Doravante, a mudança nos padrões de acumulação de capital, os novos padrões de produção (novas tecnologias, novos materiais e segmentação da atividade industrial) passaram a desenvolver-se, lado a lado, com uma nova concepção de controle da batalha; no qual o uso dos computadores e das redes de comunicação alterou significativamente as bases a partir das
227 Por sua sigla em inglês: Revolution in military affairs.
228 Foi o projeto desenvolvido por cientistas europeus nos EUA, para produzir a bomba atômica. Precisavam de
algo que calculasse o rendimento da explosão. Então, criaram um engenho que acabou sendo o primeiro computador. Naquela época, o computador ocupava o espaço de vários andares, e era valvulado. Com o fim da guerra, os EUA retiveram para seu uso, civil e militar, todas estas tecnologias oriundas da “fuga de cérebros” da Europa e tornaram-se a principal potência mundial.
quais passava a ocorrer as atividades de inteligência e de comunicação, a vigilância, o reconhecimento e, assim, a própria gestão do comando (C4ISR230).
As mudanças aplicadas à guiagem de armas no plano da tática pareciam traduzir uma mera modernização; as armas tornavam-se mais precisas. Esta modernização só converteu-se em uma verdadeira “revolução” em função do processo de “retroalimentação” com a “grande crise”. “Retroalimentação” é uma expressão que tem origem na Cibernética, e designa “qualquer processo por intermédio do qual uma ação é controlada pelo conhecimento do efeito de suas respostas e, por extensão, a resposta resultante deste processo.” 231
Desse modo, as respostas engendradas pelas empresas estadunidenses ao desafio da crise – a segmentação da produção, a terceirização, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) foram, paulatinamente, sendo adotadas no campo militar. Vejamos alguns exemplos.
Como exemplo de segmentação da produção aplicada à esfera militar, assistimos a uma nova divisão internacional do trabalho de segurança. Nos anos 90, os EEUU “delegaram” a países como Arábia Saudita, Paquistão e Turquia a condução de operações encobertas na Rússia. Constituíram ações de grande envergadura, das quais resultaram guerras civis com dezenas de milhares de mortos e que, entre seus meios, contaram com a articulação da Al Qaeda.
A “terceirização” foi traduzida na contratação de mercenários. Estima-se que seu efetivo no Iraque, em 2005, esteja próximo do próprio exército de ocupação americana, numa proporção de 80 mil “contratados”, para perto de 115 mil soldados regulares.
As TIC, por sua vez, permitem quase uma fusão entre as operações encobertas e ações militares “cirúrgicas”. No Afeganistão, em 2001, tivemos um exemplo eloqüente disso. Apenas 200 paramilitares da CIA, com apoio de mercenários da “aliança do norte” e de
230 C4ISR – Command, Control, Communications, Computers, Intelligence, Surveillance and Reconnaissance.
(Comando, Controle, Comunicações, Computadores, Inteligência, Vigilância e Reconhecimento).
231 HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2001, p.
bombardeiros B52, já haviam “fixado” o dispositivo militar Talibã, que contava com 60 a 80 mil homens, antes mesmo de o primeiro soldado regular (Boinas Verdes) pôr os pés no território afegão. O que potencializou extraordinariamente o poder de fogo desses 200 homens foi um dispositivo laser portátil, que guiava bombas lançadas dos B52, e mísseis lançados, a partir da frota, diretamente sobre seus alvos. Foi o êxito desta “guerrilha” high-tech que levou aos planos de ocupar o Iraque com apenas 150 mil homens, ao invés do meio milhão originariamente previsto. A “retroalimentação” deu-se, portanto, tanto a partir de operações empresariais bem-sucedidas no mercado quanto de seu uso no próprio campo militar, ainda que em uma escala mais reduzida.
Constata-se que as modificações operadas no plano tático, desde o início dos anos 70, tiveram uma incidência na própria elaboração e determinação da estratégia. A tática fez prevalecer sua “soberania” sobre os próprios fundamentos da estratégia.
Na realidade, a nova forma de fazer a guerra condicionou decisões da própria política externa, isto é, da diplomacia, e da alta política do Estado. A decisão de não reeditar o plano Marshall, em uma versão atualizada para os países egressos do comunismo (ex-URSS e Europa Leste), deu-se em larga medida influenciada pela crença de que era mais fácil destruir a Rússia do que tê-la no mercado. Assim, os Estados Unidos preferiram deixar a cargo de paquistaneses, sauditas e turcos a tarefa de incendiar a periferia islâmica da Rússia a investir na fusão com empresas russas ou sua incorporação, já que essas acabariam por exportar seus produtos para os EEUU, aumentando ainda mais o déficit da balança americana.
Aqui nos deparamos com outro aspecto da retroalimentação. As modificações estruturais ocorridas na década de 70 (a desvinculação dólar-ouro e o aumento do petróleo e dos juros) levaram os Estados Unidos a se converterem em grande captador de capital na forma dinheiro e em um exportador de plantas industriais. Ficava mais fácil e mais barato reduzir os custos de produção operando no exterior e ao mesmo tempo operar como uma praça financeira, compensando o déficit comercial através dos serviços, com a atração de dinheiro de todo o mundo. Isto porque o dólar e seus papéis converteram-se em um investimento mais seguro e lucrativo, em termos comparativos.
Todavia, isto converteu os EEUU de credor em devedor. O aumento do déficit comercial tornou os Estados Unidos dependentes e vulneráveis da importação de capitais, para equilibrar tanto suas contas externas como os próprios gastos públicos. A mera perspectiva de que a Rússia e a Europa Leste pudessem representar um novo desafio para empresas americanas, associada à percepção de que arrasar aqueles países através da subversão, do terrorismo e do separatismo representaria risco “baixo” e do custo “barato”, fechou as portas à idéia de um plano Marshall que teria colocado, definitivamente, aqueles países na órbita americana.
Aqui se conclui uma inversão, que começa nas relações entre tática e estratégia e estende-se à política e à guerra. Como vimos, as inovações táticas desdobraram-se na condução das operações, modificando a percepção de custos de fazer a guerra, chegando à diplomacia e à alta política.