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Em alguma medida, compreender a poesia brasileira contemporânea é também rediscutir o cânone moderno e principalmente modernista, a partir das contribuições de Oswald e Mário de Andrade56, pensadores de seu tempo – e de vanguarda – que encarnam, na origem do movimento modernista, as contradições e os paradoxos de um projeto que almejava atualizar as ideias e as manifestações artísticas brasileiras com o que era feito no continente europeu.

Esta medida é sempre difícil de avaliar.

Por um lado, há uma crítica refratária – mais que refratária: condenatória – da poesia contemporânea, alicerçada em paradigmas modernistas cujas conclusões, como analisa Marcos Siscar (2010), resultam em um “processo de monumentalização pouco sensata dos poetas do passado, em especial os do Modernismo”. Esta “incapacidade de lidar com os impasses do presente” (SISCAR, 2010, p. 171) termina por considerar o Modernismo como auge da poesia brasileira. Assim, seguindo esta linha de raciocínio, surpreendente seria se esta parcela da crítica conseguisse encontrar mérito na poesia contemporânea e discuti-la sem vê-la como degeneração de uma linha evolutiva. Muitas vezes, a acusação é de que vivemos um tempo de exacerbada mediania nas artes, especialmente na poética. Paulo Henriques Britto, também poeta e crítico como Siscar, depõe contra tal argumento:

Ainda que nos falte perspectiva histórica suficiente para emitir juízos definitivos sobre o tempo em que vivemos, tudo indica que na nossa época, como em todas as outras, alguns poetas se destacarão da média,

56 A proposta “última e subjacente” de ambos poderia ser resumida no “conhecimento de nossa realidade” (COLI; DANTAS, 1996, p. 17).

e suas realizações serão imitadas e diluídas pelos poetas medianos que virão depois. Jamais houve uma era em que o artista médio fosse outra coisa que não mediano, como também jamais houve uma época em que todos os artistas fossem igualmente medianos. Não vejo por quê o nosso tempo há de ser diferente de todos os outros. Mais uma vez, está em jogo aqui a falácia da aparente excepcionalidade do tempo presente: como é só dele que temos vivência direta, ele nos parece radicalmente diferente de tudo que veio antes (BRITTO, 2013, s.p.). Por outro lado, como demonstrado nesta eleição de Siscar e Britto como interlocutores ativos no debate, há uma crítica capaz de dialogar com a produção poética atual, baseada em novas abordagens, com um instrumental ainda não sistematizado mas que consegue potencializar linhas-de-força e discutir o contemporâneo sem se prender a teorias e práticas de análise que confundem juízo com julgamento, para utilizar a terminologia proposta por Luiz Costa Lima (2013). O juízo “se impõe onde não haja uma lei preestabelecida, sendo ele que embasa o julgamento que porventura se venha a fazer. Se a crítica é necessariamente ajuizadora, só eventualmente será julgadora” (LIMA, 2013, p. 95-6).

Tendo em vista estas considerações iniciais, pode-se partir para uma discussão que abarque as tensões entre poesia e história, assumindo a historicidade na própria crítica.

Quando se fala em modernidade e crise, poesia e história, Octavio Paz é um dos poetas-críticos mais frutíferos. Na interpretação de Leyla Perrone-Moisés (1998, p. 34), “Paz busca uma conciliação entre a atemporalidade da experiência do poeta e a temporalidade do sujeito histórico. Para Paz, a poesia transcende a história”. Isto significa que o poema se refere tanto a um tempo arquetípico quanto ao seu próprio tempo histórico. Na terceira parte de O arco e a Lira, Paz discute as relações entre poesia e história:

[...] um poema que não lutasse contra a natureza das palavras, obrigando-as a ir mais além de si mesmas e de seus significados relativos, um poema que não tentasse fazê-las dizer o indizível permaneceria simples manipulação verbal. O que caracteriza o poema

é sua necessária dependência da palavra tanto como sua luta por transcendê-la. Essa circunstância permite uma indagação sobre sua

natureza como algo único e irredutível e, simultaneamente, considerá- lo como uma expressão social irreparável de outras manifestações históricas (PAZ, 1982, p. 225, grifos nossos).

história e a nega, em um movimento paradoxal de inscrição e recusa. Contudo, Paz (1982, p. 229-230) assinala a importância de perceber o conflito “nas entranhas do poema”, e não na história.

Theodor Adorno, em sua clássica Palestra sobre lírica e sociedade, também enfatiza a obra artística como centro do qual deve se irradiar a análise: “A referência ao social não deve levar para fora da obra de arte, mas sim levar mais fundo para dentro dela” (ADORNO, 2003, p. 66). O teórico alemão alerta para o método correto a ser empregado na imbricação entre poesia e história: “Conceitos sociais não devem ser trazidos de fora às composições líricas, mas sim devem surgir da rigorosa intuição delas mesmas” (ADORNO, 2003, p. 67). Em Poesia e prosa, Alfonso Berardinelli elucida o método proposto por Adorno: “elementos conteudísticos e elementos formais devem ser interpretados em sua conexão e co-presença, pois afinal não há ‘lírica individual’ que não se comunique subterraneamente com uma ‘corrente coletiva’, sem a qual nenhuma experiência histórica é concebível” (BERARDINELLI, 2007, p. 38). É somente com tais precauções que se pode abordar o poema sem fechar a obra de arte para a história, como a teoria formalista e do New Criticism, nem relegá-la a fato secundário, como estudos de abordagem mais sociológica.

Alfredo Bosi também discute tais tensões em O ser e o tempo da poesia, no qual se origina o conceito de poesia resistência, isto é, aquela que contém o “positivo” da ideologia e o “negativo” da contraideologia. No capítulo “O encontro dos tempos”, Bosi (1977, p. 120) afirma:

O poeta é o primeiro a dar, pela própria composição do seu texto, um significado histórico às suas representações e expressões. Não está em jogo saber aqui até que ponto ele tem consciência do processo. Cabe ao analista e ao historiador da literatura colher aquele significado.