Com base na ocasião em que foram escritos, Peter Mann (1975) classifica os documentos em “contemporâneos” e “retrospectivos”. Os documentos contemporâneos são aqueles que foram compilados na ocasião pelo autor. São do tipo “estou escrevendo agora”. No caso deste trabalho, cito as entrevistas com o alunado e o professorado, além de certas passagens do diário de campo, que assim são identificados. Já os documentos retrospectivos
são aqueles compilados pelo autor após o acontecimento. São do tipo “escrevi depois”. Deste trabalho, o principal escrito retrospectivo foi o diário da pesquisa; quanto aos documentos contemporâneos, merecem ser destacadas as entrevistas que realizei com o alunado e com o professorado.
Porque a fase da pré-intervenção tinha finalidade exploratória – explorar para contar, para aprender, para compreender o cotidiano de uma realidade, para mim, pouco conhecida: o ensino na 4ª série – os documentos que busquei e as técnicas que utilizei foram: a observação, no quarto bimestre de 2000, das aulas de Português, Matemática, Ciências, Estudos Geográficos e Estudos Históricos de uma turma da 4ª série; a redação de escritos retrospectivos, isto é, a elaboração de um diário para os registros da observação e também das demais técnicas em andamento; a pesquisa documental em escritos contemporâneos, relativos às atividades docentes, ao desempenho discente e à história do NPI; a realização de entrevistas com as professoras e com o alunado da turma e aplicação de questionário para o mesmo alunado.
As técnicas, por sua vez, tinham como finalidade procurar respostas às questões com que enveredei pela fase de pré-intervenção. Como quem procura um caminho conhecido no escuro, procurei saber: 1) Como os alunos e alunas da turma escolhida concebem a prática pedagógica? Que conceitos de planejamento, ensino e avaliação têm? Por quê?; 2) Que papel é designado aos alunos e às alunas nesses processos? São sujeitos ou assujeitados? Que vez e vozes têm na sua configuração? Por quê?; 3) Que experiências as professoras propiciam aos alunos e alunas que ilustram os conceitos que têm e confirmam ou não o papel que exercem? Por quê?; 4) As práticas docentes e as relações humanas estabelecidas com o alunado
caminham a favor ou contra a ruptura que ele experimentará na série seguinte? Como? Por quê?
Discriminadas as ferramentas e o trabalho delas, é momento de expor as técnicas, dizer dos seus tempos e seus objetivos, além do papel dos sujeitos em cada uma. Começo pela pesquisa documental, aquela que me propiciou menos prazer, exceto pela confirmação de coisas já sabidas, mas não pré-concebidas, de outras pesquisas ou discutidas em obras públicas. Avanço pela observação numa turma de 4ª série por um bimestre inteiro; o questionário que apliquei na turma que observei; as entrevistas que realizei com o alunado e as professoras e, para concluir, a intervenção, que, em opinião passional, é o melhor produto do processo que idealizei. Essa técnica requisitou de mim os maiores esforços: fosse para desenvolvê-la a contento, como autopropusera (até para tornar público os meandros da intervenção que reinventava ações típicas de sala de aula); fosse para aplacar os problemas osteomusculares que me acometeram na metade final da pesquisa, provocadas pelas muitas horas de trabalho diante do monitor.
O que fazer? Irei ao médico outra vez. (...) Preciso cuidar melhor de mim. Impossível atender à recomendação médica de reduzir o tempo diante do computador. Ainda tenho uns nove meses de trabalho com os periféricos dos dois que tenho à disposição. Nove meses, tempo exato para... gestar uma tese! (DIÁRIO DE CAMPO. 27 DE ABRIL DE 2002)
Gestação que, apesar de todas as dores, foi sinônimo do prazer mais genuíno. E nada, nada foi mais beatificante do que registrar de forma pormenorizada a investigação no diário de campo. Penei, cansei (quase desisti), mas... gostei. Como gostei!
11.1 A pesquisa documental
Se precisasse emprestar uma natureza à pesquisa documental, diria que foi constatativa. Profundo conhecedor da realidade da escola, na qual sou professor engajado na crítica e revolução das práticas há 12 anos; conhecedor dos esforços que, se tornam embates entre o “tradicional” e o “novo” ato pedagógico, que as professoras da 1ª à 4ª série fazem para oferecer um ensino de qualidade, antevi tantos os ranços como os avanços (ainda e já) existentes nas rotinas, sobretudo aquelas relativas ao processo avaliativo que encontraria na primeira metade do Ensino Fundamental. O que depreendi dessas rotinas transformei em matéria de entrada dos Capítulos 4, 5 e 6. Por isso, afirmo que o prazer da “descoberta” documental foi menor em comparação com as das demais técnicas aplicadas durante a pré- intervenção. Embora, deva ressaltar, alguns aspectos das rotinas tenham me surpreendido,
fosse pelo que tinham de “tradicional” ou conservadorismo, fosse pelo que tinham de “novo” ou resistência.
Os escritos contemporâneos do NPI que busquei – e logrei êxito parcial na localização de alguns – foram aqueles relativos: (1) às atividades docentes, como os planos de ensino, testes de verificação, exercícios e textos; (2) à atuação da Coordenação Pedagógica, como as atas dos conselhos de classe; ao desempenho discente, como os mapas de resultados da Secretaria; (3) aos documentos oficiais, como o Regimento Escolar, os relatórios anuais de 1999, 2000 e 2001 e o projeto político-pedagógico, elaborado para 2001; (4) também os documentos extra-oficiais, como o “Informativo do professor”, de 1995, e o “Caderno Informativo”, de 2000, dos alunos, além dos calendários escolares de 2000, 2001 e 2002.
Comecei a localizar, selecionar e organizar os documentos muito antes da minha apresentação oficial. O tempo da pesquisa documental começou antes mesmo da fase de “namoro” com o contexto e os sujeitos. Foi em dezembro de 1999. Logo após conhecer a resposta positiva da Pós-Graduação da Faced ao pedido de progressão automática para o doutorado que fizéramos minha orientadora e eu em agosto passado. A pesquisa documental foi longa, mas nunca cansativa, e estendeu-se até os tempos da elaboração deste Capítulo.
Parte dos planos de ensino (Estudos Históricos, Estudos Geográficos e Matemática), eu consegui cópias na manhã do dia 8 de dezembro, antes mesmo da minha apresentação oficial como pesquisador. Tive facilitado o acesso pela solicitude da supervisora pedagógica, Nazaré Fonseca. Os outros planos (de Ciências, Português, Educação Física e Educação Religiosa), não obtive até o encerramento da pré-intervenção. Segundo a supervisora, estavam (ou deveriam estar) com as respectivas professoras. As professoras de Ciências e Português me disseram que sim, mas não os vi; o restante – se estava mesmo – nunca soube.
O meu ingresso oficial como pesquisador aconteceu na manhã do dia 7 de dezembro de 2000, na sala da Direção do NPI, com a entrega de uma carta de apresentação (e intenções) à professora Leida Freitas, diretora do NPI naquela época. Com o formalismo recomendado,
imprescindível (MARCONI; LAKATOS, 1990; BODGAN; BIKLEN, 1994) para o começo de toda pesquisa social, fui solicitar autorização para o desenvolvimento da minha investigação. Após as palavras de boas-vindas (para quem nunca esteve longe da escola), de expectativas e desejos de sucesso, fui encaminhado verbalmente à professora Graça Balesteros, titular da Coordenação do Ensino Fundamental, 1ª à 4ª série, que adentrara à própria sala enquanto conversávamos. Ali mesmo combinei um reencontro com a coordenadora.