise da doença e dos sintomas.