A cadeia produtiva de bovinos de corte desempenha importante papel na economia brasileira, visto que envolve, aproximadamente, 2,19 milhões de estabelecimentos, 225 milhões de hectares, 750 indústrias frigoríficas, 110 de armazenagem e 112 mil pontos de comércio varejista, e emprega, diretamente, 7,2 milhões de pessoas [http://www.faemg.org.br].
A bovinocultura de corte brasileira apresenta diversos sistemas produtivos e ampla variação nos níveis de produtividade, em razão de fatores como organização fundiária, estrutura do capital produtivo, fertilidade natural dos solos, clima e, principalmente, tipo de tecnologia empregada (NOGUEIRA NETTO e MUSTEFAGA, 2000).
Segundo CARRER (2000), a pecuária de corte no Brasil sofreu, desde sua origem histórica, um processo de diferenciação que resultou em grandes diferenças inter-regionais no estágio de desenvolvimento dessa atividade no país.
A cadeia produtiva de carne bovina compreende, basicamente, fornecedores de insumos e serviços à produção primária, produção primária, abate e processamento de animais, distribuição e comercialização de produtos e consumidores internos e externos de carne e de seus subprodutos (BLISKA e GONÇALVES, 1998). A Figura 1 contém uma simplificação da cadeia produtiva da carne e a Figura 2, algumas características dos elos que a compõem.
Ao longo da cadeia são obtidos diversos produtos e subprodutos; alguns são direcionados ao setor produtivo, tais como animais vivos, sêmen e embriões, e outros, aos consumidores finais.
O segmento de insumos fornece matéria-prima necessária à eficiência da produção, como base genética, pastagens, vacinas, medicamentos, equipamentos e serviços, e está amplamente relacionado com o desenvolvimento da pesquisa científica.
A produção animal pode ser realizada de maneira vertical, ou seja, na mesma propriedade podem-se desenvolver atividades de cria, recria e engorda do gado, ou de forma horizontal, ou seja, cada uma destas etapas pode ser feita em propriedades distintas. Conforme CEPEA (2002), 65% das propriedades brasileiras, aproximadamente, possuem o sistema vertical de produção, contudo, é importante enfatizar que o sistema, raramente, é puro, devido às próprias características da atividade, já que os animais representam uma reserva de valor na propriedade e podem ser comercializados em diferentes fases da vida.
AMBIENTE INSTITUCIONAL
AMBIENTE ORGANIZACIONAL
Fonte: BLISKA e GONÇALVES (1998:165).
Figura 1 – Fluxograma simplificado da cadeia de carne bovina no Brasil.
Insumos
Pecuarista
Indústria
Atacado
Varejo
Consumidor
Matadouro
Trading
Mercado
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AMBIENTE INSTITUCIONAL
Normas de qualidade, normas ambientais, outras
INSUMOS PRODUTIVOS SISTEMAS INDÚSTRIA ATACADO VAREJO CONSUMIDOR
Sementes Fertilizantes Herbicidas Máquinas Combustíveis Lubrificantes Animais Sêmen Suplementação mineral Concentrados Medicamentos Fases da produção Cria Recria Cria-recria Recria-engorda Engorda Sistemas de produção Pastagens naturais e, ou,
cultivadas Semiconfinamento Confinamento Matadouro Matadouro frigorífico Frigorífico processador Indústria de embutidos Produtos Carcaça quente Carne industrial Subprodutos Couro Miúdos/glândulas Graxaria Perdas Frigoríficos Distribuidores regionais Entrepostos Varejões Casas de carne Exportadores Supermercados: Classes A e B Açougues: Renda mais baixa
Boutiques: Classe A Casa de carne: Classes A e B Consumidor interno - Renda 10-15 S.M: Carne de primeira Carne industrializada - Renda 5-10 S.M: Carne de primeira Carne de segunda Carne industrializada - Renda até 5 S.M: Carne de segunda Consumidor externo AMBIENTE ORGANIZACIONAL
Secretaria de agricultura, bancos, assistência técnica, Extensão rural, outros Fonte: BLISKA e GONÇALVES (1998:166).
As estruturas que atuam no segmento de abate de animais e processamento das carcaças são os matadouros e os frigoríficos. Os primeiros são unidades operacionais de pequeno porte, com estrutura rudimentar, sem túneis de congelamento, e o produto comercializado é para consumo rápido, na própria região em que se localiza, enquanto os frigoríficos possuem unidades operacionais mais completas, normalmente dotadas de modernos equipamentos, e o controle da matéria-prima, do processamento, da estocagem e da distribuição é gerenciado empresarialmente, sob inspeção sanitária. Muitos desses estabelecimentos existentes no país atuam clandestinamente e funcionam sem fiscalização adequada.
Uma indústria diferencia-se da outra pelos produtos finais que disponibiliza no mercado, como carcaça, carne desossada e produtos industrializados. CEPEA (2002) enfatizou que todos os frigoríficos instalados no país vendem carcaças; 60% destes têm condições de vender carne desossada e pequena parcela, produtos industrializados.
A distribuição da carne pode ser realizada, diretamente, por meio dos frigoríficos ou, indiretamente, por agentes distribuidores (atacadistas). Deve ser feita no curto prazo, uma vez que a capacidade de estocagem dos frigoríficos é muito baixa.
Os frigoríficos realizam a venda do produto de forma direta ou por meio de distribuidoras próprias e independentes. Nas vendas diretas, pode haver ou não um corretor (intermediário), que pode representar vários frigoríficos ou apenas um. As vendas diretas são realizadas, sobretudo, em grandes redes de supermercados e açougues, enquanto as distribuidoras têm a função de atender aos estabelecimentos de pequeno porte (CEPEA, 2002).
NOGUEIRA NETTO e MUSTEFAGA (2000) enfatizaram que, atualmente, a competitividade da cadeia é prejudicada por sua ampla diversidade, visto que expressivo número de pecuaristas tem diferentes níveis de capitalização e sistemas de criação. Observa-se, ainda, grande heterogeneidade no abate e na comercialização, dado que coexistem organizações clandestinas, não
inspecionadas e com precárias condições sanitárias, com modernos frigoríficos, com tecnologias avançadas e formas de distribuição integrada da produção.
Verifica-se que a cadeia brasileira da carne bovina é composta por agentes extremamente competitivos, se comparados a padrões internacionais, e por outros que não atingem padrões mínimos de qualidade e competitividade. Há pecuaristas que utilizam modernas técnicas de produção animal, possuem frigoríficos modernos e a distribuição dos seus produtos é feita por meio de pontos de venda que atendem a exigentes padrões de consumo; são os que conseguem atuar no mercado externo. No outro extremo estão os pecuaristas menos intensivos em utilização de tecnologia, com pequenos matadouros sem condições de higiene, sobretudo os municipais e os clandestinos. Os produtos deste sistema são comercializados tradicionalmente em açougues e feiras livres, com péssimas condições de armazenamento, transporte e exposição em algumas regiões do país.