Com o propósito de trazer contribuições que contemplem questões relacionadas à construção do conhecimento, este tópico traz o modelo de criação do conhecimento organizacional de Nonaka e Takeuchi (2003), que embora apresente uma denominação ligeiramente diferente do termo
construção, traz em seu bojo, elementos considerados importantes e que
agregam valor a este estudo e complementam o embasamento teórico requerido.
Os dois autores apresentam a estruturação de seu trabalho em dois componentes principais: as formas de interação com o conhecimento e os níveis de criação do conhecimento. Ambos serão discutidos adiante.
Nonaka e Takeuchi (2003) desenvolveram um modelo teórico de criação do conhecimento tendo como unidade de análise a organização. Os autores consideram que a criação do conhecimento ocorra em três níveis, do indivíduo, do grupo e da organização.
Cabe ressaltar que não é objeto de discussão deste estudo se o que os autores denominam teoria seja, de fato, uma teoria constituída, em construção ou ainda, que não seja uma teoria. Acatou-se a definição dos autores e os esforços foram em direção ao entendimento do funcionamento de seu modelo. Ao direcionarem suas ações, tendo como objetivo elaborar uma teoria para a criação do conhecimento na organização, Nonaka e Takeuchi (2003) realizaram uma revisão histórica sobre os estudos dos principais pesquisadores do conhecimento. Baseados em seus levantamentos, apresentaram argumentações que sinalizam a existência de duas grandes tradições epistemológicas na filosofia ocidental. O racionalismo, a primeira delas, considera que o verdadeiro conhecimento não é produto da experiência sensorial, mas sim, dedução da verdade absoluta por meio de uma argumentação racional calcada em axiomas.
Já o empirismo, a segunda, declara a não existência do conhecimento a priori e que a verdadeira fonte do conhecimento é dada pela experiência sensorial. Logo, não há consenso entre as duas principais abordagens à epistemologia, quando da constituição da verdadeira fonte do conhecimento. Enquanto o
racionalismo considera que o conhecimento possa ser obtido por meio da dedução, lançando mão de constructos mentais, leis ou teorias, o empirismo,
por sua vez, alega que o conhecimento possa ser obtido por indução, a partir de experiências sensoriais específicas (NONAKA; TAKEUCHI, 2003).
Ao analisarem de forma crítica as principais teorias e abordagens de áreas econômicas, administrativas e organizacionais acerca do conhecimento, Nonaka e Takeuchi (2003) se depararam com um paradoxo, uma vez que a maioria delas sequer mencionava o conhecimento em si. De acordo com os autores, novas teorias administrativas surgiram desde a década de 80 apontando a importância do conhecimento, porém poucos são os estudos que contemplam a criação do conhecimento.
Para a formulação do que denominam de teoria de criação do conhecimento, Nonaka e Takeuchi (2003) argumentam que levam em consideração duas dimensões – epistemológica e ontológica – da criação do conhecimento (figura 06). Segundo os autores, é a partir daí que se dá a ocorrência da espiral do
conhecimento, que surge quando a interação entre o conhecimento tácito e explícito (explicados detalhadamente posteriormente) eleva-se dinamicamente
Figura 06: Duas dimensões da criação do conhecimento Fonte: Nonaka e Takeuchi (2003, p. 62).
O mais importante para a criação do conhecimento está relacionado ao aspecto semântico da informação, pois se concentra no significado transmitido. Ao se considerar apenas o aspecto sintático relacionado ao volume transmitido, sem o compromisso com seu significado inerente, afasta-se da questão semântica comprometendo a construção do conhecimento (NONAKA; TAKEUCHI, 2003).
Nonaka e Takeuchi (2003) distinguem o que para eles venha a ser conhecimento e informação. Segundo os autores, o conhecimento, ao contrário da informação, diz respeito a crenças e compromissos, é função de uma atitude, perspectiva ou intenção específica. Está relacionado com a ação, sempre com algum fim. Já a informação é o meio ou o material necessário para extrair e construir o conhecimento.
Dimensão Epistemológica
Indivíduo Grupo Organização Interorganização
Dimensão ontológica Conhecimento explícito Conhecimento tácito Nível do conhecimento Dimensão Epistemológica
Indivíduo Grupo Organização Interorganização
Dimensão ontológica Conhecimento explícito Conhecimento tácito Nível do conhecimento
2.1.7.1 CONHECIMENTO TÁCITO E CONHECIMENTO EXPLÍCITO
Muitas são as publicações acerca da importância do conhecimento, entretanto, pouca atenção foi dada para as formas de criação do conhecimento e a gestão do processo de criação do conhecimento (NONAKA; TAKEUCHI, 2003).
Considerando-se as duas dimensões – epistemológica e ontológica, Nonaka e Takeuchi (2003) elaboraram sua estrutura conceitual básica.
Partindo-se da dimensão ontológica, em termos restritos, o conhecimento é criado por indivíduos ao interagirem em um meio social. Um grupo ou organização não cria, por si só, conhecimento; pode apoiar ou criar condições para que os indivíduos que nestes atuam criem conhecimento (NONAKA; TAKEUCHI, 2003). Considerando-se a dimensão epistemológica, tendo como base inicial a distinção entre conhecimento tácito e explícito dada por Michael Polanyi (1997), Nonaka e Takeuchi (2003) descrevem o conhecimento tácito como sendo pessoal e específico ao contexto, logo, difícil de ser formulado e comunicado. Por outro lado, o conhecimento explícito ou “codificado” é caracterizado como sendo transmissível em linguagem formal e sistemática. Os autores, porém, consideram ambos como não sendo entidades totalmente separadas, mas complementares, uma vez que interagem entre si e efetuam trocas nas atividades criativas das pessoas.
Para Nonaka e Takeuchi (2003) o conhecimento tácito é altamente pessoal e de difícil formalização, consequentemente, é comum a ocorrência de transmissão e compartilhamento com outros de modo mecanizado, por simples repetição. De natureza subjetiva e intuitiva, dificulta o processamento ou “transmissão” do conhecimento adquirido, seja qual for o método sistemático ou lógico.
Por outro lado, de acordo com Nonaka e Takeuchi (2003), o conhecimento
explícito pode facilmente ser expresso por meio de palavras, números, pode
ser comunicado ou compartilhado por meio de dados brutos, modelos matemáticos e princípios universais. Facilmente processado por um
computador, pode ser transmitido eletronicamente ou armazenado em um banco de dados.
O modelo dinâmico criado por Nonaka e Takeuchi (2003) parte do pressuposto crítico de que o conhecimento humano é criado e expandido por meio da interação social entre o conhecimento tácito e o conhecimento explícito, processo denominado pelos autores como “conversão do conhecimento”. Salientam, ainda, que este ocorre entre indivíduos e não apenas dentro de um único indivíduo.
O segredo para a criação do conhecimento segundo Nonaka e Takeuchi (2003) está diretamente ligado à conversão do conhecimento tácito em conhecimento
explícito.
Choo (2003) acredita que a construção do conhecimento é atingida por meio do gerenciamento das relações entre o conhecimento tácito e o explícito, e por meio do desenho de processos sociais que geram novos conhecimentos quando da conversão de conhecimento tácito em conhecimento explícito.
2.1.7.2 AS CONVERSÕES DO CONHECIMENTO SEGUNDO NONAKA E TAKEUCHI