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Çift eksenli eğilme testi numunelerinin karakteristiklerinin nümerik simülasyonu

3. MATERYAL VE YÖNTEM

3.5. Deneysel Sonuçlar

3.6.2. Çift eksenli eğilme testi numunelerinin karakteristiklerinin nümerik simülasyonu

A palavra família possui diversos sentidos, talvez reflexo das transformações pelas quais esta instituição passou e vem passando ao longo da história.

Outra não é a observação de Zonabend300:

Família é um termo largamente empregado nos escritos acadêmicos e populares e não é fácil enumerar todos os seus significados. [...] A palavra família vem do latim, um derivado de ‘famulus’ (servente) e,

300 ZONABEND, F. Antropological Perpective on Kinship and the Family. in BURGUIÉRE, A. (Org.). A

portanto não descreve exatamente o que nós entendemos por família. Hoje o termo família cobre os vários grupos de parentes, todas as pessoas vivendo na mesma casa, todos os descendentes de um mesmo ancestral. Contudo, a extensão destes vários tipos de relacionamentos tem variado de lugar para lugar e de tempo para tempo.

Marlene Aparecida Wischral Siminionato e Raquel Gusmão Oliveira301

afirmam que o conceito de família é subjetivo, pois depende de quem a define, do contexto social, político e familiar em que está inserido.

Gough302, apesar de toda a dificuldade, assim define o termo família:

Um par casado ou outro grupo de parentes adultos que cooperam na vida econômica e na criação dos filhos, a maior parte dos quais, ou todos, residem em comum. Tal definição inclui toda a forma de vida em família baseada no parentesco.

Emile Durkheim303, famoso sociólogo do final do século XIX e início do século XX, afirma que a família é uma instituição social e não apenas um grupo natural. Esse sociólogo a entende como resultante dos fatos sociais, considerados objetivamente (como coisas). Por conseguinte, a família atual é o resultado de uma progressiva evolução, em que a grande família vem sendo comprimida, restringindo-se ao que hoje se chama família nuclear.

Lembra Rui Geraldo Camargo Viana304 que o ordenamento jurídico pátrio consagra a família com pluralidade de tipos (art. 226 CF/88): a nuclear, que abrange o casal e seus filhos, a monoparental, podendo ser incluída aí também a de origem celibatária, e a patriarcal, voltada à sucessão hereditária e a interesses comuns. Afirma o renomado jurista que a família não se fecha nas amarras da lei, pois engloba, ainda, a natural consangüínea, a resultante do casamento (afinidade) e os agregados pelo interesse e afeição, vivendo no lar comum.

301 WISCHRAL SIMIONATO, Marlene Aparecida e OLIVEIRA, Raquel Gusmão. Funções e

Transformações da família ao longo da história. I Encontro Paranaense de Pisicopedagogia – ABPppr – Nov./2003.

302 GOUGH, Kathleen; LÉVI-STRAUSS, Claude; SPIRO, Melford. A família - origem e evolução, Porto

Alegre: Editorial Villa Martha, 1980. apud NAZARETH, Eliana R. Guarda compartilhada e mediação familiar - a importância da convivência, in Guarda compartilhada, aspectos psicológicos e jurídicos, APASE - Associação de Pais e Mães Separados (org.), Porto Alegre: Equilíbrio, 2005.

303 DURKHEIM. Emíle. apud FRIEDRICH ENGELS. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do

Estado. 3 ed. Civilização Brasileira, p. 28 e ss.

304 CAMARGO VIANA, Rui Geraldo. A família e a filiação. 1996, p. 43-43. Tese para titular de Direito

Diante desse leque de configurações familiares, é muito difícil ao doutrinador captar-lhe a essência e elaborar um único conceito. Por isso, afirma Rui Geraldo que

(...) o conceito de família é polissêmico, tornando-se impossível uma definição que abranja o seu conteúdo genético, intuito social, aspecto moral e elastério, daí a necessária equivocidade ou fracionalidade dos conceitos definidores. 305

Por sua vez, Marcel Mauss assevera que “a família é um fenômeno

histórico e deve ser considerada como um fenômeno social total”, por conseguinte

não deve haver uma família em geral, mas tipos diversos desta, dentro da sociedade global.

Segundo Burgens e Rogers306,

(...) a família também pode ser conceituada como uma unidade de pessoas em interação, um sistema semi-aberto, com uma história natural composta por vários estágios, sendo que cada um deles correspondem tarefas específicas por parte da família.

Por fim, analisando as diversas concepções de família e suas próprias vivências familiares, Marlene Aparecida Wischral Simionato e Raquel Gusmão Oliveira307 percebem

(...) a família como um sistema inserido numa diversidade de contextos e constituído por pessoas que compartilham sentimentos e valores formando laços de interesse, solidariedade e reciprocidade, com especificidade e funcionamento próprios.

Bem antes, Friedrich Engels, em sua clássica obra “A origem da família, da

propriedade privada e do Estado”, ao estudar as fases clássicas da evolução da

cultura, Estado Selvagem308, Barbárie309 e Civilização310, afirma que a “evolução

da família consiste numa redução constante do círculo em cujo interior predomina

305 CAMARGO VIANA, Rui Geraldo. A família e a filiação. 1996, p. 194.

306 BURGENS; ROGERS apud ENSEN, I. Cuidado familial: uma proposta inicial de sistematização

conceitual. in ENSEN, I; MARCON, S.; SANTOS, M.R. dos (Orgs.). O viver em família e a sua interface com a saúde e a doença. Maringá: Eduem, 2002, p. 11-24.

307 WISCHRAL SIMIONATO, Marlene Aparecida e OLIVEIRA, Raquel Gusmão. op.cit., p. 57. 308Estado Selvagem: predomina a apropriação dos produtos naturais prontos para a utilização.

309 Barbárie: quando aparecem a agricultura e a domesticação dos animais e, conforme avançam as formas do

trabalho humano, incrementa-se a produção dos recursos da natureza.

310 Civilização: corresponde ao período da indústria, à elaboração cada vez mais complexa dos produtos

a comunidade conjugal entre os sexos, círculo este que originariamente abarcava a tribo inteira”. 311

Para o autor, no Estado Selvagem – infância do gênero humano –, a família corresponderia à estruturação por grupos, na qual cada homem pertencia a todas as mulheres e cada mulher pertencia a todos os homens. À Barbárie, corresponderia a família sindiásmica, caracterizada pela redução do grupo a sua unidade última que é o par, ou seja, o casal. Por fim, à Civilização, o modelo correspondente é o da monogamia, que se baseia no predomínio do homem e cujo objetivo expresso é o de procriação dos filhos e a preservação da riqueza através da herança. A família monogâmica não se baseava em razões naturais, mas econômicas, e representava o triunfo da propriedade privada sobre a propriedade comum primitiva.

Os sociólogos dividem a família em basicamente dois tipos: a extensa e a nuclear. A extensa diz respeito ao grupo de pessoas unidas por laços consangüíneos ou não, que vivem juntas ou próximas. Já a nuclear é entendida como formada pelo pai, mãe e os filhos do casal. Todavia, essa concepção de família é algo recente.

Assim, ensina Eliana Nazareth312

As formas familiares são organizações universais, porém a família que conhecemos hoje é aquisição recente do ser humano.

As formulações familiares têm mudado gradativamente através dos tempos, com valores, conceitos, idéias e ideais muito diversos dos que hoje apreciamos e enaltecemos como “naturais” na família nuclear. Na verdade, qualidades como amor, escolha do parceiro, autonomia, independência e outros, vêm sendo construídos pela e na cultura.

Porém, as principais funções da família permanecem. Destas, os antropólogos destacam a sexual, a econômica, a reprodutiva e a educativa que, mesmo podendo ser exercidas por outros grupos sociais, só o podem ser isoladamente, isto é, apenas a organização família as concentra. O homem ainda não encontrou organização substituta que possa atender a suas necessidades e anseios.

311 ENGELS, F. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Rio de Janeiro: Civilização

Brasileira, 1982.

312 NAZARETH, Eliana R. Guarda compartilhada e mediação familiar - a importância da convivência, in

Guarda compartilhada, aspectos psicológicos e jurídicos, APASE - Associação de Pais e Mães Separados (org.), Porto Alegre: Equilíbrio, 2005, p. 90 em diante.

[...]

Até o século XVIII, o modelo mais comum era a família extensa. A função dessa família tradicional era assegurar a transmissão da vida, dos bens e dos nomes. Os casamentos eram arranjados entre pessoas muito jovens. Não importava a vida afetiva dos futuros esposos, sua satisfação e realização pessoal. Para as camadas mais pobres, o casamento organizava o trabalho agrário. [...] Família, [...] não existia como sentimento ou como valor.

[...]

Somente com o avançar do século XVIII é que vemos o surgimento do sentimento de família com a difusão do amor romântico”.

A revolução industrial, iniciada em 1750, propiciou a ruptura do modelo tradicional de família, facilitou a mudança da família extensa para a nuclear. O progresso científico, a criação da máquina à vapor, dando origem à locomotiva, que facilitou o transporte de pessoas e cargas, as chamadas máquinas de indústria, facilitando a exploração fabril, levando a mulher ao mercado de trabalho na indústria, alteraram a vida social, tornando necessária não só a adaptação nos costumes, como também na família.

Convém notar, outrossim, que, com o avanço industrial, o desenvolvimento do capitalismo, a família nuclear passa a ser o modelo tido como ideal. Isto porque a diferenciação econômica, característica das sociedades industriais, é incompatível com a manutenção de famílias extensas. Ademais, um pequeno grupo chefiado por um único líder, inibe potenciais conflitos e, sendo a família nuclear uma pequena unidade geográfica e economicamente móvel, é mais conveniente à economia industrial.313

Como conseqüência das alterações na vida das pessoas, um outro fato importante se deu: a libertação da mulher, antes completamente inferiorizada. Entretanto, a conscientização de que homens e mulheres são iguais, alterando os papéis sociais dos parceiros na família, foi bastante lenta.

Entre o final do século XIX e o princípio do século XX, a situação da família pode assim ser resumida: as crianças que não fossem legítimas não eram completamente integradas na família; o divórcio era impedido ou limitado;

313 TALCOTT PARSONS apud BILTON, T. et al. Introductory Sociology. London: Mac Millan Press. Ltda.,

coabitação sem casamento era ignorada pelo direito; casamento era uma união em que o homem era o pai e o chefe e, mesmo que a mulher tivesse bens ou profissão própria, o marido tinha o poder dominante. Nesse modelo familiar, a promoção do amor era tarefa das mulheres. A sexualidade ainda estava associada à reprodução. Os desejos carnais eram sancionados pelo casamento.

A partir de 1950, com o advento do divórcio, a história da família começa a mudar rapidamente, especialmente no que diz respeito ao ‘status’ das crianças. Igualaram-se os filhos oriundos ou não do casamento, embora em muitos casos não tenham o mesmo direito à herança. Igualmente, a situação dos filhos adotivos mudou. Tudo isso porque o casamento perdeu a função de legitimar os filhos. Com a facilitação do divórcio, reconheceu-se a coabitação sem casamento, como um alternativo estilo de vida.

A estrutura da autoridade entre marido e mulher também mudou, igualaram-se os direitos. O pátrio poder passou a ser poder parental (de ambos os pais). Nessa família, os membros se unem por laços emocionais, de costume e estilo de vida. Há divisão de trabalho entre os cônjuges. Os filhos adquiriram a condição de “sujeitos”.

Em suma, como observa Tai Castilho314:

A família tradicional, hierarquizada, organizada em torno do poder do patriarca torna-se cada vez mais horizontal, cedendo lugar a uma família onde o poder é distribuído de forma mais igualitária: entre o homem e a mulher, entre pais e filhos. O ingresso das mulheres no mercado de trabalho, a emancipação feminina, as mudanças sócio-econômicas, o divórcio, mudaram o jeito de estar em família. A família se nucleariza e o tempo de convivência entre seus membros diminui.

Antes, o relacionamento intergeracional se dava na rede de convívio: famílias grandes, todos juntos, gerações que coabitavam. Os saberes de avós e pais para filhos e netos eram transmitidos no cotidiano: receitas de bolos, canções infantis, um jeito de estar à mesa, de estender os lençóis, de se comportar com os moços ou com as moças. Ao mesmo tempo, conversas interrompidas deixavam no ar perguntas não formuladas. Os diálogos se davam no contar histórias, nos ensinamentos da religião, das distâncias a serem mantidas entre os sexos, entre primos e irmãos. Os avós, sempre presentes, muitas vezes mediavam os conflitos entre pais e filhos. As filhas ficavam perto das mães, os filhos dos pais. Tudo arrumado, embora a rede de identificação de afetos e

314 CASTILHO. Tai. Painel: Família e Relacionamento de Gerações. Congresso Internacional Co-Educação

preferências estivesse sempre presente. As mães eram auxiliadas na educação dos filhos, mas eram fortes figuras identificatórias.

A estrutura da família tradicional veio se modificando, a pílula anticoncepcional diminuiu o número de filhos e liberou a sexualidade. A mulher estabelece uma relação mais simétrica com seu parceiro, o pátrio poder ficou abalado. O número de separações e divórcios vem aumentando e as famílias vão se organizando mais de acordo com os desejos antes reprimidos. Aumenta o número de mulheres sozinhas com os filhos, e a gravidez não programada dos adolescentes faz avós mulheres jovens que cuidam de filhas e netos. As distâncias intergeracionais diminuem.

Afirma a autora que essa pluralidade na configuração da família incomoda a sociedade, pois é difícil valores ainda enraizados conviverem com os novos. De fato, o século XX é marcado por alterações profundas na estrutura da família. A família pós-moderna (a partir de 1960) é caracterizada pela busca de realização pessoal e sexual de seus membros.

“Vige atualmente, a fase do capitalismo avançado, caracterizando-se a

família pela busca intensa da satisfação das necessidades dos seus membros (alimentares, sanitárias, educacionais, de lazer, etc.), tendo nítida função de

consumo”, constata, com clareza, José Sebastião de Oliveira. 315

O homem de hoje, na luta pela conquista de satisfação individual, não dá mais tanta importância às convenções que sempre lhe tolheram. A família atual é, portanto, marcada pela dessacralização de antigos valores. 316 As uniões têm

duração cada vez mais relativa, aumenta o número de divórcios. Igualmente, o número de mães solteiras cresce significativamente. Aumenta também o número de famílias monoparentais (aqueles em que só o pai ou a mãe vive com os filhos), de casais sem filhos e de famílias conviventes.

Aumentam, também, as famílias recompostas317 e as híbridas318. Embora o

modelo mais expressivo seja o nuclear, é impossível desprezar outros tipos de arranjos.

315 OLIVEIRA, José Sebastião, A família e seus fundamentos constitucionais, cit., p. 79.

316 QUINTEIRO. M. da C. União conjugal: a grande busca. 1993. Tese de Doutorado em Sociologia –

Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo.

317Modalidade de configuração familiar decorrente da união de pessoas que têm filhos de uniões anteriores,

recompondo, ou melhor, formando um novo núcleo familiar.

318 Propõe-se neste trabalho o uso do termo “família híbrida” para designar a modalidade de configuração

familiar decorrente da união de pessoas que, além dos filhos das uniões anteriores, têm filhos oriundos da nova união. Conhecida vulgarmente como “os meus, os teus, os nossos”. Assim híbrida seria espécie do gênero recomposta.

Como visto, a transformação na estrutura familiar é muito grande a partir do século XVIII, especialmente a partir da revolução industrial, o que vem a repercutir fortemente nas relações paterno-filiais, que será objeto de melhor estudo ao se falar da igualdade dos filhos.

A conscientização das profundas transformações que a família vem sofrendo desperta a seguinte questão: “está-se assistindo ao desaparecimento total da família, do matrimônio e do parentesco?” - pergunta J. Goody. 319

A resposta é não. Na segunda metade do século XX, há uma significativa conformação de família nuclear. Historicamente, porém, a diferença nem é tão grande, considerando o que era a família até o século XVIII.

Mas, para quem está acostumado à família do século XIX e parte do século XX, a transformação é percebida como grande. Há transformação, não desaparecimento. Sempre haverá família, enquanto o ser humano procurar amor, acolhimento, convivência. E isto jamais deixará de ocorrer.

Como observa a mesma Nazareth320:

A família há muito deixou de ser, [...], se é que algum dia o foi, uma estrutura monolítica e monogâmica para assumir contornos cada vez mais semelhantes aos da família estendida, que se espalha horizontalmente, com ex-parceiros e amigos fazendo o papel de agregados compondo muitas vezes o que Stoller propõe como “rede íntima.

[...]

“Assim, temos como algo comum o engano de se pensar que, por causa de uma separação conjugal não existe mais família. Que devido ao rompimento dos cânones da modernidade, que apregoam modelos de casamentos frutos das tradições sociais, o divórcio desorganizaria a família a tal ponto que poderia fazê-la desaparecer”.

A família pós-moderna passou a ser entidade que agrega em seu núcleo pessoas ligadas por laços, biológicos ou não, de afeto e/ou interdependência,

319 GOODY, J. Prólogo. in BURGUIÉRE. A. (Org.) História de la familia: el impacto de la modernidad.

Madri: Alianza Editorial, 1988, p. 11.

320 NAZARETH, Eliana Riberti. Família e divórcio in Família e..., Cerveny, C. M. O. (org.). São Paulo: Casa

objetivos comuns, cada qual respeitada e tomada em consideração como indivíduo autônomo, sujeito próprio de direitos. 321

Como proteger juridicamente os membros dessa nova família?

Afonso e Figueiras observam que é necessário olhar a família no seu movimento:

Este movimento de organização-reorganização torna visível a conversão de arranjos familiares entre si, bem como reforça a necessidade de se acabar com qualquer estigma sobre as formas familiares diferenciadas. Evitando a naturalização da família, precisamos compreendê-la como um grupo social cujos movimentos de organização-desorganização- reorganização mantém estreita relação de contexto sociocultural. [...] É preciso enxergar na diversidade não apenas os pontos de fragilidade, mas também a riqueza das respostas possíveis encontradas pelos grupos familiares, dentro de sua cultura, para suas necessidades e projetos. 322

Maria do Carmo Brant de Carvalho323 assevera que a família pareceu ser descartável durante os anos gloriosos, caracterizados pelo pleno emprego e oferta de políticas sociais universalistas. Era o modelo Welfare State.324

Segundo a autora, a proteção e reprodução social transformaram-se em missão ‘quase total’ do Estado Social. O cidadão podia trilhar sua vida apenas dependente do Estado e do trabalho, e não mais das chamadas sociabilidades comunitárias e familiares. Todavia, nos anos 90, o Estado e o trabalho deixaram de ser protagonistas do desenvolvimento e da promoção dos indivíduos em sujeitos de direito, sujeitos com liberdade e autonomia.

Com efeito, na visão da mesma autora, a reforma do Estado em curso, as compressões políticas e econômicas globais, as novas demandas de uma sociedade complexa, os déficits públicos crônicos, a revolução tecnológica, a transformação produtiva, o desemprego, a expansão da pobreza, os aumentos

321 CASABONA, Marcial Barreto. A família na Constituição in Revista do Instituto dos Advogados de São

Paulo - Paulo Hamilton Siqueira Jr. (Coordenador) – v. 8 – São Paulo: Editora RT, 2001.

322 AFONSO, M.L. M.; FIGUEIRAS, C.C. (1995). A centralidade da figura materna nas políticas sociais

dirigidas a famílias: um argumento pela equidade. Texto apresentado no XIX Encontro Anual da ANPOCS, UFMG.

323 BRANT DE CARVALHO, Maria do Carmo. O lugar da família na política social. in BRANT DE

CARVALHO. Maria do Carmo (org.). A família contemporânea em debate. São Paulo: EDUC/Cortez, 2003, p.16-17.

das desigualdades sociais fizeram com que a família, através de sua rede de solidariedade e sociabilidade, ganhasse novamente importância na política social.

O Welfare State deu lugar ao Welfare Mix, em que o bem-estar social é missão compartilhada entre Estado, iniciativa privada e sociedade civil, especialmente da família.

[...] a questão da partilha de responsabilidade entre as solidariedades públicas e privadas está claramente na ordem do dia da agenda política de todos os países de Estado-Providência. A necessidade de encontrar uma solução para a crise financeira do regime de proteção social é tamanha que, em muitos países europeus, se encara a hipótese de remeter para a família, ou para as redes de integração primária, um certo número de serviços e encargos que anteriormente eram em parte cobertos por despesas públicas. [...] a pressão que se faz sentir está simultaneamente ligada a condicionalismos demográficos (envelhecimento da população, como peso que ele tem nas despesas do sistema de assistência na velhice e nas despesas com a saúde) e a condicionalismos econômicos (de que a crise do emprego é a mais clara manifestação.325

A família, apesar de todas as suas transformações, é, no início deste século, revalorizada na sua função socializadora. Esse reconhecimento está expresso nas constituições contemporâneas, como se verá adiante. Hoje, a família é responsável pela socialização de seus membros, particularmente crianças e adolescentes. Mas não é só. É ela que garante os vínculos relacionais que previnem os riscos do isolamento social, seja ele decorrente da ausência de trabalho, seja decorrente da sociedade urbanizada e tecnológica.