As TIC são não apenas ferramentas necessárias para as aulas dos cursos virtuais de línguas estrangeiras, mas também são recursos didático-pedagógicos essenciais para o desenvolvimento, implementação e expansão gradual de um novo modelo de EPV, que pode ser constituído por um grupo de estudantes num entorno virtual ou numa sala de aula física, ou ainda, estudantes conectados individualmente em casa (RUBIA; GUITERT, 2014). As diversas experiências em desenvolvimento em vários países demonstram que há potencial para a implantação de um modelo híbrido de aprendizagem coletiva fundamentado na interação presencial-virtual e não mais no aprendizado caótico das salas físicas com grandes turmas, como há nas escolas públicas de São Paulo.
É necessário ponderar que a mera criação pela Secretaria de Educação de cursos não presenciais para ensino de língua estrangeira que utilizam tecnologias e sistemas convencionais de ensino a distância (EAD), ou então, a mera introdução de uso regular de recursos de multimídias nas salas de aula não resolverá os problemas didático-pedagógicos crônicos, apontados em diversos trechos da dissertação. Um sistema de ensino não presencial nunca será a modalidade mais adequada para ensino-aprendizagem, se optar por manter os alunos em estruturas solitárias de aprendizado, sem que haja recursos disponíveis para a interação e as trocas de informações, tanto com o professor, como com os demais alunos.
Hoje há diversos recursos que permitem desenvolver novas estratégias interativas e imersivas de ensino-aprendizagem de língua estrangeira. Há inúmeros ambientes no ciberespaço que disponibilizam incontáveis acervos audiovisuais. A TV digital tornou-se uma nova plataforma produtiva de inúmeros conteúdos audiovisuais que também são convergentes e poderão incorporar os diversos recursos de interatividade. Assim, as tecnologias e os aplicativos digitais permitem a multiplicação de gadgets que podem incrementar habilidades específicas no aprendizado de língua estrangeira para as crianças e os adolescentes que poderão ser adquiridas até com o uso cotidiano da internet como uma ferramenta de comunicação e também dos games durante os momentos de entretenimento.
Não é possível entender a evolução do ensino-aprendizagem de línguas e dos sistemas educacionais, sem estabelecer um diálogo interdisciplinar entre a educação, a comunicação e as suas tecnologias produtoras e difusoras de sentidos culturais (MAGNONI, 2001). Os Meios de Comunicação de Massa (MCM) ao longo dos séculos 20 e 21, se transformaram nos principais instrumentos modeladores das culturas nacionais e também dos interesses internacionais. Nos dias atuais, a cibercultura é depositária do desenvolvimento tecnológico, e também, de toda sorte de modificações culturais, que causam profundas transformações nos nossos hábitos cotidianos de pensar, de viver e, claro, de aprender. Entretanto, no caso específico da educação em contexto de relações e de cultura coletiva cada vez mais mediadas, parece que está ocorrendo uma mera transposição da maneira tradicional de ensinar, uma transferência superficial e apressada das formas antigas de ensino-aprendizagem presenciais, para a rede mundial de computadores, com os seus diversos dispositivos multimidiáticos.
Ainda persistem muitas dificuldades para tornar factível nos processos educacionais, tudo aquilo que é discutido a respeito dos potenciais do ciberespaço, como instrumento de ensino-aprendizagem. Na visão de Magnoni (2001, p. 408)
Algumas limitações que aponto em diversos projetos brasileiros de teleducação são efeitos indesejáveis que já estão entranhados nas concepções e nas políticas nacionais de educação. Elas só poderiam ser definitivamente sanadas numa sociedade menos desigual e excludente que o atual modelo dependente de capitalismo que vigora em nosso País. Num sistema educacional verdadeiramente universal e democrático será possível incorporar todos os recursos disponíveis para que haja formação presencial e por teleducação, de nível básico e superior, para todos os brasileiros que necessitarem da Escola Pública.
Um possível fim do abismo digital nas escolas públicas do estado de São Paulo e a inclusão de um novo modelo de EPV na atual era da sociedade da informação e do conhecimento podem mudar a percepção de que a internet permanece alterando apenas o mercado de trabalho e as grandes corporações, com o anúncio de negócios bilionários e a oferta de produtos massificados.
Durante a investigação conceitual e o trabalho de campo nas escolas E.E. Marta Ap. H. Barbosa e no CEL Christino Cabral em Bauru, houve o cuidado de buscar exemplos concretos para poder avaliar algumas práticas de ensino com o uso de TICs e de refletir teoricamente sobre os diversos usos dos ambientes de educação presencial-virtual nos diversos sistemas de educação públicos e privados, que existem no Brasil. Já há a clareza, que em muitos casos, a introdução e os usos das TICs em escolas, faculdades e em universidades servem apenas como ferramentas de atualização burocrática de antigas fórmulas, concepções e metodologia de ensino-aprendizagem, elas não apresentam mudança significativa nos modos de ensinar dos docentes e nem diferenciam tanto as formas de aprendizado dos alunos.
No ensino privado, o uso das TIC tem servido prioritariamente para reforçar o apelo e a imagem mercadológica das instituições e não como instrumentos efetivos de inovação educacional (MAGNONI; FERNANDES, 2012). Finalmente, a inserção dos professores nos novos ambientes tecnológicos não pode ser resumida a uma perspectiva de aprendizado do mero manejo das máquinas e de programas digitais. Então, advoga-se pela necessidade de desenvolver as percepções interdisciplinares mais abrangentes e críticas sobre as concepções de ensino-aprendizagem, sobre as práticas e as possibilidades concretas de uso dos recursos oriundos do universo digital virtual.
CAPÍTULO 3