No PB, além da harmonia vocálica que afeta a vogal média pretônica em nomes, existe um processo de assimilação vocálica que afeta formas verbais. Trata-se de um processo bastante restrito que atua somente em verbos da 2a. e 3a. conjugações e determina que a última vogal do radical (exceto se for /a/) se harmonize em altura com a vogal temática do verbo (/e/ ou /i/). Além dessas restrições, essa regra somente se aplica na 1a. pessoa do singular do presente do indicativo e em todas as pessoas do presente do subjuntivo. Em (4) abaixo apresentamos como a regra atua no presente do indicativo. Uma vez que a vogal temática é apagada, a sua especificação de altura espraia para a última vogal do raiz verbal. Quanto aos verbos da 2a. conjugação, veja que a última vogal da raiz, /ɔ/ em mov-er14 e /e/ em beb-er, é realizada como média-alta por influência da altura da vogal temática /e/ que é apagada por truncamento antes que o morfema de primeira pessoa –o do presente do indicativo se una a palavra. Compare, por exemplo, com a segunda e terceira pessoa do singular do presente do indicativo, por exemplo, nas quais há a realização da média-baixa (mɔves, mɔve). A maneira como a regra atua fica ainda mais clara quando vemos o comportamento dos verbos da 3a. conjugação, nos quais a última vogal da raiz, /e/ ou /o/, e a vogal temática, /i/, possuem alturas diferentes. Nos exemplos da 3a. conjugação em (4) abaixo, veja que antes de /i/ ser apagado, o traço alto espraia para a vogal média-alta, alçando-a a /i/ ou /u/. Mais uma vez, compare essas formas com as conjugações das segunda e terceira pessoa do singular nas quais não há harmonia (sɛgues, sɛgue e dɔrmes, dɔrme).
(4) Harmonia verbal do presente do indicativo: 2a. conjugação:
mover → mɔv- e + o → mov + o → eu movo
beber → beb - e + o → beb + o → eu bebo
14 Segundo Quicoli (1990), a regra de harmonia verbal ocorre em verbos cujas raízes terminam com uma vogal
média (e, o) ou média-baixa (ɔ, ɛ) em suas representações subjacentes. Na proposta do autor, deve-se determinar a vogal subjacente com base na vogal presente na forma nominal correspondente ao verbo. Dessa forma, o verbo ‘mover’ teria como vogal subjacente uma média-baixa, mɔv-, pois a forma nominal correspondente é ‘mɔvel’, enquanto que ‘dormir’ tem como vogal subjacente uma vogal média, dorm-, pois sua forma nominal correspondente é ‘dormitório’. Veja também ‘beber’, cuja vogal subjacente é beb-, pois a forma nominal correspondente é ‘bebida’, e ‘servir’, cuja vogal subjacente é sɛrv-, pois a forma nominal correspondente é sɛrvo.
3a. conjugação:
seguir → seg - i + o → sig + o → eu sigo
dormir → dorm - i + o → durm + o → eu durmo
Quanto ao subjuntivo, a regra atinge todas as pessoas do paradigma verbal, como podemos ver em (5) abaixo. Observe que antes de sofrer o truncamento da vogal temática, a última vogal do radical do verbo, nesses casos /o/, harmoniza em altura com a temática /e/ da 2a. conjugação e /i/ da 3a. conjugação.
(5) Harmonia verbal no presente do subjuntivo 2a. conjugação
mover → mɔv - e + a → mov + a → mova
mɔv - e + as → mov + as → movas
mɔv - e + a → mov + a → mova
mɔv - e + amos → mov + amos → movamos
mɔv - e + ais → mov + ais → movais
mɔv - e + a + N → mov + aN → movaN
3a. conjugação
dormir → dorm – i + a → durm + a → durma
dorm – i + as → durm + as → durmas
dorm – i + a → durm + a → durma
dorm – i + amos → durm + amos → durmamos
dorm – i + ais → durm + ais → durmais
durm – i + a + N → durm + aN → durmaN
Observe que a harmonia verbal ocorre em formas nas quais a vogal temática é imediatamente seguida por outra vogal – a qual na primeira pessoa do indicativo é –o e no presente do subjuntivo é o morfema de modo-aspecto –a. A regra não se aplica nas formas em que a vogal temática é seguida ou por uma consoante (seg i mos → seguimos, dorm i
mos → dormimos) ou por um morfema de número-pessoa que é fonologicamente nulo (mɔv e → mɔve, serv e → sɛrve).
traço de altura orientada pela vogal temática que é em seguida apagada por truncamento; após, a regra de acento, e para evitar que sílabas não acentuadas emerjam como médias- baixas, Harris propõe uma regra de neutralização. Em (6) ilustramos este processo derivacional:15 (6) mɔv – e + o o Harmonia mov + o Truncamento mó.vo Acento mo.vo Neutralização mɔv – e + mos - Harmonia - Truncamento mɔ.vé.mos Acento mo.ve.mus Neutralização
Outra análise semelhante a de Harris (1974) é feita por Quicoli (1990). A diferença entre essas duas análises é que enquanto Harris exclui a vogal /a/ como alvo da harmonia verbal, Quicoli propõe que a regra seja mais geral, afetando todas as vogais. No entanto, para evitar que se crie segmentos não pertencentes ao sistema vocálico do PB (um /a/, especificado com [+alto] seria /ʌ/, por exemplo), Quicoli faz uso do Princípio de Preservação de Estrutura (KIPARSKY, 1985), de acordo com o qual uma regra lexical não pode gerar uma estrutura que não faz parte do inventário fonológico da língua.
Para Wetzels (1995), cuja análise é realizada nos moldes da Fonologia Lexical, HV verbal está no nível lexical, pois se refere à estrutura morfológica do verbo. Wetzels propõe que a vogal temática, quando pré-vocálica, seja desligada deixando flutuante o seu nó de aberto que é re-ligado na última vogal da raiz verbal - ou seja, diferentemente de Harris, Wetzels propõe que o truncamento precede a assimilação.
15 Há ainda uma regra de abaixamento a qual se aplica quando a regra de harmonia não aplica. De acordo com
essa regra, a última vogal da raiz do verbo com as características [+acento] e [-alta] torna-se [+baixa]: dormir ! ‘dor.me ! dɔr.me. Essa regra se encontra em uma relação disjuntiva com a regra de harmonia; ou seja, a regra de abaixamento só aplica quando a regra de harmonia não aplica (lembrando que para o abaixamento aplicar, a vogal tem que estar em uma sílaba acentuada).
Por fim, Lee (2008) assume que nos verbos da 3a. conjugação temos uma harmonia do traço [alto] – o traço [+alto] da vogal temática /i/ espraia para a vogal média mais próxima quando a vogal temática sofre apagamento, enquanto que nos verbos da 2a. conjugação a harmonia se dá como traço [ATR] – a vogal temática espraia seu traço [+ATR] para a vogal [±ATR] do radical mais próximo quando apagada. Isso porque, na proposta de especificação contrastiva de Lee, as vogais do PB médias distinguem-se umas das outras através do traço ATR, enquanto que as médias-altas distinguem-se das altas através do traço [alto] (cf. Figura 2 da seção 1.1). Na 2a. conjugação, por exemplo, a última vogal da raiz em
mɔv-e+o, que é [-ATR], recebe a especificação [+ATR] da vogal temática, harmonizando,
portanto, o traço ATR. Já na 3a. conjugação, a última vogal da raiz verbal e a vogal temática diferenciam-se por [alto]: em dorm-i+o, por exemplo, a vogal temática /i/ espraia o traço [+alto] para a vogal da raiz verbal /o/, que é [-alto], harmonizando, dessa vez, um traço de altura.