Para que a cidade não se torne um território segregado, com espaços ocupados de acordo com os interesses da classe dominante, é preciso repensar no modelo de desenvolvimento urbano que por ora se estabelece, na tentativa de, após identificá-lo, transformá-lo:
Devemos nos preparar para estabelecer os alicerces de um espaço verdadeiramente humano, de um espaço que possa unir os homens para e por seu trabalho, mas não para em seguida dividi-los em classes, em exploradores e explorados; um espaço matéria-inerte que seja trabalhada pelo homem mas não se volte contra ele; um espaço Natureza social aberta à contemplação direta dos seres humanos, e não um fetiche; um espaço instrumento de reprodução da vida, e não uma mercadoria trabalhada por outra mercadoria, o homem fetichizado. (SANTOS, 2009, p.41)
A democratização dos espaços se torna cada vez mais urgente à medida que está relacionada à desigualdade socioeconômica e, infeliz e mais gravemente, à pobreza. Além disso, correlaciona-se a esta questão outros problemas sociais, ainda que não sejam de forma exclusiva, como a violência criminal.
É certo que o Estatuto da Cidade dispõe sobre a gestão democrática da cidade, prevendo sua efetivação através de:
Artigo 43
Para garantir a gestão democrática da cidade, deverão ser utilizados, entre outros, os seguintes instrumentos:
I – órgãos colegiados de política urbana, nos níveis nacional, estadual e municipal;
II – debates, audiências e consultas públicas;
III – conferências sobre assuntos de interesse urbano, nos níveis nacional, estadual e municipal;
IV – iniciativa popular de projeto de lei e de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano;
V – vetado.
Ocorre que tal sistema de participação não tem correspondido na prática com as reais demandas da sociedade. Isso por que a forma como está disposto não obriga o gestor a acatá-los e obedecê-los, tornando sua observância restrita à disposição legal.
Os órgãos colegiados de política urbana, por exemplo, são formados por agentes do Estado, pouco tendo o envolvimento dos demais cidadãos interessados. Em Fortaleza, a Câmara Municipal aprovou a Emenda n° 4/2012 à Lei Orgânica Municipal, pela qual o Conselho da Cidade passou a ser o “órgão colegiado, autônomo e de
composição paritária entre o Poder Público e a sociedade”15, em atendimento ao inciso I do artigo 43 do Estatuto da Cidade. Atualmente, o Conselho da Cidade não foi sequer implementado.
As audiências e consultas públicas ocorrem sem ampla divulgação e sem a prévia conscientização dos reais interessados nos processos de urbanização, ferindo o direito à informação e participação dos envolvidos por faltar-lhes a comunicação efetiva.
A participação social deve ocorrer durante todo o processo de planejamento e construção dos conjuntos habitacionais populares, bem como durante a remoção das comunidades que irão residir lá. Essa participação garante que as reais necessidades dos moradores serão atendidas, quanto ao espaço, à localização, os serviços e bens urbanos em geral (transporte, hospital, posto de saúde, escola, creche, comércio, etc.).
Toda a comunidade deverá participar, e é de inteira responsabilidade do Poder Público garantir que todos os indivíduos envolvidos estejam cientes de todo o processo. Tal garantia é importante porque a prática tem demonstrado que as lideranças comunitárias muitas vezes não representam os interesses da própria comunidade por diversas razões, principalmente, por questões políticas.
De acordo com o guia16 produzido pela Relatoria Especial da Organização das Nações Unidas para moradia adequada, os desalojamentos inevitáveis devem ocorrer de forma participativa, envolvendo os indivíduos que terão suas vidas atingidas pelo processo. As condições básicas para tanto podem ser elencadas assim:
Todas as informações sobre o projeto devem estar disponíveis com antecedência, em idioma e dialeto das pessoas que serão atingidas, em linguagem acessível e utilizando referências comunitárias.
As pessoas atingidas têm o direito de procurar assessoria independente para discutir e elaborar projeto alternativo. É recomendável que existam fontes de financiamento para propiciar tais estudos alternativos; muitas vezes, acordos e convênios com universidades podem viabilizar esses projetos.
Todos e todas devem ter voz assegurada e considerada, sem qualquer tipo de intimidação e com respeito às formas de expressão das comunidades atingidas. (ONU, p.12, online)
15 Disponível em:<http://216.59.16.201:8080/sapl/sapl_documentos/materia/7146_texto_integral>. Ver
também: <http://www.cmfor.ce.gov.br/noticias/conselho-da-cidade-passa-a-ter-previsao-no-conselho-das- cidades/>. Acesso em: 27 dez. 2012.
16 Disponível em:
<http://direitoamoradia.org/wpcontent/uploads/2012/01/GUIA_REMOCOES_portugues_20119.pdf>. Acesso em 18 dez 2012.
A participação popular deve ser garantida como instrumento, inclusive, de justiça social. Todos os interessados envolvidos devem ter direito a fazer suas considerações, sugestões e críticas ao processo de reassentamento, bem como ter a garantia de que suas notas serão levadas a cabo. O respeito às ideias populares significa realmente democracia e, se o poder emana do povo, nada mais justo que seja ele – o povo – a decidir como as políticas públicas devem ser aplicadas.
Burnett denuncia a interveniência estatal nos processos urbanos como a principal farsa da ideologia democrática que existe na legislação inerente, porque a atuação do Estado inibe, para não dizer desconsidera, qualquer sugestão ou apontamento dos verdadeiros interessados, simplesmente se impõe sob a chancela do “desenvolvimento urbano”:
[...] justamente quando a participação popular parecia assumir, ilusoriamente, os espaços e as ações de planos e programas que, finalmente, atenderiam as carências da cidade ilegal, fantasmas como “desenvolvimento urbano” se interpõe entre o sonho e a realidade. Desenvolvimento que convoca e exige a interveniência do Estado – centro da racionalidade, que deveria ser reconstituído como base econômica para os investimentos privados e eixo da política distributiva, apesar do corte neoliberal de seus trajes – e lhe a decisão sobre os destinos da Reforma Urbana. (BURNETT, 2011, p. 265)
Em verdade, a atuação do Estado como parte e mediador dos processos urbanos torna sua atuação inidônea à medida que, obviamente, tenderá a acatar apenas seus próprios interesses – que, infelizmente, tem mostrado ser o interesse da classe economicamente dominante, no atual e mais recente traje do capital imobiliário e do velho resistente proprietário fundiário.
A organização social parece ser a única maneira de romper com os fetiches legais atuais que mascaram a realidade de alienação e dominação da classe mais pobre pela classe mais favorecida e pelo Estado, porque a insistência nos instrumentos que são ofertados pela atual conjuntura política e jurídica está muito longe do verdadeiro conceito de democracia e de real participação popular.
Enquanto as informações servirem para apenas parte da sociedade e forem redigidas de acordo com interesses particulares, as injustiças e submissões jamais escaparão, haja vista não haver movimento que resista sem uma ideologia condizente e firme.
Sob a forma mercadoria os valores de uso deixam de ser simplesmente objetos úteis e adquirem poderes enigmáticos. A mercadoria parece adquirir vida própria, ela se torna tão sutil e astuta que é capaz de coisas mais fantásticas do que realizar uma simples dança. A mercadoria não é mais uma
coisa simples, ordinária e física, ela se torna encantadora e metafísica, capaz de iludir e distorcer a consciência dos homens (PRADO, 2008, p. 1, online) O sistema é envolvente e ilusório, invertendo os valores e inserindo o conformismo cada vez mais profundo na sociedade. Os movimentos sociais se esvaziam à medida que a mercadoria toma mais espaço, e tudo já parece ser mercadoria. A moradia, ainda um direito fundamental, inviolável, cuja função primordial é dar segurança e privacidade, tornou-se também mercadoria. O poder parece emanar de outras fontes, senão o povo.
Nessa esteira de pensamento, a reprodução dos moldes capitalistas a todas as relações sociais, políticas, econômicas, culturais, etc. – pela qual há sempre submissão, alienação e dominação de uns para com outros –, dificulta a luta de classes, iludindo os mais carentes com infraestrutura, dando-lhes um direito enquanto negam-se outros, como se os direitos também não fossem iguais para todos.
A seguir por este mesmo caminho, à sociedade só resta se organizar de forma efetiva para conquistar e proteger seus direitos. A dialética material17 de Marx ainda vive, com as novas formas de dominação, é verdade, mais ainda pungente e gritante, com todas as suas crueldades sociais intrínsecas.
17 A dialética é a estrutura contraditória do real, que no seu movimento constitutivo passa por três
fases: a tese, a antítese e a síntese. Ou seja, o movimento da realidade se explica pelo antagonismo entre o momento da tese e o da antítese, cuja contradição deve ser superada pela síntese. Para Marx (em O Capital), o dado primeiro é o mundo material, e a contradição surge entre homens reais, em condições históricas e sociais reais. Assim, o mundo material é dialético, isto é, está em constante movimento, e historicamente as mudanças ocorrem em função das contradições surgidas a partir dos antagonismos das classes no processo da produção social. (Do Livro: Filosofando, Introdução à Filosofia, de Maria Lúcia de Arruda Aranha e M. Helena Pires Martins, Ed. Moderna, pág. 88-90, 1993, São Paulo).
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
É impossível nos imaginarmos sem ocuparmos um espaço especifico. Somos matéria e, como tais, necessitamos ocupar. Como não somos apenas matéria, somos também razão, este espaço não pode ser qualquer local, devemos escolhe-lo. .
Os conjuntos habitacionais populares existem para efetivar o direito à moradia de diversas pessoas desfavorecidas economicamente. Suas condições financeiras, contudo, tem servido de motivo para marginalizá-las e, inclusive, excluí-las dos processos de remoções, negando-lhes a opção de escolher em qual lugar querem permanecer, como ocorre com a parcela social mais abastada.
Os conjuntos habitacionais têm sido construídos em territórios longínquos dos bens e serviços urbanos, dificultando o acesso e até inviabilizando o direito à cidade das pessoas que são removidas, como se já não bastasse a quebra do vinculo comunitário quando da ocorrência da remoção.
Destarte, ao desalojar um individuo para realocá-lo em lugar diverso e distante do original, o Estado intervém de forma violenta na vida particular destas pessoas, rompendo relações sociais, culturais, trabalhistas, econômicas e todas as demais atreladas a nossa vida em sociedade.
Via de regra, as pessoas que vão morar em conjuntos habitacionais populares não tem uma habitação digna no local de origem, carecendo de diversos recursos e serviços básicos. A construção de uma casa de alvenaria - com água encanada, luz elétrica e saneamento básico -, de fato, oferece a infraestrutura mínima para sua dignidade no habitar, mas ela tem sido descontextualizada e desvirtuada de seu verdadeiro fim.
Os indivíduos que inevitavelmente tem de ser despejados ou removidos devem ser realocados para locais próximos ao seu lugar de origem, para que suas vidas sejam minimamente afetadas. Nesse sentido, o Estado deve procurar construir conjuntos habitacionais populares mais centralizados, de acordo com as demandas sociais da comunidade desalojada, garantindo-lhes tanto o direito à moradia quanto o direito à cidade. Além disso, é imprescindível o diálogo com a comunidade que vai sofrer o processo de remoção, para informá-la precisamente de todos os procedimentos e ações necessárias, bem como ouvir sugestões e contrapontos ao plano interventor – isso faz parte da chamada gestão democrática da cidade.
Com base na nossa legislação vigente, o direito à moradia e o direito à cidade são direitos fundamentais, cujas efetivações devem ser de modo interdependente e harmônico por duas razões evidentes: a primeira, por ser próprio de suas naturezas como direitos humanos e, por conseguinte, premissas para a dignidade do homem; a segunda, por seus conteúdos serem indissociáveis do ponto de vista jurídico e social.
No direito à cidade reside o direito à moradia, porque é próprio do ser humano a interrelação e a socialização, sendo inadmissível a negativa de sua inserção em espaços considerados públicos quando estes pertencem a uma nação democrática, uma vez que a democracia pressupõe, até em sua leitura menos sofisticada, a igualdade de participação.
Na sociedade, pois, deveríamos ocupar espaços equitativos, de acordo com nossa livre escolha e real necessidade, jamais por discriminação ou razão econômica, porque isso configura segregação social, e a consequência dessa desigualdade resulta na perversidade das relações humanas e em suas injustiças infindáveis.
A moradia, que serve para proteger e dar privacidade ao individuo, tornou- se uma mercadoria na atual sistemática das relações econômicas, e o setor imobiliário tomou a notoriedade indesejada porque se transformou no comércio desproporcional e desleal, próprio dos produtos capitalistas.
Quando subjugamos certa parcela da sociedade a uma realidade constrangedora e violenta que é um despejo ou remoção, devemos oferecer em contrapartida não apenas o mínimo necessário, porque não deve ser jamais uma relação de escambo, mas todos os meios que possam minorar o sofrimento pelo desalojamento de seus locais de origem.
A prática tem mostrado que a dominação de uma classe pela outra atrapalha o desenvolvimento social e humano, pois fere e viola direitos fundamentais toda submissão e situação de discriminação. A população mais carente tem seus direitos fundamentais violados rotineiramente, mas pouco sabe como se articular para defendê- los e validá-los, porque também é carente de informações.
Romper com essa realidade de segregação generalizada é um desafio secular que exige esforços e verdadeiras transformações sociais, jurídicas, políticas e filosóficas. Contudo, para os “dominantes”, inclusive os agentes do Estado, não esta no rol de seus interesses dizimar privilégios e poderes já há muito firmados.
O Estado tem encarado o problema habitacional como sendo meramente quantitativo, priorizando em suas políticas o capital imobiliário em detrimento de investimentos em políticas sociais para aparar os desabrigados e os excluídos socialmente.
A questão da moradia é bem maior que a oferta de um Estado provedor, ela toma as ruas, as praças, as lojas, as escolas... todos os espaços urbanos, enfim, porque é a questão da existência de classes. A luta de classes, então, seria ainda a única solução para transpor tamanha desigualdade.
A segregação territorial é apenas um lado do grande espectro da realidade excludente que assola nossa sociedade, marginalizando tantos indivíduos cujo potencial fica também à ermo e subjugados aos guetos e às periferias, sem alguma condição de desenvolver-se efetivamente. A cidade, contudo, envolve a todos.
Nessa imersão espacial, ainda que separadas, várias realidades se cruzam e se transpõem, gerando revolta e indignação quando não raro se constata a injustiça do sistema excludente, em que os bens materiais conseguem sobrepujar-se à dignidade.
É nesse sentido que os conjuntos habitacionais populares devem ser repensados, como uma proposta mais complexa e, por isso mesmo, humana. Aliás, eles devem fazer parte de todo um planejamento articulado urbano, em que se prime ter o homem como centro, e nãos as ruas ou as coisas.
Nosso atual modelo de cidade não corresponde ao disposto no nosso ordenamento jurídico pátrio, tampouco com as reais necessidades sociais. Diante do colapso que já se encontra os moldes desplanejados das cidades brasileiras, resta remediar os espaços com mais estudos e responsabilidades com a questão urbana, esta seria uma forma de revolução, para não esquecer as lições de Lefebvre.
A garantia de uma habitação digna é um dos vieses para se efetivar o direito à cidade dos indivíduos, mas esta não pode jamais ser tomada como bandeira única ou moeda de troca da política de desenvolvimento urbano, tampouco pode servir de propaganda eleitoral.
A moradia digna é um direito, e a cidade também.
A moradia é bem mais que uma casa de tijolos, com paredes sólidas e teto de telha. A moradia requer vida dentro dela, vida essa capaz de sonhar, de planejar, de construir e de participar da própria vida.
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