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2.1.1 Şiirlerindeki Temalar

2.1.1.2 Felsefî ve Mistik Şiirler

2.1.1.2.1 Zaman

Ainda que possua uma fachada tão bela quanto a aparência física da mulher a quem o enunciador se dirige, uma casa só pode ser contemplada, de fato, por dentro. É interessante observar que a descrição dessa fachada na segunda estrofe corresponde à arquitetura das casas coloniais brasileiras, como observa Maria Tereza Roland (2008, p.148), em seu valioso estudo que demonstra os estreitos laços entre a arquitetura de Le Corbusier e a poesia de João Cabral. No trabalho são explicitadas, ainda, as semelhanças entre os projetos e as reflexões críticas de cada um deles, e, sobretudo a forte e reconhecida influência do arquiteto sobre o poeta.

Na segunda e terceira estrofe de “A mulher e a casa”, há um novo esclarecimento dos versos anteriores, bastante explícito e enfático, um tipo de “alerta explicativo”, observado nas expressões “Mesmo quando”, “não é nunca” e “melhor:”:

Mesmo quando ela possui tua plácida elegância, esse teu reboco claro, riso franco de varandas,

uma casa não é nunca só para ser contemplada; melhor: somente por dentro é possível contemplá-la. (MELO NETO, 2003, p.241).

A dupla negação é bastante significativa, pois com ela vem uma explicitação fundamental da maneira exata que o poeta percebe a figura. Segundo ele, uma casa, assim como uma mulher, jamais deve ser apenas contemplada, apreendida unicamente pelo sentido visual, portanto de modo essencialmente racional. Mais do que isso, o único modo de contemplá-la é internamente, por dentro.

Ainda que a seleção das palavras para o poema tenha sido extremamente criteriosa no que tange à precisão vocabular, é interessante notar aqui outra interferência do poeta na própria significação dos termos para um alcance ainda maior. Ao retificar o conceito de “contemplar”, o poeta descobre, descortina o termo em questão e revela, de modo surpreendente, uma nova possibilidade de sentido. Esta não é apenas uma significação, mas a significação desejada. Ao dizer que uma casa jamais deve ser “contemplada”, no início da terceira estrofe, a acepção desta palavra está restrita à percepção visual da figura em questão. Já a segunda ocorrência remete a uma percepção mais ampla, por meio de outros sentidos; é como se se abrisse o signo, garantindo mais uma vez o efeito da abertura, a uma expansão semântica. No entanto, esse fenômeno só é plenamente compreendido a partir da segunda leitura do poema, quando é possível ter a total dimensão desta contemplação.

Em seguida, na quarta estrofe, portanto o centro do poema, encontra-se a exposição do conceito estabelecido no final da estrofe anterior. Os dois primeiros versos introduzem a definição dessa contemplação do espaço interno da mulher-casa. Aparentemente, o foco volta a ser a sedução em si; no entanto, o fato de o poema seguir uma linha de raciocínio, sendo linear nesse sentido, a sedução é perpassada pela contemplação. Portanto, há uma relação semântica em que a sedução decorre de se contemplar por dentro e é exatamente no meio do poema que se dá essa convergência de sentido:

Seduz pelo que é dentro, ou será, quando se abra; pelo que pode ser dentro de suas paredes fechadas; (MELO NETO, 2003, p.241).

A ideia de abertura, suscitada no plano da expressão, aparece concentrada nessa estrofe em termos de conteúdo. Também o poeta passa a enumerar os motivos, os meios pelos quais se dá essa sedução: pelo que a mulher-casa é dentro, pelo que é no momento que se abre e pelo que pode ser dentro das paredes. Nas palavras de João Alexandre Barbosa, “Deflagrado o conceito – a prevalência de um espaço interno -, cinco das oito estrofes do texto tratam do modo pelo qual a arquitetura da casa se oferece ao homem que a contempla, habitando-a” (BARBOSA, 1975, p.165). Além de implicar a busca pelo mais alto grau de clareza e coerência que pode oferecer uma linguagem, o efeito de abertura proveniente do som /a/ está associado à abertura para a percepção do que está dentro da mulher-casa:

pelo que dentro fizeram com seus vazios, com o nada; pelos espaços de dentro, não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro: pelos recintos, suas áreas, organizando-se dentro em corredores e salas, (MELO NETO, 2003, p.242).

As estrofes acima dão a direção dessa maneira de “oferecer-se”, a que João Alexandre Barbosa se refere, da arquitetura da casa ao homem, a qual está ligada à origem da atração, sua proveniência e local de surgimento. Nesse sentido, o eu-poético parece perscrutar a sedução feminina profundamente, no intuito de desmitificá-la, uma vez que está justamente ligada ao encanto, ao fascínio, sendo, portanto, desconhecida, ou “encoberta”, de certa forma.

A quinta estrofe é portadora de um dado fundamental do poema, o qual recai principalmente em seus dois últimos versos. A casa, ou seja, a figura feminina seduz pelo que foi feito com os vazios de dentro de si, “pelos espaços de dentro, / não pelo que dentro guarda;”, deste modo, trata-se dos espaços de dentro de si, não o que os preenchem. Esses são os versos mais esclarecedores do poema, pois indicam que não se trata do que a mulher-casa guarda, seus

“móveis-pensamentos” ou “peças-sentimentos”, mas seus espaços internos: seu corpo propriamente. Além disso, a ideia de que “fizeram” algo nos espaços internos da mulher-casa remete à questão da construção, portanto o eu-poético se vale, neste momento, de uma alusão ao objeto artificial, à casa edificada e não à mulher, corpo natural, que se auto-organiza em organismo. Apesar de a imagem poética ser infundida por meio da linguagem da arquitetura, ou referente à casa, até então há uma adequação estratégica que possibilita a leitura transposta para uma linguagem do campo semântico da figura feminina.

Entretanto, a orientação desses dois primeiros versos da quinta estrofe soa incompatível com o campo semântico do feminino, porém mais que compatível, é exato para trazer à baila o contexto semântico da criação poética. Portanto, nesse sentido, o trecho em questão aponta para uma reflexão sobre o fazer poético como o fazer pelo qual a mulher-casa seduz o homem. Afinal essa sedução celebrada no poema não vem do conteúdo, do que tem dentro da figura, mas de como seus espaços vazios internos foram manipulados, construídos. Do mesmo modo, a sedução da poesia e da linguagem em si não vem do que esta contém, de seus temas, do que é dito, e sim do que se faz com o nada, em outras palavras de como se diz.

Seguem, finalmente, as duas últimas estrofes, sétima e oitava, que confirmam o interior do corpo físico da figura como a imagem poética procurada em todo o poema:

os quais sugerindo ao homem estâncias aconchegadas, paredes bem revestidas ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem efeito igual ao que causas: a vontade de corrê-la por dentro, de visitá-la. (MELO NETO, 2003, p.242).

Os espaços mencionados são aludidos de modo totalmente positivo, eufórico por meio dos trechos: “aconchegadas”, “bem revestidas” e “bons de cavas”, explicitando a afetividade inerente ao eu-poético, como se vê na sétima estrofe. No primeiro verso da mesma estrofe, é interessante observar que os “espaços de dentro” sugerem ao homem “estâncias aconchegadas”. Dizer que os espaços estão “sugerindo ao homem” é dizer que estes estão apresentando uma noção ao seu espírito “por menção ou associação de ideias” (HOLANDA, 1999, p.1900). No entanto, como

alguns outros exemplos anteriormente citados, trata-se de mais um termo selecionado e explorado estética e semanticamente pelo poeta, daí a importância de se procurar ver mais de perto certos sinais gráficos que concentram, de algum modo, o referido artifício.

“Sugerir” é ainda “dar sugestão”, de modo que “sugestão” denota “estímulo, instigação. Coisa que se dá a entender, insinuação” (HOLANDA, 1999, p.1900). Novamente um termo que abrange tanto um viés ligado ao racional, como outro ao emocional. Os espaços internos fazem o homem pensar em espaços aconchegados, portanto ao menos tatilmente sentidos, e também o instigam a senti-los, o atraem. O termo “aconchegadas”, selecionado para definir tais estâncias, remete diretamente ao sentido tátil, por sua designação ligada ao conforto e ao bem-estar

físicoafetivo. Portanto, todos os sentidos corporais, especialmente o tato, por meio do qual se

sente texturas e temperaturas, desencadeiam um sentir que é tanto sensorial quanto sentimental. Assim, não é a apenas a proximidade física, exigida pelo sentido tátil, a responsável por chamar os outros sentidos, mas esse seu caráter emotivo suscitado pelo estar próximo, desencadeando uma atração, um desejo de conjunção com o objeto que, à medida que cresce, convoca mais intensamente os demais.

A sensação tátil de “paredes bem revestidas” faz alusão exatamente a essa prlurissensorialidade aqui explicitada, bem como “recessos bons de cavas”. Esta construção, no entanto, vai além à medida que aprofunda ainda mais a relação entre eu-poético e mulher-casa, pois se refere mais explicitamente a cavidades, entranhas, a uma interioridade profunda. Esta também constitui uma sensação que é, a princípio, tátil, como revela a última estrofe, a mais surpreendente de todas, como se tem constatado, inclusive, nas análises dos demais poemas.

Com isso, o efeito de sentido erótico, adensado na penúltima estrofe, porém crescente a cada verso do poema, se concentra intensamente na última quadra, como um líquido denso acumulado no fundo de um recipiente, sobretudo no terceiro verso. Agora os espaços “exercem sobre esse homem” / “a vontade de corrê-la”. “Exercer” é um verbo muito mais ligado à ação, já que significa justamente “por em ação, praticar, levar a efeito; fazer sentir” (HOLANDA, 1999, p.859).

A sugestão plurissensorial desses lugares agradáveis age irresistivelmente sobre o eu- poético, o move, é mais forte que ele, daí a alusão direta ao desejo sexual, à vontade de correr, ou seja, de adentrar e percorrer a mulher-casa. Como se observou em “Estudos para uma bailadora andaluza”, João Cabral costuma empregar vocábulos em Espanhol de modo quase imperceptível

em muitos de seus poemas. Segundo o Dicionário Señas (2006, p.204), “correr” é uma palavra familiar vulgar que designa “experimentar la satisfacción más intensa em la excitación sexual. Gozar.”. Trata-se de recintos que causam efeitos iguais aos que exercem sobre o homem, quer dizer, há uma relação recíproca, pois são feitos específica e exclusivamente para atingi-lo, para atraí-lo, assim como seduzem exatamente por ser sua essência tal qual é.

Nota-se, então, um encaixe magneticamente perfeito entre o que vem dessas áreas e o que elas atraem para si, remetendo, novamente, ao sexo, percepção sensorial de extrema intensidade. Esta é essencialmente tátil, pois, assim como a apreensão da mulher-casa, se origina na tatilidade e se expande para uma experiência completa, de que os sentidos participam. Portanto, em “A mulher e a casa”, há uma identificação entre a percepção feminina e a experiência sexual, de modo que o ponto de convergência entre ambas é a tatilidade e sua qualidade de ativação dos sentidos.

Benzer Belgeler