5. TARTIŞMA
5.1. Çevresel Parametreler ve Su Kalitesi
Ocorre que nos processos de trabalho, especialmente aqueles mediados pela interação social, é muito frequente o desacordo e a manifestação de conflitos entre os partícipes, sendo frequentemente atribuído aos gerentes a mediação em situações conflituosas.
Na área da gestão em saúde, um dos autores que mais têm utilizado o conflito como tema de análise tem sido Cecílio (1999b, 2005). Para este autor, o conflito se apresenta como “característica
intrínseca e inerradicável da vida organizacional”, e tanto o conflito como suas manifestações correlatas (poder, controle, interesses) têm importante peso explicativo para compreender a dinâmica das organizações em geral, e particularmente as de saúde (Cecílio, 2005, p.511). Suas considerações a respeito do tema são baseadas tanto em autores da área da Sociologia, como Pierre Birnbaum, Raymond Boudon e Carlos Matus, como da Administração: Paulo Motta, Gibson Burrell & Gareth Morgan e Steven Lukes.
Para autores da área da Administração, especialmente Luckes (1980), Morgan (1996) e Motta (1994), a gênese do conflito é frequentemente atribuída às disputas de interesses e projetos de indivíduos, grupos ou classes sociais, ou ainda decorrentes da aplicação de mecanismos de controle por aqueles que detêm o poder. Segundo Morgan (1996), o conflito pode ser pessoal, interpessoal ou entre grupos rivais e coalizões; pode estar implícito ou explícito; qualquer que seja a razão e a forma que assuma, sua origem está em algum tipo de divergência de interesses, percebidos ou reais.
Para Honneth (2003), esta concepção de conflito, como da maioria dos autores da Sociologia contemporânea, é originária do modelo hobbesiano, em que a luta dos sujeitos pela autoconservação foi declarada como luta pelo poder ou luta por interesses. Por este modelo, os motivos que dão origem aos conflitos sociais (rebelião, protesto, resistência) foram transformados categorialmente em “interesses”, resultantes da distribuição desigual de oportunidades materiais de vida, sem estar ligados, de alguma maneira, à rede cotidiana de atitudes morais emotivas.
Neste estudo, a gênese e a manifestação do conflito são abordadas a partir da Teoria do Reconhecimento de Axel Honneth (2003) e estão pautadas no entendimento de que o conflito não deve ser compreendido apenas como um participante operacional nas
relações de poder, mas que na sua ocorrência estão implícitas as exigências de reconhecimento, seja ele na esfera do amor, do direito ou da estima social. Segundo este autor, são as experiências de desrespeito social que podem motivar um sujeito a entrar numa luta ou num conflito prático, tese defendida em sua livre-docência e publicada no livro “Luta por reconhecimento – a gramática moral dos conflitos sociais”. Esta produção será utilizada como referência para aprofundamento das categorias reconhecimento, desrespeito e conflito.
Axel Honneth nasceu em 1949, integra a chamada “terceira geração” da Escola de Frankfurt e é considerado um dos principais pensadores da Alemanha contemporânea. Foi assistente de Jürgen Habermas entre 1984 e 1990. Em 1996, sucedeu Habermas no Instituto de Filosofia e, em maio de 2001, Honneth assumiu a direção do Instituto de Pesquisa Social. É também professor de Filosofia Social na Universidade Johann Wolfgang Goethe, de Frankfurt. Entre seus principais trabalhos estão “Crítica do poder – estágios de reflexão de uma teoria social crítica” e “Luta por reconhecimento – a gramática moral dos conflitos sociais” (Nobre e Repa, 2008).
Honneth concorda com Habermas que uma Teoria Crítica deve ser construída em bases intersubjetivas e marcada por componentes universalistas. Sua discordância, porém, advém do fato de que, para este autor, Habermas apresenta uma distinção entre sistema e mundo da vida, carregada de discrepâncias e ambiguidades, ambos operando segundo princípios de integração opostos e nada a mediar entre eles. Contrariamente a Habermas, Honneth defende que o sistema e sua lógica instrumental são resultado de permanentes conflitos sociais, capazes de moldá-los conforme a correlação de forças políticas e sociais. Ou seja, para este autor, a base da interação é o conflito social, é ele que se
constitui como “medium” entre o sistema e o mundo da vida (Honneth, 2003).
É a partir das formulações de Hegel em sua juventude, período em que viveu em Jena, que Honneth vai encontrar os fundamentos de uma teoria social de base normativa, em que a construção social da identidade (pessoal e coletiva) se dá por meio de uma “luta por reconhecimento”. O caminho percorrido por Hegel consistiu em reinterpretar o modelo de uma luta de todos contra todos, originário de Maquiavel e Hobbes, propondo que esta luta se deva a um conflito entre os homens, de caráter ético, que visa o reconhecimento intersubjetivo das dimensões da individualidade humana. Diferente do que propunham Maquiavel e Hobbes, Hegel não acredita que um contrato entre homens põe fim a uma situação precária de luta por sobrevivência. Pelo contrário, ele reconhece a luta como um “médium” moral que leva a uma etapa mais madura da relação ética. Hegel retoma de modo positivo a teoria de Fitche sobre o reconhecimento, e descreve a partir dela a estrutura interna das formas de relação ética que são, para ele, a essência da socialização humana. Para Hegel, o reconhecimento intersubjetivo se dá em três etapas distintas: para o indivíduo (ser carente concreto) – na relação afetiva de reconhecimento da família (amor); para a pessoa (autonomia formal) – o reconhecimento da sociedade civil (direito); e para o sujeito (particularidade individual) o reconhecimento do Estado (solidariedade) (Honneth, 2003).
No entanto, no desenvolvimento de sua filosofia, Hegel não aprofundou sua teoria do reconhecimento, o que fez dela inconclusa. Outro problema apontado por Honneth, e considerado por ele mais grave, é o fato de a linha mestra desta teoria estar presa a premissas metafísicas, incompatíveis com o pensamento atual (Honneth, 2003).
Para atualizar o modelo teórico de Hegel, Honneth primeiramente investigou se a hipótese de uma sequência ordenada de etapas de reconhecimento poderia resistir a considerações empíricas; se seria possível atribuir às respectivas formas de reconhecimento recíproco experiências correspondentes de desrespeito social; e se poderiam ser encontradas comprovações históricas e sociológicas para a ideia de que essas formas de desrespeito social seriam, de fato, fonte motivacional de confrontos sociais (Honneth, 2003).
Para enfrentar esta tarefa, encontrou na Psicologia Social de George Herbet Mead o elemento que permitiu a ligação entre a ideia original de Hegel e suas pretensões intelectuais. Este autor deu à teoria hegeliana uma inflexão materialista. Por meio de um quadro teórico pós-metafísico, Mead desenvolveu a ideia de que os seres humanos devem sua identidade à experiência de um reconhecimento intersubjetivo, ou seja, “um sujeito só pode adquirir uma consciência de si mesmo na medida em que ele aprende a perceber sua própria ação da perspectiva, simbolicamente representada, de uma segunda pessoa” (Honneth, 2003, p.131).
Também nos escritos de Mead são encontradas três formas distintas de reconhecimento recíproco: da dedicação emotiva (das relações amorosas e da amizade); do reconhecimento jurídico (direito); e do assentimento solidário (solidariedade). O lócus desses modos de reconhecimento se encontra nas relações primárias, nas relações jurídicas e na esfera do trabalho.
Tanto para Hegel quanto para Mead o amor representa a primeira etapa de reconhecimento recíproco, porque na experiência afetiva da relação amorosa os sujeitos reconhecem-se como seres carentes e dependentes do respectivo outro. Por relações amorosas são entendidas
[...] todas as relações primárias, na medida em que elas consistam em ligações emotivas fortes entre poucas pessoas, segundo o padrão de relações eróticas entre dois parceiros, de amizades e de relações pais/filho (Honneth, 2003, p. 159).
Honneth (2003) busca na teoria psicanalítica das relações de objeto, em especial os aspectos desenvolvidos pelo psicanalista inglês Donald Winnicott e pela filósofa Jessica Benjamin, interpretar, por meios psicanalíticos, a relação amorosa como um processo de reconhecimento recíproco. Demonstra a importância das experiências interativas duradouras reciprocamente vivenciadas na relação mãe-filho (intersubjetividade primária) para a socialização da criança. Por meio de processos de desligamento, se bem sucedidos, a criança desenvolve de maneira gradual uma capacidade elementar de estar só, que é a expressão prática de uma forma de autorrelação pessoal – a “autoconfiança”, base indispensável para a participação autônoma na vida pública. Esta relação de reconhecimento vai se basear na tensão, na luta permanente entre dedicação e individualidade, estabelecida na relação mãe-filho, necessária para as relações afetivas futuras.
Da forma de reconhecimento do amor distingue-se, em quase todos os aspectos, a relação jurídica. Ambas as formas de reconhecimento são dependentes de uma relação recíproca, porém o amor, forma mais elementar de reconhecimento, por si só não pode levar à formação de conflitos sociais, haja vista que é uma luta circunscrita a círculos restritos de relações primárias, não mobilizando o interesse público. Já as formas de reconhecimento do direito e da estima social representam um quadro moral de conflitos sociais.
Para a forma de reconhecimento do direito, Honneth apresenta sua consideração, apoiado em Hegel e Mead, de que o indivíduo só pode chegar à compreensão de si mesmo como portador de direitos quando possui, inversamente, um saber sobre
quais obrigações deve observar em face do respectivo outro – um outro generalizado. O sistema jurídico é abordado por Honneth em sua forma pós-convencional, moderno e pretensamente assentado sobre princípios universais, cabendo-lhe reconhecer em todo homem a qualidade de ser livre (Honneth, 2003).
O referido autor aponta a ruptura ocorrida no direito moderno entre o reconhecimento jurídico e o respeito social, em que
no reconhecimento jurídico [...] se expressa que todo ser humano deve ser considerado, sem distinção, um “fim em si”, ao passo que o respeito social salienta o “valor” de um indivíduo, na medida em que este se mede intersubjetivamente pelos critérios da relevância social (Honneth, 2003, p.184).
Esclarece ainda que o reconhecimento jurídico não tolera graduações e o indivíduo é respeitado em virtude da propriedade universal que faz dele uma pessoa; ao passo que na estima social é empregado um sistema valorativo, em que um indivíduo é respeitado pelas propriedades particulares que o caracterizam, diferentemente das outras pessoas. Com essa ruptura se origina, na esfera do direito, o princípio da igualdade universal, que “daí em diante vai submeter toda ordem jurídica ao postulado de não admitir mais, em princípio, exceções e privilégios” (Honneth, 2003, p.190).
Desta forma, o sujeito adulto obtém a possibilidade de conceber sua ação como manifestação da própria autonomia, respeitada por todos os outros, mediante a experiência do reconhecimento jurídico. Esta experiência faz surgir no indivíduo a consciência de poder respeitar-se a si próprio, de exercer o autorrespeito, de poder colocar pretensões aceitas, de constatar que merece o respeito dos demais. Conclui que
um sujeito é capaz de se considerar, na experiência do reconhecimento jurídico, como uma pessoa que partilha com todos os outros membros de sua coletividade as propriedades que capacitam para a participação numa formação discursiva da vontade; e a possibilidade de se referir positivamente a si mesmo desse modo é o que podemos chamar de “autorrespeito” (Honneth, 2003, p.197).
Honneth afirma ainda que o autorrespeito é para a relação jurídica o que a autoconfiança é para a relação amorosa; no entanto, a comprovação do fenômeno “autorrespeito” é da maior dificuldade, tendo em vista que ele só se torna perceptível na forma negativa do desrespeito (Honneth, 2003).
Em sua investigação filosófica, Honneth também constatou que tanto Hegel quanto Mead apontavam para outra forma de reconhecimento para além do amor e do reconhecimento jurídico: a estima social, a solidariedade. Em Hegel encontrou no conceito de eticidade semelhante relação com a estima mútua; e em Mead, o modelo da divisão cooperativa do trabalho. Da comparação de ambos os enfoques concluiu que um padrão de reconhecimento desta espécie só é concebido numa sociedade que tenha como pressuposto a existência de valores intersubjetivamente partilhados, nos quais os sujeitos encontrem reconhecimento conforme o valor socialmente definido de suas propriedades concretas (Honneth, 2003).
A estima social, diferentemente do reconhecimento jurídico, “se aplica às propriedades particulares que caracterizam os seres humanos em suas diferenças pessoais” e requer “um médium social que deve expressar as diferenças de propriedades entre os sujeitos humanos de maneira universal, isto é, intersubjetivamente vinculante” (Honneth, 2003, p.199). Essa tarefa de mediação é operada por um quadro de orientações, simbolicamente articulado, no qual se formulam os valores e objetivos éticos e que constitui a autocompreensão cultural de uma sociedade. Assim, como no caso do reconhecimento jurídico, espera-se uma grande variabilidade
histórica nos padrões de estima social; seu alcance social e a medida de sua simetria dependem igualmente do grau de pluralização do horizonte de valores definidos socialmente, bem como do caráter dos ideais de personalidade. Desta forma,
quanto mais as concepções dos objetivos éticos se abrem a diversos valores e quanto mais a ordenação hierárquica cede a uma concorrência horizontal, tanto mais a estima assumirá um traço individualizante e criará relações simétricas (Honneth, 2003, p.200).
Para o desenvolvimento dessa forma específica de reconhecimento, Honneth parte da evolução histórica das sociedades tradicionais para as modernas, por meio da qual identifica que a mudança estrutural da sociedade é marcada, no plano conceitual, pela transição do conceito de “honra” às categorias da “reputação” ou “prestígio” social (Honneth, 2003, p.201).
Nas sociedades tradicionais, a honra de um indivíduo está relacionada ao valor do estamento ao qual ele pertence; a distinção social se refere em grande medida à identidade coletiva – honra coletiva. Na relação interna de tais grupos, essas formas de interação assumem, em casos normais, o caráter de relações solidárias.
Por solidariedade entende-se
[...], numa primeira aproximação, uma espécie de relação interativa em que os sujeitos tomam interesse reciprocamente por seus modos distintos de vida, já que eles se estimam entre si de maneira simétrica (Honneth, 2003, p.209).
Com a evolução e transformação das estruturas sociais há mudança também na ordem social, com a dissolução gradativa da hierarquia tradicional de valores; o indivíduo passa a entrar no disputado campo da estima social como uma grandeza individuada. Essa espécie de autorrealização prática é também denominada de “sentimento do próprio valor”, de “autoestima”, um paralelo categorial com os conceitos de “autoconfiança” e de “autorrespeito” (Figura 1).
Na medida em que todo membro de uma sociedade se coloca em condições de estimar a si próprio, pode-se falar então de um estado pós-tradicional de solidariedade social; solidariedade esta ligada ao pressuposto de relações sociais de estima simétrica, não turvada por experiências de desrespeito, entre sujeitos individualizados e autônomos com possibilidade de desenvolverem a sua autorrealização. Simetria aqui não tem o significado de uma medida quantitativa destinada a medir o valor exato das contribuições dos envolvidos na relação. Pelo contrário, significa que todo sujeito tem a mesma chance de vivenciar o reconhecimento de suas capacidades e realizações como valiosas para a sociedade (Honneth, 2003).
Relações dessa espécie são chamadas de solidárias porque não despertam somente da tolerância para com a singularidade do outro, mas também do interesse afetivo por essa particularidade. Este entendimento apresenta-se como condicionante para a realização de interesses comuns, já que para Honneth: “só na medida em que cuido ativamente de que suas propriedades, estranhas a mim, possam se desdobrar, os objetivos que nos são comuns passam a ser realizáveis” (Honneth, 2003, p.211).
Como síntese das três formas de reconhecimento, bem como dos demais aspectos relacionados a cada uma delas, apresenta-se o quadro 1, cujo conteúdo é basilar para o entendimento do conflito e sua relação com as situações de desrespeito que tensionam o reconhecimento entre os sujeitos envolvidos na prática comunicativa e instrumental.
Para tornar completo o desenvolvimento de sua teoria, Honneth procura identificar na história social elementos de uma tipologia tripartite negativa da estrutura de cada relação de reconhecimento, ou seja, situações de desrespeito. Procura, além
disso, elucidar uma questão não respondida por Hegel, nem por Mead, qual seja:
como a experiência de desrespeito está ancorada nas vivências afetivas dos sujeitos humanos, de modo que possa dar, no plano motivacional, o impulso para a resistência social e para o conflito, mais precisamente, para uma luta por reconhecimento? (Honneth, 2003, p.214).
Procura a resposta a esta questão analisando cada esfera de reconhecimento e as respectivas formas de desrespeito de cada uma delas.
Quadro 1 - Estrutura das relações sociais de reconhecimento Modos de
reconhecimento Dedicação emotiva Respeito cognitivo Estima social Dimensões da
personalidade Natureza carencial e afetiva Imputabilidade moral Capacidades e propriedades
Formas de
reconhecimento Relações primárias (amor, amizade) Relações jurídicas (direitos) Comunidade de valores (solidariedade) Potencial
evolutivo Generalização, materialização Individualização, igualização
Autorrelação
prática Autoconfiança Autorrespeito Autoestima
Formas de
desrespeito Maus-tratos e violação Privação de direitos e exclusão Degradação e ofensa
Componentes ameaçados da personalidade
Integridade física Integridade social “Honra”, dignidade
Fonte: Honneth A. Luta por reconhecimento - a gramática moral dos conflitos sociais, 2003, p.211.
À esfera de reconhecimento do amor correspondem as formas de desrespeito definidas por Honneth como maus-tratos e violação. Nesta forma de desrespeito, o componente da personalidade atacado é aquele da integridade psíquica, ou seja, não é somente a integridade física que é violentada, mas sim o autorrespeito que cada pessoa possui de seu corpo. Provoca um grau de humilhação que interfere destrutivamente na autorrelação prática de um ser humano, fere a confiança aprendida por meio do
amor, a capacidade autônoma do próprio corpo; destrói a confiança em si mesmo, provocando uma espécie de “vergonha social” (Honneth, 2003, p.215).
À forma de reconhecimento do direito corresponde a forma de desrespeito intitulada privação de direitos ou exclusão social (exclusão da posse de determinados direitos no interior da sociedade) e se refere às experiências de rebaixamento que afetam o autorrespeito moral. Nesta esfera do reconhecimento, o componente da personalidade que é ameaçado é o da integridade social. Essa denegação de direitos provoca no sujeito desrespeitado a perda da capacidade de se referir a si mesmo como parceiro em igualdade na interação com os demais integrantes da sociedade. A experiência de privação de direitos de uma pessoa deve ser medida pelo grau de universalização e também pelo grau de materialização dos direitos institucionalmente garantidos (Honneth, 2003).
À forma de reconhecimento da solidariedade corresponde a forma de desrespeito da degradação moral e da injúria; refere-se negativamente ao valor social de um indivíduo ou de um grupo, ou seja, a formas de desrespeito e de depreciação de modos de vida individuais e/ou coletivos. A dimensão da personalidade ameaçada neste caso é da honra, da dignidade ou, em termos modernos, do
status de uma pessoa. A experiência de desrespeito é encontrada
na degradação da autoestima pessoal, ou seja, a pessoa é aqui privada da possibilidade de desenvolver uma estima positiva de si mesma (Honneth, 2003).
Se essa hierarquia social de valores se constitui de modo que ela degrada algumas formas de vida ou modos de crença, considerando-as de menor valor ou deficientes, ela tira dos sujeitos atingidos toda a possibilidade de atribuir um valor social às suas próprias capacidades. [...] a consequência [...] para o indivíduo, vai de par com a experiência de uma tal desvalorização social, de maneira típica, uma perda de autoestima pessoal, ou seja, uma perda da possibilidade de se entender a si próprio como um ser estimado por suas propriedades e capacidades características (Honneth, 2003, p.217-8).
Nos três tipos de denegação do reconhecimento, Honneth descreve suas consequências com metáforas relacionadas ao estado de abatimento provocado pela situação. Para as experiências de tortura e violação, fala de “morte psíquica”; no caso da privação de direitos e exclusão social, fala de “morte social”; e, para as situações de degradação cultural de uma forma de vida, a situação relacionada é a “vexação”, uma espécie de humilhação, ofensa. Reconhece também que as situações de rebaixamento e humilhação social ameaçam a identidade do indivíduo de maneira muito semelhante às provocadas em sua integridade física pelo sofrimento com a doença. Apresentam como consequência desse sofrimento reações emocionais negativas que se expressam como sentimentos de vergonha social (Honneth, 2003, p.218).
E para a resposta pretendida por sua tese, de qual seria “o elo psíquico que conduz do mero sofrimento à ação ativa”, Honneth defende que
essa função pode ser cumprida por reações emocionais negativas, como as que constituem a vergonha ou a ira, a vexação ou o desprezo; delas se compõem os