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O fazer artístico está associado a vários fatores que o definem na forma do conteúdo e da expressão. Lukács (2010) trata a questão discutindo os vieses de uma arte livre ou dirigida. Tratando da obra boaliana e, em especial, da escritura proposta neste trabalho, esta abordagem da arte e suas intenções individuais e sociais ampliam as possibilidades de análise da escrita literária. Os artistas do passado não eram totalmente livres, pois se orientavam: “[...] segundo os critérios da classe social à qual pertenciam, ou por nascimento, ou pelas convicções adquiridas ao longo da vida” (LUKÁCS, 2010, p. 269). Numa arte dirigida, os artistas estão sujeitados aos modos de pensar de uma coletividade.

O que pretendemos desconstruir é a ideia de representação que vê a arte como espelho de algo chamado de real e defende que embora a arte esteja direcionada a um público específico, ou emoldurada por um tema de interesse geral, o artista verdadeiramente autêntico nunca deixa de ser autêntico, ao produzir nesta direção.

Esta liberdade do artista solicita concepções modernas do político. Ele poderá expressar-se por meios estranhos à sociedade à qual faz parte e agir à margem desta sociedade. Todavia, o indivíduo se distancia dos rumos coletivos deixando à subjetividade as escolhas estéticas. Assim sendo, o artista, mesmo sendo parte dessa sociedade, sempre se valeu do impulso criativo próprio e das escolhas pessoais. Um fazer artístico em consonância com os temas atuais da sociedade vai desencadear também manifestações que estarão associadas às ações transgressoras ou pacificadoras de um sujeito histórico. Ora, a singularidade do artista se, por um lado, está cercada pelos interesses e formas de agir do grupo que ele faz parte, por outro lado, não haveremos de negar que este mesmo artista é livre nas suas inquietações pessoais, que poderão vir ao encontro ou desencontro da vontade coletiva.

A arte dentro de um regime socialista/comunista, como foi o caso da RDA e da sua reverberação na esquerda brasileira e nos artistas simpatizantes, foi motivo de

muitas críticas, principalmente, quando a liberdade do artista é compreendifdada como mecanismo de proliferação capitalista. Um paraíso das possibilidades artísticas como produtos mercadológicos88. Essa é, sem dúvida, a contradição que polemiza o político. A RDA proclamava uma literatura otimista, não dialética. Como disse Röhl (1997, p. XIV), canonizava o “modelo literário que privilegiou – reprodução mimética, onisciente, sem rupturas -, modelo este cunhado na literatura da época do realismo burguês […]” E, como disse Brecht, ao criticar a banalidade do sistema: trata-se de um “conteúdo novo em vasilha velha”.

Nelson Rodrigues e Boal, o segundo influenciado pelo primeiro, são exemplos concretos de escritores que se posicionam entre um ponto de vista social, político, literário livre, diretivo e diretivo-livre, como parece ser o que se pode ter como perspectiva. Nenhum artista é totalmente livre. Artistas ou não, nós somos sempre, de alguma forma, parte de uma ordem comunitária. Nenhuma forma de pensamento está totalmente livre. Emancipação, como tratamos, aqui, é sempre um por vir, assim como o devir-democrático, inalcançável. Querendo ou não, somos parte de contextos sociais. A favor ou contra, refletimos e reproduzimos as ideologias, assim como os meios de produção. Logo, a ideologia age para transformar os indivíduos em sujeitos, através de uma operação denominada de interpelação (ALTHUSSER, 1985).

Quando estudamos Boal, somos arrebatados para uma forma marxista do teatro, pois seu discurso acerca da liberdade e da emancipação está emoldurado por palavras de ordem que direcionam e reafirmam regras.

Augusto Boal, como disse Nelson Xavier (Depoimento SNT - Serviço Nacional de Teatro - RJ, 1975; LIMA, 2014), foi discípulo de Nelson Rodrigues e tinha uma

88 Sobre este assunto, Lukács poderá esclarecer sobre as ideias de abertura e liberdade da arte em um país mobilizado por um sistema comunista e que vive as consequências de uma guerra fria. No caso do Brasil, não se tinha um governo “esquerdista”, mas os movimentos sociais e alguns partidos tinham como referência as experiências políticas da União Soviética, as mesmas que orientavam o partido na Alemanha Oriental. “Quanto mais o sistema capitalista se desenvolve plenamente, tanto mais a nova liberdade se torna absoluta cessando qualquer sujeição temática; a liberdade total de invenção torna-se, na realidade, uma servidão. As relações diretas entre os diferentes gêneros e seu público desaparecem; em outras palavras, desaparece a interação entre dimensões, a estrutura, o modo de apresentação etc. e um gênero concreto, determinado, da receptividade. Também aqui, tudo é abandonado à invenção pessoal do artista; a nova liberdade da arte é total (para a obra dramática, o contato subsiste na aparência. Ao mesmo tempo em que o teatro se torna uma empresa capitalista, que o público frequenta unicamente para se divertir, perde-se em grande medida a influência concreta e fecunda do teatro sobre a forma dramática e transforma-se numa indústria literária particular; por seu turno, a obra dramática torna-se autônoma no curso do século XIX, o que não lhe é favorável: nasce assim a obra dramática feita para ser lida).” (LUKÁCS, 2010, p. 272-3 grifo do autor).

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visão rígida da dramaturgia. Organizou os seminários de dramaturgia, mas se manteve firme, buscando uma eficácia dramatúrgica. Segundo Nelson Xavier:

Muitos foram se afastando, criticando a liderança do Boal como uma visão rígida e unilateral da dramaturgia contemporânea. Só restou mesmo no seminário o pessoal do próprio Arena, que apoiou e acompanhou Boal na sua proposta de uma dramaturgia mais eficaz tecnicamente e mais realista no seu conteúdo e, principalmente, mais autenticamente brasileira na sua forma. Claro, Boal tinha sido discípulo de Nelson Rodrigues e vinha de um estágio nos Estados Unidos, onde estudou no Actor's Studio do Lee Strasberg.

A dramaturgia sempre foi uma função de interesse de Boal. Não o conhecemos apenas como diretor, criador de teorias teatrais, mas, sobretudo, como criador e pesquisador da escritura teatral, do romance, do conto, da crônica. Não foi à toa que, no final dos anos cinquenta, foi um dos organizadores dos seminários de dramaturgia.

As crônicas de Boal foram escritas no início dos anos setenta, quando esteve exilado nos países sul-americanos. Uma escrita ligeira, no jogo do teatro-jornal, trazia o movimento dos fragmentos jornalísticos, das histórias do povo, à peça teatral, ao conto, às crônicas. Estas produções foram enviadas ao “Pasquim” que, neste início de década, estava com seus organizadores centrais envolvidos com o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). De uma forma ou de outra, na escritura ou na cena, e mesmo exilado, Boal sempre procurou os meios de manter as suas ideias políticas em evidência. Isto está claro na produção literária e teórica que sistematizou ao longo da vida em sua práxis teatral na América Latina e na Europa. As escolhas dos assuntos e a maneira de tratá-los na literatura dramática indicam as suas opções políticas.

Logo no início do texto dramático O homem que era uma fábrica, numa conversa informal de botequim, o leitor é situado no ambiente do conflito. A partir daí desenrolam-se as questões posteriores que são nada mais, nada menos, que um destrinçamento temático. O tema como assunto de interesse geral. São assuntos que o autor, como parte de um grupo social e político, elege como necessários para serem lembrados e debatidos por um número maior de pessoas.

BONIFÁCIO – Pra qualquer lugar! Eu vou embora pra qualquer lugar! Pra onde tiver trabalho e comida!

JESUALDO – Mas está tudo pior que nós. É que você não lê o jornal direito, mas eu estou por dentro. Tá todo mundo querendo ir embora dos outros países também. E a gente que está aqui fica com a impressão de que os outros estão melhores do que nós, mas não é assim, não e não.

BONIFÁCIO – Melhor do que aqui, até o inferno deve ser. E lá pelo menos deve fazer menos calor.

JESUALDO – Os uruguaios estão todos atravessando o rio e indo morar em Buenos Aires. Tudo quanto é argentino está se mandando pro México. Tem mexicano as pampas indo trabalhar na Venezuela por causa do petróleo. Tá todo mundo querendo mudar de país pensando que o seu é pior e pensando que encontra um paraíso em algum lugar, mas não encontra não. Tá tudo a mesma porcaria na América inteira, rapaz, tudo igual.

BONIFÁCIO - Mas que paraíso coisa nenhuma. Eu quero só um país onde exista trabalho e comida.

JESUALDO – Aqui tá ruim, é verdade. Mas a tendência é melhorar. Inda mais agora que descobriram petróleo…

BONIFÁCIO – Ih, rapaz, então agora sim é que vão piorar… Eu vou me mandar…

JESUALDO – Mas pra onde você vai?

BONIFÁCIO – Pros Estados Unidos. Que nem todo mundo, que nem esses caras aí… (Mostra os companheiros de bar) Tá todo mundo se mandando pra lá. Eu vejo pelos filmes, rapaz. Só tem cara gordo, sadio, todo mundo mede mais de um metro e noventa, as mulheres são loiras, rechonchudas, têm uns peitinhos lindos, as crianças já nascem dando um sorriso: “Bom dia mamãe!” Tudo colorido, um arco- íris; os Estados Unidos, pra mim, parece até filme de Walt Disney. HOMEM – Mas é bom não ficar fazendo muita fantasia. Esse negócio de mulher loira e homem de dois metros é só pra eles, com a gente a coisa é diferente. Pra nós eles pagam só metade do salário, viu? Trabalha a mesma coisa e às vezes até mais, mas ganha metade só.

Neste trecho inicial, os problemas relacionados à exploração do trabalho mal remunerado e ao desemprego geram a demanda emigratória. As condições precárias de sustentação das pessoas causam o êxodo para outras cidades e países. Parece ser um problema migratório geral. Cada grupo está insatisfeito com a sua realidade.

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O lugar desconhecido parece acenar à possibilidade de que somente lá, na incerteza, se vive melhor. A procura por vistos para trabalhar nos Estados Unidos aumenta de tal maneira que, em cima desta demanda, se criou outros mecanismos de geração de renda.

O texto dramático é recheado de pequenos temas como um complexo temático, embora possua um tema que se define como central. Os temas menores, ou subtemas, estariam nas passagens do discurso, como já foi mencionado anteriormente: o desemprego, a saúde pública, a exploração do trabalho. O que prevalece no texto é a crítica social, especificamente, a crítica à mídia. Através da propaganda, até os excrementos humanos podem ser vendidos. De forma ingênua, o protagonista encontra a forma capitalista de ser, ou seja, o maquínico o faz reterritorializar-se. O excremento fecal torna-se produto, e lhe é anexado um valor comercial. A procura por um produto de qualidade torna o excremento um fetiche. No sistema capitalista, a mídia emprega um valor a qualquer coisa. Transforma-a em mercadoria, em benefício da ideologia dominante. E é por esta fissura no sistema da máquina que a máquina-Bonifácio, ao se acoplar, se transforma numa máquina de produzir fezes. De modo que Bonifácio não se junta à imprensa “esquerdista”, mas se deixa levar pelo fluxo, e vai se formando no sistema mercadológico e midiático. Ele também é aquele que não sabe dizer não, como Galy Gay que sai à procura de peixes e termina entrando numa tropa militar onde passa a ser mais uma “bucha de canhão da guerra”. Digamos que este personagem seja um tipo anti-herói. Um ato político dos fracassados, dos derrotados, dos “sem saída”.

Benzer Belgeler