De forma resumida, podemos destacar os seguintes dados de caracterização dos licenciandos em Ciências Biológicas, formandos no segundo semestre de 2013:
A grande maioria dos formandos é do sexo feminino e têm em média 25 anos de idade. A maior parte deles estuda no período noturno, sendo que parte considerável dos licenciandos não trabalha e possui renda familiar entre 3 a 6 salários mínimos, seguidos por parte expressiva que aufere renda familiar entre 1 a 3 salários mínimos.
A maioria dos formandos estudou no ensino médio em escolas públicas. Grande parte dos formandos, ao ingressar na graduação, não tinha como primeira opção o curso de licenciatura. No entanto, a grande maioria deles sabia que a licenciatura tem foco na formação de professores.
Sobre as opiniões quanto à docência no ingresso do curso sobressaem as concepções negativas em relação à mesma, já que a maior parte a considera uma profissão desvalorizada e mal remunerada e também uma profissão muito desgastante e pouco reconhecida. A despeito disso, os dados também apontam que a maioria dos sujeitos pretende atuar como docentes. No entanto, uma minoria deseja trabalhar em escolas públicas da Educação Básica e boa parte deles pretende atuar no Ensino Superior. Os dados acima nos parecem alarmantes, se consideramos o baixo interesse dos licenciandos em atuar na escola pública e, em contrapartida, um número relativamente elevado de sujeitos que manifestaram desejar atuar no ensino superior. Ou seja, parte dos licenciandos assume a possibilidade de atuar na docência, mas não em ―qualquer‖ docência. Somado a isso, nos surpreendeu o fato de que parte considerável da amostra não deseja atuar como docente, muito embora conhecessem o foco do curso na formação de professores, quando ingressaram no mesmo.
Observamos que, dentre os sujeitos que escolheram a docência como profissão, parte expressiva já entrou no curso com a opção pela atuação no magistério e poucos deles mudaram sua opinião durante o curso. No entanto, dentre os licenciandos que afirmaram escolher não atuarem na docência, a grande maioria deles mudou de ideia ao longo do curso. Ao elencarem os motivos desta mudança, colocam que os principais desmotivadores para serem professores são: a remuneração da profissão, o contato com a escola e a vivência de sua realidade; o Estágio Supervisionado; as disciplinas da Faculdade de Educação e o desestímulo da família ou dos amigos.
Outro dado interessante revela que um número bastante expressivo dos sujeitos já participou ou participa de pesquisa na área da Biologia, a maior parte como bolsistas de iniciação científica, o que pode indicar que a iniciação à pesquisa nos laboratórios do ICB pode ser um dos desvios para a inserção dos alunos nas experiências com a docência. A isonomia profissional entre biólogos bacharéis e licenciados também apareceu como um desvio da identidade docente, expresso nos comentários de dois licenciandos.
A despeito dos dados gerais que se apresentaram negativos em relação à construção de uma rede identitária fortalecida com a docência, percebemos que, quando analisamos os dados por grupos, os pibidianos tendem a apresentar uma percepção mais positiva da docência, conforme destacamos ao longo deste capítulo.
A nosso ver, por ser uma licenciatura, o curso de Ciências Biológicas - que é um espaço formativo onde deveriam ser realizadas translações em favor da docência - parece que não tem realizado associações entre actantes que fortaleçam esta identidade docente. Isso se verifica quando boa parte dos licenciandos apontam que durante sua trajetória acadêmica mudaram de opinião sobre a possibilidade de atuação profissional no magistério. Além disso, o interesse pela docência é desviado pela grande oferta de bolsas de iniciação científica nos laboratórios de pesquisa do Instituto de Ciências Biológicas. Somado a estes actantes, a remuneração da profissão e o baixo reconhecimento social também aparecem como fortes elementos que promovem associações para a construção de uma rede contraidentitária em relação à docência.
Outro espaço formativo - a escola - também parece ter papel fundamental no interesse dos licenciandos pelo magistério; tanto para os que escolheram a docência quanto para os que dela desistiram. Este dado aponta a importância de se antecipar o contato dos licenciandos com as experiências de docência, de modo que possam ratificar ou não sua escolha pela profissão de professor.
A fim de compreender mais profundamente os resultados aqui anunciados, conduzimos os grupos focais com pibidianos e não pibidianos separadamente, de modo a compararmos as redes identitárias construídas pelos dois grupos. Disso trata o próximo capítulo.
CAPÍTULO 7- SEGUINDO OS RASTROS DOS ACTANTES E SUAS TRANSLAÇÕES
Como anunciamos anteriormente, para a Teoria Ator–Rede, o relato do pesquisador
deve ser uma descrição detalhada das associações que compõem uma dada rede, num dado momento. Este é o esforço que buscamos fazer e apresentamos a seguir. As análises referem- se à composição do atlas de mapeamento da controvérsia: a identificação de actantes que promovem desvios e associações quanto à identidade docente, ao longo da trajetória do curso,
relatada pelos licenciandos no decorrer dos grupos focais43. Desta forma, traçaremos as redes
identitárias da docência entre pibidianos e não pibidianos. A descrição será feita, primeiramente, por grupo focal, e então realizaremos uma comparação entre as translações promovidas pelos diferentes actantes em cada grupo, possibilitando assim, identificarmos o papel das vivências formativas na performance das identidades docentes.
Para permitir uma leitura mais fluida organizamos o relato a partir de três momentos distintos da trajetória dos licenciandos. Um primeiro momento se refere aos actantes apontados nos depoimentos deles, que agiram na rede identitária no período anterior à entrada no curso; um segundo momento se refere aos actantes elencados pelos sujeitos, que agiram na época da entrada no curso propriamente dita; e um terceiro momento refere-se aos actantes que agiram durante a trajetória acadêmica dos licenciandos. Todos os actantes identificados serão sublinhados neste texto.
A título de ilustração, um diagrama que mostra as translações da rede identitária docente ao longo da trajetória dos licenciandos será apresentado ao final do relato. Caso queira, o leitor pode consultar o diagrama a medida em que as análises vão sendo descritas. Este diagrama é uma síntese do que será narrado e representa todos os actantes presentes no discurso dos licenciandos, mesmo aqueles com pouca representatividade.
É importante lembrar que, na rede de translações que buscamos traçar estão embutidas outras redes, que constituem uma dinâmica própria e que operam como actantes de redes maiores. Por este motivo as redes têm um aspecto semelhante a um rizoma, ou a um fractal, parecido com as representações da Figura 7, a seguir.
43 Importante destacar que esta pesquisa não teve o objetivo de questionar e/ou problematizar o conteúdo das
narrativas dos licenciandos. Por este motivo, não fazemos juízo de valor quanto às suas falas/opiniões/percepções.
Figura 7: Representações de rizomas. Note que existem vários núcleos, mais densos, que se ramificam serialmente em núcleos menores.
Fonte: Google Images
Portanto, embora saibamos que uma rede de atores é simultaneamente um ator (MORAES, 2004) e que, portanto, todo ator é simultaneamente um ator-rede, algumas conexões entre os actantes emergiram de forma mais visível que outras, na narrativa dos licenciandos. Por este motivo, e apenas para fins didáticos, nesta exposição, alguns actantes serão descritos como atores-rede, quando ficar evidente que abrigam conexões entre outros actantes de uma rede menor. Nas redes, portanto, os atores-rede tem um aspecto rizomático.