Nas três entrevistas, os docentes ressaltaram que a escola concede autonomia para o professor trabalhar o seu planejamento pedagógico individualizado, respeitando o conteúdo programático para a turma. Assim, cada um pode usar o método que mais lhe agrada, inclusive o uso ou não das TDIC em sala de aula.
Contudo, também é unânime entre os três que não há um incentivo por parte da coordenação, com a realização de cursos, ou um planejamento do uso das tecnologias digitais.
conversa a respeito disso não. É cada um por si. Cada uma traz o seu equipamento ou aluga. Se houvesse nas reuniões pedagógicas mais conversa “professores vamos usar mais as tecnologias” [...]. (P2)
“Ela se mantém neutra. Ela nem incentiva e nem dificulta, vai depender muito da iniciativa do professor. Então se o professor quiser e se dispuser, ir atrás aprender, eles apoiam, mas não há o incentivo. Eles estão abertos a promover assim, se aparecer gente na escola com disposição em desenvolver um trabalho desse tipo, eles ajudam marcam treinamento no sábado letivo se tiver. Mas, eles procurarem para incentivar não. Agora se o professor tiver iniciativa de trazer, eles apoiam.” (P3)
A direção da escola é aberta a sugestões e a implantação de novos projetos, mas por falta de verbas, segundo o coordenador geral, é difícil expandir o uso das TDIC. A falta de estrutura tecnológica também é um empecilho para o uso das TDIC na escola. Não há acesso à Internet nas salas de aula, o número de computadores que funcionam no laboratório de informática não é suficiente e são poucos notebooks disponíveis para os docentes. Além disso, a rapidez com que os equipamentos são danificados, pelo uso constante, não é a mesma que são consertados, conforme relato de P1.
“Sim, têm dificuldades porque, apesar da escola ter equipamentos consideráveis em relação a outras escolas, há dois motivos para termos dificuldades. Um, somos muitos aqui são ao todo 22 duas salas, somando manhã, tarde e noite. Se eu não me engano dá 38 turmas. Então há demanda de professores usam para passar um vídeo, para fazer um slide, mas o principal ponto que eu vou te contar, até porque eu lido com isso no Laboratório de Informática e na Biblioteca, que cuidam desses equipamentos, é o mau uso. Mau uso das pessoas que utilizam e aí danificam rapidamente o material. Um cabo que não presta, o computador que não liga, enfim o mau uso vai danificando de maneira mais rápida que a manutenção dele. Ai é essa fica a dificuldade.” (P1)
Mesmo assim, muitos conseguem aplicar softwares e trazer inovações tecnológicas para a sala de aula. Há uma abertura da direção em relação a isso, mas também há as dificuldades estruturais da escola pública e a própria falta de planejamento e incentivo da Secretaria da Educação. A implantação do SIGE ESCOLA é um passo no caminho dos professores, que não são habituados ou não gostam de tecnologia digital de conheceram um pouco do ambiente virtual.
A tecnologia parecia atrapalhar em alguns momentos no decorrer das aulas. Computadores que demoravam a ligar, vídeos que não abriam e caixas de som com muito ruído foram algumas situações presenciadas. Segundo o sujeito P1 o problema não é a tecnologia, mas quem a usa. Ele também acredita que muitos outros docentes da instituição não utilizam por falta de vontade e quando as ferramentas digitais não funcionam corretamente e, assim, atrapalham ou atrasam o desenvolvimento da aula. A responsabilidade é de quem está usando o recurso.
“[...] ás vezes de quando uso 90% deu certo e 10% não. Eu faço a pergunta assim para mim. “É por que eu conheço ou é por que eu tenho sorte por isso funciona”? “É por que eu mexo vou descobrindo e dá certou ou é porque é sorte”?” Para quem não mexe, dá problemas ai chama o laboratório para resolver e eu sinto que para esse professor, quando não dá é muito ruim porque atrapalha demais. Tipo não dá para fazer, o tempo está passando, leva tempo para montar, leva tempo para desmontar. Você só tem 50 minutos de aula e aí acabou. 50 minutos aí, monta em 10, 15, deu problema ai vai para meia hora já, 20 minutos e ai acabou a aula e ele perdeu uma aula. Ai, nesse sentido acho que a tecnologia atrapalha e que cada vez mais, as próprias empresas estão melhorando. Antigamente, você tinha que ligar o VGA e o VGA tinha um probleminha maior com os computadores. Hoje você liga com um cabo chamado HDMI que é um cabo só de uma entrada mais simples, que não tem muitos pinos. Então quando você conecta já conectou, tipo um USB [...].” (P1)
Sobre os desafios para expandir a tecnologia na escola, o docente P1, também coordenador do Laboratório de Informática fala da necessidade de se universalizar o acesso às ferramentas como a Internet e a despertar a vontade e o interesse de outros professores em utilizar. O primeiro problema deve ser resolvido com a chegada e instalação dos novos roteadores, já o segundo depende da disposição de alguns professores até em conhecer as possibilidades pedagógicas que as ferramentas tecnológicas digitais proporcionam.
Os três sujeitos da pesquisa consideraram que a escola pública brasileira ainda engatinha em relação às TDIC e ao uso no processo de ensino, dentro e fora da sala de aula.
“A realidade do país em relação a outros países que investem na educação e no uso das TDIC é bem diferente. Realmente, hoje aqui no Brasil, eu posso dizer que ainda é um sonho. Para a educação brasileira, a implementação da tecnologia não está
nem perto do que ela poderia ajudar na educação. Então assim, até do mais simples, até de um som. Praticamente, a gente não tem um vídeo disponível, tudo é limitado. E aqui o Adauto bezerra é uma escola boa que não é a realidade das outras escolas públicas. Então a gente tem que ver a realidade das outras escolas.” (P3)
A E.E.M. Governador Adauto Bezerra é considerada pelos docentes entrevistados uma instituição de ensino diferente de outras de Fortaleza. A instituição está localizada em bairro considerado de classe média e classe média alta, não há problemas de tráfico de drogas dentro da unidade escolar, nem disputa de gangues, nem violência dos alunos contra os professores, a gestão escolar é participativa e atuante, por isso os mesmos sabem que em outras escolas e no Brasil há uma grande dificuldade de implantação das tecnologias digitais no ensino, além de outros projetos mais simples.
Para o docente P1, é preciso ainda resolver problemas básicos nas escolas brasileiras para que o futuro seja diferente.
“A gente lida com situações, ás vezes, muito elementares como água e banheiro, como luz na sala de aula, como escola em geral que tem fiação ruim. Então estamos querendo resolver um problema de tecnologia e não tem o básico, como a telha na sala de aula, se não tem o ventilador. Aí a gente lida com um problema gigantesco como tornar o que tem hoje útil, se a gente lida com problemas do passado? Porque aqui é uma escola grande, que tem renome e não atrai mais verbas por isso, que fique bem claro. O que tem é uma concordância da comunidade escolar da manutenção do patrimônio da escola. Aí com força, com jeito você vai lidando com aquilo. Mas, nas outras escolas, infelizmente, você lida com problemas estruturais elementares. E aí como lidar? Como tentar atrair o jovem com tecnologia com problemas anteriores? Como vou mostrar a terra para o aluno que vem de uma realidade que não tem um conforto, que não tem um incentivo, que não tem vontade e nem sabe para que ele vai estudar e nem a família sabe para que ele vai estudar. Ele vem para escola algumas vezes para comer. Como dizer para ele que usar tecnologia é importante? Como mostrar para ele que ele tem de aprender não porque é uma obrigação, é porque é necessidade, porque é bom, quando ele está com fome? Quando ele vem buscar um refúgio na escola. Pode estar o Deus e o mundo rodando naquela tela e ele está com problemas básicos. Eu acho que a gente vai demorar para fazer a tecnologia ser tão acessível a esse ponto e se mostrar atraente, quando eu tenho que vencer esses problemas anteriores. E nós professores com tanto tempo de costume, já em uma vida que não é de luxo, mas também não e de pobreza, a gente esquece esses alunos com esses
problemas. Sabemos que alunos tem problemas assim, mas saber é uma coisa. Eu não estou na casa do aluno.” (P1).
Então, o futuro com a tecnologia digital integrada ao processo de ensino e aprendizagem dos alunos parece distância em relação aos problemas básicos na educação brasileira.