TÜRKİYE’DE SABUNHANELER
2.1. Marmara Bölgesi’ndeki Sabunhaneler
2.1.16. Çanakkale/Ayvacık Küçükkuyu Burnaz Sabunhanesi (Adatepe Zeytinyağı Müzesi) Zeytinyağı Müzesi)
Conforme a consolidação das indústrias automobilísticas e petrolífera como motores da economia mundial, e seu crescimento a partir dos anos 50 focado na produção e consumo de massa, pudemos notar com o desenvolvimento tecnológico, o crescimento das cidades e a ampliação do uso de recursos naturais, provocando dentre outras consequências, o expressivo aumento de produtos descartáveis e menos duráveis gerando grandes quantidades de resíduos (lixo), os quais necessitam um fim adequado (DEMAJOROVIC; LIMA, 2013).
A definição de lixo é normalmente conhecida como tudo aquilo que já não possui mais serventia e não presta para nada mais, inútil, “Tecnicamente, é composto de restos das atividades humanas considerados inúteis, indesejáveis ou descartáveis por seus geradores, apresentando-se sob o estado sólido, semissólido ou semilíquido” (LAJOLO, 2003, p. 13). Noção que varia de acordo com o espaço e o tempo em que as conceituações do termo são utilizadas. Na linguagem corrente “lixo” possui a mesma definição de “resíduo”, apesar desta diferente classificação carregar em si, a perspectiva de um trato diferenciado sobre aquilo que é descartado, a substituição da primeira pela segunda trás uma conotação distinta, pois aquilo que pode não ter “valor ou utilidade para uns, para outros corresponderá a benefícios, ou seja, com um valor de uso positivo” (ZANIN; MANCINI, 2004, p.18).
Em entrevista, Eigenheer (2015), buscando traduzir a noção histórica de significação do lixo, reflete sobre a prática da compostagem, muito comum até um passado recente em que muitas residências tratavam os resíduos orgânicos nos quintais das casas para serem usados em hortas e pomares caseiros:
Nos jardins gramados e ornamentados de hoje, não há espaço para os restos, muito menos nos edifícios que dominam os grandes centros. Ainda me lembro, no interior paulista, das mulheres utilizando o estrume das ruas, deixado pelos cavalos de charretes e de colonos, para, depois de curtidos, serem usados nas roseiras, avencas e tantas outras plantas. Às crianças,
quase sempre, era designado o trabalho de recolhimento, feito sem maiores problemas. A beleza dos jardins e vasos agradecia a superação do nojo (EIGENHEER, 2015, p.12).
O trato com o lixo nas sociedades acompanha o ser humano desde os primeiros momentos da vida sedentária, com os adventos da revolução industrial e o desenvolvimento da sociedade capitalista, o cenário de agencia dos resíduos sólidos tem se agravado por seu aumento vertiginoso. Segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB), revelou que em 2008 o total de resíduos sólidos domiciliares e/ou públicos coletados no Brasil foi de 183.488 toneladas ao dia, a comparação das PNSBs 2000 e 2008 mostra que houve um acréscimo de 58.207 toneladas coletadas ao dia, em todo o País (VILANOVA NETA, 2011).
Em decorrência do aumento da geração de resíduos, observa-se ainda a diversificação e diferenciação nas características de composição, bem como o aumento de sua periculosidade (JACOBI; BENSEN, 2011). Essas mudanças são atreladas ao posicionamento ideológico do mercado capitalista, que dentre suas faces se revela no progresso tecnológico dos produtos sendo criados de antemão com o projeto de adquirirem uma obsolescência programada. Estratégia que tem como destino forjar socialmente um padrão de comportamento de consumo excessivo e supérfluo, pautado na descartabilidade de tudo que é consumível, material e simbolicamente (ACOSTA, 2016).
Em países com maior rendimento monetário no mundo, em que há uma maior quantidade de consumo de produtos industrializados e, consequentemente, maior geração de lixo, o manejo dos resíduos é realizado com maior capacidade de equacionamento da gestão, por um somatório de fatores que incluem o investimento de recursos econômicos, desenvolvimento tecnológico para abarcar diferentes processos de tratamento aos materiais, bem como a preocupação ambiental da população decorrente ao maior investimento em educação nestes países. Em contraposição, em cidades onde predomina maior subordinação aos tratos econômicos mundiais, principalmente aquelas em que há o aceleramento no processo de urbanização, verificam-se déficits na capacidade financeira e administrativa em prover infraestrutura e serviços essenciais como a água, saneamento, coleta e destinação adequada do lixo, e, em assegurar segurança e controle da qualidade ambiental para a população (JACOBI; BENSEN, 2011).
Conforme o aceleramento da urbanização e a explosão demográfica, atrelados à marginalização social, contaminação dos alimentos, geração de resíduos e outras pautas, o movimento ambientalista ampliou o escopo de luta que antes se concentrava em aspectos mais voltados a preservação da espécie. O discurso ecológico, por meio dos diversos agentes
ambientais, durante a Conferência Mundial sobre Meio Ambiente, a ECO-92 – evento realizado no Rio de Janeiro/RJ, que envolveu a participação de 170 países –, criou o documento denominado Agenda 21. Dentre os assuntos tratados, nele se estabelece o princípio dos “3 Rs” buscando envolver e impactar a população na redução da prática do consumo e difundir outra orientação para ela. Os Rs representam três atitudes de ação conjugadas, cujas siglas descrevem: reduzir, reutilizar e reciclar (LAYRARGUES, 2002), e cada um dos termos adquirem os seguintes significados: Reduzir: o ato do consumo no cotidiano, de produtos e serviços; Reutilizar: antes do descarte e geração do resíduo; Reciclar: tem para o cidadão a função de separação dos resíduos no momento do descarte, para o poder público, agentes da coleta seletiva e empresários, é a reinserção do resíduo em sua cadeia de produção, para ser transformação em novo produto.
Enquanto o discurso ecológico hegemônico, atrelado ao discurso ambientalista governamental brasileiro17, preocupa-se com a junção entre a reciclagem e tecnologias limpas,
tendendo a ver o consumo muito mais em aspectos técnicos do que atrelado a uma problemática cultural vinculada à manutenção da ideologia dominante, outros grupos ambientalistas corporificados pelo movimento social organizado, tem buscado uma maior pró- atividade na problematização da produção de resíduos (LAYRARGUES, 2002). Estes grupos têm abordado o consumo de outro modo, enfatizando sua insustentabilidade e visando sua diminuição. Para tanto, suas críticas enfatizam de modo incisivo o primeiro R, pautando a redução ou até mesmo a recusa quando possível do consumo, ao invés da tendência à manutenção de um status quo que presa apenas o terceiro R, restrito a destinação do resíduo após consumo para reciclagem.
Neste sentido, o discurso ambientalista contra hegemônico tende a propagar outro estilo de vida, muito mais pautado na essencialidade humana, visando a valoração do Ser, ao invés do princípio do Ter, chamando a atenção a outras opções, dentre as quais podem ser ressaltadas de imediato, as escolhas por:
[...] mais brincadeira, menos brinquedo; mais empatia, menos maquiagem; mais carinho, menos presentes; mais bicicletas, menos utilitários de luxo; mais diversidade, menos intolerância; mais solidariedade, menos
17 Para exemplificar o descaso à questão ambiental do governo brasileiro nos últimos tempos, vale ressaltar
dentre os casos, a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará “planejada para ser a terceira maior hidrelétrica do mundo[...], há evidencias de uma estreita conexão entre a construção de Belo Monte e a exploração de recursos minerais em terras indígenas, com a exploração de ouro a céu aberto por uma mineradora canadense. São também esperados, por conta de Belo Monte, impactos significativos do desvio da volta Grande do Rio Xingu tanto na biodiversidade local como na rotina da nevegação das comunidades da região” (SANTOS, 2015, p. 17).
individualismo; mais cooperação, menos competição; mais reflexão, menos técnica; mais paz, menos guerra; mais social, menos econômico; mais sutileza, menos velocidade; mais felicidade, menos desenvolvimento... (LOGAREZZI, 2007a, p. 103)
O contínuo crescimento do volume de resíduos coletados exige a atenção das gestões municipais com planos de tratamento adequados e de destinação final com importantes estratégias, já que podem promover impactos sociais, econômicos e ambientais severos. Os serviços de coleta de resíduos sólidos domiciliares urbanos no Brasil atingem uma grande parcela da população, chegando a 97% da população em 2008, sendo que em comparação ao ano 2000 foi de grande melhoramento, pois apenas 79% eram coletados (VILANOVA NETA, 2011).
Os Lixões ou Varadouros, ainda presentes em muitos municípios brasileiros, vieram a se tornar grandes preocupações por se constituírem em terrenos para depósito do lixo sem nenhum tratamento à céu aberto, configurando grandes focos de poluição ambiental, podendo contaminar as águas subterrâneas e o ar, pela decomposição dos resíduos que podem gerar gases tóxicos de modo não controlado. Nele são desperdiçadas matérias-primas, energia e outros insumos incorporados aos resíduos, passíveis de reaproveitamento, além do alto custo para sua manutenção, dispendem um alto custo estrutural e operacional, sendo difícil encontrar locais apropriados para locação (LOGAREZZI, 2007a).
Este mecanismo de depósito do lixo tem a previsão de ser eliminado do território nacional e deveria ser extinto até o ano de 2014 de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos de Lei número 12.305, de 2 de agosto de 2010, traz as resoluções da Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2010), regulamentada pelo decreto nº 7.404, de 2010, que após vinte anos de tramitação no Congresso Nacional, estabeleceu um novo marco regulatório para o país, e prevê dentre seus termos, a transformação destes lugares em Aterros Sanitários. Apesar destas indicações, até 2008, 50,8% dos municípios brasileiros ainda destinavam resíduos para lixões a céu aberto segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (VILANOVA NETA, 2011).
Atualmente os Aterros Sanitários são tidos como a melhor condição de despejo (MAGERA, 2003; VILANOVA NETA, 2011; DEMAJOROVIC; LIMA, 2013), pois possuem característica específicas de cuidado com o solo, que deve passar por um processo de impermeabilização, sendo necessária para sua instalação, uma área muito maior do que a destinada à sua função de aterrar o lixo. O Aterro Sanitário deve contemplar em seu espaço, um local para sistema de drenagem de chuva e estações para tratamento de chorume, que é o
líquido tóxico proveniente da decomposição do material orgânico presente no lixo, não podendo ser instalados próximos a rios ou córregos. Outro método conhecido, já adotado por alguns países para controle ou eliminação dos resíduos são as Usinas de Incineração (MAGERA, 2003), mas pelo alto custo envolvido e o potencial de contaminação do solo e ar, não são bem vistos e aplicáveis.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos tem como um de seus principais instrumentos o Plano Nacional de Resíduos Sólidos (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2010), que busca estimular tratamentos diferenciados aos resíduos sólidos, os quais adquirem uma sequência de prioridades, tendo a não geração de resíduos como primeira instância de ação, em sequência a redução, a reutilização, a reciclagem, o tratamento dos resíduos sólidos e a disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos. Neste sentido, a diminuição dos resíduos envolve estabelecer a viabilidade ou não de certos produtos serem criados, abarcando deste modo, já o início do modo produtivo. O que perpassa como diretriz, a necessidade determinante da redução de certos materiais e prioritariamente, em vez de reciclados após o consumo, que sejam diminuídos já em sua produção. Ao fim, aquilo que não puder ser mais aproveitado pelo processo de reciclagem, poderá ser utilizado para produção de energia através de incineradores e, o que não fornecer mais nenhuma serventia, ter um fim adequado em aterros sanitários.
Dentre outros temas que a Política Nacional de Resíduos Sólidos trata, está o princípio Poluidor-Pagador (PINHEL; ZANIN; MÔNACO, 2011), que durante os trâmites de sua redação criou muitos debates, já que grandes empresas poluidoras teriam de arcar com novos impostos, sendo viabilizada apenas após ser instituído também o princípio Protetor- Recebedor, que faz com que aqueles que atingem as metas de equilíbrio sejam beneficiados. Há também, contemplada dentre os termos desta política nacional, a “logística reversa”, que é composta de um conjunto de ações que tem como finalidade viabilizar a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial para seu reaproveitamento.
Até o início do século XX, grande quantidade dos resíduos gerados se restringia a material orgânico, e uma pequena parcela de papel e papelão (DEMAJOROVIC; LIMA, 2013). Segundo dados do Índice Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, ainda que compondo sua maior porcentagem, até o ano de 2010 os resíduos orgânicos chegaram a apenas 51,4% (VILANOVA NETA, 2011). Dentre as condições exigidas pela PNRS para o trato aos resíduos sólidos, estão o envio obrigatório destes à reciclagem e à compostagem e como estratégias para esta realização, a gestão integrada dos resíduos.
A gestão integrada dos resíduos “[...] é, em síntese, o envolvimento de diferentes órgãos da administração pública e da sociedade civil com o propósito de realizar a limpeza urbana, a coleta, o tratamento e a disposição final do lixo” (MONTEIRO et al., 2001, p.8). Nela a administração pública municipal aparece como protagonista na gestão dos resíduos, tendo de gerenciar desde a coleta à sua destinação segura através do estabelecimento de parcerias, em que a população adquire papel fundamental para garantir a separação dos recicláveis, e os grandes geradores devem se responsabilizar para destinar corretamente seus rejeitos. Como estratégia para sua realização, abarcando aspectos socioambientais, a gestão integrada prevê a inclusão de catadores de materiais recicláveis nos sistemas municipais por meio da Coleta Seletiva. Dentre outros termos, também prevê o fortalecimento destes grupos através da criação de “redes de organização de catadores e a criação de centrais de estocagem e comercialização regionais” (JACOBI; BENSEN, 2011, p. 137).
Neste contexto, surge a necessidade de pensar articulações cada vez mais profícuas em âmbitos de políticas públicas voltadas ao cenário da Coleta Seletiva desde setores municipais e regionais para a Reciclagem dos materiais, ainda que as áreas de produção e consumo sejam determinantes dentro do processo de diminuição dos resíduos e dos impactos socioambientais gerados nesta cadeia produtiva.
Com isto, vale ressaltar a diferenciação entre os termos de Reciclagem e Coleta Seletiva amplamente empregados, mas muitas vezes confundidos tendo o mesmo significado. De acordo com Cornieri e Francalanza (2010), a Reciclagem pode ser entendida como o processo de transformação dos resíduos sólidos que envolve a alteração de suas propriedades físicas, físico-químicas ou biológicas, com vistas à transformação em insumos ou novos produtos. Já a Coleta Seletiva de lixo é um sistema de que recolhe os materiais recicláveis, tais como plásticos, papéis, plásticos, vidros e metais, previamente separados na fonte geradora, conforme considerado na Política Nacional de Resíduos Sólidos, para em seguida passarem por uma etapa de triagem, seguida de pré-beneficiamento “que consiste na separação por cores, tipos, tamanhos, densidade; lavagem; secagem; prensagem; moagem; enfardamento, sendo posteriormente vendidos às empresas recicladoras ou aos sucateiros” (p. 12).
A maioria dos municípios brasileiros adota a coleta dos resíduos, com todos os tipos misturados. O que dificulta a separação e impregnação de impurezas diversas, já que se misturam a restos de resíduos orgânicos, o que no processo de separação dos resíduos acabam por encarecer e desestimular todo o processo. No Plano Nacional de Resíduos Sólidos a compostagem de materiais é prevista, tendo a população como grande parceira na separação
dos resíduos, com incentivo à prática da compostagem urbana acompanhada prioritariamente pela coleta de resíduos orgânicos, através de estratégias descentralizadas e locais.
Dentre as alternativas de trato dos resíduos orgânicos pode-se ressaltar o tratamento por compostagem domiciliar através de minhocários e composteiras caseiras, além da implantação de hortas escolares e dos grandes geradores destinarem a áreas específicas para compostagem os rejeitos e, sirvam deste modo, à agricultura urbana, no entanto a criação e operação de usinas de compostagem são muito caras para manutenção por órgãos estatais (SIQUEIRA; ASSAD, 2015).
Esta perspectiva de diminuição dos impactos ambientais promove amplas mudanças no trato dos resíduos, tendo como prioridade o início do processo produtivo, utilizando menos energia e matérias primas, além de se produzirem menos resíduos (DEMAJOROVIC; LIMA, 2013). Envolvendo diversas áreas, desde a criação e design de produtos reaproveitados ou recicláveis, abrangendo também com grande ênfase, o consumo da população que à primeira vista ao mudar hábitos de escolha por produtos com menos embalagens e produtos que são recicláveis, contribuem para um sistema de gerenciamento dos resíduos com maior reaproveitamento no sistema produtivo.
A partir de diferentes pontos de vista em diálogo, começa-se assim a superar a ênfase anteriormente dada apenas à destinação dos resíduos, que quando enfatizada, ignora-se toda uma diversidade de possibilidade de tratos diferenciados aos resíduos, lembrando sempre que, as tecnologias utilizadas em seu manejo em nada contribuem para a redução efetiva destes antes de seu descarte. Urge cada vez mais a necessidade da atenção voltada aos resíduos sólidos para que as constantes críticas realizadas aos problemas ambientais promovidas pelos diferentes atores envolvidos, levem ao aprimoramento do poder público sobre o cuidado com o tratamento aos resíduos e a questão ambiental.