Ao tratar da tipologia das decisões atípicas, teve-se a oportunidade de assentar que as sentenças aditivas são espécie de gênero mais amplo, qual seja o das denominadas decisões
manipulativas233 ou normativas, aqui identificadas como aquelas pelas quais a Corte
Constitucional atua de modo a transformar o ordenamento jurídico, valendo-se de uma operação interpretativa que julga inconstitucional determinada norma derivada conjuntamente do preceito impugnado (DÍAZ REVORIO, 2002, p. 184).234 Para tanto, o Tribunal pode se valer de formulações que se distinguem estruturalmente. A norma poderá ser inconstitucional por ter um alcance maior (sentenças redutivas) ou menor (sentenças aditivas) do que deveria ter ou, ainda, por possuir um conteúdo normativo diverso daquele que deveria comportar (sentenças
substitutivas) (FERNÁNDEZ SEGADO, 2011, p. 174; DÍAZ REVORIO, 2002, p. 184).235
232 No mesmo sentido, MARTÍN DE LA VEGA, 2003, p. 216: “Uma vez mais, contudo, o estudo do novo
fenômeno jurisprudencial tropeça com a dificuldade de se enfrentar a esse ‘dedalo, divernuto ormai inestricabile’ de classificações e subclassificações com que a literatura jurídica italiana intenta sistematizar a variedade de pronunciamentos da Corte” (tradução livre; no original: “Una vez más sin embargo el estudio del nuevo fenómeno jurisprudencial tropieza con la dificuldad de enfrentarse a ese 'dedalo, divenuto, ormai inestricable de clasificaciones y subclasificaciones con el que la literatura jurídica italiana intenta sistematizar la variedad de pronunciamientos de la Corte”).
233 O termo “manipulativa” foi cunhado por Leopoldo Elia, ex-presidente da Corte Costituzionale (1981-1985),
em artigo publicado na Rivista italiana de Diritto e procedura penale, em 1965, com o título “Divergenze e
convergenze della Corte costituzionale con la magistratura ordinaria in materia di garanzie difensive nell’instruzione somaria” (cf. FERNÁNDEZ SEGADO, 2011, p. 174; MARTÍN DE LA VEGA, 2003, p. 217, nota de rodapé 9).
234 O elemento transformador também está presente na concepção de sentenças manipulativas adotada por Martín
de la Vega (2003, p. 217-218).
235 É preciso assinalar que o termo “manipulativa” encontra certa resistência por parcela diminuta da doutrina, em
função da carga negativa que empresta (DELFINO apud MARTÍN DE LA VEGA, 2003, p. 218, nota de rodapé 10), o mesmo correndo com o uso do termo “normativa” (cf. posicionamento de MEYER, 2008, p. 39-40). As expressões serão tratadas aqui como sinônimas, sem maior incursão terminológica a respeito.
Numa acepção mais ampla, Carlos Blanco de Morais conceitua como manipulativas as “decisões jurisdicionais que determinam a modelação do sentido ou dos efeitos da norma submetida ao julgamento” (MORAIS, 2009, p. 17). Este conceito, no entanto, apresenta-se por demais amplo para o corte ora realizado, já que Morais inclui nesta categoria as chamadas
sentenças interpretativas de acolhimento (comumente, as sentenças de declaração parcial de nulidade sem redução de texto) e de rejeição (ou, de outro modo, as sentenças de interpretação conforme), aqui tratadas, todavia, como espécies do gênero distinto das sentenças interpretativas em sentido estrito. Por outro lado, a conceituação de Morais abarcaria, ainda, as
sentenças de modulação de efeitos, que são aqui deixadas na categoria de sentenças
interpretativas residuais.236
No âmbito das sentenças manipulativas, o Tribunal Constitucional realiza o que Sandulli chama de notomizzazione, isto é, uma análise minuciosa do texto legislativo e a explicitação dos conteúdos individuais para, a seguir, reconhecer a inconstitucionalidade de parte destes (SANDULLI, 1967 apud MARTÍN DE LA VEGA, 2003, p. 219-220).237 Se, pela lógica, tais pronunciamentos da Corte deveriam conduzir a uma redução do âmbito normativo, é também verdade que se percebe a possibilidade de tais decisões ampliarem positivamente o
conteúdo da norma ou alterarem-no significativamente. É por isso que essa atuação
transformadora da Corte revela, além das sentenças redutivas, sentenças de caráter aditivo e substitutivo (MARTÍN DE LA VEGA, 2003, p. 221).
No primeiro caso, das sentenças redutivas, como explica Díaz Revorio, tem-se as decisões “assinalam que o preceito é inconstitucional ‘na parte em que...’ ou ‘enquanto...’ prevê ou inclui ‘algo’ contrário à Norma Fundamental. Neste caso, a inconstitucionalidade não afeta ao texto, mas ao conteúdo normativo, que pode se considerar inconstitucional ‘por excesso’” (DÍAZ REVORIO, 2002, p. 184, tradução livre).238
As sentenças aditivas, mais adiante estudadas, caracterizam-se por um juízo de inconstitucionalidade parcial estruturado por uma fórmula do tipo “a norma X é inconstitucional
na parte em que não prevê...” ou “na parte em que exclui...” ou, ainda, “na parte em que não inclui...” algo que passa a ser acrescido pela decisão da Corte à norma original para torna-la
236 Para Carlos Blanco de Morais, a expressão sentenças manipulativas é usada para identificar o que aqui se
denominam sentenças interpretativas (vide item 3.2.2, supra).
237 A referência é feita a SANDULLI, A. M., Il giudizio sulle leggi. La cognizione della Corte costituzionale e i
suoi limiti. Milano, [s.n.], 1967, p. 61-62.
238 No original: "sentencias reductoras, que son las que señalan que el precepto es inconstitucional 'en la parte en
que...' o 'en cuanto...' prevé o incluye 'algo' contrario a la Norma Fundamental. En este caso, la inconstitucionalidad no afecta al texto, pero sí al contenido normativo, que puede considerarse inconstitucional 'por exceso'".
compatível com a Constituição (DÍAZ REVORIO, 2002, p. 185).239 As sentenças substitutivas, por sua vez, são caracterizadas pela transmudação do conteúdo normativo da lei. O Tribunal modifica o conteúdo da norma para adequá-lo à Constituição. A formulação estrutural, nesse caso, declara a inconstitucionalidade da norma “na parte em que prevê... ao invés de...”. A
respeito destas últimas, ensina Romboli:
As decisões substitutivas se caracterizam, ao contrário, pelo fato de que com elas a Corte declara a inconstitucionalidade de uma lei na parte em que prevê determinada coisa, ao invés de prever outra. A decisão substitutiva se compõe, portanto, de duas partes diferentes: uma que demole o conteúdo da disposição impugnada; outra que o reconstrói, através da qual a Corte dota a mesma disposição de um conteúdo diferente, em linha com os princípios constitucionais (ROMBOLI, 1996, p. 65, tradução livre).240
3.4.1.1 O Conteúdo Necessário das Sentenças Manipulativas
As sentenças manipulativas (ou, na expressão de Carlos Blanco de Morais, as sentenças
com efeitos aditivos) se caracterizam pela manifestação conjunta de dois elementos: um ablativo
e um aditivo, que operam conjuntamente na decisão sancionadora da inconstitucionalidade. A esse respeito, observa Morais:
Da caracterização dada de sentença com efeitos aditivos [...], é possível identificar no conteúdo de uma sentença dessa natureza, duas componentes dominantes, a saber: - uma componente ablativa, que supõe a eliminação ou desaplicação, em regra parcial, de uma norma jurídica, com fundamento na sua inconstitucionalidade;
- e uma componente reconstrutiva, que consiste na identificação de um critério jurídico de decisão passível de ser junto a uma norma ou ao segmento remanescente de um regime normativo, de forma a que se sejam criadas condições de conformidade do sentido recomposto da disposição normativa com a Constituição (MORAIS, 2009, p. 36.).241
Verifica-se, assim, que a decisão manipulativa é essencialmente complexa no sentido de promover uma dupla operação normativa: (i) a ablação, com a eliminação parcial do segmento normativo viciado de inconstitucionalidade; e (ii) a reconstrução do tecido normativo a fim de evitar o horror vacui, impelindo o juiz constitucional a colmatar os vazios causados
239 Neste caso, Díaz Revorio afirma que se trata de inconstitucionalidade “por defeito”, a fim de diferenciá-la da
inconstitucionalidade “por excesso” que ocorre no âmbito das sentenças redutivas.
240No original: "[l]as decisiones sustitutivas se caracterizan, por el contrario, por el hecho de que con ellas la Corte
declara la inconstitucionalidad de una ley en la parte en la que prevé una determinada cosa, en vez de prever otra. La decisión sustitutiva se compone, por tanto, de dos partes diferentes: una que demuele el contenido de la disposición impugnada; otra que lo reconstruye, a través de la cual la Corte procede a dotar a la misma disposición de un contenido diferente, en línea con los principios constitucionales".
pela ablação (FERNÁNDEZ SEGADO, 2011, p. 132). A diferença entre as espécies de decisões manipulativas se dá, essencialmente, (1) pela forma como dialogam esses dois componentes decisórios; e (2) pela fórmula estrutural adotada pelo juiz na declaração de inconstitucionalidade.