1.2. Bariyer Boşalmaları ve Gelişim Süreci
1.2.4. Yarıiletken bariyer boşalması (YBB) sisteminin modellenmesi
1.2.4.2. Çift bariyerli üç tabakalı MYGYM hücre modeli
Além de um investimento no policiamento dos comportamentos das meretrizes e de suas ações no espaço urbano, a Delegacia de Costumes teve uma participação ampla no projeto de “reorganização” da prática do meretrício. Havia outras formas de interação entre a delegacia e as meretrizes, bem como um investimento da delegacia na vigilância e policiamento dos comportamentos masculinos, contribuindo com a difusão das prescrições sobre os comportamentos morais para a sociedade, como um todo.
Para além de uma relação puramente repressora e punitiva, a Delegacia de Costumes serviu como um ponto de apoio para as meretrizes, como uma forma possível, dentre outras, de se buscar proteção e segurança para suas atividades cotidianas e de ofício. Foram encontrados alguns casos em que as meretrizes pediram proteção ou algum tipo de solução às delegacias, entre elas a de Costumes. O que sugere que, ao menos em casos extremos, a possibilidade de se procurar as autoridades policiais para resolução de conflitos era conhecida pelas meretrizes e, além disso, concretizada.
UM CASO “ALEGRE”
Reclamou providências ao sr. Edgard Franzen de Lima, delegado de Costumes e Jogos, a mundana Maria Ephygenia, que se disse vítima de horríveis maus tratos por parte do respectivo “souteneur”. Adiantou a infeliz, que, seu carrasco, apesar de preto – ela é branca – é extremamente ciumento, castigando ao menor “deslize”. A autoridade invocada horas depois de receber a presente queixa, prendeu o acusado, “ajeitando-o” imediatamente.264
A notícia evidencia, de maneira interessante, o caso de exploração por parte de um “proxeneta”, tradução literal do termo francês souteneur. Primeiro por representá-lo como negro audacioso, que apesar de sua condição étnica sentia-se no direito de ser ciumento, castigando sua “protegida”. Mas além dessa clara evidência de diferenciação racial, que perpassa algumas narrativas policiais publicadas nos jornais no período pesquisado, o acusado
264
não foi indiciado num caso de lenocínio e, sim, ao que tudo indica, num caso de maus tratos e ofensas físicas. Contudo, independentemente dos motivos alegados para a prisão, o interessante é que esse caso indica que a relação entre a instituição policial e as meretrizes não era de pura violência simbólica ou física, mas também de garantia de direitos dessas mulheres. Não é o caso de se dizer que elas lutavam pelo seu direito constitucional de forma consciente. Mas podemos entender essas ações como parte do processo de formação da cidadania, de adequação dos direitos constitucionais.265
Outros indícios de que a Delegacia de Costumes funcionava como ponto de apoio e proteção das meretrizes e como da garantia da ordem moral nos espaços em que a prostituição se desenvolvia foram encontrados no período pesquisado, com ênfase para o intervalo entre 1928 e 1931. Essa proteção se dava justamente na “defesa da moral”, muitas vezes incorporada por guardas-civis e também pelos investigadores especializados da delegacia. Num desses casos o homem detido havia desrespeitado uma “mundana”, sendo por isso preso.
LAMENTÁVEL
Acha-se recolhido ao xadrez do 2º distrito, o nacional José dos Reis. Originou sua prisão, o fato de haver o detido, desrespeitado uma mundana, à esquina das ruas Guaicurus com S. Paulo. Agiu como representante da polícia, no caso, o vigilante 449, severo defensor da moral.266
As especificidades desses casos indicam, também, que a defesa da moral constituiu-se como uma percepção elaborada na experiência dos policiais com o cotidiano urbano, em suas funções de policiamento da cidade. É claro que situações como essas poderiam ser compreendidas a partir das relações interpessoais entre os vigilantes e a mulheres “desrespeitadas”, como fica explicitado no caso em que o guarda 315 “salvou” a mundana Maria Candida de ser “enganada” por “João Manoel”.267 Ou ainda no seguinte caso.
UM GUARDA CIVIL COMO HÁ TANTOS...
“Boa noite”? – disse o guarda n. 122, ali pelas 21,30 horas de ontem a dois rapazes que conversavam na varanda de uma pensão alegre à rua Guaicurus. “Bom dia”! – responderam eles, por brincadeira.
265 Schettini (2006) discute sobre o processo de construção de cidadania das prostitutas no Rio de
Janeiro, nas primeiras décadas republicanas, apontando as astúcias e estratégias de recorrer à justiça para garantia de seus direitos, como o de ocupação do centro da cidade. O debate é iniciado pela impetração de habeas corpus no ano de 1896, para garantir esses direitos básicos que estavam sendo ameaçados por um delegado.
266
“O Estado de Minas”, 07/01/1930, p. 6, grifos meus.
267
Resultado: “xadrez” para Luiz Zulle e Guilherme Juvenal, os dois infelizes que se permitiram o absurdo de caçoarem, embora de leve, com um policial!...268
Mas, apesar de fatores interpessoais contribuírem, certamente, para o desencadeamento das situações aqui apresentadas, insisto na possibilidade de se compreender esses casos como um indício das relações dos guardas-civis com a moralidade que se pretendia manter a salvo. Assim, como visto nos conflitos envolvendo escândalos com as meretrizes apresentados anteriormente, nos casos de prisão e repressão às imoralidades masculinas, também houve uma preocupação policial em “proteger a moralidade” como um todo. Esse princípio de proteção esteve presente no cotidiano dos responsáveis pelo policiamento da capital e perpassava suas ações diante dos diferentes conflitos urbanos daquele momento.
As narrativas de ocorrências policiais veiculadas na imprensa diária indicam que havia um intenso policiamento noturno em bares, restaurantes e cabarés, que, além de sua vigilância geral, buscava manter e proteger a ordem e moralidade pública. Pedro Nava, em suas memórias, também anunciou a presença frequente de investigadores, os “secretas”, nos cabarés da cidade.269 A presença dos investigadores nesses estabelecimentos permite desenvolver duas maneiras, complementares, de se compreender o policiamento moral da cidade. É plausível que os policiais, por terem contato direto com as mulheres dos cabarés, local em que se davam espetáculos musicais e dançantes, tenham usado suas relações como indicadores para guiar suas decisões em conflitos nos quais as meretrizes estivessem envolvidas. Mas, por outro lado, essa relação intensa dos policiais com as diferentes práticas de diversão noturna também pode ter contribuído na formação de uma sensibilidade a respeito da defesa da ordem moral na cidade. Um caso de “imoralidade” num cabaré pode servir como exemplo disso.
SURURÚ NA RUA GUAICURUS
Nas primeiras horas de ontem, a rua Guaicurus foi revolucionada com a gritaria infernal de algumas nacionais, gritaria esta acompanhada por insistentes apitos dos guardas. Um verdadeiro pandemônio. De todos os cantos corria gente para o local, julgando tratar-se de alguma coisa grave. Afinal, um dos nossos repórteres, presentes no local, conseguiu com grande dificuldade, inteirar-se do havido em todos os seus pormenores. UMA LUTA INGLÓRIA
268
“O Estado de Minas”, “Na polícia e nas ruas” 01/02/1929, p.6, grifos meus.
269
Em plena rua trocavam urros com verdadeira fúria, um popular e um vigilante. Parecia que ambos se odiavam mortalmente tal a raiva com que procuravam se fazer mal. Durou algum tempo o conflito. Enfim, dois guardas chegaram espavoridos de tanto correr. Claro o paisano foi logo subjugado, seguindo pouco depois na “viúva alegre”, para a delegacia do 2º distrito.
NA POLÍCIA
Na polícia foi tudo esclarecido. É que, o indivíduo Joaquim Pereira dos Santos, tendo encontrado a nacional Hilda Brandão à porta de uma pensão alegre, à rua Guaicurus, depois de com ela conversar, se pusera a atentar contra a moral pública, portando-se inconvenientemente com a mundana. O 343, vira a coisa e zangara-se. Daí , ante a reação do sr. Joaquim, originara-se o “rolo”, com as consequências já sabida.
EPÍLOGO
O desordeiro depois de sofrer forte admoestação do delegado, foi recolhido ao xadrez daquela delegacia, onde permanecerá por algum tempo.270
O guarda-civil n. 343 se prontificou a repreender o ato de atentado contra a moralidade pública, o que indica a difusão de uma sensibilidade para um policiamento moral. Contudo, a “zanga” com o fato de Joaquim se portar “inconvenientemente” com a mundana teria gerado uma reação violenta. A descrição da raiva com a qual os dois indivíduos mantiveram sua luta corporal indica, assim, o vínculo emocional do guarda com o desacato físico e moral que sofrera. É indício de sua disposição emocional diante das situações que enfrentava em seu trabalho de policiamento da moral. Em outra narrativa, o guarda civil 196 interveio em um espancamento de uma meretriz.
CONFLITO NO CAPITOLIO
O cabaré “Capitólio” foi ontem pela madrugada, cenário de um conflito entre três soldados que se achavam a paisana, e a mundana Helena Gonçalves Ribeiro.
Um dos policiais, de nome Napoleão Gomes, espancou barbaramente a Helena, que ficou com algumas escoriações pelo corpo. O guarda civil 196, de serviço nas imediações, atraindo pelo barulho, compareceu imediatamente, pondo fim ao conflito e prendendo Napoleão, que não conseguiu como seus companheiros, escapar em tempo.
Embora não tivesse nada com o caso, o carregador número [4], João Machado, ficou ligeiramente contundido. O soldado culpado, foi em seguida conduzido ao 2º distrito, e ali autuado em flagrante delito sendo em seguida recolhido ao xadrez de sua corporação.271
270
“O Estado de Minas”, “Na polícia e nas ruas”, 09/01/1930 p.6, grifos meus.
271
A presença dos “secretas” nos cabarés, como fica evidenciado nesta nota, não se devia simplesmente à vigilância. Pelos menos para alguns soldados da Força Pública, era um momento de diversão, descontração e fruição dos prazeres noturnos. Mas há uma recorrência de casos em que essas diversões transformaram-se em conflitos violentos, em razão de disputas por uma mesma mulher. Marina Silva encontrou casos interessantes de sindicâncias abertas na Guarda Civil para investigar os comportamentos imorais dos guardas-civis. Segundo ela,
existia também uma grande preocupação com o comportamento dos guardas que por muitas vezes foram autores de infrações contra as ―normas da moral e dos bons costumes. Os casos de envolvimento com bebida eram frequentes. Não raro, a fiscalização da Guarda Civil instaurava sindicâncias para apurar o envolvimento de seus homens com a bebida ou por largarem seus postos para frequentar botequins.272
A natureza das fontes mobilizadas para esse estudo não permite observar com mais vagar esses processos de “aprendizado” de uma sensibilidade pautada em preceitos morais pelos guardas-civis. Mas, como já indiquei, o próprio cotidiano foi um fator importante nessa formação. Há um caso muito interessante de um suposto desordeiro, “imoral”, que teria se tornado agente policial. “Matozinhos Telles” foi em novembro de 1928, juntamente om Geraldo Queiroz e Maria das Dôres, porque “praticavam publicamente atos ofensivos à moral”.273 No início de dezembro daquele mesmo ano, “Mattozinhos Telles de Menezes” foi preso “por estar em atitude pouco decorosa com a nacional Maria da Conceição Pereira”.274 Já no dia 23 de dezembro, também de 1928, foi publicada a seguinte notícia.
CIÚMES – O guarda n. 315, Matosinhos Telles, estava anteontem de serviço na rua Guaicurus, à noite, no cruzamento com Rio de Janeiro. Às 20, 30 horas o guarda foi procurado pelo sr. Alfredo Miguel, que se mostrava agitadíssimo e afirmava ter se livrado poucos minutos antes de morrer queimado.
Rosa Pereira de Moura, por questões de ciúmes, tentava atear-lhe fogo à aba do paletó: exibia, como prova, a aba do paletó cinza, que efetivamente estava meio queimada. O guarda dirigiu-se, com o citado indivíduo, para a casa da culpada, rua Guaicurus. Não a encontrou, porém: tinha fugido. O guarda foi afinal, prender Rosa numa casa vizinha, levando-a à delegacia do 2º distrito, onde ficou detida.275
Apesar da diferença na grafia utilizada pelo jornal, não creio que esses registros tratem homônimos, mas, sim, da mesma pessoa. O nome de Matozinhos apareceu outras vezes, no
272
SILVA, 2009, p. 65.
273
“Diário de Minas”, “Policiais”, 19/11/1928, p. 3.
274
“Diário de Minas”, “Policiais”, 07/12/1928, p. 3.
275
período pesquisado, como guarda civil e, posteriormente, como investigador da Delegacia de Vigilância e Capturas em 1930.276 Mas o curioso, é que em maio de 1928, meses antes da primeira prisão anunciada nos jornais, ele tenha sido caracterizado como guarda civil n. 440, num relato de tentativa de suicídio de uma mulher residente em uma pensão a rua Guaicurus.
(...) Ontem, porque Alípio de tal, seu amante, afirmasse, como na canção, que “não queria saber mais dela”, Maria, num gesto de quinto ato de drama, ingeriu respeitável dose de permanganato.
Felizmente, a sua companheira Joanna de Paula, que com ela reside numa pensão à rua Guaicurus, deu alarme a tempo, chamando o guarda civil Matozinhos Telles, número 440, o qual requisitou a Assistência Pública, que levou Maria à Santa Casa, onde ela foi posta fora de perigo.277
O caso de Matozinhos Telles é interessante, na medida em que permite refinar o argumento da importância da sociabilidade travada entre guardas-civis, meretrizes e soldados da Força Pública para o policiamento moral do meretrício. É interessante notar que, mesmo após suas prisões por “desrespeito à moralidade”, há registros de sua atuação como guarda- civil. É claro que só podemos especular sobre um possível “aprendizado” vivenciado por Matozinhos, mas é importante ressaltar que ele tenha permanecido como guarda-civil e se tornado agente de uma delegacia especializada, mesmo com suas experiências de “imoralidades". É possível que seu retorno, ou sua permanência, após um afastamento, tenha sido reforçado pela sua experiência com a vida noturna da capital, o que deve ter contribuído para produção de um conhecimento “prático” sobre o meretrício.
Outro interessante investimento policial diz respeito às prisões de homens que se encontravam em situações contrárias às prescrições da Delegacia de Costumes. Para além dos casos em que os guardas-civis faziam um policiamento da moralidade em geral, as transgressões da portaria prescritiva da delegacia, publicada no início de 1928, também foram entendidas como extensivas aos comportamentos masculinos.
Desrespeitou as ordens da Polícia de Costumes
Benjamin Freitas é um bom homem, quando não está sob a influência do álcool.
Quando, porém, está com seu sistema nervoso alterado pelos vapores de bebidas fortes, é um “caso sério”: torna-se rixento, desobediente. Ontem, Benjamin depois de ter ingerido forte dose de parati, como de costume,
276
Conferir “Diário de Minas”, 17/01/1929, p.3 e 26/07/1929, p.3 “O Estado de Minas”, 09/11/1929, p. 6 e 23/03/1930, p. 8.
277
“Diário de Minas”, Notas policiais – “Desprezada pelo amante uma mulher tenta contra a própria vida”, 22/05/1928, p.8, grifos meus.
ficou perturbado, e foi conversar com algumas mundanas, não obstante saber que tal coisa não é permitida pela polícia de costume.
O guarda n. 191, que é um cumpridor das ordens recebidas, prendeu o pau d'água que foi para o xadrez do 2º distrito, onde na falta de representantes do belo sexo, conversará sozinho ou com as grades do seu cubículo.278
É plausível afirmar que as investidas policiais na repressão de homens, que transgrediam determinados códigos morais ou prescrições da Delegacia de Costumes, não possuíam o mesmo significado das prescrições para os comportamentos das mulheres no espaço público. Contudo, o exemplo acima permite observar que os guardas-civis não mantiveram uma relação de passividade com as prescrições da delegacia, que eram diretamente direcionadas para as meretrizes e seus comportamentos, dando outros significados àquelas ordenações.279 Assim, alguns guardas teriam compreendido que essas ordens diziam respeito, ou se direcionavam, também, aos homens que, alcoolizados ou não, iniciavam alguma confusão, uma conversa mais animada, ou ainda encontravam-se em “atos libidinosos” com uma ou mais mulheres no espaço público ou em regiões do meretrício.
A Odisseia Napoleônica
No “cabaré” Capitólio, à Avenida do Comércio foi preso ontem às 24 h, o sr. Napoleão Nunes da Silva, por querer dançar a força (à Napoleão) com uma da muitas mundanas que ali se achavam. Efetuou a prisão o guarda n. 43 de plantão no local, que conduziu o detido e, para aproveitar a viagem, também a nacional Levinda Ferreira, (embriaguez), até a Polícia Central, onde o explosivo par depois de convenientemente admoestado foi posto em liberdade.280
O caso de Napoleão Nunes diz respeito ao policiamento tanto dos comportamentos dos homens quanto da ordem moral dos espaços de diversões, em que se desenvolvia o meretrício. Os excessos masculinos nesses espaços, relacionados, ou não, à violência, foram alvos de uma vigilância por parte de policiais. No caso em questão, há também o indício da disseminação da admoestação como uma das possibilidades de resolução desses conflitos.
É interessante notar, ainda, que, nesses últimos casos, o álcool teve um papel importante para o desencadeamento de uma “ruptura” com a moralidade. O mesmo pode ser observado em outros casos, como no de João Francisco de Paula, que “razoavelmente embriagado, desrespeitava, publicamente, a ordem e a moral, proferindo palavras ininteligíveis e fazendo gestos e trejeitos pouco conducentes com as normas usuais de
278
O Estado de Minas, “Na polícia e nas ruas”, 01/12/1928, p. 6, grifos meus.
279
Relatório da SSA, 1929, v. II, p. 89.
280
educação”.281 Mas foram encontrados, também, casos peculiares de “atentados contra a moralidade”, como um sujeito que foi detido por investigadores da Delegacia de Costumes porque “com ares desabusados, procurava introduzir-se em uma casa de família”.282 E, ainda, o caso a seguir, sobre um vendedor de doces cujos “atos contra a moral” não foram esclarecidos pelo jornal.
FALTA DE MORAL
O vendedor de doces Ruy Marcolino, que comercia na Praça da Estação, foi detido ontem, pelos investigadores n. 81 e 254, por haver praticado atos contra a moral naquele logradouro público. O criminoso, depois de autuado foi recolhido ao xadrez da Polícia Central.283
Ora, pode-se afirmar, e com certa razão, que esses últimos casos não possuem relação com o policiamento do meretrício na capital. Entretanto, eles são apresentados para composição e refinamento da hipótese de que a questão da educação moral era um problema amplo e mobilizou várias instâncias policiais, não se restringindo aos investigadores da Delegacia de Costumes, mas se incorporando à prática dos guardas-civis. Ou seja, além da preocupação da Delegacia de Costumes com o policiamento moral específico dos sujeitos envolvidos com o meretrício, havia uma preocupação geral com a moralidade nos espaços da cidade, como argumentou Marina Costa e Silva em sua dissertação.
Nesta seção, quis evidenciar que as prescrições da Delegacia de Costumes não foram direcionadas única e exclusivamente às meretrizes e, sim, que tinham caráter generalizante, relacional, pautadas nas relações entre homens e mulheres, mas ainda é preciso responder muitas questões. Uma delas é composta pela incerteza sobre a dimensão que esse projeto de educação moral tomou na vida de mulheres e homens. Tendo a compreender que, apesar do processo ter sido mais amplo do que se imaginava no início, não se pode desconsiderar que eram as mulheres quem estavam no centro do interesse da polícia. Elas tiveram papel de destaque, tanto no projeto inicial, elaborado por Edgard Franzen de Lima, como na prática de policiamento. Por outro lado, é significativo que os homens tenham se tornado uma preocupação para os guardas-civis, que observavam as “ordens” do delegado de costumes. Isso indica que os processos de constituição da prostituição como um problema moral e de elaboração de um “plano” para transformar os comportamentos das meretrizes, passou por
281
“O Estado de Minas”, “Na polícia e nas ruas - Em nome da lei”, 15/01/1929, p. 6, grifos meus.
282
“O Estado de Minas”, “Na polícia e nas ruas - Ousadia...”, 14/03/1930, p. 6.
283
impasses, tensões, questionamentos e modificações que se deram no cotidiano do policiamento.
Outra questão envolve uma reflexão que espreita a categoria de gênero.284 Não é o caso de mobilizar a categoria de gênero para refazer toda a análise desse trabalho, mas de destacar que o processo abordado nesta dissertação possui uma relação com processos mais amplos, como a disseminação de uma educação moral e a constituição de “tipos” femininos. Segundo a historiografia que mobiliza a categoria “mulher”, houve uma preocupação no campo jurídico, desde o século XIX, com as diferenciações entre a “mulher honesta e desonesta”, “esposa e puta”, “honrada e desonrada”.285 Essa preocupação não ficou,