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Todo método pressupõe uma relação intrínseca com um conceito, isto é, uma teoria. Por sua vez, o método pressupõe um procedimento. Colocado de outra maneira, o conceito é que constitui o método e o procedimento faz parte do método. O procedimento, então, é o “fazer empírico” do conceito (da teoria).

A diferença terminológica da proposta de Marlene Guirado não é um simples equívoco. Chama-se análise de discurso por ser uma proposta que se aproxima mais da psicanálise e da psicologia do que da AD.

Esta proposta é calcada sobre um objeto (institucional) aproximado da psicanálise. O primeiro ponto é o de considerar as instituições como relações sociais concretas, que se repetem e enquanto se repetem, se legitimam. É uma legitimação por efeitos de reconhecimento e desconhecimento, ou seja, tal qual imaginadas e simbolizadas pelos que a fazem. O segundo ponto é o de um sujeito-suporte, que é um sujeito psíquico porque institucional, o que significa que ele é constituído na instituição discursiva – o discurso –, mas que tem uma singularidade no modo de organizar sua formação discursiva. Portanto, um campo em que o psíquico não é mais sinônimo de psicanalítico. O terceiro ponto, é o conceito de discurso, aproximado do de Foucault, que trata o discurso enquanto formação discursiva, enquanto acontecimento discursivo. É nele e por ele que a coisa se dá. Ou seja, o discurso carrega consigo as marcas de sua condição de produção discursiva. O quarto ponto é o de considerar que a análise de discurso não é uma análise psicológica de quem o profere. Enfim, quinto ponto, considera-se que a análise a ser feita é um trabalho do pensamento. Não se trata de elucidar algum sentido até então oculto, ou de reconhecer no sujeito uma lógica dominante que o transcende. Muito pelo contrário, é no discurso, na sua produção e reprodução através de um suporte institucional, que as amarrações serão feitas.

Nesta pesquisa pretendeu-se fazer um estudo de caso a partir de um projeto (Projeto B) de um programa de promoção social desenvolvido por uma organização do Terceiro Setor. Mais especificamente, uma Fundação (Fundação A).

2.5.1. Contato inicial

Meu primeiro contato com o Projeto B da Fundação A foi no primeiro semestre de 2002. Ainda na graduação, era necessária a realização de um estágio em alguma instituição. Elegi a Fundação A pelo interesse em desenvolver algum trabalho em uma organização do Terceiro Setor. O estágio foi não-remunerado, com freqüência de um período por semana e durou um semestre letivo.

Em 2004, entrei em contato novamente com o Projeto B para propor a parte empírica desta pesquisa. Nesse novo contato, algumas coisas haviam mudado. Praticamente todo corpo de agentes havia sido trocado. Nesse ano, o organograma do Projeto B estava disposto da seguinte forma: coordenador do projeto, coordenador pedagógico e assistente social formam a equipe técnica (ou equipe gestora). Trabalham também educadores (quatro) com várias

formações (segundo os perfis estipulados pela Fundação A) e alguns voluntários (em 2002, o Projeto B se caracterizava pelo voluntariado, e por isso tinha mais de 20 voluntários trabalhando. Em 2004, já com outro caráter, não passavam de 4 voluntários ativos). E, logicamente, a clientela: 120 crianças de 7 anos à 17 anos e 11 meses, divididos em três grupos etários, de Segunda à Sexta-feira, no período complementar à escola (uma turma de 70 de manhã e outra à tarde). Também eram feitas reuniões mensais com as famílias dos atendidos. No período de 2004 em que circulei pelo Projeto B, dois cargos estavam vagos: o de coordenador do projeto e o de educador. O primeiro foi demitido logo uma semana depois de minha entrada (detalhe: foi com essa pessoa que fiz os acordos de minha pesquisa), enquanto que o segundo havia sido demitido algumas semanas antes. Na conversa inicial com a coordenadora do projeto, acertei o seguinte contrato: faria as entrevistas na medida do possível, com a contrapartida de dar uma devolutiva da pesquisa, uma cópia da dissertação de mestrado e, após negociações, trabalho voluntário uma vez por semana (este último foi por sugestão/insistência da coordenadora). Conversei rapidamente com os outros agentes e decidimos onde faria o trabalho voluntário (até me firmar em qual atividade me encaixaria, passou-se praticamente dois meses). Em seguida, fui à Fundação A e preenchi um formulário de adesão e compromisso de trabalho voluntário, porém sempre deixando claro que o interesse nisso era em dar a contrapartida para a realização da pesquisa.

Em 2005, algumas reformulações foram feitas na Fundação A. O Projeto B também mudou ligeiramente sua configuração. Este passou também a desenvolver trabalhos mais sistemáticos com as famílias, com jovens acima dos 18 anos e com a comunidade. Todas os cargos foram preenchidos e dois novos educadores contratados. Pelo caráter repentino da mudança e pela falta de documentos impressos, decidi tomar como base de minhas análises o ano de 2004. Logo, a análise dos documentos institucionais teve como base o ano de 2004109. Por sua vez, as entrevistas foram realizadas nesses dois anos e também tive que adotar um parâmetro de análise. Adiante explicito meus critérios.

2.5.2. A entrevista

O início deste trabalho de entrevistas começa com o contato e visitas à organização. Por um lado, a finalidade das visitas é a de negociar a realização das entrevistas. Por outro, é a de conhecermos a dinâmica institucional da organização em questão, dando suporte para a

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estratégia de eleição dos entrevistados, assim como indícios das práticas institucionais concretas do local.

Para a eleição dos entrevistados, optei por privilegiar atores institucionais que ocupavam posições diferentes na rede de relações da organização, mesmo porque o quadro de agentes é bastante reduzido. O principal motivo para tal procedimento é que a prática institucional é o resultado da prática dos diversos agentes institucionais (equipe técnica e educadores) com a clientela (os atendidos: crianças, adolescentes110 e suas famílias), que se reproduzem e se legitimam nas e pelas próprias práticas/relações sociais, configuradas na apropriação de um determinado objeto (a promoção social). Portanto, para elucidá-las foi necessário identificar as práticas predominantes nessas relações sociais concretas, definindo aqueles atores cujas práticas tendiam a dominar na instituição, o que configurava mais um dos motivos das visitas.

No início das visitas, em Agosto de 2004, haviam cinco empregados, sendo dois da equipe técnica e três educadores, mas com duas vagas a serem preenchidas: uma na equipe técnica (gestora do Projeto B) e outra de educador. Numa primeira leva, entrevistei: a coordenadora pedagógica e uma educadora. No início de 2005, o Projeto B sofreu uma série de reformulações, os cargos vagos foram ocupados e dois educadores foram contratados. Curiosamente, a coordenadora pedagógica se tornara a gestora do Projeto B e a educadora, a coordenadora pedagógica. Apesar da mudança de cargos, resolvi manter as entrevistas feitas como pertencentes às categorias “equipe técnica” e “educador”. Na segunda leva, entrevistei: o técnico de desenvolvimento da Fundação A (líder da implantação do Programa C)111; um atendido que havia recém saído do Projeto B por ter atingido a idade limite; e uma atendida participante do Projeto B. Ambos foram escolhidos por indicação da equipe.112

Também declarei meu desejo de entrevistar algum dos diretores gerais da Fundação A, mas não foi possível marcar a entrevista por falta de indicação de contato com os mesmos.

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As crianças e adolescentes do Projeto B são chamados de educandos. Também utilizarei esse nome para me referir a eles.

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Durante minhas visitas no ano de 2004, esse cargo também havia ficado vago. No início de 2005 ele havia sido preenchido e o novo contratado foi um dos agentes das reformulações no Projeto B e Fundação A, que em seguida menciono. Quanto ao Programa C, este é o nome que atribuo, por questões éticas, ao Programa desenvolvido pela Fundação A, cujo Projeto B faz parte (é uma de suas unidades). Adiante explico do que se trata.

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Apesar das mudanças entre 2004 e 2005, julguei que a eleição dos entrevistados não mudaria o caráter da análise. O cunho dessas mudanças foi principalmente na organização da Fundação A. O Projeto B também mudou, mas estas foram no sentido de acréscimo e aperfeiçoamento das ações propostas (atendimento sistemático com as famílias, comunidade e jovens acima dos dezoito anos). Decidi abarcar as ações de 2004 que continuaram sendo praticadas em 2005 (o trabalho com crianças e adolescentes já desenvolvido e renomeado para configurar a mudança). Por isso mantive as entrevistas de 2004 e adotei esse ano como parâmetro de análise, mesmo tendo realizado entrevistas em 2005 (no início do semestre). Ainda neste capítulo, mas também no seguinte, explicito o teor dessas mudanças.

Decidi não entrevistar nenhum outro tipo de funcionário ou voluntário pelos mesmos motivos. Encerrei minhas visitas ao Projeto B em Julho de 2005.

Para as entrevistas, não dispus de roteiros pré-definidos. Portanto, entrevistas abertas. Como questão inicial, fiz a seguinte colocação: “gostaria que me falasse sobre seu trabalho” ou, se tratando dos atendidos, “gostaria que me falasse sobre sua vida”, elaborando novas colocações e perguntas em função do que foi dito. A justificativa é a de que o entrevistado configure seu campo da entrevista. O que deve estar em jogo é o discurso e as representações do entrevistado, e não do entrevistador (GUIRADO, 2004, p.1-2). Para esta pesquisa realizei cinco entrevistas.

Feitas as entrevistas, realizei as transcrições. Concomitante a essa etapa, também consultei os documentos institucionais elaborados pela Fundação A, disponibilizado em seu site. Esse é o material que tive acesso e que me foi indicado. A justificativa dessas consultas é a de considerar os documentos institucionais como mais um pilar das relações concretas vividas pela organização em questão.

2.5.3. A análise

Relembrando, ao trabalhar com entrevistas, remetendo-me às práticas institucionais concretas, seria um erro considerar que estas desvendariam o plano da realidade institucional. Ou seja, atenta-se para a distinção entre a totalidade concreta (plano da realidade) e a própria análise (plano de análise). Isso dá à análise um estatuto de recorte, o que quer dizer que se procede segundo níveis de análise. O trabalho analítico seria uma organização desse recorte da realidade no pensamento, atribuindo uma determinada ordem ao real. Não será a reprodução de uma totalidade.

Para a análise das entrevistas, Guirado (1995, p.86-8; 2004, p.58-60) sugere os seguintes procedimentos:

1) Assinalam-se as palavras que se repetem e que surgem aparentemente de maneira deslocada com relação ao assunto de que tratava – idéia de deslocamento.

2) relaciona-se adjetivos a substantivos, ou seja, atributos de nomes ou situações (ex.: usar um prefixo de negação quando se referindo à família) – idéia do efeito de conhecimento e reconhecimento do discurso.

3) destaca-se, quanto à estrutura sintática, o lugar de determinadas palavras (ex.: uma pessoa ser tratada como um objeto direto; ou utilizar a voz passiva ou ativa para determinados grupos) – função sintática que se reproduz no ato.

4) pontua-se o enredo ou a trama das histórias contadas ou das situações descritas, bem como o papel que determinados personagens que nelas desempenham – trabalhar com a cena constitutiva do discurso.

5) atribuir sentido a alguns termos ou algumas frases – ambigüidade do discurso.

Realizei a análise das entrevistas segundo esse procedimento acima citado. Em seguida, re-organizei os discursos em temas recorrentes (centrais), identificando as relações entre eles (primeiro dentro de cada entrevista). Para os agentes institucionais, indiquei as relações entre o lugar que o entrevistado se “via” ocupando nas relações instituídas, o lugar que atribuía aos atores institucionais e a imagem que tinha da instituição a qual pertencia. Para a clientela (educandos), configurei a representação dos lugares ocupados nos diferentes conjuntos de relações que vivem, dando maior ênfase àquelas vividas no Projeto B.

No momento seguinte, procurei as inter-relações entre os discursos dos entrevistados, colocando-os nos grandes temas recém mencionados. A eleição desses temas seguiu a recorrência no discurso dos entrevistados. Com isso em mãos, redigi as articulações do trabalho analítico, colocando trechos das entrevistas em primeiro lugar e as interpretações feitas anteriormente no trabalho de análise logo em seguida, indicando as práticas institucionais concretas que são produzidas no Projeto B, segundo meu re-arranjo.

No caso dos documentos institucionais, fiz um rearranjo segundo a imagem que a Fundação A transmite à sociedade, segundo sua experiência na gestão como característica diferencial da atuação e segundo o lugar dos atendidos nesse discurso.

Ressalto que, ao longo de todas essas categorias, aponto como é que os atores institucionais configuram a transformação social em seus discursos. Portanto, é durante toda a análise das entrevistas que vou configurando, pelo trabalho do pensamento, a transformação social que eles falam, representam, concebem e fazem.

2.6. Sobre a Fundação A e o Projeto B