SÖZLEŞMELERE AYKIRI KURALLAR
1. Zorunlu Bir Anımsatma: Sendika ve Toplu Pazarlık Hukukunun Temel İlkeler
Nos 13 poemas finais de Tempo espanhol o poeta vai chegando ao tempo que lhe coube viver em uma região que não se sente Espanha: “(....) A Catalunha atrai-nos pelo seu espírito de independência, sua tradição de anarco-sindicalismo, de lutas operárias, estudantis; e, talvez devido à proximidade da França, pela sua abertura européia. Portanto, quem diz Barcelona diz Catalunha e Europa.” (PCP, 1166). Ainda para Murilo, é também Barcelona o berço de grandes artistas da modernidade, como Gaudí, Picasso e Miró.380
Em lugar de repassar algum episódio da Guerra Civil Espanhola, em uma coletânea tão marcada pelas letras, fez alusão a ela por meio de dois poetas que morreram durante o conflito: nos poemas “Canto a García Lorca” (Recordando que soubeste/ Defrontar a morte seca/ Vinda no gume certeiro/ Da espada silenciosa) e “Palavras a Miguel Hernández” (“Breve provando a experiência do homem,/ O sangue defrontando o touro aceso,/ O sol negro da prisão e da morte.”). Mas isso está longe de significar algum tipo de condescendência com o regime franquista, pois as realizações da última parte de Tempo espanhol representam as mais contundentes e comprometidas de toda a obra muriliana. Não está ao lado do poder, nem do padre que “abençoa a espada”, mas sim do povo espanhol: o indignado “chofer de Barcelona”, os operários em greve, os estudantes, os prisioneiros, os “padres inconformistas”. Mais um motivo para esse espaço privilegiado do livro ser a Catalunha, onde seu nacionalismo tornou-se uma forma de resistência à opressão de Franco:
379 V. Capítulo 5. 380
O estilo de Barcelona Formou-se na rebeldia. Provém de cultura densa
À base de sangue e vida. (“Barcelona”, PCP, 614)
Em tal luta, ainda que “subterrânea”, a morte é presença inevitável. O “chofer de Barcelona”, por exemplo, deseja uma nova Espanha a partir de uma guerra civil, espécie de Apocalipse:
(...)
Mas a virada aí vem:
De novo a morte ao volante, As igrejas incendiadas, O fogo da guerra civil. Vejo uma única saída;
Nos matarmos uns aos outros, Todos nós; então a Espanha
Recomeçará outra vez.- (PCP, 615-616)
Contudo, alerta-se que o verdadeiro fim virá da ordem divina: “A morte lúcida não virá da espada do homem,/ Antes virá da estocada de Deus.” (“O padre cego”, PCP, 618). A morte que tanto fascina o espanhol representa apenas o término do tempo e da história:
O real explode com a morte. A contenção espanhola da morte Explode em fogo e fim.
Explode a morte agredida pelo espanhol. Explode o silêncio espanhol da morte. Morte: tempo físico que explode Largando a pele da memória, Tempo da memória que explode
Substantivamente. (“Morte situada na Espanha (La Caridad-Sevilha)”), PCP, 620)
O poema que encerra a coletânea, “O Cristo subterrâneo”, mais do que ser o estágio mais recente de uma história em progressão, aponta para sua correlação divina:
Descubro um Cristo secreto Que nasce na Espanha súbito. Não é o Cristo vitorioso
Dos afrescos catalães, Nem o Cristo de Lepanto Suspenso por uma torre De espadas, velas, paixões. Não investe uma colina, Não brilha no meio do altar Entre ornamentos de prata. Nem no palácio dos ricos, Nem no báculo dos bispos. É um Cristo quase secreto Que nasce das catacumbas Da Espanha não-oficial. Nasce da falta de pão, Nasce da falta de vinho, Nasce da funda revolta Contida pela engrenagem Da roda de compressão. Nasce da fé maltratada Vagamente definida. É um Cristo dos operários Atentos, em pé de greve, Filhos de outros operários Mortos na guerra civil. É um Cristo dos estudantes Sem dinheiro para as taxas. É um Cristo dos prisioneiros Que no silêncio cultivam A pura flor da esperança. É um Cristo de homens-larvas, Famintos, inacabados,
Morando em covas escuras De Barcelona e Valência. É um Cristo do tempo incerto. É um Cristo do vir-a-ser, Formado nos corações
Da Espanha que não se vê. (PCP, 620-621)
Se levamos em conta a cosmovisão de Murilo, o “tempo incerto”, “o vir-a-ser”, não implica apenas na superação da censura e penúria da Espanha franquista, mas principalmente a redenção coletiva no Reino de Cristo. Firmemente ancorado na História e no espaço, o horizonte da eternidade circula por Tempo espanhol. Assim, o poeta atinge o universalismo buscado desde o início de sua obra: o que foi, é e será para os espanhóis, mesmo com eventos e personagens distintos entre si, vale para todos.
Considerações finais
Na ausência de uma história da poesia brasileira do século XX, os trabalhos que aproximem dois ou mais poetas podem contribuir para diminuir essa lacuna. Várias são as possibilidades, e no caso de Cabral e Murilo, ainda escassos.381 A relação entre ambos, enfatizada por eles próprios e pela crítica382, é exemplar nesse sentido: embora fossem muito diferentes, quase contrários – talvez o interesse mútuo surgisse justamente daí – ao longo de suas carreiras não deixaram de ser amigos e trocar experiências. Se o primeiro contato deu-se entre o “mestre” e o “discípulo”, quando o Cabral estreante foi buscar elementos para sua poética no Murilo maduro, não demorou muito para se configurar um diálogo entre “iguais”, entre dois grandes poetas. Mais do que insistir em uma inversão de posições – a presença de Cabral em Murilo – preferimos pensar em intercâmbios em um momento forte da trajetória deles, que para um vai de O rio (1954) a A educação pela pedra (1961), e, para o outro, de Contemplação de Ouro Preto (1954) a Convergência (1970). Sintomaticamente, durante tal período esteve mais presente a vivência e a transfiguração, nas respectivas obras, do país estrangeiro que os unia entre dissonâncias.
Dessa maneira, o presente estudo pretendeu também desenvolver outro aspecto não muito explorado, o das fontes estrangeiras na poesia brasileira moderna. A incorporação da Espanha na obra de Cabral e de Murilo tornou-se, tanto pela qualidade, quanto pela extensão, um conjunto único na literatura brasileira. Além disso, a pesquisa revelou-nos que eles foram protagonistas decisivos nas relações literárias entre Brasil e Espanha. No lado de cá, voltado ao modelo francês e norte-americano, chamaram a atenção para uma rica tradição literária e novos autores. No país ibérico, reverteram o caminho natural do “centro” para a “periferia”: os dois representaram possibilidades altamente bem realizadas de conciliar
381 Para Cabral, v. sua relação com Bandeira em LIMA, Luiz Costa. Sobre Bandeira e Cabral In
Intervenções. São Paulo: Edusp, 2002, p. 57-69, e com Drummond em GLEDSON, Jonh. Influências e impasses. Drummond e alguns contemporâneos. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 233-
262. Quanto a Murilo, v. ANDRADE, Fábio de Souza. Jorge de Lima e Murilo Mendes: confluências e divergências In O engenheiro noturno. A lírica final de Jorge de Lima. São Paulo: Edusp, 1997, p. 29- 67.
382
vanguarda e uma significação humana frente a um contexto dominado por uma poesia “social” limitada esteticamente.
Na esteira de uma concepção da literatura espanhola ainda corrente no momento em questão, Cabral e Murilo abordaram a Espanha com um estilo marcado pelas noções de “concreto”, “objetivo” e “realista”, entre outras. Enquanto para Cabral essa apropriação foi fundamental para constituir uma poética muito singular na lírica luso-brasileira, para Murilo serviu como conquista de uma depuração e controle contrários à impulsividade característica de sua produção.
Cabral e Murilo pensaram a Espanha não apenas em uma perspectiva literária, mas também pictórica, plástica, detendo-se em vários artistas que lhes possibilitassem ratificar suas poéticas. Nos poemas, em particular, desejaram “dar a ver” a Espanha, fosse uma paisagem, uma figura ou um espetáculo, como o flamenco, em imagens sugestivas.
Seguindo a fértil lição da Geração de 27, foram além das vanguardas e se abriram ao popular, como Cabral, e à História, como Murilo. Até mesmo a concepção urbana deles não tinha a ver com a atração cosmopolita do século XX, ao preferirem a Espanha que ainda custava a acertar os ponteiros com a modernidade; por isso retiraram-se à meseta castelhana, ao pueblo, às cidades ao “alcance do corpo”.
Para completar, as contradições da Espanha, “exótica” para os demais europeus do outro lado dos Pireneus, seduziram os dois poetas brasileiros que se aventuraram fora de suas fronteiras. Já que não se sentiam tão estrangeiros, não precisavam acentuar as tintas daquilo que era distinto, mas sim buscar dimensões universais, uma ética e um tempo que pertencem a todos os homens e lugares.
Bibliografia
1. Murilo Mendes 1.1.Livros
Poesias. 1925-1955. Rio de Janeiro: José Olympio, 1959. Antologia poética. Lisboa: Livraria Morais Editora, 1964.
Antologia poética. Seleção de João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 1976.
Poesia completa e prosa. Edição de Luciana Stegagno Picchio. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1995.
Recordações de Ismael Nery. 2a ed. São Paulo: EDUSP; Editora Giordano, 1996. Tempo espanhol. Rio de Janeiro: Record, 2001.
1.2. Textos
“Calunga”. Boletim de Ariel. a. 4, n. 11, Rio de Janeiro, ago. 1935, p. 291.
“Manuel Bandeira cai no conto do vigário”. Boletim de Ariel. a. 5, n. 2, nov. 1935, p. 38.
“A poesia e os confusionistas”. Boletim de Ariel. a. 5, n. 3, Rio de Janeiro, dez. 1935. “Poesia universal”. Boletim de Ariel. a. 7, n. 8, Rio de Janeiro, maio 1937, p. 220-
221.
“A poesia social”. Vanguarda. Rio de Janeiro, 1953. In MEIRELES, Cecilia. Obra poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1987, p. 52-53.
1.3. Correspondência
FONSECA, Edson Nery da, org. Cartas a Edson Nery da Fonseca. Recife: Companhia Pacífica, 1995.
GUIMARÃES, Júlio Castañón. Distribuição de papéis: Murilo Mendes escreve a Carlos Drummond de Andrade e a Lúcio Cardoso. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1996.
1.4. Fortuna crítica (seleção)
ANDRADE, Mário de. “A poesia em 1930” In Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Martins, s.d., p. 42-45.
_____ “A poesia em pânico” In O empalhador de passarinho. 4a ed. Belo Horizonte:
Editora Itatiaia, p. 49-56.
ANTELO, Raul. Murilo Mendes lê em espanhol In I e II Congressos de literatura comparada da UFMG. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987, p. 537-554.
ARAÚJO, Laís Corrêa de. Murilo Mendes: ensaio crítico, antologia, correspondência. São Paulo: Perspectiva, 2000.
ARRIGUCCI JR., Davi. “Arquitetura da memória” In O cacto e as ruínas: a poesia entre outras artes. São Paulo: Duas Cidades, Editora 34, 2000, p. 95-150.
BARBOSA, João Alexandre. “Convergência poética de Murilo Mendes” In A metáfora crítica. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974, p. 117-136.
CAMPOS, Haroldo de. “Murilo e o mundo substantivo” In Metalinguagem & outras metas. 4a ed. São Paulo: Perspectiva, 1992, p. 65-75.
CANDIDO, Antonio. “Pastor pianista / pianista pastar” In Na sala de aula. Caderno de análise literária. 8a ed. São Paulo: Ática, 2002, p. 81-95.
FRIAS, Joana Matos. O erro de Hamlet: poesia e dialética em Murilo Mendes. Rio de Janeiro: 7 Letras; Juiz de Fora: Centro de Estudos Murilo Mendes – UFJF, 2002. LEWIN, Willy. “Saudação a Murilo Mendes”. Boletim de Ariel. Rio de Janeiro, a. 3, n.
12, set. 1934, p. 321.
LIMA, Luiz Costa. “Tríptico sobre Murilo Mendes” (Murilo Mendes: da dispersão à intensidade, Murilo Mendes em seu começo e O agônico na abertura de Contemplação) In Intervenções. São Paulo: Edusp, 2002, p. 71-110.
LINS, Álvaro. “Murilo Mendes: o positivo e o negativo na originalidade” In Os mortos de sobrecasaca. Ensaios e estudos 1940-1960. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963, p. 46-50.
MERQUIOR, José Guilherme. “Murilo Mendes ou a poética do visionário”. In Razão do poema. Ensaios de crítica e estética. de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, p. 51-68.
_____ “A pulga parabólica” In A astúcia de mímese: ensaios sobre crítica. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, p. 218-225.
MOURA, Murilo Marcondes. Murilo Mendes: a poesia como totalidade. São Paulo: EDUSP: Giordano, 1995.
____ “Os jasmins da palavra jamais” In BOSI, Alfredo, org. Leitura de poesia. São Paulo: Ática, 1996, p. 101-123.
NEHRING, Marta Moraes. Murilo Mendes: crítico de arte. São Paulo: Nankin Editorial, 2002.
PICCHIO, Luciana Stegagno. “Itinerário poético de Murilo Mendes”. Revista do Livro. INL. a. 4, n. 16, Rio de Janeiro, dez. 1959, p. 61-73.
1.5. Catálagos e volumes coletivos
Catálogo da exposição Murilo Mendes: acervo. Juiz de Fora: UFJF/CEMM, 1999. GUIMARÃES, Julio Castañon, org. Murilo Mendes: 1901-2001. Juiz de Fora: CEMM/
UFJF, 2001.
Ipotesi. Revista de estudos literários. v. 6, n.1, Juiz de Fora, 2002.
PEREIRA, Maria Luiza Scher, org. Imaginação de uma biografia literária: os acervos de Murilo Mendes / SILVA, Teresinha Vânia Zimbrão da, org. Chronicas mundanas e outras crônicas: as crônicas de Murilo Mendes. Juiz de Fora: EDUFJF, 2004.
RIBEIRO, Gilvan Procópio e NEVES, José Alberto Pinho. Murilo Mendes: o visionário. Juiz de Fora: EDUFJF, 1997.
RODRIGUES, Marisa Timponi P., org. Magnelli; mostra do acervo do Centro de Estudos Murilo Mendes. Juiz de Fora: CEMM/UFJF, 1998.
2.João Cabral de Melo Neto 2.1.Livros
Serial e antes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. Prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
O arquivo das Indias e o Brasil; documentos para a história do Brasil existentes no Arquivo das Indias de Sevilha. Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores, Seção de Publicações, 1966.