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3.8 Yapraksız Dalların Yeşil Türküsü

3.8.1 Hikâyenin Tahlili

3.8.1.3 Zaman Unsurları

O feito basilar de Eliot sobre o tema da relação entre pensamento, sentimento e poesia é o ensaio sobre os poetas metafísicos, de 1919. Nele encontra-se uma das ideias mais polêmicas de Eliot, que a crítica ressaltou ao longo de décadas de estudo, que é a questão da dissociação da sensibilidade. No texto, a propósito da antologia Metaphysical lyrics & poems of the seventeenth century, organizada por H. J. C. Grierson, Eliot constrói, implicitamente e, pode-se dizer, de modo ―demasiado breve, talvez, para ser convincente‖, como diz o próprio autor sobre sua teoria explícita, uma espécie de história da poesia a partir de Dante, seu modelo literário por toda a vida. Embora o foco recaia sobre os metafísicos ingleses do século XVII, tais poetas são apenas um dos últimos episódios sólidos de uma tradição poética que possuía por característica essencial um equilíbrio entre o pensamento e o sentimento. As origens desta tradição estariam em poetas do trecento, como Dante e Guido Cavalcanti, passando pelos dramaturgos do século dezesseis, como Shakespeare e Webster, e

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Em um ensaio presente em Selected essays, intitulado ―Criticar o crítico‖, datado de 1961, portanto, poucos anos antes de sua morte, Eliot faz um balanço de sua carreira como crítico e mostra-se bastante lúcido em relação à sua contribuição. Refletindo sobre suas expressões que se tornaram célebres — o correlato objetivo e a dissociação da sensibilidade –, o poeta escreve: ―(...) seja qual for o futuro destas expressões, e mesmo se for incapaz de defendê-las agora com alguma plausibilidade forense, penso que foram úteis no seu tempo. Foram aceites, foram rejeitadas, podem em breve passar completamente de moda: mas cumpriram o seu objetivo como estímulos do pensamento crítico de outros. E a crítica literária, como dei a entender no início, é uma atividade instintiva do espírito civilizado. Profetiza, contudo, que se as minhas expressões forem tidas em consideração daqui a um século, sê-lo-ão apenas no seu contexto histórico, por eruditos interessados no pensamento da minha geração‖. É com esse intuito, de compreender o pensamento de sua geração, que revisito aqui o conceito de dissociação da sensibilidade.

alcançando, finalmente, os poetas metafísicos, inseridos entre o renascimento e o barroco, ―quando então a ordem renascentista se esfacela, insulando e debilitando as verdades absolutas e as concepções de mundo privilegiadoras da integração espiritual e plena do indivíduo‖, como anota Ricardo Daunt no seu recente T. S. Eliot e Fernando

Pessoa: diálogos de New Haven (2004, p. 88). Eliot estende ainda esta tradição a

figuras centrais da poesia do século XIX, como Baudelaire, e figuras menores, mas posteriormente revalorizadas, muito graças à influência de Eliot, como Jules Laforgue. Como a observação citada de Daunt sugere, os poetas metafísicos inserem-se em um período de profunda crise cultural e a tese de Eliot sustenta que, nesse momento, operou-se uma dissociação da sensibilidade, ―de que nunca nos recuperamos‖. O poeta prossegue:

Podemos exprimir a diferença por meio da segunda teoria: os poetas do século dezessete, os sucessores dos dramaturgos do século dezesseis, possuíam um mecanismo de sensibilidade que podia devorar qualquer gênero de experiência. (...) A época sentimental começou no início do século dezoito, e continuou. Os poetas revoltaram-se contra o raciocinativo, o descritivo; pensavam e sentiam por impulsos, desequilibrados; refletiam. (ELIOT, 1992, p. 29). O ponto central, portanto, para Eliot, trata da dissociação, no ato criativo, da cooperação entre o pensamento e o sentimento. Os poetas anteriores à dissociação da sensibilidade que enceta a ―época sentimental‖ seriam capazes de lidar com qualquer gênero de experiência, ou seja, lidariam com algo mais próximo daquela ―experiência integral da vida da emoção‖, de que fala Pessoa a respeito da cultura helênica (ANO, p.). ―Para Donne‖, afirma Eliot, ―o pensamento era uma experiência; modificava a sensibilidade‖ (ELIOT, 1992, p. 29). A mentalidade da época sentimental, isto é, a época instaurada pelo Romantismo, reduziria tanto a amplitude do escopo poético, quanto tenderia a uma atrofia da própria faculdade poética, caracterizada, segundo Eliot, no poeta maduro, pela capacidade de amalgamar experiências díspares. Vale citar mais uma vez o ensaio em questão:

A experiência do homem vulgar é caótica, irregular, fragmentária. Apaixona-se ou lê Espinosa e estas duas experiências nada têm a ver uma com a outra, ou com o ruído da máquina de escrever, ou com o cheiro dos cozinhados; no espírito do poeta, estas experiências estão sempre a formar novos todos.(ELIOT, 1992, p.88)

A poesia implica um processo de agregação. Já se observara aqui esse aspecto no nível da relação com a tradição literária, para Eliot e Pessoa, que acreditavam na expressão poética como tessitura dos vários fios soltos da herança

literária. Agora, ressalta-se a funcionalidade da poesia como atividade unificadora da experiência, agregando no poema o que na psicologia do homem está disperso e fragmentado. Essa tarefa, seguindo a teoria de Eliot, é comprometida quando o poeta passa a escrever por impulsos, entregando-se ao fluxo de emoções e negligenciando a construção intelectual. Por essa via, a própria qualidade do sentimento se degradaria, tornando-se mais ―grosseira‖, para utilizar o termo do próprio autor.

No referido texto, Eliot apresenta alguns exemplos de poemas que se movem ao redor de uma ideia, que impulsiona o poema, desenvolvendo-se pela cooperação entre o intelectual e o emotivo, ao mesmo tempo em que unem dados da experiência bastante distanciados em uma concepção sentimental de poesia. A propósito deste último aspecto, Eliot cita o célebre verso de Donne, extraído do poema ―The relique‖: A bracelet of bright hair about the bone43.

Essa espécie de contraste entre a imagem bela do bracelete e a crueza da referência ao esqueleto será constante, por exemplo, na poética de Baudelaire, e indica a linhagem por trás dos versos de abertura de ―The love song of J. Alfred Prufrock‖, que inaugurava a primeira coleção de poemas de Eliot, rompendo drasticamente com a conservadora e palavrosa retórica vitoriana, ao modernizar e ampliar o alcance do vocabulário poético anglo-americano, aproximando-se da poesia moderna francesa, pela lírica irônica de Laforgue:

Let us go then, you and I,

When the evening is spread out against the sky

Like a patient etherized upon a table44 (ELIOT, 2004, p.48).

É preciso notar, no entanto, que, mais do que uma exclusiva redescoberta de Eliot em sua suposta cruzada contra o emocionalismo romântico, os pressupostos dessa linhagem de poetas intelectuais45 são agentes de uma modificação mais geral na sensibilidade poética durante a segunda metade do século XIX e, principalmente, século XX adiante.46

43―Um bracelete de cabelo brilhante em torno do osso‖.

44 ―Sigamos então, tu e eu, / Enquanto o poente no céu se estende / Como um paciente anestesiado sobre a mesa.‖

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Eliot, no ensaio, diferencia os poetas intelectuais, da linhagem metafísica, e os poetas contemplativos, da época sentimental.

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Para o leitor brasileiro desfamiliarizado com os metafísicos ingleses ou os modernos franceses, as características da linhagem de poetas de que Eliot trata podem ser mais confortavelmente assimiladas recorrendo à figura que, no contexto da poesia moderna brasileira, rompe de modo mais drástico com a

De um modo geral, é um período caracterizado justamente pelo afastamento em relação à pessoalidade e à espontaneidade, pelo mover-se para outra esfera que não a dos grandes sentimentos românticos, conectados à centralidade da presença do eu no poema. Adiante, observaremos como essa tendência rumo a uma poética impessoal pressupõe implicações sócio-culturais fundamentais para a compreensão da arte moderna. No momento, frisa-se aqui o fato de que poetas dos mais variados voltaram- se, cada um ao seu próprio modo, para essa abordagem mais indireta e alusiva, aberta ao pensamento e mesmo ao descritivo. É o caso do imagismo, do qual se tratou anteriormente, e de um Stevens ou de um Montale. É característica essencial mesmo em um poeta tão distante de Eliot, o norte-americano William Carlos Williams. Todos estes poetas responderam, a seu modo, a um problema estético que Eliot relacionara à dissociação da sensibilidade, à incapacidade de lidar com sentimentos intelectualmente potencializados, ou com pensamentos emocionalmente cultivados, com o que Pessoa, afinal, compreendia como pensamento imiscuído no sentimento e sentimento imiscuído no pensamento.

Antes de avançarmos na análise do pensamento eliotiano, e desde que se está frisando, nesse caso particular, o caráter de sintoma de um movimento amplo da estética do período, convém refletir sobre alguns aspectos que caracterizam a figuração impessoal da poesia moderna, a fim de localizar e compreender melhor o lugar da criação e da reflexão crítica de Eliot e Pessoa.

Benzer Belgeler