Ainda na temática que envolve a historicidade dos valores, deve se colocar em pauta questão referente às constantes ou invariantes axiológicas, a qual propõe a discussão acerca da existência ou não de valores fundamentais e fundantes que guiem os homens, ou lhes sirvam de referencia, em sua faina FRWLGLDQD VHQGR FRQVLGHUDGDV FRPR ³HVWUHODV YDORUDWLYDV´ TXH GHWHUPLQDP diferentes direções no caminhar histórico-cultural da humanidade75.
Os valores fundamentais manifestam-se como preferências reveladas nas constelações axiológicas que orientaram os comportamentos individuais e
74 Fontes e Modelos do Direito: Para um novo paradigma hermenêutico, p. 80. Importa assinalar que o capítulo I da Segunda Parte do trabalho dedica-se inteiramente a verificação dos diversos sentidos atribuídos à solidariedade social no decorrer da história.
sociais durantes distintos ciclos culturais ou civilizações, o que conduz à FRQVWDWDomR GH TXH H[LVWHP YDORUHV TXH ³XPD YH] UHYHODGRV j FRQVFLrQFLD popular, adquirem objetividade e força cogente, não obstante, a sua originária fonte subjetiva individual. Tais valores atuam, então, sobre os comportamentos humanos como se fossem modelos ideais, isto é, arquétipos LQDWRVGDFRQGXWDLQGLYLGXDOHFROHWLYD´76.
Em conformidade com o ciclo cultural pesquisado, podem ser encontradas distintas concepções sobre a forma como foram compreendidos os valores fundamentais. Cada civilização entendeu a sua maneira o verdadeiro, o belo, o bom, o útil, o santo, sendo que tais valores sempre foram fruto de preocupações constantes no transcorrer do processo histórico, o que explica o fato de cada ciclo cultural possuir suas próprias constelações axiológicas revelando distintas concepções e preferências sobre a realidade.
Desse modo, os ciclos culturais, ou civilizações, se distinguem por meio de suas respectivas ordenação hierárquica de valores, as quais, no transcurso das gerações, permanecem gravadas no tempo, registradas na consciência histórica da humanidade, caracterizando-se como verdadeiros patamares axiológicos marcados pelo atributo da estabilidade e representantes do conteúdo das intencionalidades objetivadas no devir da história.
Afirma-se, novamente, que os valores não existem em si mesmos, objetivando-se no decorrer do processo histórico, como resultado da
consciente da ação humana sobre a realidade, para lhe impingir determinados sentidos, sendo que, em alguns casos, certos valores, uma vez realizados no contexto cultural, passam a estruturar o conteúdo ético das condutas no meio social, independentemente da continuidade do ciclo cultural em que se revelam, fazendo emergir as denominadas constantes ou invariantes axiológicas.
Segundo a lição de Miguel Reale, as invariantes axiológicas podem ser explicadas da seguinte forma:
³D SHVVRD FRPR DXWRFRQVFLrQFLD HVSLULWXDO p R YDORU TXH Gi sentido a todo evolver histórico, ou seja, o valor a cuja atualização tendem os renovados esforços do homem em sua faina civilizadora. Ocorre que determinados valores uma vez elevados à consciência coletiva, tornam-se como que entidades ontológicas, adquirindo caráter permanente e definitivo. São os que denominamos invariantes axiológiFDVRXFRQVWDQWHVD[LROyJLFDV´ 77.
Embora, observe-se a existência de um possível relativismo quando se vincula a Axiologia à História, tendo em vista a existência de valores que alternam idas e vindas ao longo do processo histórico, certos valores não deixam de existir, sedimentam-se racionalmente no tempo e se inserem no patrimônio cultural da humanidade de forma definitiva, influenciando o desenvolvimento de suas atitudes comportamentais, os quais passam a ser reconhecidos como constantes ou invariantes axiológicas, tendo como valor originário o da pessoa humana, ao redor do qual gravitam os demais valores
que lhe são correlatos, como o direito à vida, a intangibilidade da subjetividade, a igualdade perante a lei (isonomia), a liberdade individual, a solidariedade social etc., que constituem os fundamentos da vida ética e que correspondem os chamados direitos fundamentais do homem78.
Neste contexto, importa considerar ainda que, em decorrência de exigências ocasionadas no mundo social, Miguel Reale revela como um dos últimos valores a emergirem no âmbito do processo histórico-cultural da humanidade corresponde ao ecológico, o qual se encontra diretamente relacionado com a invariante axiológica da solidariedade social79.
Ao ser considerada a possibilidade de surgirem outras invariantes axiológicas, tem-se mais uma vez a idéia de que tais valores não são totalmente absolutos, não se tratam de entidades ideais, pois, ainda que se manifestem em sua persistência objetivada no tempo, são passíveis de sofrer mutações, principalmente, de cunho semântico perante o desdobramento do processo histórico-cultural, para se adaptar às novas pautas de valores, que
78 Miguel Reale, Introdução à Filosofia, p. 162. Importa destacar ainda que o único valor absoluto é a pessoa humana, valor fontes de todos os outros valores, ou seja, que se caracteriza como condição para existência dos demais, inclusive, as próprias invariantes axiológicas, que, como dito anteriormente, são marcados pela historicidade suscetíveis de variação semântica em coordenadas de espaço e tempo: ³$ SHVVRD SDVVD D representar um valor radical, unidade espiritual instituidora de um processo no qual e pelo qual as coisas SRVVXHP YDOLGDGH´. (Miguel Reale, Filosofia do Direito, p. 214). Nestes termos, a objetividade das invariantes axiológicas passa a ser ³IXQGDGD VREUH D KLVWRULFLGDGH UDGLFDO GR ser do homem, o qual dá origem e legitimidade às demais invariantes axiológicas, que não se inferem dedutivamente e in abstracto da LGpLD GH SHVVRD KXPDQD PDVVLPFRQFUHWDPHQWH QRSURFHVVR KLVWyULFR´ (Miguel Reale, Paradigmas da Cultura Contemporânea, p. 107).
79 Miguel Reale, Introdução à Filosofia do Direito, p. 162. O valor ecológico fundamenta-se na solidariedade social, na medida em que se protege o meio ambiente tanto pelo que a natureza é de per si como pelo que significa para o valor da vida humana, exigindo para tanto não somente a existência de laços de cooperação recíproca entre os indivíduos, mas também sua pauta centrada na idéia de alteridade, o que envolve o aparato axiológico da solidariedade social, como será verificado no Capítulo II da Segunda Parte do trabalho.
acarretam na revelação de outras invariantes axiológicas, assim como às exigências sociais próprias de cada civilização.
De qualquer forma, reafirme-se que a Axiologia realeana, pressupondo a existência de invariantes axiológicas, se contrapõe a qualquer tentativa de imposição de um relativismo axiológico na compreensão histórico-cultural dos valores, sem descambar, contudo, para o idealismo absoluto dos valores próprio do ontologismo axiológico80.
Ademais, destaque-se o íntimo relacionamento entre invariantes axiológicas e experiência jurídica81, haja vista que os valores fundamentais FRQWLGRV QR SODQR GR ³GHYHU VHU´ DR VH REMHWLYDUHP QR FRQWH[WR KLVWyULFR consagram as invariantes axiológicas, que possibilitam a convivência recíproca entre membros de uma mesma comunidade, ao estabelecer os padrões éticos dirigentes de cada ciclo cultural mediante o estabelecimento de um sistema ordenado de normas jurídicas.
A experiência jurídica desenvolve-se, assim, perante o desenrolar histórico da vida humana, em razão das múltiplas condicionantes axiológicas
80 A Teoria dos Valores de Miguel Reale, ao se colocar perante o processo histórico, procura escapar de um possível relativismo axiológico, sem recair na idealização absoluta dos valores (ontologismo axiológico), para tanto recorre ao conceito de invariantes axiológicas, com inspiração nas invariantes biológicas de Jaques Monod: ³KiXPSDUDOHOLVPRHQWUHDH[SHULrQFLDGDELRVIHUDHDKLVWyULDQRTXHVHUHIHUHDRDGYHQWRjV vezes inesperado (Monod fala até em acaso), de invariantes biológicas umas e axiológicas as outras, as quais se impõem ao consenso universal, isto é, à estimativa e à aceitação de toda gente, do homem comum e do homem da ciência, até o ponto de parecem inatas, mas, no que tange ao mundo da cultura, são transcendeQWDLV´(Paradigmas da Cultura Contemporânea, p. 106/107).
81 A estreita relação existente entre Direito e axiologia é colocada por Angeles Mateos García da seguinte forma: ³'LUHLWRHH[SHULrQFLDMXUtGLFDHVWmRHPtQWLPDUHODomRFRPRVYDORUHVTXHRKRPHPRbjetivou ao longo do processo histórico-cultural da sua existência, caracterizando-se, ainda, por preservar esses valores face à sua vulneração ou incumprimento. Por isso existe, sem dúvida alguma, uma conexão essencial entre 'LUHLWR H D[LRORJLD´ (A Teoria dos Valores de Miguel Reale: Fundamento de seu Tridimensionalismo Jurídico, p. 124).
que atuam perante os fatos representados por comportamentos que se desdobram no mundo social, que marcados por alterações cotidianas, ³IXQGDP-se na complementaridade dialética entre subjetividade, como fonte inexaurível de valores, e objetividade, como inexaurível possibilidade de determinações da experiência, cabendo ao Direito não só salvaguardar e tutelar os bens já adquiridos, como, acima de tudo, preservar e garantir o homem mesmo como livre criador de novos bens, em quaisquer que possam ser os ordenamentos político-MXUtGLFRVGDFRQYLYrQFLDVRFLDO´82.
Desse modo, são sedimentados valores que se tornam essenciais à própria convivência humana, os quais, por representarem a modalidade de conduta aceita no meio social de cada civilização, passam a participar ativamente do processo de composição das normas jurídicas, retratando a correspondência entre as manifestações das invariantes axiológicas e os quadrantes comportamentais delimitados pelo mundo do Direito.