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ÇeĢitli Sosyal Hadiseler Üzerine Söylenen Ağıtlar

E. GÜLġEHĠR‟ĠN SOSYO-KÜLTÜREL YAPISI

1.2. HALK ġĠĠRĠNDEN ÖRNEKLER

1.2.4.5. ÇeĢitli Sosyal Hadiseler Üzerine Söylenen Ağıtlar

A permanência da infância na ordem do discurso médico e a apregoada necessidade de sua higienização permitiu ao ambiente escolar ser tido como local ideal para a disseminação do ideário sanitarista do Brasil republicano. Justifica-se, também, o fato de a proposta social que visava a moldar as individualidades segundo padrões de normalidade ter escolhido o ambiente da escola como campo de ação por ser nessa instituição que as crianças eram encontradas reunidas em maior quantidade.

Segundo Luiz Antonio dos Santos Lima, um dos meios de se fazer a profilaxia mental dos indivíduos consiste em agir sobre as crianças no ambiente da instituição escolar. Pois,

Provindo do ambiente domestico, onde exerce dominação, á vezes dispotica, attenta a má comprehensão que teem os paes de sua missão, a creança entra na escola aos 7 annos e encontra um meio de egualdade perfeita, sob a égide esclarecida de um mestre, que precisa sêr um môdelo vivo de equilibrio physico e mental (LIMA, L., 1927b, p. 25).

Nesse sentido, à instituição escolar foi dado um aspecto disciplinar e sancionador, cujo centro de gravidade faria da educação o núcleo mediador da vida em sociedade. Nessa instituição, novos modelos de comportamento deveriam ser conformados a partir dos modelos formativos da higiene, uma vez que

Os bons conselhos quer de moral, quer de Hygiene, são muito aproveitaveis neste periodo [da infância] e assim como os máos processos pedagogicos podem influenciar na genesis da degeneração mental, assim também a bôa orientação impressa á educação de uma creança póde salvaguardal-a do desequilibrio psychico. (LIMA, L., 1927b, p. 25).

O caráter político que a instituição possuía é evidenciado não somente por ser considerada um instrumento de transmissão dos conhecimentos, como também por ser influenciada pelos conflitos de interesses e representar os valores dos grupos dominantes (FOUCAULT, 1982). A escola, sob a perspectiva da reprodução dos saberes médicos produzidos pelo poder sanitarista, bem como do cunho ideológico que possuía, permitia o exercer do “autoritarismo e da disciplina estéril”, tendo em vista a “passividade e obediência” coletivas do alunado (ARANHA, 2006a, p. 84).

Consideramos, assim, que as medidas sanitárias propostas pelo movimento ideológico higienista, a serem implementadas em todo o território nacional, adentraram nas instituições escolares, influenciando a cultura escolar brasileira do início dos novecentos.

Acerca da cultura escolar, entendemos que o conjunto de normas e práticas que a constituem é produzido historicamente

[...] por sujeitos e/ou grupos determinados com finalidades específicas, que estão relacionadas à definição dos saberes a serem ensinados, das condutas a serem modificadas e de todo um processo não só de transmissão de saberes, mas de modificação do

habitus pedagógico. (NUNES, 2011, p. 390, grifo da autora).

A crença, então, na capacidade da escola de regenerar, moralizar, disciplinar e unificar as diferenças permitiu à intelectualidade novecentista, preocupada com a identidade nacional, intervir na prática educativa e atingir a forma de pensar da população, modificando sua mentalidade e costumes. E, na medida em que a instituição escolar do início do século XX visava a corrigir os desvios de comportamento e atitude, tidos como anormais, e a desenvolver nos alunos aptidões

consideradas dentro do padrão da normalidade, ela imbuiu-se do discurso médico- sanitarista dominante de correção, normalização e disciplinamento.

A influência do movimento higienista na cultura escolar fez com que a escola fosse percebida como um

“[..] lugar social dotado de permanência, ou estabilidade, cercado de reconhecimento em sua missão, mantido por recursos materiais e humanos delimitados, normatizado externa e internamente e, enfim, sustentado por valores, ideias e comportamentos que, no seu conjunto, constituem a cultura institucional, no caso, a cultura escolar. (NASCIMENTO; SAVIANI, 2007, p. 40).

Sendo assim, os valores, ideários e padrões de comportamentos do pensamento médico sanitarista adentraram nas instituições escolares, cuja ação prolongada investia todos os sujeitos sociais em idade escolar, permitindo à ideologia higienista transmitir e corrigir conhecimentos, comportamentos e atitudes mentais verificadas nas crianças e jovens. A escola do início do século XX, portanto,

[...] deveria ser ordenada pelos princípios, métodos e prescrições da higiene, de modo a poder formar sujeitos fortes, saudáveis, inteligentes e moralizados que, com essas características, alicerçariam a nação, constituindo-se em base segura para um futuro idealizado como grandioso. (GONDRA, 2002, p. 119).

A prática educativa voltou-se, então, para o homem-indivíduo e homem- sociedade: plasmar e controlar, de forma a homogeneizar os comportamentos e modos de agir individuais, enquadrava as crianças e os jovens num padrão de formação para a reforma social, visando à modernidade e a civilidade do país. Pois, para o progresso social ser “generico”, coletivo, ele deve ser “resultante do progresso especifico, individual, cotejada e desenvolvida a equação psychologica de cada um, suas diretrizes de vida tão singulares como os traços de sua physionomia” (LIMA, L., 1927b, p. 13).

Vale ressaltar, também, como bem salienta Clarice Nunes (2011, p. 388), que a intelectualidade médica percebeu a escola como “instrumento de uma política ampla, coletiva, contínua e compulsória de resguardo e restabelecimento da saúde da população” e enfatizou a necessidade do cuidado não só da saúde física como também daquela de caráter mental.

A preocupação com a correção e prevenção das doenças mentais da infância brasileira do início do século XX mobilizava a intelectualidade médica na busca de suas causas e sintomas. Isso porque, associada à desordem, ao crime, ao alcoolismo, à preguiça, à falta de inteligência, entre outros empecilhos, a loucura e o efeito desestabilizador da ordem causado pelos doentes mentais eram nocivos ao desenvolvimento da nação.

Para a intelectualidade médica, e aqui destacamos a opinião de Luiz Antonio, os focos de ameaça à integridade da ordem estabelecida, considerada nas suas mais variadas dimensões – morais, sociais, econômicas, políticas, culturais, dentre outras –, seriam identificados e/ou associados à doença mental: “a uma visão mais esclarecida e aprofundada, o substracto causal dos crimes, como dos vicios e das epidemias, é de natureza psychologica” (LIMA, L., 1927b, p. 13).

Com isso, a especialidade psiquiátrica uniu a geração de intelectuais médicos – uma união não necessariamente cronológica, mas embasada na similitude de pensamento, de ideais; amparada pela perspectiva de mudança social, que só seria possível a partir das teorizações dos conhecimentos médicos-científicos. Tal fato permitiu à higiene mental ocupar um lugar de destaque na medicina social, possibilitado aos médicos orientarem o destino de cada indivíduo – inclusive o dos escolares.

Relatada pelo professor Marçal Ribeiro (1999), a importância dada pela intelectualidade médica à temática da higiene mental pode ser percebida pela expressiva quantidade de trabalhos teóricos sobre alienação mental que surgiram no Brasil entre o final do século XIX e o início do século XX.

Em conformidade com essa declaração, o médico e educador Luiz Antonio (1927b, p. 7) afirma que, “no Brasil, [...] os primeiros trabalhos sobre o assumpto datam de 1906 e são subscriptos pelos psychiatras Juliano Moreira e Ernani Lopes”. Teorizações essas que se caracterizaram, basicamente, como teses que foram apresentadas às faculdades de medicina do Rio de Janeiro e Bahia, visando à obtenção do título de doutor.

A partir daí, temática da higienização das mentes, portanto, fez com que Luiz Antonio dos Santos Lima, Heitor Carrilho, Afrânio Peixoto, Henrique Roxo, Leonídio Ribeiro, Miguel Ozório, Gustavo Riedel, Miguel Salles, Alvaro Guimarães Filho, Diógenes Sampaio, Antônio Austregésilo, Carlos Chagas, Miguel Couto, Júlio Porto-

Carrero18, entre outros médicos, compartilhassem espaços de sociabilidade científica e profissional e tivessem referenciais formativos próximos (DIAS, 2011).

Nesse contexto de preocupação da intelectualidade médica com o aspecto da saúde mental dos indivíduos, a instituição escolar, a educação e a política de higienização das mentes despontaram como aliadas que fizeram a educação sanitária ganhar um caráter de exemplaridade que extrapolasse as paredes das salas de aula e os muros das escolas (ROCHA, 2003). Isso porque o ideário do movimento higienista almejava não somente corrigir e prevenir doenças diversas nas crianças, mas também torná-las agentes civilizatórios para que pudessem corrigir os hábitos dos pais e prevenir doenças nos seus próprios lares.

Os defensores do movimento de higienização do país viam a infância como um período de modelagem da massa informe – da criança. Devendo, portanto, essa “modelação” ser “conduzida a partir dos preceitos médicos e psicanalíticos, na direção da saúde física e mental dos indivíduos e coletividade” (GONDRA, 2002, p. 67).

Para isso, a escola deveria possuir uma sequência metódica e sistemática de ensino, que submetesse os alunos a uma regulamentação científica, permitindo a eles passarem por diversas classes e graus de aprendizagem, de acordo com os seus aproveitamentos, e se tornarem capacitados a serem cidadãos úteis à República (BENCOSTTA, 2011).

É esse pensamento que mobiliza Luiz Antonio a escrever a tese de doutoramento “Hygiene Mental e Educação”, alvo de nossas investigações.

3.3 O POTIGUAR LUIZ ANTONIO DOS SANTOS LIMA INSERIDO NA

Benzer Belgeler