• Sonuç bulunamadı

Até aqui, nossa intenção foi a de expor as teorias sobre o intertexto, seus problemas e suas relações conturbadas com a idéia de influência. A partir de agora, nossa atenção se volta para como Gide e Perec encaravam a presença de outros escritores e de dados pertencentes ou não às próprias experiências de ambos em suas obras, e o que pensavam a respeito.

Começaremos por Gide e uma de suas conferências, intitulada "De lzinfluence en littérature", ocorrida em 29 de março de 1900, em Bruxelas. Um dos pontos interessantes desta conferência é a constatação da impossibilidade de escapar às influências artísticas:

Il est tellement impossible dzimaginer un homme complètement échappé de toutes les influences naturelles et humaines que, lorsquzil szest présenté des héros qui paraissaient ne rien devoir à lzextérieur, dont on ne pouvait expliquer la marche, dont les actions, subites et incompréhensibles aux profanes, étaient telles quzaucun mobile humain ne les semblait déterminer – on préférait, après leur réussite, croire à lzinfluence des astres, tant il est impossible dzimaginer quelque chose dzhumain qui soit complètement, profondément, foncièrement spontané.185

De acordo com o escritor, após a leitura de certas obras, algumas palavras ficam na mente do leitor sensível, e lá se instalam tão bem que este pode até se esquecer onde as leu. Tendo chegado a esse leitor, essas palavras especiais confundem-se não apenas com seus pensamentos, mas com ele próprio. A força delas está no fato de revelarem algo latente em seu leitor, fornecerem uma explicação e agirem "par ressemblance"186. As influências,

portanto, apenas trazem à tona algo já existente dentro dos artistas capazes de compreender esse princípio.

O ponto de vista de Gide é bastante particular, pois considera a recepção dos textos importante não tanto pelo contato com as obras de outros escritores, mas pelo que pode ser revelado a partir desse contato. As idéias, adormecidas no inconsciente do artista, precisam de 184 BARTHES, R. Le plaisir du texte. Paris: Seuil, 1973. p. 59.

185

GIDE, A. "De lzinfluence en littérature". In: Prétextes. Paris: Mercure de France, 1941. p. 10.

um "despertador" para serem "acordadas". Por isso, os grandes artistas buscam as influências e não têm medo, tal como acontece com os "fracos", de perder sua personalidade no contato com outras obras187.: através delas podem descobrir suas potencialidades insuspeitadas.

No entanto, em Anatomie d'André Gide, o sociológo Roger Bastide declara que o medo das influências não era estranho ao autor de L'Immoraliste. Para tanto, parte da análise de um dos sonhos de Gide, datado de 1928. Nesse sonho, o escritor se encontra em uma exposição, observando algumas "décorations architecturales, copies dzun Versailles ou dzun Trianon"188. Em certo momento, comenta com seu cunhado, também presente ao evento, o

fato de serem a exata reprodução das peças por ele vistas no Louvre, não em uma visita real, mas em um sonho. Segundo Bastide, essa impressão de irrealidade da visita ao museu revela um certo medo de ser pego em delito de falta de originalidade. Por isso se tratam de cópias, e não de esculturas verdadeiras:

Ces “décorations architecturales” ne sont que le symbole des ses propres idées ou de ses propres romans. Le rêve dénote ainsi une des caractéristiques de lzinquiétude gidienne, la peur des influences. Nous pouvons donc traduire le songe (...) de la façon suivante: Gide reconnaît que lzon trouve dans ses livres des pensées identiques à celles dzautres écrivains, antérieurs à lui, Goethe, Nietzsche, Freud. Mais avouer une telle chose, ne serait-ce pas une confession dzimpuissance intellectuelle?189

Para não ser descoberto, o escritor "despistaria" seu leitor, nomeando falsas fontes para suas idéias a fim de que este, não encontrando muitas semelhanças nos textos sugeridos pelo autor, ateste sua originalidade. E a prova disso seria o fato do escritor saber, no sonho, o nome do escultor responsável pelas obras no Louvre, mas indicar outro artista como seu criador.

De acordo com Bastide, Gide resolve seu problema com as influências em seus livros de modo análogo, trocando o nome dos escritores e afirmando o "erro" do leitor – pensamos em Nietzsche quando deveriam procurar Goethe, por exemplo – ou pela simples "fuga", escrevendo:

par exemple quzil rencontre fréquemment, en ouvrant un livre nouveau, des idées quzil avait déjà exprimées, mais il ne connaissait pas le livre alors: czest donc un phénomène de convergence, dzanalogies de tempérament, et non dzinfluence190

.

187

"Si donc les grandes esprits cherchent avidement les influences, czest que, sûrs de leurs propres richesses, pleins du sentiment intuitif, ingénu de lzabondance immanente de leur être, ils vivent dans une attente joyeuse de leurs nouvelles éclosions. Ceux, au contraire, qui nzont pas en eux grande ressource, semblent garder toujours la crainte de voir se vérifier pour eux le mot tragique de lzEvangile: zIl sera donné à celui qui a; mais à celui qui nza pas, on ôtera même ce quzil a’" (Ibid., p. 26. Grifos do autor).

188 BASTIDE, R. Anatomie d'André Gide. Paris: PUF, 1972. p. 53. 189

Ibid., p. 55.

Embora lidando especialmente com poetas de língua inglesa, Harold Bloom propõe algumas hipóteses sobre a "angústia da influência" próximas às considerações feitas por Bastide. Segundo Bloom, essa angústia é o sentimento experimentado por todo poeta por saber não ser o precursor, por ter para com outros uma dívida não paga e por desejar ter "criado" a si mesmo livremente. Ou seja, o poeta sentir-se-ia em constante débito com outros, e impotente por ter saído da "desapropriação" de seus antecessores. E, muito embora "a influência poética não acarret[e], por definição, a diminuição da originalidade"191, os poetas

sempre teriam uma grande sensação de desconforto com relação a seus "pais".

A negação da influência seria a maior prova da angústia de saber ser um mero continuador e não um verdadeiro criador. Além disso, podemos acrescentar também a instauração de uma desconfiança perpétua – como saber se a idéia mais original não é apenas o eco de poetas lidos anteriormente? – , o que só aumentaria o mal-estar.

Por outro lado, escritores como Goethe dão "testemunho de sua convicção de que os modelos não sejam, afinal, outra coisa senão espelhos de nós mesmos"192. E mais: "a maior

parte dos homens só ama no outro aquilo que empresta a ele, só ama no outro sua versão do outro, isto é, a si mesmo"193. Talvez essa afirmação seja, de certa forma, uma prova das "idéias

disfarçadas", as quais alude Bastide, pois embora empregando-a muitas vezes, Gide não a atribui a Goethe, nem mesmo a fim de estabelecer uma comparação...

Bastide acredita em um sentimento de negação. Gide, por sua vez, fala em convergência, em revelação. O que realmente interessa é a importância da presença do Outro na poética de Gide. Ele é um escritor que só pode realizar-se plenamente através do distanciamento de si mesmo. Pode-se dizer "quzil nzest jamais autant lui-même que lorsquzil se coule en autrui, par la fiction, lzamitié, la sympathie, la ferveur"194.

Essa presença do Outro na qual Gide se inscreve tão profundamente pode ser entendida como um diálogo essencialmente interior, no qual se destaca a confrontação entre dois mundos (o seu e o do outro escritor) que acabam por se confundir. E não é só isso: o que aparentemente é um processo cujo único fim é o de contar e descobrir a si mesmo pelas palavras de outros é também uma forma de estabelecer uma ligação entre seus livros e seu público por meio de obras que poderiam, de certa forma, servir de introdução à sua.

A escritura gideana promove o leitor à categoria de elemento essencial da 191 BLOOM, H. A angústia da influência. Rio de Janeiro: Imago, 1991. p. 36.

192 Ibid., p. 85. 193

Loc. cit.

interpretação. Nele, o sentido da obra se constitui de modo absolutamente individual e dependente da experiência pessoal de cada um. O "jogo de esconde-esconde" praticado por Gide poderia, então, ser visto não como medo de demonstrar falta de originalidade, mas sim afirmação de um princípio caro ao escritor, o da liberdade do leitor diante do texto, cujos sentidos nunca são definidos previamente. Do público, se deve esperar a revelação dos textos, e não tentar estabelecer seu significado previamente.

Benzer Belgeler