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Mesmo que isso seja verdade, no caso específico de Goswami, há vários elementos estabelecendo conexões com os ensinamentos da teosofia. Em seu livro

mais vendido no Brasil, Física da Alma, ele diz que era resistente à ideia de

reencarnação até 1994, quando passou a discutir física com um amigo teósofo. Nesse mesmo livro, Goswami faz oito menções à teosofia, sendo que em várias

delas busca apontar as semelhanças entre suas ideias e as dos teósofos. Em Janela

Visionária, ele afirma que “no final do século 19, os teósofos, sob a liderança de madame Helena Blavatsky, estavam redescobrindo para o Ocidente antigas verdade do Oriente. A verdade da ontologia perene – que a consciência é o fundamento de todo o ser – era clara para eles” (JV p.. 132). Numa entrevista recente, Goswami diz que Blavatsky, Teilhard de Chardin e Aurobindo foram os poucos indivíduos na história que vislumbraram a possibilidade de que a integração entre ciência e espiritualidade fosse feita. “O que faço é dar uma carne fresca a essa visão que

surgiu no início do século [20]”, diz o indiano textualmente16. É interessante notar

que essas conexões são assinaladas, ainda que indiretamente, pelo próprio       

Hammer. A certa altura de seu livro, ele se refere aos fundamentos filosóficos da teosofia como sendo um exemplo de “idealismo monista”. Esse termo é precisamente o mesmo que Goswami usa para nomear seu próprio sistema.

Se Goswami aproxima-se explicitamente da teosofia em seus escritos, o movimento teosófico retribui movendo-se também em sua direção. Diversos sites e blogs de adeptos do movimento trazem links para entrevistas com o indiano e

comentários de seus livros e palestras17. Goswami é um frequente palestrante da

Krotona School of Theosophy, um centro de divulgação da teosofia, que funciona desde em 1967 em Ojai, na Califórnia. No ano de 2009, ele e sua mulher Uma participaram da programação de primavera da escola. Junto com Uma, coordenou um workshop com duração de três dias. O título era “Consciousness, Yoga

Psychology and Nurturing the Soul”.18 A colaboração com os teósofos não se

restringe ao ambiente sincrético da Califórnia. Em 2004, ele foi o principal palestrante da Semana de estudos organizada anualmente pela Escola Europeia de Teosofia. Segundo o programa, sua palestra na ocasião tratou dos temas que normalmente aborda tais como “o primado da consciência” e “integrando ciência e espiritualidade”. Mas também abriu espaço para temas especificamente relacionados à teosofia, tais como “A convergência entre a teosofia e a física quântica” e “manifestando a visão de Madame Blavatsky”.

Um bom sinal do prestígio que Goswami mantém junto à comunidade teosófica foi sua participação, em 2008, como palestrante do 122º encontro nacional de verão da Sociedade Teosófica da América. Durante os quatro dias do evento, as atividades públicas destinadas aos participantes do encontro, protagonizadas pelo casal, incluíram duas palestras diferentes, dois painéis de debate com outros palestrantes e até uma apresentação de dança indiana. Após o término do evento, os participantes podiam optar ainda por uma atividade extra de dois dias com o tema “healing ourselves and the world/science and magic”, com várias atividades

      

17

Por exemplo: http://theosophist.wordpress.com/2009/07/29/evolution-creation-quantum-spirituality/; http://www.theosophy.net/profiles/blog/list; http://www.theosophy.net/profiles/blog/list;

http://www.squidoo.com/theosophy-books e http://O.blavatsky.net/darwin/further_reading.htm.

protagonizadas pelo casal. Até uma conversa ao redor da fogueira com Amit e Uma

fazia parte do programa 19. Uma, aliás, vem de uma família de teósofos indianos.

É preciso salientar, no entanto, que Goswami é apenas um dentre vários outros cientistas e pensadores ligados à Nova Era, que oferecem palestras e cursos nos eventos e espaços coordenados pelas lojas teosóficas. Apenas a título de exemplo, na mesma semana de estudos organizada pela Sociedade Teosófica, em 2004, em que Goswami ocupou a condição de palestrante principal, o programa registra a participação de mais três palestrantes falando sobre a origem do cosmos, o desenvolvimento do universo e o desenvolvimento de estados expandidos de consciência. Fred Alan Wolf, outro físico conhecido por sua busca em integrar

ciência e espiritualidade,também já proferiu palestras em eventos teosóficos.

O hindu não é, nem se propõe a ser um teósofo de carteirinha, muito menos uma espécie de cientista oficial do movimento. O que ocorre é que a teosofia, desde o começo, manteve um vivo interesse pelo questionamento sobre as relações entre ciência e misticismo, tendo como horizonte a elaboração de uma síntese entre

ambas que permita obter a confirmação científica das crenças religiosas. Os

desdobramentos dessa busca permitiram o surgimento das ideias de Goswami. Antes dele, porém, estes esforços passaram por um momento de crescimento exponencial e consolidação. Esse momento que teve influência direta no início do trabalho de Goswami ocorreu na Califórnia, durante a década de 1970. Vamos observá-lo com mais detalhe na próxima seção.

A título de conclusão desta parte, vale à pena ressaltar que Hammer também aponta a convergência entre a onda de especulação filosófica, que varreu a física nos anos 1920 e 1930, e os desenvolvimentos da teosofia durante a primeira metade do século como ingredientes importantes, presentes no cadinho cultural que deu origem à Nova Era. Ele reconhece que os esforços iniciais a fim de buscar integrar a MQ a diferentes referenciais filosóficos foram empreendidos pela mesma geração de físicos que desenvolveu a teoria (HAMMER, 2001, p. 275). Ao mesmo       

19 http://www.theosophical.org/events/nationalprograms/sng08/SNGProgram2008.pdf Acesso em

tempo, a teosofia efetuava seus próprios esforços de criar uma síntese entre religião e ciência. “Seja por acaso ou por necessidade estrutural, as especulações filosóficas sobre a quântica e as doutrinas teosóficas passaram a se assemelhar, até o ponto em que os interesses metafísicos e a visão positiva do orientalismo esposada por vários físicos na geração de Bohr a Heisenberg tornou-se importante também para um outro grupo de posicionamentos pós-teosóficos: aqueles subsumidos sob o título de Nova Era” (Ibidem, p.275).

Benzer Belgeler