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Os personagens são muito mais que agentes do enredo: são formas sintéticas de vida e, como tal, possuem vivências, comportamentos e opiniões próprias. Criar personagens interessantes é desafiador, pois é a partir deles que os leitores se interessarão pela narrativa quadrinizada. Os personagens desencadeiam processos de identificação no público, sensibilizando-o ao expor-lhe seus anseios, suas dores, seus prazeres e suas atitudes frente aos

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Entendo por enredo universal, dentro da construção de uma narrativa, aquele que aborde desejos, sentimentos e problematizações que, ao menos em potência, atingem qualquer ser humano em qualquer era de sua existência enquanto ser inteligente e sensível. Frustrações e êxitos diante de um objetivo, paixões, dor e prazer físicos e psicológicos, atração sexual, a chegada inexorável da morte etc., são coisas que afetaram, afetam e afetarão, embora em graus variados, cada indivíduo de nossa raça, independentemente de especificidades contextuais.

142 obstáculos que surgem diante de seus objetivos. Em Crônicas de Tacanhópolis: Samuel, optei por dar origem a personagens redondas, isto é, dotadas de características psicológicas aprofundadas, capazes de mudar de atitude de acordo com os acontecimentos.

O primeiro personagem que comecei a desenvolver, cujo nome está no título do trabalho prático, é Samuel, que, a princípio, seria simplesmente um jovem habitante de Tacanhópolis com hábito de leitura, entristecido por causa da ignorância indiferente das pessoas pelos grandes textos literários, dos quais aprendeu a gostar ainda cedo, por conselho de familiares de sua estima.

Esse personagem principal, a meu ver, precisava de um amigo aproximadamente da mesma idade, porém menos informado/interessado sobre literatura, para reforçar o fato de que a geração de Samuel havia crescido desconhecendo que Tacanhópolis, outrora Visionópolis, fora um centro de efervescência cultural. Era necessária também a criação de outro amigo, bem mais velho, que vivera ativamente aqueles prolíficos períodos artísticos da cidade, para servir como uma testemunha viva de que a metrópole já fora uma vez tomada por numerosos movimentos culturais.

Enquanto trabalhava as características psicológicas e físicas desses três personagens, imaginei que poderia ser interessante se eu criasse mais um, com a função de contraponto — alguém que sempre houvera morado em uma cidade que produzisse e admirasse sua própria literatura e, ao chegar (por algum motivo qualquer justificado no roteiro) a Tacanhópolis, estranhasse bastante o desinteresse das pessoas pela arte, ainda mais pela literária. Ainda senti a necessidade da existência de um quinto e último personagem, mais misterioso do que os anteriores, que detivesse um tipo “conhecimento secreto” para justificar o porquê de tanto desdém dos tacanhopolitanos por qualquer manifestação artística de cunho autoral. Desenvolvi, então, o primeiro esboço de cada um desses personagens, relacionando essas características, de certo modo, à sua aparência física (fig. 81).

Trabalhando durante cerca de duas semanas, apurei o visual de cada personagem, atribuindo uma palheta de cores diferente para cada um, numa razoável coerência com suas características psicológicas, que já vinham sendo igualmente comparadas e decididas. Cheguei, enfim, aos pontos que desejava para o enredo que eu tinha em mente; desse modo, os personagens de Crônicas de Tacanhópolis: Samuel se constituem, em linhas gerais, conforme as descrições a seguir:

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Samuel (fig. 82): tem 22 anos e é o protagonista. É o livreiro responsável pela

Livraria Bandeira, um dos poucos espaços para leitura remanescentes em Tacanhópolis, com um acervo considerável de obras literárias do mundo inteiro (destacando-se as dos autores da antiga Visionópolis, cujas criações foram banidas da sociedade pelos orquestradores do Grande Golpe). Sua bebida preferida é o vinho tinto, que ele gosta de apreciar tanto sozinho quanto em companhia de seus melhores amigos, Sérgio e Seu Fernando, no Bar do Ponto. No momento, ele se encontra muito triste: a população da cidade, desinformada e desinteressada pelo seu trabalho, enxerga apenas os livros “enlatados” de esoterismo e auto-ajuda da Editora Mortadello, monopolizadora do mercado editorial no país. Por falta de público e de dinheiro, e não sabendo o que fazer para mostrar às pessoas as riquezas oferecidas por um bom livro, ele se vê ameaçado a fechar a livraria, extinguindo um histórico espaço cultural e se privando da dedicação ao seu maior amor: a literatura. Pesa-lhe, também, a falta de uma companhia feminina. Seus maiores desejos, além de ter seu trabalho como livreiro mais reconhecido

144 pelas pessoas, é poder fazer com que elas percebam o prazer de adquirir conhecimento através da leitura.

Sérgio (fig. 83): um dos melhores amigos de Samuel. Tem 25 anos, emprega um

linguajar razoável de palavras chulas e é grande apreciador de cerveja. É um publicitário com habilidades de designer, que se encontra em começo de carreira. Apesar de esforçado, não gosta das pressões que sofre em seu trabalho na Agência de Publicidade RNA (nem das peças que é obrigado a fazer). Definitivamente, não entende muito de livros nem de literatura — talvez ele nunca se interessado verdadeiramente por isso, mas se importa muito com o bem- estar de Samuel, e procura ajudá-lo a buscar soluções para seus problemas. Não se sabe quais são seus planos de vida, mas os desejos mais imediatos de Sérgio são: permanecer ao lado de seus amigos; arrumar um emprego que lhe satisfaça mais; e conseguir ficar com Júlia, uma das garçonetes do Bar do Ponto, lugar que ele também freqüenta muito.

Figura 82 - Samuel, o livreiro.

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Seu Eduardo (fig. 84): tem 64 anos. Leitor ávido, grande barman e proprietário

do Bar do Ponto, amigo de Samuel e Sérgio, é um dos poucos sobreviventes culturais do período pré-Grande Golpe, quando a cidade ainda se chamava Visionópolis. Na época, Seu Eduardo participara de movimentos literários e musicais de vanguarda com três amigos: Hugo, Mauro e Apolo. Acusados arbitrariamente de “comunistas subversivos” pelo regime ditatorial que se seguiu, todos eles foram presos e torturados. Ele e Apolo conseguiram escapar do cárcere, e se arriscaram a montar, clandestinamente, na Livraria Bandeira (que pertencia à família de Apolo), um acervo das obras proibidas pelos governantes, para tentar salvar o movimento literário da época e para homenagear os dois outros companheiros, mortos pelos agentes dos ditadores. Seu Eduardo se lembra, nostálgico, do quanto aquele período de efervescência artística fora importante para a vida da cidade e para sua própria formação. Embora tenha poucas esperanças que Tacanhópolis volte a valorizar a cultura como antes, ele acredita nos esforços de seus amigos Samuel e Simone em conservar as obras e divulgar a produção literária autoral dentro da cidade, antes que ela seja completamente sufocada pela publicidade da Editora Mortadello.

Lygia Drummond (fig. 85): aos 22 anos, a poetisa Lygia é a mais promissora

revelação literária da década, de acordo com a crítica especializada de sua cidade natal, Janeirópolis. Neste momento, ela começa a escrever um romance, vindo pela primeira vez a Tacanhópolis trazer os rascunhos para que sua amiga de longa data, Simone, faça revisões e lhe dê sua opinião. Habituada a conviver com uma sociedade que dá mais valor aos livros autorais, é provável que Lygia estranhe o desinteresse dos tacanhopolitanos, ainda mais quando eles têm ao seu dispor acervos como o da Livraria Bandeira. Embora Lygia não

146 pareça ambiciosa em demasia, seu sonho é se estabelecer como escritora, apesar das dificuldades do mercado.

Simone Calamus (fig. 86): moradora de Tacanhópolis, especialista e

colecionadora de obras literárias. Não se sabe ao certo sua idade. Ajudou Samuel na Livraria Bandeira depois que o empreendimento foi deixado ao rapaz por seu avô Apolo e por Seu Eduardo; e, ao lado do amigo livreiro, é a maior divulgadora da literatura autoral na cidade. Por algum motivo, o desprezo geral dos tacanhopolitanos pelos bons livros não abalou seu bom-humor e sua esperança de que a situação melhore. Apesar de sua grande simpatia e receptividade, ninguém descobriu, até este momento, como uma mulher aparentemente tão nova conseguiu ler tantos livros, saber tão profundamente dos movimentos culturais da antiga Visionópolis e conhecer pessoalmente tantos autores, mas todos atribuem isso à dedicação e à paixão que Simone demonstra ter pela produção literária.

Figura 85 - Lygia Drummond, escritora natural de Janeirópolis.

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Benzer Belgeler