O futebol enquanto objeto de estudo sociológico deve ser encarado sob a égide da modernidade. Isso significa que o futebol é uma manifestação esportiva que conhece na época moderna sua existência. Na segunda metade do século XIX, as formas de lazer consideradas modernas ganham nova configuração (Elias e Dunning: 1992). Até aquele momento, grande parte das práticas de divertimento e lazer estavam ligadas à violência física. O pugilato (cujas lutas muitas vezes terminavam com a morte de um dos lutadores), rinhas de galo, de cães, de ursos e até mesmo variantes do futebol
“primitivo” eram regadas e alimentadas por sangue e pelas apostas que sempre
estiveram vinculadas a estes esportes. A violência e as apostas eram o que de fato sustentava estas práticas.Nos jogos de futebol “primitivo”, por exemplo, era usual os jogadores carregarem punhais, que podiam eventualmente causar ferimentos sérios tanto acidental quanto intencionalmente. Desta mesma forma, eram comuns socos, pontapés na canela e lutas diversas, muitas das quais para resolver algum tipo de antiga rixa entre
os jogadores; “ossos quebrados, ferimentos graves e mortes eram consequências esperadas” (Elias e Dunning: 1970. p. 119-120). Não havia juízes, regras ou número de
jogadores fixos, tampouco era possível diferenciar com precisão quem eram os espectadores e quem eram os jogadores.
Apesar de sempre atrelados à violência, estes momentos cumpriam uma importante função social, a saber, era aqui que os indivíduos conheciam e alcançavam a excitação. A busca pela excitação inexoravelmente passava pela prática de esportes violentos, assim como pela adesão voluntária de grande contingente de adeptos. Quando um pugilista era golpeado até a morte ou quando havia disputas mais ríspidas durante
uma partida de futebol “primitivo” com dose extra de violência – disputas essas que
hoje seriam tidas como inconcebíveis -, os espectadores deliravam em aplausos, gritos, alegria e tristeza. Estes momentos eram verdadeiros turbilhões de emoções para os espectadores e também para os jogadores. Ora, a perspectiva weberiana pode lançar luz sobre a análise do processo de modernização/racionalização do futebol, se se levar em conta a inexistência, em se tratando do futebol “primitivo” é claro, de qualquer instituição – burocrática ou não – ou mecanismo de centralização e monopólio da organização do esporte, instituições que são reconhecidas atualmente como detentoras e mandatárias legítimas do futebol, como por exemplo, FIFA, CBF, Uefa, Concacaf, Federação Mineira de Futebol e etc. (Damo, 2005: p. 41-42).
Foi a partir de 1828, quando Thomas Arnold, tornou-se diretor de uma escola na cidade de Rugby, no interior da Inglaterra e implementou um programa de valorização do esporte no currículo escolar que podemos começar a pensar na formulação do futebol moderno (Giulianotti: 2002). Os jovens endinheirados ingleses tiveram a partir da
intervenção deste educador uma formação moral e física, pois os “novos cavalheiros
cristãos deveriam manter a ordem política e econômica no lar e, mais tarde, dar sustentação ao império no exterior” (Hargreaves: 1986, p. 39). Este fato é uma comprovação inequívoca de que as práticas esportivas se tornam valores sociais arraigados, institucionalizados. Nesse sentido, pode-se dizer que praticar esportes significava naquele momento vivenciar a própria modernidade. Contudo, para que o esporte fosse agregado ao currículo escolar como agente educador foi necessária a intensificação do processo de racionalização através da criação de regras gerais e da supervisão dos jogos feita pelos próprios professores das escolas. Esporte e educação são a partir daqui inseparáveis. O advento do esporte enquanto ferramenta pedagógica instalou-se no Reino Unido e alastrou-se rapidamente pelo mundo, como modelo de
“educação moderna”. Vale destacar que como maior potência imperialista da época, o
econômico, como também na esfera cultural. O “ser moderno” e sofisticado no século
XIX, em qualquer esfera da vida social, era sinônimo de “ser” e viver como os
britânicos.
O futebol “primitivo” não era o que se pode chamar de jogo singular, na medida
em que era praticado de diferentes formas, com diferentes regras, dependendo da região. Esta incongruência ficava evidente quando eram realizadas partidas envolvendo equipes de locais diferentes. O jogo, da forma como conhecemos hoje (racionalmente organizado), tornava-se impossível e ao mesmo tempo se via como cada vez mais necessária a padronização das regras. Não havia qualquer tipo de instituição com a finalidade estrita de gerir, organizar e regulamentar o jogo. Neste contexto houve uma separação crucial e decisiva em relação aos modos e regras do futebol primitivo. A proibição do uso das mãos resultou na formação de esportes que hoje são dois dos grandes mobilizadores de multidões no campo esportivo, a saber, o rugby – em que o uso das mãos e dos pés são permitidos - e o futebol – esporte que como se sabe permite o uso das mãos apenas pelos goleiros.
A criação do primeiro clube de football em 1854 pela classe dos “novos ricos” (industriais e comerciantes), o Sheffield FC, é entendida como divisor de águas entre o futebol primitivo e o futebol moderno. Menos de uma década depois várias escolas e
universidades adotaram as regras e o modo de jogar o “jogo do drible” e foi criada a FA
(Associação de Futebol), instituição responsável pela organização do futebol inglês ainda hoje. Já em 1872 a FA organizou um torneio de eliminatórias entre escolas públicas (este torneio é considerado a primeira edição da FA Cup - Copa da Associação de Futebol – e é ainda hoje disputado na Inglaterra). Este fato evidencia a adesão – sustentada pela criação de vários clubes ou equipes praticantes do football - de vários clubes à FA, assim como a aceitação e o crescimento desta prática esportiva. A FA monopoliza o controle e a organização do esporte e teve no Estado inglês sua garantia de legitimidade. Esta modernização/racionalização do futebol possibilitou a emergência de torneios, cujas disputas eram realizadas entre escolas públicas, mas que num momento posterior passam a ser jogadas entre clubes de futebol institucionalmente consolidados, que representavam determinado grupo de adeptos, de determinada região da cidade, do país e, no limite, do planeta.