1. ÇALIŞMA ALANI
1.5. Çalı ş ma Alanı nı Düzenleme
Esta seção visa contextualizar o objeto de pesquisa desta dissertação, deste modo, foram apresentadas informações iniciais sobre as Auxiliares que estão inseridas na rede municipal de educação de Fortaleza, a fim de munir o leitor com as primeiras informações, não só acerca dos sujeitos deste estudo, mas também, através da apresentação dos objetivos para esta dissertação.
1.1.1 “Sim! Pois me explique um pouco mais sobre essas Auxiliares!”13
Dentre os profissionais que atuam na Educação Infantil, existem aqueles que lidam mais diretamente com as crianças. Nas Creches e Centros de Educação Infantil14 (CEI) da cidade de Fortaleza, portanto em estabelecimentos que atendem crianças na faixa etária de
13 Fala do professor Ribamar Furtado, na disciplina de Pesquisa Educacional I, cursada durante o segundo
semestre no curso de mestrado na UFC.
14 De acordo com informações emitidas pela SME, por meio do processo P470347/2016 (FORTALEZA, 2016),
um a três anos15, estão inseridas duas profissionais em sala de atividades: professora e Auxiliar.
A presença desta categoria de profissionais é uma realidade existente em diversas localidades do território nacional16. De acordo com Abuchaim (2015, p. 32), o Censo Escolar de 2013 quantificou o número total de 198.999 Auxiliares, em que “71% atuam em unidades municipais”. A Região Nordeste, no mesmo ano, tinha 37.478 Auxiliares, com perfis bem diferenciados no aspecto profissional. No município de Fortaleza, por exemplo, no ano de 2016, havia o número total de 580 Auxiliares17, entre efetivas, substitutas e terceirizadas, profissionais selecionadas via análise de currículo, seleção ou concurso público e que possuem titulações no Ensino Médio na modalidade Normal e/ou no Ensino Superior.
Considerando este cenário, Campos (2010) afirma haver uma realidade heterogênea e precária em relação ao âmbito profissional da Educação Infantil. A autora pode averiguar que as Auxiliares possuem planos de cargos e carreiras distintos dos professores, não realizam planejamento, possuem contratos com tempo determinado, não são reconhecidas no âmbito da docência e, geralmente, são contratadas sem formação adequada ou com formação inferior a das professoras.
Esta realidade pode ser encontrada na capital cearense, que abriga Auxiliares admitidas via contrato que, em geral, dura o período de um ano, podendo ser estendido para vinte e quatro meses. Além das Auxiliares celetistas18, a Rede Municipal de Educação de Fortaleza realizou, em 2014, concurso para o provimento de cargos efetivos19 de Auxiliares, designando-as como Auxiliares da Educação Infantil ou Auxiliares de Serviços Educacionais. Para a efetuação deste concurso, criou-se a lei municipal nº 0150/2013 (FORTALEZA, 2013), que institucionalizou essas profissionais ao setor público, criando “800 (oitocentos) cargos de provimento efetivo de Auxiliar da educação infantil”. Este concurso foi defendido pelo líder20 do prefeito na Câmara Municipal de Fortaleza, que afirmou que este seria um caminho viável
15 O município de Fortaleza oferta vagas em Creche somente para crianças a partir de um ano de idade. Neste
sentido, esta rede municipal de Educação fere o direito constitucional das crianças de ter acesso à Educação Infantil a partir de zero anos, portanto, em turmas de bebês (BRASIL, 1996a). As Auxiliares trabalham somente em turmas de Creche.
16 Informação baseada no resultado do Estado da Arte construído para esta dissertação que será apresentado
ainda nesse Capítulo.
17 Essa informação está contida no processo P470347/2016 (FORTALEZA, 2016) emitido pela SME.
18 Termo comumente utilizado para fazer referência aos profissionais cujos contratos estão sob a égide da
Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).
19 O concurso estipulou, inicialmente, que os candidatos tivessem a formação no Ensino Médio na modalidade
Normal. Porém, antes que a seleção ocorresse, foi autorizada a inscrição de candidatos com formação em Pedagogia e que tivessem interesse de atuar como Assistentes, conforme o edital nº 53/2014 (FORTALEZA, 2014).
para “que se retire dos Centros de Educação Infantil a mão de obra terceirizada precária”21 (FORTALEZA, 2013), fazendo referência às Auxiliares que adentram a Rede através de seleção simplificada ou análise de currículo.
Esta situação acabou gerando opiniões diversificadas com relação à função de Auxiliar. Abuchaim (2015) acredita que esta profissional funciona como “um recurso que pode ajudar na melhoria das condições de trabalho dos professores e consequentemente na qualidade do atendimento das crianças”. Enquanto isso, há quem acredite que “não deveria haver essa função” (CAMPOS, 2010, p. 198).
Diante de tais discordâncias, cabe salientar que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) (BRASIL, 1996a), lei nacional que orienta sobre diferentes aspectos da Educação, define, de maneira clara, que o profissional reconhecido para o trabalho de cuidado e educação com crianças de zero a cinco anos é o professor, logo não traz informações sobre as Auxiliares. De maneira similar à LDB (BRASIL, 1996a), a Resolução municipal de Fortaleza de nº 002/2010 (FORTALEZA, 2010), em seu artigo 17, explica que a organização dos agrupamentos de Educação Infantil deverá ocorrer considerando a relação da quantidade de crianças por professor, ou seja, está destacado no âmbito nacional e municipal que “O responsável direto por qualquer agrupamento de crianças é o(a) professor(a) de Educação Infantil […]” (FORTALEZA, 2010, p. 6). Sendo assim: para quê Auxiliares?
Abuchaim (2015) assevera que a admissão de Auxiliares tem funcionado como alternativa de barateamento dos custos do serviço docente. A autora supracitada menciona que “há uma tendência das redes públicas em contratar esses profissionais” (ABUCHAIM, 2015, p. 32), porque a admissão de duas professoras torna os gastos ainda mais onerosos, já que, em alguns casos, uma professora ganha o dobro do salário de uma Auxiliar. Contudo, contratar uma profissional que possui formação para atuar como professora22 e admiti-la como Auxiliar significa promover uma política de precarização (SAMPAIO; MARIN, 2004; PINTO; DUARTE; VIEIRA, 2012) da docência na Educação Infantil.
A postura assumida pelo município de Fortaleza, e tantos outros, apresenta-se como um perigoso retrocesso diante das conquistas já alcançadas no âmbito da primeira etapa
21 Todavia é importante destacar que as Auxiliares terceirizadas ainda permanecem na Rede Municipal de
Fortaleza, haja vista que o número de Assistentes efetivas é inferior à quantidade de turmas de Creche.
22 De acordo com o processo P470347/2016 (FORTALEZA, 2016), para ser Auxiliar nos equipamentos públicos
municipais é necessário ter formação no Ensino Médio na modalidade Normal e/ou licenciatura em Pedagogia. Ambas formações ainda são admitidas pela LDB (BRASIL, 1996a) para o exercício da docência na primeira etapa da Educação Básica.
da Educação Básica, em especial, no que tange ao processo de profissionalização23 da docência (NÓVOA, 1992a; BRASIL, 1994). É relevante que a proposta para o trabalho educacional voltado à pequena infância seja marcada por experiências de boa qualidade (ZABALZA, 1998). Mas qualidade para quem? Pensar na qualidade desse serviço implica considerar, também, condições de trabalho adequadas aos docentes, pois “não é possível educar e cuidar em situação precária” (MENEZES, 2010, p. 10).
É sabido que o trabalho realizado na Educação Infantil junto às crianças tem passado por “reformulações profundas. O que se esperava dele há algumas décadas não corresponde mais ao que se espera nos dias atuais” (BRASIL, 1998, p. 39). Entretanto, marcas históricas ainda permanecem arraigadas à primeira etapa da Educação Básica e sustentam a ideia de que para trabalhar com crianças nas instituições educacionais não é preciso ser professor, o que corrobora para a presença das Auxiliares até hoje. Esta realidade demonstra que o trabalho educacional com crianças em Creches e Pré-Escolas ainda “sofre uma indefinição de fronteiras” (KATZ; GOFFIN, 1990 apud OLIVEIRA-FORMOSINHO, 2011, p. 136).
Diante disso, surgem muitas perguntas: afinal, qual o papel da Auxiliar da Educação Infantil neste cenário? Que aspectos caracterizam o trabalho dessas profissionais? Que atividades exercem no dia a dia de trabalho? Como sua função é percebida pelos diferentes segmentos do estabelecimento em que trabalham? Estes questionamentos indicam a necessidade de que sejam desenvolvidas “pesquisas sobre o emprego de profissionais não docentes que trabalham diretamente com as crianças nas unidades de Educação Infantil (Auxiliares, monitores, recreadores)” (CAMPOS, 2010, p. 382), pois, apesar da LDB (BRASIL, 1996a) ter conferido a docência à figura do professor, até hoje essa lei não conseguiu garantir que a Educação Infantil seja desenvolvida somente por profissionais reconhecidos com este status.
A Educação Infantil tem sido alvo crescente de interesse dos pesquisadores, realidade que reverbera no quantitativo de produções acadêmicas publicadas em entidades científicas, a exemplo da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped) e da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), conforme pode ser observados nas Tabelas 1 e 2 deste trabalho. Todavia, a Auxiliar de Educação Infantil se apresenta como tema
23 Para Nóvoa (1992a, p. 23), profissionalização significa “um processo através do qual os trabalhadores
pouco investigado, porém cabe assinalar que algumas publicações24 já foram produzidas no cenário nacional com esta temática (LAUREANO, 2007; CONCEIÇÃO, 2010; OLIVEIRA, 2011b; SOUZA, 2011; SILVA, 2012; CHAMARELLI, 2013; SANTOS, 2013; EDIR, 2014; PAULINO, 2014), contemplando reflexões sobre a origem da função de Auxiliar, formas de contratação, regulamentação do cargo efetivo, tensões e hierarquias que marcam a relação entre professora-Auxiliar, incertezas sobre o cargo, a formação em serviço para Auxiliares sem a formação mínima exigida por lei, dentre outros.
Há pesquisas que tratam da especificidade da docência na primeira etapa da Educação Básica (GALLASSINI, 2008; BUFALO, 2009; DUARTE, 2011; MARTINS FILHO, 2013; GONÇALVES, 2014; LA BANCA, 2014; SCHMITT, 2014) que, apesar de não fazerem referência direta às Auxiliares, ao debater sobre os elementos que constituem o trabalho docente com crianças pequenas, acabam, no mínimo, citando-as, já que a ênfase dos estudos sobre docência, de modo geral, recaem sobre as professoras.
No entanto, esta dissertação se diferencia dos estudos identificados no levantamento supracitado por salientar as Auxiliares da Educação Infantil do setor público em Fortaleza, conferindo-as o lugar de sujeitos da pesquisa e de realizadoras da docência. Para isso, tomou-se como objetivo geral para este estudo: analisar o papel das Auxiliares no contexto de um CEI do município de Fortaleza.
Os objetivos específicos são:
a) entender o perfil pessoal e profissional das Auxiliares em um CEI;
b) analisar o trabalho realizado pelas Auxiliares nas diferentes turmas de crianças em um CEI;
c) compreender como a função de Auxiliar é percebida na perspectiva de diferentes segmentos do estabelecimento de Educação Infantil (Auxiliares, professoras e coordenadora).
A partir dos objetivos traçados, esta dissertação possui como estrutura: Introdução, aqui nomeada “As Primeiras Inquietações”, em que foi apresentado o processo de entrelaçamento com o tema de estudo, a partir das minhas experiências pessoais e profissionais. Ainda neste texto inicial são apresentadas outras informações sobre as Auxiliares do cenário educacional público fortalezense.
No segundo capítulo, apresenta o Estado da Arte, que aborda as produções acadêmicas já publicadas e que abordam a temática aqui estudada. Para isso, foram
24 Todas as pesquisas encontradas podem ser consultadas nos quadros J e K, contidos nos apêndices dessa
consultadas três entidades científicas: Anped, SBPC e BDTD. Em alguns desses textos, as Auxiliares foram o tema principal, em outros apareciam de forma secundária ao trabalho da professora. Esse processo contribuiu para a ampliação dos saberes relacionados a essas profissionais.
O Terceiro Capítulo propõe um resgate histórico com o objetivo de refletir sobre a origem da docência na Educação Infantil no Brasil e sobre a inserção da figura feminina nesse contexto, aspectos que refletem a gênese da função docente com crianças pequenas. Após o percurso histórico, adentra-se na docência de forma mais particular, pensando nos elementos que configuram esta atividade profissional a partir das especificidades das crianças cuidadas e educadas neste setor, ou seja, o trabalho docente é organizado a partir do público para o qual se destina. A partir disso, com aporte em autoras que nos últimos anos têm desenvolvido pesquisas acerca da docência na Educação Infantil, busca-se pensar em ações que cabem ao docente, tomando o cuidado e educação como eixo regulador da docência em Creche e Pré- Escola. A última seção aponta que a docência com crianças pequenas ainda possui um agrupamento profissional bastante heterogêneo, sendo permeado não só por professores, como define a lei educacional nacional, mas também por Auxiliares, realidade que denota uma fragilidade desta docência como profissão.
O Quarto Capítulo consiste na exposição do percurso metodológico percorrido para o desenvolvimento desta pesquisa, elucidando a abordagem metodológica, procedimentos e instrumentos utilizados para a geração de dados, bem como as razões que fundamentam a escolha do lócus, dos sujeitos e informantes da pesquisa.
O Quinto Capítulo traçou o perfil pessoal e profissional das Auxiliares do CEI investigado, apresentando diferentes aspectos acerca dessas profissionais conforme disposto no questionário utilizado para este fim. Aproximar-se de tais características oportunizou um conhecimento mais profundo sobre os sujeitos investigados, entendendo que as dimensões pessoais e profissionais não se separam e deixam marcas significativas nas práticas cotidianas realizadas na Educação Infantil.
O Sexto Capítulo apresenta as atividades desenvolvidas, diariamente, pelas Auxiliares no trabalho diário e direto com crianças pequenas e professoras. Durante a descrição dessas tarefas, percebeu-se que há atividades desenvolvidas somente pelas Auxiliares, em que não há o envolvimento das professoras, assim como existem atribuições que apenas a professora desenvolve, sem a participação das Auxiliares. Entretanto, todas as atividades realizadas pelas Auxiliares são incumbências que estão diretamente relacionadas com o atendimento das necessidades e direitos das crianças.
O Sétimo Capítulo apresenta um caleidoscópio de olhares, pois expressa as percepções de diferentes segmentos do CEI, ou seja, Auxiliares, coordenadora e professoras, acerca da função da Auxiliar de Educação Infantil. Esse Capítulo foi organizado em duas seções: na primeira são apresentadas as percepções das Auxiliares e, em seguida, são elencadas as reflexões da coordenadora e das professoras cujas turmas foram alvo da investigação25.
As Considerações Finais reúnem aspectos relevantes que despontaram ao longo do estudo, objetivando contribuir com as discussões acerca dos profissionais que atuam no trabalho educacional com crianças pequenas, a fim de fomentar políticas públicas de valorização e reconhecimento da docência e de seus profissionais, os professores, para a promoção de uma Educação Infantil de boa qualidade.
25 Ainda que as famílias sejam um importante segmento da Educação Infantil, pois compartilham o cuidado e
educação das crianças com os profissionais desta etapa educacional, devido ao tempo destinado para o desenvolvimento do trabalho de campo e análises do material gerado, não foi possível realizar a investigação com esses indivíduos. Considerando que essa temática não se esgota com esta pesquisa, é possível dar continuidade a este estudo através da produção de novos trabalhos, com diferentes conexões e envolvendo outros participantes.