5.6. Araştırma Bulguları
5.6.3. Çalışanların İş Tatminini Etkileyen Faktörlerin
Aquele que pretende assumir a palavra em uma cena discursiva deve adaptar-se aos seus interlocutores para que seja possível exercer influência sobre eles. Assim, há a necessidade de se pensar sobre que imagem o locutor constrói de si mesmo para que o auditório venha a aderir à tese apresentada e que imagem o locutor constrói sobre o seu auditório para garantir que as estratégias argumentativas utilizadas possam ser mais eficientes. Na instância da construção da imagem de si, é importante, primeiramente, esclarecer o que se entende por ethos que, de acordo com a Retórica Aristotélica, é uma das provas técnicas que compõe a construção argumentativa juntamente com o pathos e o logos. Para Amossy (2010), ethos é a imagem de si construída pelo orador no discurso e tem a finalidade de persuadir seu auditório através de uma boa impressão.
No terreno da AD, podemos nos apoiar em estudos de autores como Charaudeau (2009) para pensar nos elementos discursivos que podem ser utilizados nessa construção de imagens de si e do outro. O autor dedica um capítulo de sua obra Linguagem e Discurso ao modo de organização enunciativo do discurso. Neste, estabelece alguns componentes enunciativos que contribuem para a elaboração do ethos, permitindo “ao enunciador colocar- se em cena (enunciação elocutiva), implicar seu interlocutor no mesmo ato de comunicação (enunciação alocutiva), apresentar o que é dito como se não houvesse implicação de ninguém (enunciação delocutiva)" (PAULIUKONIS, 2008, p. 65).
A enunciação elocutiva, conforme Charaudeau (2009), evidencia a relação do locutor consigo mesmo, de modo que o sujeito falante destaca o seu ponto de vista sobre as questões que estão sendo tratadas no discurso, isentando o interlocutor de qualquer responsabilidade pelo que está sendo dito. "O resultado é uma enunciação que tem como efeito modalizar
subjetivamente a verdade do Propósito enunciado, revelando o ponto de vista interno do
sujeito falante. Desse modo, o Propósito referencial é situado no universo de discurso do sujeito falante" (CHARAUDEAU, 2009, p. 83).
Os pronomes pessoais de primeira pessoa são responsáveis pela enunciação elocutiva. Eles são acompanhados de advérbios, verbos modais e de qualificativos que descrevem o ponto de vista pessoal do orador. “Quando expressa com a ajuda do pronome 'nós', esse tipo
de enunciação contribui para a construção de um ethos de solidariedade” (PAULIUKONIS, 2008, p. 65).
Já a enunciação alocutiva é pautada no uso de pronomes pessoais de segunda pessoa, que também aparecem acompanhados de verbos modais e de qualitativos, responsáveis por indicar ao interlocutor qual seria o seu lugar e mostrar o tipo de relação existente entre eles no momento da situação comunicativa. Desse modo, "o sujeito falante enuncia sua posição em relação ao interlocutor no momento em que, com o seu dizer, o implica e lhe impõe um comportamento" (CHARAUDEAU, 2009, p. 82), agindo, dessa forma, o locutor sobre o interlocutor.
A enunciação delocutiva, por sua vez, procura apagar qualquer traço de pessoalidade entre os interlocutores. Assim, as palavras são utilizadas com as atribuições de uma terceira voz, como se não fossem de responsabilidade nem do orador, nem do auditório (PAULIUKONIS, 2008). Dessa forma, o sujeito falante "se apaga" do próprio ato de enunciação e demonstra como os discursos que são provenientes de uma terceira voz se impõem a ele, resultando em uma enunciação aparentemente objetiva (CHARAUDEAU, 2009).
Outro autor que oferece uma importante contribuição aos estudos sobre o assunto é Meyer (2007). Para ele,
o ethos é uma excelência que não tem objeto próprio, mas se liga à pessoa, à imagem que o orador passa de si mesmo, e que o torna exemplar aos olhos do auditório, que então se dispõe a ouvi-lo e a segui-lo. As virtudes morais, a boa conduta, a confiança que tanto umas quanto outras suscitam conferem ao orador uma autoridade. O ethos é o orador como princípio (e também como argumento) de autoridade (MEYER, 2007, p. 34-35).
É importante ressaltar, como bem explica o filósofo, que o ethos não está restrito à presença do orador em uma situação comunicativa. “O ethos é um domínio, um nível, uma estrutura – em resumo, uma dimensão –, mas isso não se limita àquele que fala pessoalmente a um auditório, nem mesmo a um autor que se esconde atrás de um texto” (MEYER, 2007, p. 35).
Amossy (2010, p.63), no mesmo sentido, considera que “la dimension morale et la
dimension stratégique de l’ethos sont inséparables” 67
. Isso mostra que a construção da imagem do orador no discurso está ligada a um sistema de valores no qual locutor e auditório encontram-se inseridos, de forma que “l'image élaborée par le locuteur s'appuie sur des
éléments préexistants, comme l'idée que le public se fait du locuteur avant sa prise de parole
ou l'autorité que lui confèrent sa position ou son statut”68
(AMOSSY, 2010, p.69). Essa
concepção, a qual podemos também verificar citação de Meyer (2007), relaciona-se à ideia de ethos prévio desenvolvida pela própria autora, que também pode ser concebido como ethos pré-discursivo, conforme os estudos de Maingueneau (2005).
O ethos prévio, segundo Amossy (2010), é a imagem do orador que leva em consideração seu espaço social, suas funções institucionais na sociedade e baseia-se nas representações sociais e nos estereótipos relacionados à sua pessoa. Essas imagens concebidas previamente são, de certa forma, responsáveis pelo condicionamento do discurso, já que tanto a enunciação quanto as marcas linguísticas são capazes de identificá-las. Confirmando esse posicionamento, Galinari (2007a) ressalta que a instância do ethos não poderia ser estudada exclusivamente e restrita ao momento da enunciação, devendo, sempre, levar-se em consideração os dados situacionais, históricos e psicológicos da instância de produção do discurso.
Com a designação ethos prévio, a Análise do Discurso passaria a considerar em sua epistemologia os elementos interdiscursivos na elucidação dos possíveis efeitos argumentativos de um corpus particular, resgatando os estatutos sociais do orador (ou da instância de produção do discurso), a sua reputação, as suas qualidades morais, comportamentais, etc. Isso implicaria, também, em ter consciência dos imaginários sociais que alimentam esses ethé, isto é, das representações coletivas, estereótipos, valores e outros tipos de saberes comuns, cultivados (e em confronto) numa sociedade. Seriam esses elementos que possibilitariam ao auditório avaliar as argumentações, de acordo com suas visões de mundo ou crença (GALINARI, 2007a, p.75).
Assim, da mesma forma que a imagem é o que sustenta o auditório, o ethos depende dos imaginários sociais e dos estereótipos que veiculam em determinada época, ou seja, a imagem do orador se constrói a partir dos modelos socioculturais vigentes, como afirma Amossy (2010, p. 72)
Une analyse des images de soi dans le discours, doublée d'une connaissance de la situation d'énonciation et de la représentation préalable de l'orateur, de voir comment se met en place un ethos que doit contribuer au caractère persuasif de l'argumentation.”69
68Tradução nossa: a imagem produzida pelo orador apoia-se em elementos preexistentes, como a ideia que o público faz do orador antes dele tomar a palavra ou a autoridade conferida pela sua posição ou status.
69
Uma análise das imagens de si no discurso, juntamente com o conhecimento da situação de enunciação e representação prévia do orador, permite assim, ver como se implementa um ethos que deve contribuir para o caráter persuasivo da argumentação.
Galinari (2007a, p.72) ressalta a importância “das convenções e das representações sociais para a adequada edificação e funcionamento do ethos, visto que a sua plausibilidade varia de comunidade para comunidade, de grupo para grupo, de indivíduo para indivíduo”. Portanto, a construção de imagens dos sujeitos envolvidos em uma situação de comunicação é modificada de acordo com os universos e saberes partilhados próprios de cada grupo social.
As imagens que apoiariam a construção do ethos do orador seriam provenientes, nas palavras de Amossy (2010, p.71)
de l’image que l’on se fait de la catégorie sociale, professionnelle, ethinique, nationale, etc. du locuteur; de l’image singulière qui circule d’un individu au moment de l’échange argumentatif; de la possibilité d’images différentes, voire antagonistes, du même locuteur selon l’auditoire visé”.70
No caso do corpus que será analisado no Capítulo 4, a construção das imagens dos oradores, que são os Ministros do Supremo Tribunal Federal, estará pautada nos componentes do ethos prévio, já que estes são conhecidos como juristas dotados de notórios saberes jurídicos, prudentes, justos, conhecedores das leis, etc., e nos componentes do ethos discursivo que será construído no momento da enunciação.
Em se tratando do ethos discursivo ou da imagem construída pelo orador diante de seu auditório no momento da interação comunicativa, vale trazer ao presente estudo duas considerações feitas por Galinari (2007a). A primeira mostra que de “nada adiantariam [...] as imagens prévias acerca do orador caso este não consiga atualizá-las no momento do seu discurso, ou caso o auditório não possua os meios (o domínio do código, saberes comuns, conhecimentos etc.) para visualizá-las” (2007a, p. 76). A segunda, que reforça a primeira, esclarece que a construção de imagens no momento da enunciação “seria capaz de destruir/desconstruir reputações solidificadas anteriormente” (2007a, p.76).
Mesmo considerando que os Ministros do STF ocupam o cargo mais alto no Poder Judiciário por suas posturas exemplares, condutas ilibadas e notórios saberes jurídicos, quando estes participam de julgamentos, devem mostrar conhecimentos específicos sobre a matéria para justificar o posicionamento que cada um deles tomará. Caso acontecesse de um deles não ter conhecimento sobre o que está sendo discutido ou se apresentasse em estado de embriaguez, por exemplo, o ethos prévio seria desconstruído.
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da imagem que se faz da categoria social, profissional, étnica, nacional, etc. do locutor; da imagem singular que circula, de um indivíduo, no momento da troca argumentativa; da possibilidade das diferentes imagens, e mesmo antagônicas, do mesmo locutor segundo o auditório visado.
Assim, as imagens concebidas previamente poderiam ser confirmadas no momento da interação, como também poderiam ser desconstruídas. O orador, ao tomar conhecimento de seu público, poderá reforçar ou evitar determinados conceitos a respeito de sua pessoa através da elaboração do “ethos dito” e do “ethos mostrado” (Maingueneau , 2005).
Em termos gerais, o ethos "mostrado", segundo o autor, aparece através dos gestos, dos tons utilizados, da escolha lexical, da postura, dentre outros elementos. Galinari (2007a) afirma que “esse tipo de comportamento discursivo, ligado mais à aparência da enunciação do que ao conteúdo explícito do enunciado, muitas vezes é mais eficiente em termos de adesão” (2007a, p. 77). Já o ethos "dito" estaria associado ao que o próprio orador diz de si mesmo, que nem sempre é visto como uma estratégia argumentativa positiva, pois, muitas vezes, dizer algo de si mesmo pode provocar algum efeito relacionado à arrogância ou à vaidade.
A partir do que foi exposto, convém esclarecer que as imagens relacionadas ao orador não são as únicas existentes e passíveis de análise em uma situação enunciativa. O orador também edifica imagens de seu auditório a partir de um universo de crenças e valores que irão apoiar essa construção. As imagens associadas ao indivíduo ou grupo ao qual o orador se dirige, normalmente, são pautadas nas representações sociais que se tem a respeito dele e fazem com que a enunciação seja direcionada a um público com características próprias provenientes de determinado grupo social. Assim, na tentativa de adequar a comunicação em razão da imagem de um auditório, é possível construí-la sob a égide persuasiva visando à adesão do público à tese apresentada, como afirma Lima (2006, p. 145).
Para cada auditório um ethos diferente deve ser apresentado a fim de preencher as condições mínimas de credibilidade, referentes à sensatez (phrónesis), à virtude (areté) e à benevolência (eúnoia), uma vez que o orador deve parecer digno de fé, através de um discurso verossímil e não necessariamente verdadeiro.
No julgamento da ADPF n° 54, em que se discute os direitos dos fetos anencéfalos e das mulheres, observar-se-á que os ethé dos Ministros foram parcialmente construídos através de informações que já circulavam em momento anteriores à sessão de julgamento e estão associados à prudência, à inteligência e à justiça. No entanto, outras imagens vão sendo construídas no momento da enunciação e levam à percepção, por exemplo, de que enquanto uns se mantêm mais distantes das questões relacionadas ao gênero feminino, outros as promovem de forma a configurar evidente interesse em defender os direitos das mulheres.
A construção de imagens de si e do outro visa tanto à manutenção de um determinado enquadramento sócio-cultural e, claro, a um enquadramento institucional dos sujeitos envolvidos [...], quanto tem por finalidade levar o outro a compartilhar de determinadas posições que atenderão a fins persuasivos (LIMA, 2006, p. 142).
Tendo em vista o fato de que, nas interações, os sujeitos estão sempre elaborando imagens de si e do outro, o processo de construção de imagens não deve ser visto “apenas como um tipo de prova, mas como uma dimensão que ancora o discurso argumentativo” (LIMA, 2006, p. 143). As imagens construídas tanto de si quanto do outro determinam a direção argumentativa do discurso e devem ser vistas em sua conexão com recursos argumentativos diversos e com as outras dimensões que serão apresentadas a seguir.