• Sonuç bulunamadı

2.5. İlgili Araştırmalar

2.5.2. Yurtdışında Yapılan Araştırmalar

O primeiro contato com as pessoas entrevistadas se deu no âmbito de um programa de pesquisa/extensão da UFMG, denominado Culthis: Espaço de Atenção Psicossocial ao Preso, Egresso, Amigos e Familiares. Como estratégia de aproximação, a primeira pessoa entrevistada foi escolhida a partir do público atendido por esse programa, a qual havíamos conhecido em período anterior por meio de pesquisa realizada em uma unidade prisional – Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC), na região metropolitana de Belo Horizonte – e que, portanto, já conhecia os trabalhos realizados no Culthis. A ideia era garantir um contexto mais seguro para o atravessamento de um primeiro obstáculo sobre as possíveis desconfianças que esta pesquisa poderia gerar, sobretudo em relação à inexistência de vínculos com qualquer instituição policial ou judiciária.

Já na primeira entrevista, o roteiro – guia de um modelo semiestruturado – foi abandonado. O contexto mais amistoso trouxe ares de uma longa conversa, na qual o roteiro não encontrava lugar, abrindo espaço para que o fio condutor fosse construído no movimento próprio ao diálogo.

Entrevistas deveriam ser compreendidas como diálogos feitos com sujeitos do mundo e, em geral, pesquisadores dizem que concedem vozes aos referidos sujeitos. Não parece insuficiente, pretensioso e conveniente, também, pois dar a voz não é fazer com que digam algo a partir dos interesses e dos propósitos da pesquisa? (...) Não seria mais prudente e ético que, a partir dos próprios sujeitos, emergissem as orientações para a estruturação dos diálogos? Não seria mais libertador – verbo que, aqui, expressa a ação de libertar a interlocução entre o sujeito do conhecimento e o sujeito do mundo – que ambos construíssem, com autonomia, os sentidos e as vozes do diálogo? (Hissa, 2013, pp.131-132)

Essa primeira entrevista durou quatro horas e gerou um rico caderno de campo, com novas questões, novas proposições, novos caminhos, mas principalmente se configurou como um momento de troca que tornaria possível a construção de um novo conhecimento. Ao final da entrevista, esse sujeito nos sugeriu conversar com um amigo dele, que, segundo ele, pelo fato de ter atuado mais tempo no tráfico de drogas e ter tido uma posição hierárquica superior, poderia nos auxiliar melhor na pesquisa.

A indicação se tornou um elo importante quando não era possível contar com uma relação prévia ao contexto da pesquisa. Assim, a segunda entrevista foi realizada pela indicação do primeiro sujeito e aconteceu na presença dele, o que permitiu estabelecer um “vínculo”, ainda que pueril, e ultrapassar a barreira da desconfiança pelo desconhecimento de quem era aquela que iria entrevistá-lo e pela dificuldade de compreender o interesse por seu “mundo”, se não era pela intenção de fazer alguma denúncia.

É evidente que seria uma inverdade dizer que foi possível superar o tom de desconfiança próprio ao caráter desse encontro. A criação de confiança requer uma

interação gradual e cuidadosa e a clareza das disparidades e das relações de poder que separam esses “dois mundos”. De um lado, a pesquisadora, que ocupa o lugar destinado ao saber universitário, que é uma mulher e branca; de outro, as pessoas que atuaram no tráfico varejista e que compõem a classe da chamada ralé brasileira (Souza, 2011), homens, em sua grande maioria, negros. Desconfiados pelos medos inerentes à característica da atividade que realizavam, desconfiados pelas explorações e repressões cruelmente legitimadas ao longo de toda a história.

No entanto, as longas entrevistas, que chegavam a durar seis horas ininterruptas, davam a impressão do desejo pela fala. De uma entrega verdadeiramente mútua em que, só após o término, ambos nos dávamos conta novamente dos lugares sociais que ocupávamos. Ressonâncias de um posicionamento de respeito ao outro e do fato de nos colocarmos em um processo de escuta real. Conforme aponta Deppene (2013), “uma relação entre humanos não começa pelo conhecimento, pelo saber que tematiza o Outro, mas pelo reconhecimento do Outro em sua alteridade”21 (p.16, tradução nossa).

Ao longo do processo, tornou-se perceptível que os relatos eram mais preciosos que as respostas, que os momentos de entrevistas se constituíam para eles como um raro espaço em que era possível dizer o que pensavam, talvez não tão livremente, mas com um anseio de dar lugar às experiências aprisionadas pela lei do silêncio que impera em seus cotidianos. Assim, as perguntas foram paulatinamente diminuindo e abrindo espaço para a fala, na forma de relatos que, aos poucos, estabeleciam pontos de sentido para nós.

No total foram cinco pessoas entrevistadas, em encontros que geralmente aconteceram mais de uma vez. Dessas, quatro estiveram envolvidas com o tráfico de

21 “Une relation inter-humaine ne commence pas par la conaissance, par un savoir que thématise Autrui, mais

drogas varejista e uma com um oficineiro, todas com atuação em locais diferentes. Dos quatro trabalhadores do tráfico de drogas entrevistados, um estava preso em uma unidade prisional, no momento em que realizamos a entrevista.

A fim de garantir a segurança de todos os entrevistados e, como será visto posteriormente, das pessoas com quem tivemos contato durante o período de observação, os nomes de bairros, favelas, cidades e pessoas não foram revelados.

Isso nos interpôs uma primeira problemática. Quando do acordo sobre o sigilo das identidades com os entrevistados, sempre lhes propusemos sugerir nomes fictícios22 que nos permitissem referir a eles na escrita da dissertação e para que eles pudessem facilmente se identificar quando a recebessem. Todavia, todos relutaram diante dessa sugestão e alguns, surpreendentemente, talvez desconsiderando os riscos envolvidos nessa revelação em função do tom que as entrevistas aconteciam, disseram que poderíamos usar os nomes verdadeiros.

Revelar os nomes verdadeiros poderia ser prejudicial não apenas a eles próprios, mas às outras pessoas envolvidas no mesmo contexto. Por outro lado, tal indicativo retrata o desejo de ocupar um lugar de enunciação, de visibilidade e de protagonismo, como um deles revela: Ah, põe aí meu nome mesmo, vou ficar importante, vai ser da hora ter meu nome nesse livro (Trabalhador do tráfico de drogas 2).

Marisa Fefferman (2006), em sua tese de doutorado sobre o cotidiano dos jovens trabalhadores do tráfico, discorre sobre o mesmo dilema:

22 Essa foi uma sugestão que recebemos, no momento da qualificação, do professor Eduardo Viana, que

os jovens, protagonistas do tráfico, que participaram das entrevistas, fazem parte da população incluída de forma marginal na sociedade, e sofrem pressão do discurso legal dominante (dos policiais) e do discurso ilegal (dos traficantes). O lugar de enunciação desta última está situado dentro da criminalidade, ou seja, trata-se de gerente, de vendedor, ou de vigilante “olheiro” etc. No momento em que aparece a possibilidade de os jovens se manifestarem a partir do lugar considerado legal, em uma tese acadêmica, o sigilo deve ser mantido por uma questão de segurança. (p.105)

Posteriormente, considerando as perspectivas teóricas utilizadas e a necessária afirmação de um posicionamento ético-político para o enfrentamento desse dilema, optamos por lançar mão das nomeações dadas às ocupações de cada um deles. Assim, foram utilizados os termos: Trabalhador do tráfico de drogas 1, Trabalhador do tráfico de drogas 2, Trabalhador do tráfico de drogas 3, Trabalhador do tráfico de drogas 4 e Oficineiro.

Ao fazermos tal escolha, estamos cientes de que o uso de números para diferenciá- los reproduz a mesma lógica de invisibilidade adotada pelo discurso dominante, sobretudo se aproxima do formato de cadastro e nomeação destinado às pessoas que entram no sistema prisional. No Brasil, esse cadastro é feito através do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (INFOPEN) e é utilizado pelos trabalhadores do sistema penitenciário como substituto aos nomes dos presos. No entanto, apostamos no uso desses termos como uma tentativa de desvencilhar todo o conteúdo pejorativo e perverso produzido no âmbito da mídia, conforme discutido no primeiro capítulo desta dissertação, e como forma de introduzir a dimensão do trabalho nas concepções acerca das atividades às quais essas pessoas se dedicam.

Outra problemática encontrada referia-se ao uso de gravadores durante as entrevistas. Sabíamos, pela experiência de pesquisas anteriores, que o uso de gravadores em um contexto extremamente marcado pela desconfiança e por uma visão exploratória sempre evidenciada na relação morro/asfalto, poderia ser prejudicial para a criação de um ambiente favorável à fala. Adiciona-se ainda o risco de tais gravações serem interpretadas como uma produção de provas, tendo em vista o registro de práticas ilegais. A confiança, nesse caso, não tinha apenas o status de garantir dados com qualidade, mas interferia diretamente na segurança para a execução da pesquisa. Assim, optamos por não fazer uso de gravadores.

Essa escolha tornou-se mais confortável e possível em função de nossa experiência com a clínica psicanalítica. O trabalho diário em consultório com a escuta de pacientes e a posterior construção de casos clínicos exige uma atenção cuidadosa a toda palavra que é ofertada. Em vista disso, trabalhamos de maneira semelhante às atividades do consultório: nos colocávamos em uma escuta atenta ao outro e, após o encerramento das entrevistas, nos debruçávamos sobre a escrita de um minucioso caderno de campo. Todos os elementos que se fixavam em nossa memória, de maneira exatamente igual ao que nos fora dito, era transcrito para o caderno. No entanto, por vezes, o material era guardado já com algum filtro, nos recordávamos da intenção do que fora dito, mas não da construção da frase tal como formulada pelo entrevistado, alguns pontos foram completamente perdidos. Durante o trabalho clínico, como Freud (1912/1996) nos ensina:

Aqueles elementos do material que já formam um texto coerente ficarão à disposição consciente do médico; o resto, ainda desconexo e em desordem caótica, parece a princípio estar submerso, mas vem rapidamente à lembrança assim que o

paciente traz à baila algo de novo, a que se pode relacionar e pelo qual pode ser continuado. (pp.126-127)

Todavia, o processo de pesquisa ocorre sempre em um tempo muito menor e, apesar das entrevistas terem acontecido em mais de um encontro, não foram suficientes para recuperar com exatidão o que nos fora dito em momento anterior. Assim, todas essas passagens foram repassadas para o caderno de campo não mais como uma fala direta, mas a partir do que pudemos compreender e já atentando a esse processo de tradução, conforme será discutido adiante.

As ressonâncias de uma perspectiva clínica tributária não apenas do trabalho em consultório, mas também dos aportes teóricos utilizados trouxeram algumas implicações. As conversas funcionavam como um momento de reflexão sobre as próprias práticas e como possibilidade de visualização acerca da estrutura em que estavam enredados. Em alguns momentos, eles se emocionavam após o relato de alguma história difícil e em todas as entrevistas realizadas; quando eram questionados acerca de sensações, confidenciavam uma certa crítica a respeito desse universo do tráfico e as dificuldades no exercício de alguma prática.

Cê faz umas perguntas estranhas que faz pensar, sabe qualé? Tipo isso aí, esse trem de sentimento. Pra tá na firma tem que ter sangue frio, e às vezes é foda isso, porque, se vacilar, já era, a casa cai, e eu sou gente. Os caras acha que a gente é igual barata. Tem horas que dá vontade de largar essa merda toda, mas num tem jeito mais, não. (Trabalhador do tráfico de drogas 1)

Benzer Belgeler