A análise da globalização deve transcender o quadro exclusivo dos Estados Nacionais, visto que a mesma habita, simultaneamente, em territórios e instituições nacionais. Dessa forma, devemos considerar que a globalização é mais do que a noção comum de interdependência do mundo, formação de instituições globais, isto porque ela possui a necessidade de exprimir-se em um espaço geográfico.
Esse cenário é perceptível ao observamos que a nova lógica industrial, a qual faz uso intensivo das tecnologias de comunicação, caracteriza-se pela dispersão dos processos produtivos em diferentes regiões, ao mesmo tempo em que controla essa descentralização produtiva através das telecomunicações. Essa dispersão ocorre devido às singularidades das forças de trabalho “necessárias para cada estágio de produção, assim como as características sociais e ambientais necessárias a cada segmento produtivo, o que recomenda especificidades geográficas para cada fase do processo produtivo” (CASTELLS, 1999, p. 476).
A diversidade de estágio requer um aumento da separação de funções, frequentemente resultando em uma dispersão geográfica, tendo como consequência um nível de complexidade nas empresas centrais de controle, nessa direção, podemos ver uma corporação com múltiplas firmas envolvendo diferentes regiões e com o centro de controle localizado em Londres (SASSEN, 1991).
Há fases que exigem força de trabalho altamente qualificadas com base científica e tecnológica e outras que necessitam de uma massa de trabalhadores não-qualificados dedicados à montagem de rotina e às operações auxiliares. Ainda, a produção de determinados serviços intrafirmas têm-se tornado difícil devido ao alto nível de especialização e aos custos de mão de obra qualificada, por isso, tais serviços estão sendo vendidos por uma diversidade de firmas, ou seja, terceirizados, sendo que estas firmas, de controle, localizam-se, em especial, em megacidades (BORJA e CASTELLS, 2006) ou cidades globais (SASSEN, 1991). Nesse cenário, as cidades globais fornecem, principalmente, a mão de obra qualificada, além de serem localizações-chaves para finanças e serviços especializados e lugares de produção de inovação.
Assim, as grandes corporações, “ao escolherem o local para a realização de seus investimentos, levam em conta alguns critérios básicos, altamente restritivos”, como “mão-de- obra qualificada, além de incentivos fiscais atraentes” (BARBOSA, 2011, p.79), afetando os Estados nacionais e os governos subnacionais, os quais para obterem tais investimentos necessitam submeter-se às exigências das grandes corporações, detentoras de altas
tecnologias, modificando dessa forma as atividades presentes em seu território, para adaptarem-se às exigências ou resistindo à atuação destas corporações em seu espaço.
Dessa forma, diversas cidades, para enfrentarem a competitividade global e atraírem investimentos, reduzem impostos, o que afeta a arrecadação dos governos subnacionais, também reduzem controles sobre as empresas, aceitam salários mais baixos e menor proteção social, o que interfere sobre as condições de vida da sociedade, além de deprimir e empobrecer as economias urbanas (CASTELLS e BORJA, 2006).
Com a dispersão do processo produtivo observamos que houve transferências de firmas para regiões onde a mão de obra fosse mais barata, ou onde os recursos necessários ao processo produtivo fossem de fácil acesso e baratos, o que acarretou o fechamento de empresas e, consequentemente, o desemprego nas cidades onde tais firmas estavam localizadas. Segundo Sassen (1991), com a expansão geográfica de atividades econômicas, diversas indústrias passaram a localizar-se em países do Terceiro Mundo, mas as empresas de controle do processo produtivo permaneceram nos países do Primeiro Mundo.
Os empregos sofreram profundas modificações, vemos fenômenos de subcontratação, trabalhos parciais e em tempos parciais, empregos por conta própria e informais. Os serviços avançados são os setores de atividades que apresentam crescimento mais rápido, assim como aumento na proporção do PIB na maioria dos países, tornando-se os setores mais dinâmicos nas principais áreas metropolitanas. (CASTELLS e BORJA, 2006).
Em relação às cidades globais, Sassen (1991) esclarece que há uma polarização econômica na organização do trabalho, pois apesar destas serem sede de serviços especializados, estes necessitam de serviços de baixos salários, presentes na multiplicação do número de restaurantes, hotéis e boutiques de luxo ou nas lavanderias de estilo francês.
A autora também aponta, que nestas cidades, houve a degradação do setor manufatureiro, o declínio da sindicalização e dos salários, em benefício dos trabalhos a domicílio, geralmente subpagos. Por outro lado, ela enfatiza a polarização social, de um lado há os escritórios e as residências luxuosos, num contexto de um mercado imobiliário internacional, e no outro lado, nos centros das cidades houve um agravamento e uma concentração da pobreza. Nestas cidades surgem trabalhos industriais pagos em domicílio e trabalhos domésticos não assalariados, sobretudo para os imigrantes (SASSEN, 1991).
Acerca da atuação das multinacionais sobre determinadas localidades, alguns estudiosos categorizam as cidades segundo a amplitude de suas funções na economia mundial, ou, mais especificamente, segundo o uso de seus territórios por tais empresas, deste modo: no topo encontram-se as cidades globais, que concentram as matrizes das maiores empresas e
controlam as finanças internacionais, assim sendo, sua importância concentra-se nas funções corporativas. Posteriormente situam-se as grandes metrópoles internacionais, com centros de atratividades e de convergências mundial e, por fim, as cidades nas quais a função internacional constitui-se tão somente um elemento no contexto de outras atividades mais ligadas ao espaço nacional e regional, apresentando-se como intermediadoras dos grandes polos da economia mundial (ROCHEFORT, 2002)
Dessa forma, nas cidades globais encontram-se a mão de obra especializada, seja em finanças, contabilidade, publicidade, ou outras áreas de suma importância aos centros de decisões das firmas transnacionais, além de possuírem centros de pesquisa, agências de informação, técnicas de comunicação e infraestrutura tecnológica adequada para processar os fluxos de informações. Também apresentam centros de decisões interligados em redes de telecomunicações com os de outras cidades globais. Portanto, tais cidades globais, ou megacidades (CASTELLS, 1999), concentram funções superiores direcionais, produtivas e administrativas, controle da mídia, capacidade de criar e difundir mensagens, além de atrair a área regional onde estão localizadas (SASSEN, 2010).
Por seu turno, nas cidades localizadas na base da categorização encontram-se as atividades industriais de menor remuneração, como as filiais de multinacionais que buscam mão de obra barata para a industrialização de suas mercadorias. As grandes metrópoles demonstram hibridismos entre a primeira e terceira categorias, delineando características de ambas.
Em suma, sob tal cenário, há uma situação paradoxal em que se obriga a pensar globalmente e agir localmente, em razão do fato de que toda ação supõe agentes e uma localização espaço-temporal.