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Çatışma Çözme ve Akran Arabuluculuk Becerileri Programlarının Etkileri

2.3. Akran Arabuluculuğu Programlarının Yeri

2.3.2. Çatışma Çözme ve Akran Arabuluculuk Becerileri Programlarının Etkileri

Iniciamos o grupo focal com uma questão ―quebra gelo‖ que tinha a intenção de deixar os sujeitos mais à vontade para emitirem suas opiniões. Perguntamos a eles porque escolheram fazer Biologia. Vários sujeitos apontaram a influência de seus professores das escolas da Educação Básica na escolha por esse curso. Curiosamente, alguns deles apontaram a influência dos professores da Educação Básica na escolha pela docência, embora este não tivesse sido o foco inicial da nossa pergunta. Os trechos abaixo ilustram isso:

―na verdade eu decidi ser professora/ especialmente/ assim/ por que eu tive bons professores/ eu adorava/ era muito bacana a maneira como eles davam aula. (...) Tinha um professor/ ou professora/ eu nem lembro/ é engraçado como eu tenho uma memória muito boa desse professor/ mas eu nem sei se era mulher/ se era homem/ o que era/ não lembro/ só sei que ele fez um viveiro/ com uma cobra/ aquelas cobrinhas d‘água/ a cobra tinha nome/ a turma ficou maluca/ eu adorei aquilo/ falei/ ah/ é isso que eu vou ser/ desde isso/ aí eu quis já ser professora de ciências/ por que foi muito legal‖. (Elisa)

―Minha experiência também não foi muito diferente da delas/ eu também fui inspirada por um bom professor/ eu sempre gostei de professores/ desde muito nova/ e sempre gostei de ciências também/ aí no ensino médio/ na biologia/ eu fiquei/ é meio romântico de falar/ mas eu fiquei apaixonada por biologia/ (...)/eu quis seguir/ sempre quis ser professora mesmo‖. (Maria)

Conforme se vê nas falas acima, os professores da Educação Básica tiveram um papel decisivo na escolha destes licenciandos pela profissão de professor. Por isso são actantes que agiram na rede identitária, se associando à identificação dos licenciandos com a docência.

Alguns dos licenciandos elencaram características que fazem destes professores, ―bons professores‖:

―No ensino médio também tinha um professor/ espetacular de biologia (...) ele dava aula muito bem/ sempre/ é/ procurava fazer coisas diferentes com a gente/ é/ feira de cultura/ a gente mesmo que fazia/ é/ as dinâmicas/ assim/ mais diferentes‖. (Zélia) ―Ele era um excelente professor/ eu sempre achei o saber muito/ sabe/ a autoridade do professor/ de saber/ de/ passar informação/ sempre gostei muito disso‖. (Maria) ―Eu acordei para a Biologia foi no primeiro ano/ do ensino médio/ minha professora/ Edna/ cabelos cacheados/ aqui assim/(...) ela apresentou para mim a Biologia de uma forma assim tão/ sei lá/ linda/ ela explicava aquilo com uma calma/ com uma paciência‖. (Ester)

―No ensino fundamental eu tive uma professora que ela era muito brava/ mas ela impunha respeito na turma e aquilo ali já me chamava a atenção‖. (Zélia)

Para estes licenciandos,explicar o conteúdo com calma e paciência, realizar atividades

diferentes, ter autoridade sobre a turma são características que eles reconhecem como importantes para o exercício da docência. Por este motivo, entendemos que aí está sendo performada uma identidade-discurso, isto é, por meio da interação entre professor e alunos, emergem características individuais, traços subjetivos do professor (ser calmo, criativo, seguro, bravo) que fazem este sujeito ser reconhecido (pelos alunos) como um bom professor.

Por outro lado, também podemos identificar, na fala de Maria, indícios da

mesmo‖, dá sinais de um desejo ―naturalizado‖ pela docência, que se manifesta desde ―sempre‖.

Um outro actante, híbrido, que identificamos na fala dos licenciandos são as experiências escolares que eles vivenciaram enquanto estudantes da Educação Básica. Veja alguns exemplos:

―(...)/ e um (professor) também que fez um joguinho com a gente que era o jogo do milhão das ciências/ e aquilo também me deixou muito feliz/‖ (Zélia)

―Ela disponibilizou material didático próprio/ ela levava data show para a sala de aula/ transparência/ coisa que eu nunca tinha visto na minha vida/ e eu comecei a me dar bem no conteúdo dela/ eu comecei/ passei a gostar/ [00:21:33] então assim/ essa professora que é responsável por eu estar fazendo Biologia‖ (Ester)

Poderíamos supor que estas experiências são apenas os efeitos da atuação dos professores. Afinal, é preciso alguém (um sujeito) para desenvolver tais experiências. No entanto, do ponto de vista da ANT elas são mediadores, pois transformam/deslocam os interesses dos sujeitos, em vez de funcionarem como meros intermediários dos conteúdos.

Isso fica claro quando Elisa afirma: ―eu nem sei se era mulher/ se era homem/ o que era/ não

lembro/ só sei que ele fez um viveiro/ com uma cobra/ aquelas cobrinhas d‘água/ a cobra

tinha nome/ a turma ficou maluca/ eu adorei aquilo/ falei/ ah/ é isso que eu vou ser‖.

Note que Elisa chama atenção para os objetos e as experiências propriamente (cobras d‘água, fazer o viveiro), e não para os professores que as realizaram. Ela sequer lembra quem era o professor ou a professora. Como deslocaram os interesses dos sujeitos, as experiências agiram na rede identária docente, por este motivo são consideradas aqui como um actante.

Identificamos, portanto, translações que se associaram à rede identitária docente antes mesmo da entrada dos licenciandos no curso. Entretanto, seus depoimentos também mostram que ocorreram translações que desviaram o interesse pela docência antes de ingressarem na licenciatura. É o caso, por exemplo, das suas percepções sobre a docência. Referências ao magistério como uma atividade desprestigiada e mal remunerada, bem como de uma profissão socialmente importante e útil estiveram presentes na fala dos sujeitos. Estas percepções, positivas e negativas, da atividade do professor, tanto desviam quanto se associam ao fortalecimento da identidade docente e marcam a trajetória de escolha pela licenciatura. Observe as falas abaixo que ilustram estas percepções:

―Ser professor hoje não é legal como era/ sei lá/ vinte/ cinquenta/ sei lá quantos anos atrás/ quando ser professor era autoridade de sala/ tinha poder aquisitivo/ por questão social da época./ Então assim/ já no seu ingresso/ [00:28:06] você fala/ ―eu estou fazendo licenciatura/ vou ser professor/ ah tá‖. (Elisa)

―(...)e eu sabia que o professor tinha um papel essencial/ até porque minha mãe saiu de uma classe baixa e ela conseguiu ascender socialmente bastante devido à educação/ então eu tinha essa consciência de que com educação a gente podia mudar o país, então eu falei/ bom/ é/ na época dessa opção de fazer vestibular em licenciatura/ se eu acabar sendo professora/ pelo menos assim/ é uma coisa muito importante e dado que eu já tinha uma profissão que poderia me garantir um ganho básico para sobrevivência/ eu falei/ seria até uma coisa de contribuição mesmo de realização pessoal/ eu estou fazendo algo de útil entendeu/ estou sendo útil para a sociedade fazendo uma coisa importante‖. (Efigênia)

Observe que nas falas acima está sendo performada uma identidade-discurso, na medida em que Efigênia e Elisa chamam atenção para características reconhecidas como próprias da profissão docente, ainda que, segundo Efigênia, não estejam tão ―presentes‖ hoje em dia como antigamente. Para elas o professor é a autoridade de sala, é importante e útil. Isso corrobora nossa impressão de que as percepções dos licenciandos sobre a docência são figurações que acionam experiências e imagens de outros tempos e espaços. Como nos lembra Nespor (1994), as nossas vivências aqui e agora são mediadas por pessoas e coisas de outros

lugares e épocas. Isso fica claro na fala de Elisa, quando ela diz: ―Ser professor hoje não é

legal como era/ sei lá/ vinte/ cinquenta/ sei lá quantos anos atrás/ quando ser professor era autoridade de sala/(e) tinha poder aquisitivo‖.

Então, não podemos desconsiderar que a construção da identidade profissional pelos licenciandos é resultado de actantes distribuídos em um vetor espaço-temporal.

Outro aspecto a ser ressaltado é que este contraste entre as percepções construídas quanto à docência, que se associam e se desviam do magistério como possibilidade profissional também foi apontado por Gatti (2009) em seu estudo com alunos de Ensino Médio de escolas públicas e privadas brasileiras:

―Os sentidos que [os alunos] atribuem à imagem da profissão retratam sempre duas perspectivas de análise. Ao mesmo tempo em que conferem à docência um lugar de relevância na formação do aluno e que o professor é reconhecido pela sua função social, retratam que se trata de uma profissão desvalorizada (social e financeiramente) e que o professor é desrespeitado pelos alunos, pela sociedade e pelo governo‖. (GATTI, 2009, p. 66)

As percepções dos estudantes, portanto, vão ajudando a desenhar uma dada imagem da profissão, que certamente tem influência na identidade que se constrói em torno dela. Na

perspectiva da Teoria Ator-Rede, esta ―imagem‖ seria uma figuração do que é ser professor.

A representação gráfica que segue na Figura 8 ilustra a rede identitária docente antes do ingresso dos licenciandos no curso:

Note que os actantes representados em azul se associam à construção de uma identidade com a docência, ao passo que o ator em vermelho simboliza um desvio desta identidade.