Neste capítulo discutimos o uso teórico feito por Simon do conceito de racionalidade e vimos como sua teoria comportamental se estrutura sobre tal conceito, no sentido de que quase tudo que é invariante ou mais geral do comportamento em sua teoria tem seu fundamento aí. Antes de passar ao próximo capítulo é importante reter algumas coisas.
Primeiro, o comportamento é teorizado por Simon como racional sob a justificativa de que, em geral, ele tem a intenção de racionalidade. E, a despeito dele ressaltar as restrições à racionalidade no comportamento, sua teoria corresponde a um aumento de escopo do conceito de racionalidade no sentido de que uma classe maior de comportamentos pode ser tratada como racional.
Segundo, no centro da teoria comportamental de Simon estão a tomada de decisão e a solução de problemas. Como vimos, o caminho que leva à ação racional é: propósitos ou motivações ® escolha / decisão ® ação. O nexo imediato entre a tomada de decisão e comportamento é pouco discutido e parece ser justificado pela hipótese de que não seria racional decidir fazer algo que não se pode cumprir. De qualquer maneira, “o fio da meada é o estudo do decisor”.
Em terceiro lugar, o argumento das restrições à racionalidade implica na necessidade de uma caracterização mais detalhada e localizada do agente: de suas características psicológicas (cognitivas) e do contexto no qual ele se comporta. Sob a alcunha de características psicológicas encontramos uma série diversificada de coisas. Encontramos, é certo, uma descrição quase física do “equipamento de processamento de informações humano”, construído em analogia direta com o computador. Além disso, há o que pode ser apropriadamente agrupado sob o termo procedimentos de decisão. Aí encontramos os mecanismos simplificadores da decisão: satisfazimento e os processos de busca e o mecanismo de níveis de aspiração a ele associados, modelos simplificados da realidade tentam dar conta da representação subjetiva da situação, e a hierarquia de decisões associada a uma cadeia de meios e fins permite a integração, ainda que imperfeita, de decisões localizadas
em nexos que as transcendem. Além destas grandes classes de procedimentos Simon advoga a criação de um inventário de procedimentos empregados na prática pelos agentes através de pesquisa empírica detalhada.
Finalmente, encontramos também neste capítulo a passagem de Simon do conceito de racionalidade restrita, e de sua construção em negativo, para o conceito de racionalidade procedimental: da preocupação com qual é a decisão tomada, qual o resultado dela, para a preocupação com como ela é tomada, com o processo que a gerou. Como vimos, nas teorias normativas de tomada de decisão – pesquisa operacional, por exemplo – a busca é por bons procedimentos de decisão, e há sempre um tradeoff, implícito ou explícito, entre o custo computacional e a qualidade da solução.
4 Organizações
Se praticamente todo o pensamento de Simon ao longo de sua carreira científica orbitou em torno da idéia de racionalidade, não é menos verdade que os seus esforços mais sistemáticos e importantes em direção à ciência econômica giraram também em torno do conceito de organização. Como apontei acima, Simon recebeu o prêmio Nobel por sua pesquisa sobre o processo de tomada de decisão no interior de organizações econômicas. Isto não se deu por acaso. A idéia de racionalidade restrita – embora tenha brotado apenas após o contato de Simon com os computadores – foi semeada a partir de suas reflexões sobre organizações, e as organizações sempre forneceram o principal ambiente no qual os agentes restritamente racionais se movimentam. Mesmo o conceito de racionalidade procedimental nos leva diretamente à organização, na medida em que conhecer os procedimentos de decisão efetivamente empregados pelos agentes implica em conhecer as organizações, pois é dentro delas que, na prática, a maior parte das decisões econômicas se dá.
Um dos três temas econômicos explorados por Simon após ter recebido o Nobel foi justamente avaliar as implicações de reconstruir a teoria econômica em torno do conceito de organizações ao invés do de mercados (Simon, 1996a: 325). O mote para este tema é dado pela percepção da proeminência do papel das organizações com relação ao dos mercados numa economia nos dias de hoje. O argumento perseguido pelo autor visa, por um lado, pensar porque esta proeminência ocorre na prática: Por que a maior parte das interações entre as pessoas se dá, de fato, no interior de organizações? E, por outro lado, discutir as conseqüências desta observação para a teoria econômica. Implícita neste argumento está a visão de Simon do que vem a ser organização, na qual a tomada de decisão é estrutura analítica privilegiada. Para resgatar esta visão buscarei, em trabalhos mais antigos de Simon sobre teoria das organizações, o papel da organização na tomada de decisões, a influência que ela exerce sobre o comportamento. Uma tentativa de delinear as feições da teoria econômica pensada nestes termos passa necessariamente por este resgate pois, como foi argumentado acima, uma vez admitidas as restrições à racionalidade, o ambiente de escolha assume um papel central no comportamento. Mas as organizações constituem a maior parte, e para a economia talvez a parte mais importante, deste ambiente. Da teoria comportamental de
Simon, portanto, a racionalidade é a estrutura e a organização é o contexto no qual esta estrutura se aplica. E ambas as partes são essenciais:
A theory of administration or of organization cannot exist without a theory of rational choice. ... It can be said with equal truth that a theory of rational choice can hardly exist without a theory of organization. ... The characteristic environment of man is constituted not of nature but of his fellows. (Simon, 1957: 196)