1.4. Çırçır, Linter ve Lif Döküntüsü Prese Fabrikaları
1.4.6. Çırçır-prese fabrikalarının işletilmesinde dikkat edilmesi gereken
A análise do sonho da Monografia Botânica é mencionada por Pêcheux como exemplo de “uma concepção totalmente diferente da não-conexidade do processo de pensamento, na qual a forma unificadora da consciência efetivamente desaparece” (SD: 260). Vamos abordá- lo a partir do texto da Traumdeutung, tal como analisado por Freud. Esse exemplo nos permitirá, ademais, destacar o que Freud denomina de trabalho do sonho (Traumarbeitung) assim como o método freudiano pelo qual passamos da não conexidade do significante ao sentido latente do sonho. Trata-se de um sonho do próprio Freud, cujo valor é primeiramente apontado em torno de sua extrema condensação, o que pode ser aferido se compararmos as poucas linhas de seu conteúdo manifesto e as várias páginas que resultam de sua análise
(FREUD 1969/1900, p.179-187):
Eu escrevera uma monografia sobre certa planta. O livro estava aberto diante de mim e, no momento, eu folheava uma prancha colorida dobrada. Preso a cada cópia, havia um espécime seco da planta, como se tivesse sido retirado de um herbário (ibid)
a- as primeiras associações conduzem diretamente a um acontecimento trivial do dia anterior: “naquela manhã, eu vira um novo livro na vitrine de uma loja, trazendo o título The
Genus Cyclamen ⎯ evidentemente uma monografia sobre aquela planta” (ibid). Segue-se a
mesma linha associativa remete ao buquê esquecido pelo marido de sua ex-paciente Frau L., no dia de seu aniversário, e interpretado por ela como prova do seu desafeto. Essa alusão encerra esta primeira linha associativa.
b- retoma-se o mesmo ponto de partida em uma outra direção: elas conduzem à monografia sobre a planta da coca, escrita por Freud alguns anos antes, e que chamou a atenção de Koller sobre os efeitos anestésicos da planta. Essa cadeia associativa remete primeiramente a um devaneio da manhã do dia posterior ao sonho, antes, porém, de sua interpretação: tal como acontecera certa vez com seu pai, Freud se faria operar de glaucoma. Ficaria em Berlim, na casa do amigo Fliess; o cirurgião responsável se vangloriaria dos benefícios trazidos pelas propriedades anestésicas da coca, sem saber da identidade de seu paciente, que permaneceria então no anonimato.
c- uma outra cadeia de pensamentos deriva-se do mesmo “caso da coca”. Alguns dias antes Freud recebera um Festscrift (uma correspondência comemorativa) no qual se homenageava
Koller pela descoberta dos efeitos anestésicos da coca. Desta lembrança decorre outra: no dia
anterior Freud estivera conversando com Königstein e a conversa fora interrompida pela presença de Gärtner, um dos autores do mencionado Festscrift, e de sua mulher. Ora: Gärtner quer dizer, literalmente, jardineiro. Além disso, Freud saudou a presença florescente da sua mulher, na forma de um chiste.
d- a análise volta-se então para um outro fragmento do texto do sonho: ...havia um espécime
seco da planta, como se tivesse sido retirado de um herbário. Isso conduz à recordação de
juventude do exame e limpeza de um herbário que lhe fora confiado por um professor, no qual haviam penetrado alguns vermes, vermes de livros. Do exame deste herbário as associações levam às crucíferas, à falha em identificá-las e daí às flores compostas, suas flores prediletas, ponto em que o trabalho interpretativo cruza, por outra via, com os mesmos elementos (flores prediletas; falha pessoal). Novo fechamento da cadeia associativa.
e- o trabalho interpretativo retoma outro fragmento: via a monografia diante de mim. Este fragmento remete diretamente a uma carta de Fliess recebida no dia anterior. Nesta carta, o amigo expressa estar lendo parte do livro dos sonhos de Freud, ainda não publicado: “vejo-o
concluído diante de mim e vejo a mim mesmo virando-lhe as páginas”, diz o amigo. O
caso se refere à pelo menos dois aspectos: a descoberta, atribuída a Koller, dos efeitos
anestésicos da coca, que havia sido antecipada por Freud em sua monografia e que remete ao seu
anonimato; e o relato de acidentes médicos da vida profissional de Freud, relacionados ao uso
da cocaína em pacientes38.
f- A prancha colorida dobrada remete, por sua vez, à má qualidade de seus desenhos e à
zombaria de colegas. Seguiu-se então, sem que o próprio Freud pudesse saber como, uma
lembrança de seus “primeiros anos de existência”: “certa vez, meu pai se divertira ao entregar um livro com pranchas coloridas a mim e a minha irmã mais velha para que o destruíssemos. Isso não é fácil de justificar do ponto de vista educativo!” (ibid). Essa lembrança, única deste período, é relacionada à “paixão de colecionar e possuir livros”, seu passatempo predileto ⎯ “eu me tornara um verme de livros”, diz o intérprete, reencontrando o mesmo signo. Por fim, recorda uma dívida contraída aos dezessete anos junto a um livreiro, que lhe custara a censura paterna. Neste ponto as associações retornam à conversa com Königstein: nela também havia sido mencionada a questão de lhe lançarem culpa por estar por demais absorvido em seus
passatempos prediletos. Aqui, entretanto, “por motivos nos quais não estamos interessados”,
interrompe-se a interpretação do sonho. Ela se detém diante do enigma do divertimento do pai frente a um livro posto em frangalhos, “folha por folha, como uma alcachofra”, do qual se origina o enigma do próprio desejo de Freud, ponto em que “a paixão leva à dor”.
Segundo Freud, as idéias de botânica e monografia desempenham neste sonho o papel de pontos nodais que condensam vários pensamentos latentes. Esses se concentram em torno da atração sentida por livros, em contraste com o buquê de flores esquecido. Para Freud, foi o elemento Gärtner que propiciou o elo verbal intermediário que levou dos pensamentos do dia anterior, circunscritos à conversa com Königstein, ao texto manifesto do sonho. Ele é o elemento material contingente à falta do qual o trabalho do sonho teria que encontrar um outro caminho, levado por outras associações verbais. Assim como no primeiro sonho analisado por Freud, o sonho inaugural da Injeção de Irma39, a interpretação gira em torno de uma auto
justificativa:
38
Esses acidentes são em parte relatados no curso das associações com o sonho da Injeção de Irma. Conf.: FREUD, S. A interpretação dos sonhos. Op cit., v. IV, cap. II)
39
afinal de contas, sou a pessoa que escreveu o valioso e memorável trabalho sobre a cocaína, da mesma forma que eu dissera, em meu primeiro sonho, em meu favor: ‘sou um aluno consciencioso e estudioso’. Em ambos os casos aquilo em que eu insistia era: ‘posso permitir-me fazer isso’ (ibid).
O sonho da monografia botânica é, neste sentido, um sonho de confirmação, a ser tomado no mesmo viés do sonho da Injeção de Irma e colocado ao lado deste: “na realidade, continha o assunto que foi levantado no primeiro sonho num estágio ulterior e o examinou com referência a material novo que surgira no intervalo entre os dois sonhos”, isto é, entre 1895 e 1898.
Findo o trabalho interpretativo temos então uma ligeira idéia do trabalho do sonho. Os elementos aparecem agora concatenados como uma rede que se entrecruza em diferentes pontos do trabalho associativo. O intérprete é como um escriba que trabalha sobre o texto do sonho, adicionando-lhe pensamentos e correlacionando seus elementos. Ele registra as condensações, encontra acontecimentos triviais de rotina, pequenos pensamentos à margem; segue processos associativos que se interrompem; retorna ao texto a partir de um novo ponto, relembra um devaneio, desenvolve a recordação de uma conversa interrompida do dia anterior, encontra outros pensamentos, percebe um elo associativo em um nome; de um fragmento do texto é lançado a uma recordação de juventude, de um outro a uma visão futura, de um outro ainda a uma cena infantil enigmática. Ele costura sua rede, afiançada pelo retorno dos fios: flores prediletas – monografia – verme de livros, etc. Este sonho é também para Freud o segundo tempo do outro, o sonho da Injeção de Irma, a cujo texto ele se prende como se o re-sonhasse. O escriba observa o retorno insistente de alguns signos. Aí, de novo, ele se encontra diante de algo indecifrável: à boca aberta de Irma sucede o divertimento enigmático do pai, de onde se extrai a dívida contraída pela paixão desmedida que responde ao enigma onde seu desejo foi capturado. Mas, aí não há mais auto justificativa!
O trabalho interpretativo vai assim da trivialidade do sonho manifesto, em que o autor contempla sua obra botânica acabada, à imersão em uma cena infantil em que um livro é destruído e para a qual não há resposta interpretativa ― um objeto para o qual não há idéia!. Se o conteúdo manifesto nos parece afetivamente indiferente, a cena recordada nos leva, conforme assinala Freud, à paixão, dor e culpa. Mas o escriba fará da sua interpretação a resposta à mensagem recebida ― eu me permito! ― diante da qual o desejo-sintoma se faz
obra. Sabemos, pelo próprio Freud, o quanto a redação da Traumdeutung foi para ele uma
reação à morte do pai40.
No fundo, escreve Freud, “os sonhos nada mais são que uma forma particular de pensamento, tornada possível pelas condições do estado de sono. É o trabalho do sonho que cria essa forma, sendo ele sozinho a essência do sonhar” (FREUD 1990/1969, p. 541). O
trabalho do sonho não pensa, não calcula, nem julga; limita-se a dar às coisas uma nova
forma. É puro trabalho de escritura a partir do qual, pode-se dizer, o desejo busca realizar-se. Esse trabalho encontra seus pontos de detenção e de fracasso, sua não conexidade. O fato de darmos um sentido ao sonho não o torna, assim, menos enigmático. Em outros termos, queremos reafirmar que a interpretação não equivale a dar uma forma coerente ao que estaria antes fragmentado pela censura psíquica, o que equivaleria a pensar o trabalho interpretativo como uma espécie de recomposição de um sentido inconsciente e pré-existente, pois apenas retornamos a um sentido pré-consciente, como demonstra Freud. Paradoxalmente, o desejo inconsciente se realiza. A tese da não conexidade do pensamento adquire assim todo seu peso a partir da postulação de que o significante não está conectado a nenhum significado, mesmo que recalcado. Não há sentido inconsciente, mas apenas o trabalho do sonho em que o desejo busca se realizar. É este o sentido do sonho, segundo Freud, isto é, sua verdade.
O verbo alemão “bearbeiten” tem, em geral, o sentido de trabalhar sobre algo, sem a conotação de sofisticar, aperfeiçoar e assimilar, presentes no termo “elaborar” da tradução para o português41. Podemos assim aproximar o sentido do termo Traumarbeitung de um montante de trabalho aplicado sobre o pensamento latente do sonho, resultando em sua transformação. Corresponde ao trabalho de linguagem ao qual Freud se refere quando acentua o caráter astucioso do sonho e que se torna mais evidente quando se considera a técnica
verbal do Witz. Esta astúcia parece visar unicamente ao aspecto econômico presente na
realização de desejo. A interpretação, por sua vez, tem relação com a mensagem do sonho, na medida em que atribuímos sentido às produções oníricas.
A aproximação entre trabalho do sonho e discurso pode então ser buscada a partir de duas direções: a primeira considera o trabalho de linguagem envolvido como inseparável do desejo que ele realiza, isto é, daquilo que se satisfaz na linguagem; a segunda considera a
40 Prefácio à segunda edição da Traumdeutung. FREUD, S. Op cit, v. IV, p. xxxv. 41
inserção ativa do sonho na formação discursiva onde o sujeito é capturado, concedendo-lhe assim a dignidade de uma fala. O sonho, como toda formação sintomática, parece depender então de dois fatores: um motivo econômico (o desejo) e um motivo simbólico (a fala). É, portanto, no ponto em que buscam articular-se, o desejo e a fala, que emergem as formações do inconsciente. A aproximação entre formação discursiva e formação do inconsciente deve levar em conta essa condição primeira.